     OLOCAUSTO

     GERALD GREEN

     LIVRARIA BERTRAND

     COLECO
     AUTORES UNIVERSAIS

PRLOGO

Kibbutz Agam
Israel
Novembro, 1952

  Perto da nossa pequena casa, no campo de futebol, os meus
filhos, Ari e Hanan, andam ao pontap com uma bola. No vo mal,
especialmente Hanan, que tem cinco anos. Ari  um ano mais novo, mais magro e mais
tmido. D a sensao de no apreciar muito
o exerccio fsico.
  Terei de os trabalhar. Ensinar-lhes os movimentos, o passar
da bola, as fintas, como atirar <<de cabea>>.
  Ao observ-los, recordo-me dos tempos em que o meu irmo
Karl e eu costumvamos brincar no parquezinho em frente da nossa
casa, em Berlim. A nossa casa servia, igualmente, de consultrio
mdico ao meu pai. Algumas vezes, os doentes do meu pai paravam
 sombra das rvores, a ver-nas.
  Ainda lhes consigo ouvir as vozes - talvez a do senhor Lovoy,
que foi seu doente desde quando me consigo lembrar - expressando comentrios a nosso 
respeito: <<Os filhos do Dr. Weiss.
Ests a ver o mido? O Rudi Weiss? Ainda vai ser um profissional. >>
  Karl era trs anos mais velho do que eu. Magro, calmo, sem
Kpinta>> de atleta, cansava-se com facilidade. Tinha sempre qualquer desenho para 
acabar, ou ento queria ler. Presumo que ambos
desapontmos o nosso pai, o Dr. Josef Weiss. No entanto, ele era
um homem. brando e meditativo. E amava-nos demasiado para
alguma vez nos dar a entender tal coisa.



1o  HOLOCAUSTO

  Tudo acabado. Tudo terminado. Karl, os meus pais e toda
a minha famlia morreram no que agora se designa como o holocausto. Um termo curioso 
para um assassnio em massa. Sobrevivi.
E hoje, sentado neste pequeno bungal sobre a Galileia - avisto
as suas guas azul-escuras,  distncia, para l dos campas e dos
pomares -, dou o toque final a esta crnica da famlia Weiss.
Em alguns aspectos, constitui uma crnica do que aconteceu
a milhes de judeus da Europa - aos seis milhes de vtimas,
aos poucos que sobreviveram, aos que resistiram.
  Tamar, a minha mulher, que  uma sabra 1, ajudou-me a preparar este documento. 
Recebeu uma educao muito melhor do
que a minha. Terminei com dificuldade o curso dos liceus em
Berlim, ocupado como andava a jogar futebol, tnis ou a vagabundear pelas ruas na 
companhia dos meus amigos.
  Tamar frequentou a Universidade de Michigan, nos Estados
Unidos. Especializou-se em psicologia infantil e fala fluentemente
cinco idiomas. Eu tenho as minhas dificuldades com o hebraico.
Contudo, j no sou europeu. Israel  o meu ,pas. Lutei pela sua
libertao em 1947 e voltarei a lutar, uma e outra vez, sempre
que mo pedirem. Nas meus tempos de guerrilheiro na Ucrnia
aprendi que  prefervel morrer de arma na mo do que submeter  -se ao inimigo. Foi 
isto o que ensinei a Ari e Hanan e, apesar da
sua idade, entendem. Porque no haviam de entender afinal?
Vrias vezes, durante a semana, a artilharia sria, do outro lado
do Jordo, lana bombas sobre o Kibbutz Agam, ou alguns dos
  nossos vizinhos. A cinquenta metros da nossa casinha h um abrigo
  antiareo fornecido de alimentos e equipado com camas, gua e casa
  de banho. Pelo menos uma vez por ms os bombardeamentos
atingem propores suficientes para nos obrigarem a passar l
a noite.
  Os meus filhos, Tamar e eu ficamos, por vezes, a observar
os nossos soldados, que deslocam a artilharia pelas estradas poeirentas, l em baixo, 
a fim de pagarem aos Srias na mesma moeda.
A minha unidade j foi chamada mais de uma vez para ajudar

' Mulher nascida em Israel e que j no faz parte da Dispora. (N. da T.)

a "neutralizar" a artilharia do inimigo. Este tipo de obrigao no
me d qualquer prazer, mas cumpro de boa vontade. To-pouco me
sinto satisfeito ante a necessidade de ensinar s crianas que  preciso lutar para 
sobreviver. Contudo, aprendi muito neste campo
e no seria um bom pai se lhes ocultasse este meu conhecimento.
J aprenderam a no ceder, a no curvar a cabea.

  As informaes que coligi para esta narrativa sobre a minha
famlia so provenientes de muitas fontes. Visitei a Europa por
duas vezes, durante as frias de Vero. (Estou a trabalhar como
professor de educao fsica no liceu local e,  semelhana de todos
os membros da comunidade de Agam, entrego todo o meu ordenado
ao kibbutz; no entanto, existem por vezes concesses especiais de
fundos e os pais de Tamar ajudaram-me.) Correspondi-me com
muitas pessoas que conheceram os meus pais, o meu irmo Karl
e o meu tio Moses. Conheci dezenas de sobreviventes aqui em
Israel, gente do gueto de Varsvia. Tamar ajudou-me a traduzir

a maior parte do material e tambm a escrever.
  A fonte principal de informaes sobre o meu irmo Karl
foi-me fornecida pela viva, uma mulher crist chamada Inga Helms
Weiss e que vive actualmente em Inglaterra.
  H aproximadamente um ano escreveu-me um homem chamado Kurt Dorf que ouviu falar da 
pesquisa que efectuava sobre
a minha famlia. Era engenheiro civil alemo, ligado ao exrcito
do seu pas, e, durante os julgamentos de Nuremberga, fora uma
testemunha de acusao de destaque. Descobrira o dirio do sobrinho, um oficial das 
SS, chamado Erik Dorf. Kurt Dorf teve a bondade de me enviar uma cpia da enorme e 
pormenorizada narrativa
do sobrinho. Este dirio no apresenta nenhuma ligao nem qualquer tipo de mtodo. 
Frequentemente, Erik Dorf nem sequer datou
os fragmentas, mas, por sorte, nesta descrio desordenada, mencionou o nmero 
suficiente de locais e datas para me permitirem
situar pelo menos o ms em que cada um foi escrito. Existe uma
lacuna entre os anos de 1935 e 1938. Aparentemente, o material
deste perodo perdeu-se ou foi destrudo.

A HISTRIA DE RUDI WEISS


   8 de Agosto de 1935, o meu irmo mais velho, Karl,
  ' casou com urna rapariga catlica chamada Inga Helms.
  Os dois tinham vinte e um anos.
  Recordo-me com nitidez do sol quente de Vero que pairava
sobre Berlim. Nem uma brisa agitava as folhas dos choupos e dos
carvalhos no belo jardim do Restaurante Golden Hart. O restaurante era famoso pelas 
suas refeies fora de portas. Estava
decorado com pesados cachos de uvas pendentes de latadas pintadas
de branco, esttuas, fontes e um macio relvado. Para a nossa festa
de casamento fora arranjada uma rea privada rodeada por sebes
altas e de tons verde-escuros.
  Nessa altura tinha eu dezassete anos. A minha irm Anna
tinha treze e era o beb da famlia. Recordo-me vagamente de que
me arreliou e corri atrs dela, quase a tendo atirado para dentro
de um dos repuxos. Voltmos para junto da enorme mesa coberta
com uma toalha de linho branco, cheia de fruta, champanhe e gelados, alm do bolo de 
casamento, e a minha me ralhou-nos com
brandura.
  - Tenham juzo, filhos! - disse. - O que fizeste  gravata,
Rudi
  - Est muito calor, mam.
  - Peo-te que a ponhas.  uma ocasio especial.
  Claro que obedeci, embora um pouco contrariado. A minha
me tinha um temperamento autoritrio. Conseguia sempre que
obedecssemos. Quando ramos midos, chegou e bater-nos
as vezes. Em compensao, o meu pai, o Dr. Josef Weiss,
era to calmo, afvel, bonacheiro e sempre to preocupado com
os seus doentes que nunca, tanto quanto me recordo, nos repreendeu ou ralhou e muito 
menos nos bateu.

  Estava presente um acordeonista e lembro-me de que tocou
valsas de Strauss e rias do Rosenkavalier e do Fledermaus.
No entanto, ningum danava, e eu sabia porqu.
  ramos judeus, e j um povo com estigma. Milhares de judeus
tinham j abandonado a Alemanha, os negcios e os bens roubados

pelos nazis. Houvera ondas de espancamento pelas ruas, humilhaes, manifestaes. 
Contudo, ficramos. A minha me sempre
insistira que Hitler era <<um poltico a mais>>, um novo-rico que,
em breve, no demoraria a ser posto no devido lugar. Tinha a certeza de que tudo 
melhoraria. H sculos que a sua famlia vivia
naquele pas e sentia-se mais alem do que qualquer desses fanfarres que andavam a 
agitar bandeiras pelas ruas.
  O agitado ambiente que reinava  mesa do casamento devia-se,
  porm, a outras razes que no a da nossa qualidade de judeus.
  As duas famlias, os Helms e os Weiss, no se conheciam uma
   outra. Os Helms eram pessoas de condio bastante vulgar. O pai
de Inga era maquinista, um homem tmido, de traas correntes.
No era m pessoa, suponho. A mulher era modesta, com um tipo
de beleza semelhante  de Inga: rosto comprido, loura e olhos
azuis-claros. Inga tinha um irmo mais novo, que andava pela
minha idade. Chamava-se Hans Helms e conhecia-o dos desafios de
futebol. Era um daqueles atletas que fazem grande alarido quando
esto a ganhar, mas vo abaixo quando perdem. Tnhamos jogado
em equipas opostas algumas vezes e levara a melhor sobre ele.
Quando me referi aos jogos, afirmou no se recordar. Era soldado
no Exrcito alemo e, nesse dia, apresentou-se fardado.
  Inga beijou subitamente o meu irmo na boca - talvez com
  inteno de quebrar o pesado silncio que pairava na mesa. O meu
  irmo deu a sensao de embaraado. Karl era um jovem magro,
  alto, de cabelos escuros e um olhar pensativo. Conhecera Inga no Instituto de Arte 
Publicitria. Ela era secretria do director. Karl
um estudante bolseiro.
  A opinio da minha me era que Karl fazia um casamento com
algum de condio inferior. Naquele quente dia de Agosto,
a humilde famlia trabalhadora sentada  nossa frente confirmava
o seu ponto de vista.
  Contudo, Berta Weiss no levara a melhor sobre a inquebrantvel vontade de Inga. (A 
minha me era uma mulher com bastante
fora, mas o amor que Karl tinha por Inga no se lhe dobrou.)
E estavam verdadeira e profundamente apaixonados. Penso que
Karl via em Inga forte determinao, uma jovem entusiasta e vivaz,
o tipo de mulher de que precisava. Ele era uma pessoa preocupada
e pessimista, muito diferente de Anna e de mim.
  - Beija-me outra vez - disse Inga.
  -Ainda no estou acostumado.. em :pblico-retorquiu Karl.
  Ela prendeu-o e beijou-o, puxando o vu para trs. Estava
encantadora com o vestido de laos e sedas e a pequena coroa de
malmequeres na cabea.
  Anna e eu comemos a aplaudir. Assobiei por entre as dedos,
o que deu a sensao de descontrair a famlia Helms. Esboaram
um sorriso hesitante. Hans Helms piscou-me o olho - de homem
para homem.
  Do nosso lado da mesa estavam os meus pais, Moses, que era
o irmo mais novo do meu pai e viera de Varsvia para assistir
ao casamento, e os pais da minha me, os meus avs senhor
e senhora Max Palitz. O meu av era um homem de respeito - cabelos brancos, costas 
direitas, condecorado pelo Kaiser por herosmo na guerra de 1914-1918. Era gerente de 
uma livraria.
Sempre declarara que os nazis no lhe metiam medo e que a Alemanha tambm era o seu 
pas.
  A minha me era, indubitavelmente, a pessoa mais elegante
das presentes: magra, vestida de azul-claro, luvas brancas e um
enorme chapu branco. Tocou no brao do meu pai.
  - Josef! - disse a minha me. -  tradicional que o pai

faa um brinde.
  h, sim... Claro.
= O meu pai ergueu-se lentamente. Parecia estar muito longe
li, rnmo que preocupado com a perda de peso de um doente, um
caso crnico, uma mulher que morrera de cancro h semanas...
A sua prtica estava agora reduzida aos doentes e pobres, apenas
judeus, os que no haviam tido dinheiro ou provises para partir.
Tratava-os a todos com a mesma considerao que teria mostrado
para com um Rothschild.
  O meu pai ergueu a taa de champanhe. As pessoas levantaram-se.
  - Vou ficar embriagada, Rudi - disse Anna, dando-me uma
cotovelada. - Pela primeira vez.
  - Vais ficar agoniada, antes - respondi.

  - Ento, filhos! - interrompeu a minha me. - O pap
vai fazer um brinde.
  - Claro, claro - concordou o meu pai. - Ao feliz casal.
A minha nova filha, Inga Helms Weiss, e ao meu filho Karl. Deus
lhes conceda longa vida e felicidade.
  Tentei iniciar uma salva de palmas, mas a famlia Helms continuava a parecer muito 
pouco animada. O acordeonista iniciou
  outra msica. Deitou=se mais champanhe nas taas. Inga obrigou
  Karl a beij-la novamente - de lbios entreabertos e os olhos
  cerradas, apaixonadamente.
  O meu pai ergueu a taa aos recm-casados. Apresentou, seguidamente, os pais da 
minha me, os Palitz, dirigiu-se  famlia Helms
  pelo nome e apresentou o meu tio Moses.
  - Basta de apresentaes, Josef e que venha mais champanhe - interrompeu o meu av. 
- Ds a sensao de estares a fazer
  uma conferncia mdica.
  Alguns dos presentes riram.
  Havia um homem corpulento, sentado junto do senhor Helms,
  que no sorriu. Vi que usava na lapela uma Kakenkreuz, o que
  os Ingleses e os Americanos chamam <<cruz sustica>>. Chamava-se
  Heinz Muller e trabalhava na fbrica com o senhor Helms.
  E quando o meu tio Moses, um homem tmido e sem pretenses,
foi apresentado, ouvi esse Muller sussurrar ao ouvido do pai
de Inga:
- Ouviste, Helms? Moses.
Dei a entender que estava a discutir com Anna e mantive
o ouvido bem apurado em relao ao que o indivduo estava
a dizer.
- Algum tentou convencer a sua irm a no se meter nisto?
- perguntou a Hans.
- Claro - respondeu Hans Helms.- Mas sabe bem como
ela  quando decide alguma coisa.
o irmo conhecia a irm. Inga pusera os olhos em Karl e,
agora, tinha-o. Conseguira superar a oposio da sua prpria famlia e da minha 
famlia, bem como a atmosfera dos tempos que
corriam, e casara com Karl, pelo Registo Civil, a fim de no ferir
as susceptibilidades de ningum. Apesar de toda a fora que dela
emanava, consegui detectar ternura e receptividade.   Era, por
exemplo, muito amiga de Anna e de mim, interessando-se pelos
nossos problemas escolares e passatempos. Comeara a ensinar bordados a Anna; 
observara-me a jogar futebol. E tratava os meus
pais com o mximo respeito.(A minha me mantinha-a  distncia
devo acrescentar, e continuou a faz-lo durante uns anos
                                                           ) ,

Chegava, agora a vez do senhor Helms fazer um brinde. Ps-se
de p, um homem atarracado metido num fato sem vincos, e fez
elogios a todos, terminando com um tributo ao seu filho Hans,
ao servio da <<gloriosa Ptria>>.
Este facto intrigou o meu av, senhor Palitz, cujos olhos se
iluminaram. Sorriu para Hans.
- Que regimento, meu filho?
- Infantaria.
- Tambm estive na infantaria. Capito do 2.o Regimento
de Metralhadoras. Cruz de Ferro. Primeira categoria.- Levou
a mo  botoeira. Era como se estivesse a dizer a toda aquela gente:
<Prestem ateno, por favor. Sou judeu e um bom alemo, to
patriota como qualquer dos presentes.>
- Hoje em dia, no o deixariam limpar uma latrina do Exrcito - ouvi Muller sussurrar 
a Hans.
   o av no o ouviu, mas verificouse um momento de tenso.
  rga sugeriu que danssemos ao som de Contos dos Bosgues de
  Viena As pessoas levantaram-se para valsar.





  .
  - Anda, Rudi. Vamos danar - disse Anna, toando-me com
  o cotovelo.
 - No suporto o teu perfume.
  - No uso nenhum. O meu perfume  natural.
  Deitou-me a lngua de fora e virou-se para o tio Moses.
  Tinha-me levantado para estender as pernas e ouvia o meu pai
  a falar com o irmo.
  - Sei o que ests a pensar, Moses - dizia o meu pai num
  tom de desculpa. - No  uma cerimnia religiosa. No se partem copos. No fiques 
com uma ideia errada a nosso respeito.
  Os rapazes foram bar-mitzvah'd. Berta e eu vamos  sinagoga nos
  feriados.
  - No precisas de te desculpar perante mim, Josef.
  Anna mostrava-se insistente.
  - Dance comigo, tio Moses! - Arrastou-o at ao relvado
  por debaixo das rvores estivais. Ainda me recordo de como os
  raios de sol e as sombras desenhavam padres por entre os danarinos.
  - Sentes-te feliz? - perguntou o meu pai a minha me.
  - Se o Karl est, tambm eu estou.
  - No me respondeste.
  - Deite a resposta melhor que me  possvel.
  -  boa gente - continuou o meu pai. - E o Karl ama-a
  tanto... Dar uma boa esposa.  uma mulher com fora.
  - J dei por isso, Josef.
  Dei a entender que estava um pouco tocado, andei  volta
  da mesa e apanhei fragmentos de conversa. Muller voltara a pegar
  na palavra e dirigia-se em voz baixa ao senhor Helms, a Hans
  e a alguns dos parentes.
  -  pena que no tenham conseguido que a Inga esperasse
  alguns meses - dizia Muller. - As cpulas do partido informaram-me de que h novas 
leis na forja. Nada de casamentos misturados. Podia-vos ter poupado muitas dores de 
cabea.
  - Oh, mas eles no so como os outros - disse o senhor
Helms. - Bem sabe. . . um mdico. . . o velho  um heri da

guerra. . .
  Subitamente, Hans Helms foi acometido de um ataque de
tosse. Estava a fumar um charuto e dava a sensao de se ter
engasgado.
  O meu pai, que estava a danar a valsa com a minha me,
deixou-a e foi a correr ter com Hans. Obrigou rapidamente Hans
a engolir uma chvena de ch. O excesso de tosse acabou.
  - Um velho remdio - disse o meu pai. - O ch ope-se
 aco da nicotina. Uma coisa que aprendi quando andava a estudar para mdico.
  O grupo dos Helms fitou o meu pai com curiosidade. Quase
lhes podia ler os pensamentos: <<Judeu. Mdico. Inteligente. Delicado. >>
  - Que tipo de mdico  o senhor, doutor Weiss  - perguntou Muller num tom 
arrogante.
  - Um bom mdico - gritei, sentindo vontade de acrescentar: <<E meta-se na sua 
vida.>>
  - Rudi! - gritou a minha me. - Tem maneiras.
  - Estou na clnica geral - retorquiu o meu pai. - Uma
pequena clnica privada em Groningstrasse.
  Hans deixou-se cair numa cadeira. Tinha os olhos a chorar
e o colarinho aberto. A me fazia-lhe festas na cabea loura:
  - Pobre Hans. Espero que o tratem bem no Exrcito.
  O meu pai tentou fazer um pouco de esprito:
  - Se isso no acontecer, agora tm um mdico na famlia.
E tambm atendo chamadas nocturnas.
  Inga e Karl continuavam a danar, flutuando numa onda de
alegria. O mesmo acontecia com mais alguns pares. O meu av
estava sentado em frente do jovem Helms.
  - Acho que tudo mudou desde as meus tempos - observou o av Palitz.
  - Sim - concordou Hans. - Esteve em combate alguma vez?
  - Combate? Como pensa que ganhei a minha Cruz de Ferro?
Verdun, Chemin-des-Dames, Metz. Passei por tudo isso.
  - Rezemos para que no haja mais guerras - exclamou
a senhora Helms com uma expresso inquieta.
  - Ergo a minha taa a esse desejo, minha senhora - retorquiu o meu avo.
  Muller estava sentado mesmo ao lado de Hans. Enquanto
estudava a cabea coberta de cabelos brancas do meu av, transpareceu-lhe um sorriso 
no rosto.
  - Segundo julgo, o seu genro nasceu em Varsvia - disse
subitamente. - Continua tecnicamente um cidado polaco.
  - E ento?
  - Pergunto a mim mesmo onde se situa e lealdade da sua
famlia tomando em considerao o momento internacional.
  - A poltica  coisa que no me interessa - anunciou o av
Palitz.
  A minha me, que estava a danar mas ouviu o comentrio
  ,
veio at junto da mesa. A msica parou uns momentos. Inga, Karl
e o meu pai tambm se reuniram  volta.
  - No discutimos poltica - declarou a minha me firmemente. - O meu marido 
considera-se to alemo como eu. Foi aqui
que frequentou a Escola Mdica e  aqui que tem praticado
a profisso.
  - No pretendi ofender, minha senhora - retorquiu Muller,
ao mesmo tempo que a boca se lhe abria no mesmo sorriso frio.
Era o tipo de sorriso que iria encontrar em muitos deles, ao longo

dos anos. Se observarem as fotografias do fim do gueto de Varsvia, vero esse mesmo 
sorriso desenhado nos rostos dos conquistadores, dos assassinos de mulheres e de 
crianas. Estudem
as fotografias das mulheres nuas, alinhadas do lado de fora das
cmaras em Auschwitz, e, em seguida, olhem os rostos dos guardas
armados. Sorriem. H sempre um tipo de estranho humor que
os impele a sorrir. Porqu? Ser um sorriso de vergonha? Dissimularo o sentido de 
culpa com o riso? Duvido. Talvez nada mais
  seja do que um diabolismo intrnseco; um destilar de tudo o que
   vil e destrutivo no homem.
  Tamar, a minha mulher, que  psicloga, encolhe os ombros
  quando falo disto.
  - Sorriem porque sorriem - comenta com uma ironia de
sabra. - Acham divertido o espectculo dos que sofrem e morrem.
  O meu pai apoiou de imediato a relutncia da minha me
quanto a discutir poltica com Muller ou qualquer dos membros
da famlia Helms. Observou, com a delicadeza que lhe era peculiar,
que apenas era especializado em coisas como gripe e cura de fracturas; a poltica 
estava fora do seu mbito.
  No entanto, o av Palitz no era homem que suportasse insinuaes. Inclinou-se por 
cima da mesa - a fruta e o gelado, a derreterem-se, sofriam nessa altura o rondar de 
vespas e abelhas e apontou o cachimbo na direco de Muller e de Helrns.
  - Hindenberg era homem para si - observou o av.
  - Sem dvida um patriota, mas antiquado. Fora do seu tempo
- argumentou Muller.
  - Bah! - exclamou o meu av. - Hoje estamos a precisar
de alguns como ele. Alguns generais honestos. O Exrcito deveria
correr com essa maralha do Executivo.
  - Que maralha? - quis saber Muller, de olhos semicerrados.
  - Sabe perfeitamente a quem me refiro. Alguns militares
experientes tratavam-lhes da sade numa tarde.
  Verificou-se, novamente, um silncio embaraoso. Os meus
pais sacudiam a cabea.
  - Hoje no, pap. Por favor - pediu a minha me pegando
no brao do pai.
  Inga veio salvar a situao.
  - No posso acreditar, Karl! - exclamou, no seu tom de voz
cantante. - Os militaristas esto todos na tua famlia.
  Ecoaram risos. O meu pai gracejou com o facto de o av voltar a alistar-se. O casal 
Helms e o filho mantiveram-se silenciosos.
Muller comeou a sussurrar qualquer coisa ao ouvido do senhor
Helms e, em seguida, deteve-se.
  - Porque no cantamos todos? - sugeriu Inga, tentando
animar a festa de casamento. - O que  que gostariam de cantar?
  Fez sinal ao acordeonista para que se nos viesse juntar. Inga no demorou a 
conseguir que todas se pusessem de p e formassem uma roda.
  Inga dispunha deste poder, deste tom de compor situaes,
de influenciar as pessoas - sem crueldade nem qualquer atitude
autoritra, mas com alegria e vivacidade, caractersticas da sua
personalidade. Dava a sensao de apreciar intensamente cada
minuto da vida e tinha o dom de transmitir essa alegria aos outros.
Um dia, levou-me a mim e Anna a passar um dia no jardim zoolgico. No me recordo de 
alguma vez ter gostado tanto das animais,
nem de caminhar at me doerem os ps. Senti-me feliz por estar
na sua companhia e na de Karl. Por estranho que parea, porm,
no era uma rapariga culta - tinha apenas o curso comercial e no se podia dizer que 
era efusiva ou barulhenta. Estava muito
simplesmente viva, amava a vida, e levava os outros a sentirem
do mesmo modo.

  - Sabe a Lorelei? - perguntou a minha me.

  - Lamento, minha senhora. Mas Heine.. . - desculpou-se
o acordeonista com uma inclinao de cabea.
  - Heine est proibido? - interrompeu-o a minha me, num
tom incrdulo.
  - O Departamento de Msica diz que.. .
  - Por favor - replicou a minha me.

  - V l! - incitou Inga, beijando o msico na testa. - Tem
de tocar para a noiva. Adoro essa msica.

  O acordeonista comeou a tocar. Krl ps o brao no ombro
de Inga, Inga fez o mesmo ao meu pai e assim por diante. Contudo, embora a famlia 
Helms participasse na cano, parecia um
  tanto afastada de ns. A velha melodia e as palavras de h tanto
  tempo ecoaram no ar quente de Vero:

No sei porque venho a sentir
Esta tristeza e enorme dor

Uma lenda antiga vem-me a perseguir
Apodera-se-me do interior...
  - Teria preferido ouvir Raisins and Almonds - disse-me
o tio Moses, tocando-me com o cotovelo ao de leve.
  No fazia a mnima ideia ao que se referia. Era um homem
bom e dedicado, mas era diferente. Os judeus polacos, dizia muitas vezes a minha me 
(embora no num tom depreciativo), eram
diferentes.
  - Cantar  mesmo aborrecido - observou Anna. - V s
o que trouxe comigo.
  Tinha uma bola de futebol e atirou-ma contra a cabea. No
demorei a persegui-la e comemos a jogar  bola no relvado que
ficava nas traseiras do restaurante. Arreliei-a, passando a bola por
trs dela, fazendo fintas, e s de vez em quando a deixava levar
a melhor. Houve uma vez que escorregou na relva e caiu.
  - Fizeste de propsito - acusou Anna num tom choroso.
  - No fiz nada!
  - J vais ver como elas te mordem!
  Deu um pontap na bola, que me passou por cima da cabea
e foi aterrar num grupo de indivduos que jantavam numa zona
resguardada do jardim.
  Corri atrs da bola. Em seguida, parei. Um das homens agarrara a bola e conservava-
q na mo:
  -  tua, mido?
  -  - respondi.
  Eram trs. Jovens e bem constitudos. Todos usavam as camisas castanhas, as calas 
largas e castanhas e as botas pretas das
trapas de choque. Cada um trazia uma braadeira com a cruz
sustica - traada a negro num crculo branco com o resto em
vermelho. Observei-lhes os rostos. Rostos vulgares de herlinenses,
de homens que se poderiam ver em qualquer esplanada ao domingo,
a beber cerveja e a fumar. A nica excepo estava nos uniformes.
  Sabia quem eram, o que tinham pensado de ns e o que nos
estavam a fazer. H um ano tivera uma rixa na rua com alguns
deles. Ficara com um olho negro, deitara um por terra e, em
seguida, fugira como se levasse o diabo atrs de mim, saltando
sebes e voando pelos caminhos, na tentativa de lhes escapar.

  - Para que ests a olhar, mido? - perguntou o tipo que
 a bola.
  - Nada.
  Anna estava a alguns metros atrs de mim. Tambm os viu
e comeou a recuar. Desejei dizer-lhe: <<No. No lhes mostres que
tens medo. Eles no sabem que somos judeus.>> Estava plida
e continuou a recuar. Parecia entender, talvez melhor do que eu,
de que estes eram nossos inimigos, que nada do que fizssemos,
dissssemos ou fingssemos nos poderia salvar daquele dio cego
  e irracional. No entanto, os homens deixaram de nos prestar
  ateno.
  Pontapearam a bola na minha direco. Bati-lhe com a cabea,
  descrevendo um arco perfeito, e, quando tocou no solo, passei-a
  a Anna. Tive e sensao de que escapara por pouco, embora no
  soubesse bem de qu.

  Anna e eu parmos  sombra de um loureiro. Olhmos uma
  vez mais para os trs soldados das tropas de choque.
  - A festa de casamento est arruinada - observou.
  - No, no est - contrariei. - Nada tm a ver connosco.
  Ouvamos a nossa famlia e os Helmes a cantarem do lado
  de l da sebe.
  - Esquece isso - disse-lhe. - Fao de guarda-redes e tu
  tentas meter golo.
  - J no me apetece jogar futebol e no quero cantar.
  Afastou-se a correr. Atirei-lhe a bola com pouca fora, atingindo-a nas costas. 
Noutra altura, Anna teria tentado ajustar contas
  comigo. Mas continuou a correr. Voltei a olhar os homens de
  camisas castanhas e interroguei-me se todos deveramos correr.

O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
Setembro, 1935

  Hoje, Marta voltou a queixar-se de que estava cansada. Desde
o nascimento de Laura que nunca mais ficou bem. Insisti para que
fosse ao mdico.
  Tendo acabado de me mudar para este pequeno apartamento
de bairro (onde vivi, h anos, quando era mido) recordei-me de
um tal Dr. Josef Weiss, que morava em Groningstrasse. Tinha sido
mdico dos meus pais e continua a ter o consultrio no mesmo
stio, um prdio de tijolo de quatro andares. Ele e a famlia ainda
ocupam os andares de cima e o consultrio fica no rs-do-cho.
  O Dr. Weiss, um homem delicado, de aspecto bastante cansado, observou Marta 
cuidadosamente e, depois, declarou, to
suavemente quanto possvel, que suspeitava que ela tinha um leve
sintoma de sopro sistlico. Marta e eu devemos ter parecido chocados, mas 
garantiu-nos que no era caso para alarme e que, provavelmente, se relacionava com a 
sua anemia. Passou-lhe uma
receita para fortificar o sangue e recomendou-lhe que no fizesse
esforos.
  Enquanto estava a falar com ela, aproveitei para observar as
paredes de painis escuros do consultrio. Diplomas. Certificados.
Fotografias da mulher e das filhos, incluindo um casal de jovens
noivos. Para mim no tem importncia, mas recordo-me de os meus
pais dizerem que o Dr. Weiss era judeu, mas um indivduo muito

simptico.
  Quando o mdico foi informado de que tnhamos dois filhinhos em casa, sugeriu que 
contratssemos uma mulher-a-dias umas
tantas vezes por semana e Marta - sem qualquer vergonha - respondeu-lhe que no nos 
podamos dar a esse luxo. Ele respondeu que ela no precisava de ser o modelo da dona 
de casa berlinense, que passava o dia a esfregar e a limpar, embora um pouco
de exerccio no fosse desaconselhvel.
  A sada, fez-me parar junto da porta da sala de espera e observou que outrora 
tivera uns doentes de apelido Dorf. Eu seria
 parente deles? Admiti que o meu pai fora, de facto, um dos seus
  doentes quando eu era um mido, h uns doze anos.
  O Dr. Weiss pareceu-me comovido. Lembrava-se bem dos

  meus pais. A senhora Weiss costumava ir comprar po e bolas
   padaria de Klaus Dorf. Ficou felicssimo por tornar a ver-me!
  Porque no lhe dissera logo?
  Marta ergueu o queixo e, com aquele orgulho muito especial
  da Alemanha do Norte que a caracteriza, observou que o seu
 marido, Erik Dorf, advogado, no gastava de pedir favores a quem
  quer que fosse. No empregou um tom rspido nem o fez para por
  o mdico no seu lugar. Estava meramente a pr os pontos nas .
  Fosse como fosse, o Dr. Weiss no ficou de maneira alguma
  ofendido e continuou a conversar. Recordou como me tratara de
  bexigas quando eu tinha seis anos e assistira e minha me durante
  um grave ataque de pneumonia. E onde estvamos agora? Respondi
. que o meu pai morrera, que tinha ficado sem a loja durante a de  presso e que a 
minha me vivia com uns parentes em Munique.
  Vi que ficara comovido e comentou como era triste que tantas
  pessoas tivessem sido afectadas durante esses anos.
  - E aqueles maravilhosos bolos mbertos, s quintas? - disse
  subitamente.
  - Quartas - corrigi, sem conseguir evitar um sorriso. - Era
  eu que me encarregava das entregas.
  Quase se mostrou relutante em nos deixar ir embora, como
  se a recordao da humilde padaria do meu pai e dos meus servios
  como moo de fretes, lhe fosse agradvel. Marta fez questo em
  acentuar at onde eu conseguira chegar: um advogado que pagara
  os prprios estudos na universidade. O Doutor concordou. Atravessmos, em seguida, 
a sala de espera. Reparei que a maior parte
  dos seus doentes parecia uma clientela pobre.
  Mais tarde, sentmo-nos num pequeno parque e fiquei a ler
  os anncios de ofertas de emprego, como de h muito a esta parte.
  Guarda-nocturno. Fiel de armazm. Escriturrio. Nada de interesse
  para um brilhante e jovem advogado, particularmente com dois
filhos e uma mulher e sustentar. Marta tem falado em se empregar,
mas no quero ouvir nem uma palavra sobre o assunto. No temos
avs ou outros parentes que olhem pelas crianas e, para falar francamente, ela no 
tem habilitaes. Os pais, oriundos de Brema e de
  ideias antiquadas, achavam que uma mulher no devia trabalhar.
  Foi educada para casar, ter filhos, cozinhar e ir  igreja.
  Observei que era muito ,possvel que tivesse dificuldades em
  relao ao pagamento das consultas mdicas, e ela respondeu que,
  j que o Dr. Weiss se mostrara to satisfeito par me voltar a ver,
  e at se recordava das bolos da ;padaria do meu pai, decerto no
  se importaria em esperar at me ser possvel arranjar emprego.
  Marta  sempre a mulher optimista e cheia de planos que olha em
  frente e v um futuro melhor.

  Eu no sou assim. Desde que vi o meu pai perder o negcio,
a loja, a sua autoconfiana e, por fim, a vida, sempre tendi a dissimular a minha 
melancolia nata com uma falsa fachada de alegria.
A minha aparncia ajuda: magro, alto, elegante. Marta e eu fazemos
um casal atraente: ela pequena e loura, com um corpo muito bonito
e umas mos maravilhosas.
  Embora se tratasse de uma extravagncia, devido ao montante
das nassas contas, comprei gelados de baunilha para os dois e demos
um passeio pelo parque. De incio suavemente e depois num tom
mais firme, Marta comeou e fazer-me um sermo. Sou demasiado
tmido e apagado. No apregoo s pessoas que, quando me formei,
fiquei entre os primeiros dez da minha aula. Porqu?
  Como  possvel explicar-lhe que, devido  vergonha que sinto
pelo falhano do meu pai, no consigo fazer autopropaganda, lanar-me para a frente?
  Atirou o cone meio comido para uma lata de lixo e fez uma
expresso aborrecida.
  - Nunca aceitas as minhas sugestes - observou. - Por
favor, Erik...
  Sabia o que queria, o que quer. Repeti-lhe uma dzia de
vezes que no quero ser polcia. Um tio dela conhece o general
Reinhard Heydrich, que se diz ser um dos mais poderosos de todos
os novos lderes polticos em ascenso -  frente da Gestapo, das 
  e outros servios de segurana. Marta nunca hesitou em dizer
que acha que, pelo menos, eu deveria falar com este homem poderoso. Milhares de 
jovens universitrios, alemes, dariam dez anos
de vida por uma oportunidade semelhante. Contudo, nem sequer
sou membro do partido. To-pouco Marta. Somas pessoas bastante
afastadas da poltica. Oh! Claro que nos apercebemos diariamente
de que as coisas melhoram: mais empregos, estabilizao da moeda,
dinamizao de fbricas. No entanto, a poltica est fora do meu
mbito.
  Disse-lhe que  passvel que o meu pai tenha sido outrora
socialista. Os nazis, decerto, acabariam por descobrir. E depois?
  Mas desta vez, no parque, mostrou-se excepcionalmente dura.
Declarou que lhe estava a fazer mal ao corao, que devia isso aos
filhos, que provavelmente o erro estava em eu no acompanhar
entusiasticamente o avano da nova Alemanha. Recordei-lhe que,
nos ltimos anos, tenho sido escravo de livros de advocacia, trabalhei em part-time 
numa companhia de seguros, dificilmente conseguindo manter a sade e a sanidade 
mental, e, portanto pouco
tempo me restou para polticos, desfiles ou comcios.
  Acabou por ganhar. Concordei em pedir ao tio que me arranjasse uma entrevista com 
Heydrich. A verdade  que amo e respeito
Marta, e talvez ela seja mais arguta do que eu ao aperceber-se de
que o novo Governo oferece novas oportunidades.
  Abramo-nos e, como dois jovens apaixonados, descemos
a rua ladeada de rvores. Ao passarmos por um quiosque, olhei
de relance para os cartazes - Hitler com armadura de cavaleiro,
avisos para nada se comprar aos judeus, incitamentos a uma maior
produtividade. Talvez ele tenha razo.

  Hoje, 2o de Setembro, fui introduzido no gabinete de Reinhard Heydrich para me 
avistar com ele.
   um homem alto, elegante, de aspecto imponente. A nenhum
homem ficaria melhor o uniforme preto das SS. Detm vrios postas - chefe da Gestapo, 
chefe dos Servios de Segurana. Trabalha
directamente com o Reichsfhrer Himmler, a cabea das SS, um

<<exrcito dentro de outro exrcito, essa leal legio de homens apostados sob 
juramento em manter a doutrina nazi, a pureza da
  raa e a segurana da Alemanha.
  Enquanto Heydrich lia o meu curriculum vitae, aproveitei
  para o analisar. Ouvi dizer que  um atleta de marca ( um belo
espcime humano) e um violinista consagrado. Num suporte prximo, havia um violino. 
Via-se uma cantata de Mozart aberta. Sei
um pouco a seu respeito - antigo oficial da Marinha, organizador
do partido, um terico brilhante, um homem com uma crena profunda na necessidade de 
segurana e ordem e no poder ilimitado
de uma fora policial.
  Tinha modos corteses. Nada observei nele que justificasse os
boatos de rua que ouvi (de indivduos esquerdistas que estudaram
advocacia comigo) de que no partido  conhecido como <<o jovem
e diablico deus da morte>>. Como as pessoas podem errar tanto!
A minha frente, via um homem requintado, inteligente, de trinta
e um anas de idade.
  Ergueu os olhos abruptamente e perguntou-me o que me
levava a pensar que estava apto para trabalhar nos departamentos
especiais das SS sob o seu comando, como os Servios de Segurana
ou a Gestapo.
  Para ser honesto, no sabia qual a resposta a dar e por isso
decidi-me pela sada mais fcil. Contei-lhe a verdade.
  - Preciso de um emprego, senhor - esclareci.
  A resposta divertiu-o. Revelou imediatamente o tipo de indivduo perspicaz que  - 
vendo claramente atravs das pessoas,
consciente das motivaes, presciente, um psiclogo nato. Retorquiu que lhe dera uma 
resposta franca e refrescante. Havia todo
o gnero de embusteiros e farsantes que iam ter com ele  procura
de emprego, e ali estava eu, um brilhante e jovem advogado, sem
fazer quaisquer longos discursos sobre o meu amor pela Ptria
e pelo Fhrer, mas meramente a pedir um emprego.
  Troava de mim? No. Estava a ser sincero. Mesmo assim,
havia algo de trocista nos seus olhos, de um azul metlico, e, quando
se virou na minha direco, senti-me como se estivesse ante uma
pessoa diferente. Os dois lados do rosto - um rosto bonito davam a sensao de 
dspares, incompatveis. Estaria entregue a qualquer tipo de graa pessoal e cnica, 
 minha custa? No tenho
a certeza.
  Heydrich falou no partido, no novo Governo, na abolio
do corrupto e ineficaz Parlamento. Declarou-me que o poder da
polcia, quando utilizado devidamente,  o verdadeiro poder do
Estado. Acho que deveria ter argumentado. Aprendi noes diferentes na advocacia. E 
os tribunais? O processo jurdico? Os direitos humanas? No entanto, ele intimidava-me 
demasiado para que
fosse capaz de lhe dizer tudo isto.
  - Graas aos modernos conhecimentos tcnicas e ao patriotismo do povo alemo - 
declarou -, no existem limites relativamente ao que podemos fazer nem inimigos 
capazes de nas
vencerem.
  Devo ter parecido confuso, pois riu=se e perguntou-me se sabia,
de facto, a diferena entre as SS, a SD, a Gestapo e a RSHA.
Ao confessar-lhe a minha ignorncia, riu-se e deu uma pancada
na mesa:
  - Esplndido, Dorf! Ns prprios algumas vezes temos dificuldade em as separar. No 
interessa. Todas me apresentam relatrios, e evidentemente ao nosso amado 
Reichsfhrer, Herr Himmler.


  Quis saber em seguida a minha opinio sobre os Judeus e respondi-lhe que nunca 
dedicara muita ateno ao assunto. Virou uma
  vez mais o lado duro e irregular do rosto na minha direco.
  Apressei-me a acrescentar que estava de acordo quanto ao facto
  de terem uma influncia desmesurada, em relao ao seu nmero,
  em mbitos como jornalismo, comrcio, bancos e profisses, o que
  provavelmente era mau para a Alemanha e para os prprios Judeus.

  Heydrich fez com a cabea um aceno afirmativo. lanou-se,
  em seguida, numa das suas teses preferidas - uma amplificao
  das prprias palavras do Fhrer em Mein Kampf. Por vezes, via-me
  em dificuldades para o seguir, mas dava a sensao de se resumir
  ao facto de que tal como o bolchevismo, para ter xito na Rssia,
  necessitava de um inimigo de classe tambm o movimento nazi,
  para singrar na Alemanha, precisa de um inimigo racial. Da os

  Judeus. - afei.
  - Mas claro que eles so o inimigo
  Heydrich manobrara-me inteligentemente e com a maior preciso para me fazer chegar 
 posio em que queria ver-me - na
realidade,  atitude que eventualmente espera que todos os alemes, de todas as 
categorias, classes e crenas aceitem. Os Judeus
no so apenas um instrumento para o domnio; so, de facto,
e com toda a evidncia histrica, inimigos.
  Ia ganhando calor na exposio do tema. Citau Mein Kampf,
a implicao dos Judeus em todo o tipo de corrupo humana,
a sua traio para com a Alemanha na guerra mundial, o seu controle dos bancas e do 
capital estrangeiro, bem como o seu domnio
no bolchevismo.
  Sentia a cabea vazia, mas sempre tive a capacidade de parecer interessado, de 
concordar com um aceno de cabea, uma exclamao, um sorriso. Ele deliciava-se com as 
prprias palavras e no
me atrevia a interromper. Numa altura senti-me tentado a perguntar como  que os 
Judeus podiam ser bolchevistas e capitalistas.
No entanto, contive-me prudentemente.
  - Acredite-me, Dorf - disse. - Resolveremos uma infinidade de problemas (polticos, 
econmicos, militares e sobretudo
raciais) se no pouparmos o Povo Eleito.
  Confessei que pisava um terreno desconhecido. No entanto,
lembrei-me das recomendaes de Marta e declarei ter um esprito
aberto.
  O comentrio agradou-lhe. Mesmo quando confessei no ser
membro do partido nem ter usado uniforme desde as meus tempos
de escuteiro, deu a sensao de ficar indiferente ao facto, chegando
mesmo a acrescentar que qualquer idiota podia usar uma farda,
mas que o importante era ver-se rodeado de pessoas inteligentes
e com esprito de organizao. Observou ainda que as SS tinham
a sua dose de vadias, vendidos e excntricos. Estava a tentar erguer
a organizao eficiente.
  - Devo, pois, presumir, senhor, que estou contratado?
  Fez um aceno de cabea afirmativo e senti um arrepio sbito
percorrer-me a espinha, como se tivesse transposto um obstculo,
escalado uma montanha.
  Disse-me ainda que seria empossado e se procederia ao juramento assim que se 
fizessem as investigaes a meu respeito. A voz
adquiriu inflexes metlicas. Durante uns segundos meteu-me
medo. Em seguida, riu-se:
  - Suponho que no se atreveria a vir aqui se a sua vida no

estivesse limpa.
  - Julgo no haver problema, senhor - anu.

  -Bom. Dirija-se ao andar de baixo,  Seco de Pessoal,
e preencha os impressos necessrios.
  Quando me ia embora, disse-me ainda:
  - Mais uma coisa, Dorf. Estou a arriscar-me consigo. Hitler
declarou uma vez que no descansaria enquanto no conseguisse
que para o Alemo fosse uma vergonha ser advogado.
  Viu-me pestanejar e acrescentou:
  - Estou a brincar. Heil Hitler, Dorf.
  - Heil Hitler - repeti, achando muito fcil pronunciar as
palavras.


  Ontem, 26 de Setembro, vesti pela primeira vez o uniforme
preto das SS. Mais tarde, ainda nessa noite, fiz o juramento de
sangue:

  Fao, perante Deus, o juramento sagrado de que obedecerei incondicionalmente a 
Adolfo Hitler, Fhrer da Nao
  e do Povo Alemes, supremo comandante das Foras Arma  das, e estou preparado como 
um bravo soldado a arriscar
  a minha vida em qualquer altura, a bem deste juramento.

  Deram-me a patente de tenente e destacaram-me para uma
pequena guarnio do quartel-general de Heydrich. A verdade  que
sou muito mais do que um funcionrio competente e um apoio
de somenos importncia para Reinhard Tristan Eugene Heydrich.
Gnande parte do meu tempo  gasta a destrinar as relaes entre
a Gestapo, a SD, a RSHA e outras ramificaes das SS. Heydrich
costuma dizer-me, num tom de troa, que prefere manter a mistura,
desde que todas saibam que  ele quem manda.
  Marta ajudou-me a vestir o casaco preto, as calas pretas e as
botas pretas. Enfiei a Luger no coldre de cabedal e senti-me um
idiota. Marta foi buscar os filhas ao quarto, para que admirassem
o pai. Peter tem agora cinco anos e Laura trs. Marta, que sempre
preferiu o Peter, ,pegou-lhe ao colo. Ele olhou ,para o bon preto
e desatou a chorar!
  Senti-me sbita e estranhamente preocupado. Ser que tomara
a deciso certa?  evidente que no se pode dar importncia s
lgrimas de uma criana ao ver o pai vestido de maneira fora
da habitual. Nada de mais natural. No entanto, Marta ficou aborrecida ao ver que ele 
no parava com a choradeira, e foi-se embora.
Peter e a pequena Laura observavam-me, chorosos, espreitando
pela porta.
  Disse a Marta que esperava no ser obrigado a usar sempre
aquela farda. No estamos em guerra. Para qu andar por a de
botas de montar?
  - Mas tens de o fazer. Sers respeitado pelas pessoas - argumentou. - Os 
negociantes locais sabero quem s. Conseguirei
a melhor carne, a melhor fruta e a melhor hortalia. Se tens poder,
serve-te dele.
  No lhe respondi. Nunca me ocorrera que uma das vantagens
de usar um uniforme das SS residisse em escalopes mais altos
e meles mais maduros. No entanto, Marta foi sempre uma mulher
prevista. A leso cardaca nunca lhe afectou a perspiccia ou a inteligncia.
  Tentei uma vez mais estender os braas e fazer com que Peter

me viesse dar as boas-noites. Mas fugiu de mim. Quando me
despedi de Marta e sa para a cerimnia de posse no quartel-general,
veio-me  memria a cena da Ilada em que Heitor coloca o brilhante capacete 
emplumado. A mulher, Andrmeda, ergue o filho
nos braas para que ele o admire e a criana grita de terror.
O aspecto do pai assusta-a.
  A reaco de Peter perturba-me. No me imagino como
o gnero de pai de quem os filhos fogem.

A HISTRIA DE RUDI WEISS

  Nos trs anos que decorreram entre 1935 e 1938 continuou
a lenta asfixia da vida dos judeus da Alemanha. No abandonmos
o pas. A minha me continuava a insistir que <<tudo melhoraria>>;
o meu pai cedeu.
  Anna vira-se forada a sair do liceu e frequentava agora um
colgio particular judeu. Era uma ptima estudante, muito mais
inteligente (apercebia-me) que Karl ou eu. Karl continuava a pintar,
lutando por sobreviver, e vendo fecharem-se-lhe as portas de praticamente todo o tipo 
de trabalho comercial. Ing, sempre dedicada
ao marido, trabalhava como secretria e era a trave mestra do casamento. Eu? Ajudava 
em casa e jogava futebol num grupo semiprofissional. Dificilmente nos conseguamos 
aguentar no balano.

  Estava  tornar-se evidente que da clientela do meu pai apenas
faziam parte os que, como ns, no tinham querido abandonar
o pas.


O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
Novembro, 1938

  Alguns processos de rotina, bem como relatrios de informadores das vizinhanas, 
encheram hoje a minha secretria. Chamou-me a ateno um nome conhecido: Dr. Josef 
Weiss.
  Devo confessar francamente que constituiu uma quebra nas
trabalhos maudos que me tm dado. De vez em quando estou
presente em reunies com Heydrich, mas raramente me requisitam
em alturas de decises importantes. Tento no me queixar, embora
seja eficiente e bem organizado e Heydrich saiba que pode contar
comigo para obedecer s suas ordens. <<Dem isso ao Dorf>>,
costuma dizer, quando quer qualquer memorando simplificado,
de fcil leitura ou com os termos apropriados.
  De facto, no tenho motivo de queixa. A doena de corao
de Marta parece ter estacionado. As crianas esto bem de sade.
Comemos bem.
  Hoje, 6 de Novembro, ao ver o nome do Dr. Weiss recordei-me da melhoria do estado 
de sade de Marta e da visita que
fizemos ao seu consultrio, h trs anos. Li a anotao, um relatrio de um oficial 
de segunda que vivia do outro lado da rua
da clnica de Weiss.

  O Dr. Josef Weiss, um mdico judeu com consultrio
em Groningstrasse, 19, tem tratado pelo menos uma doente
ariana. Trata-se de uma infraco s leis de Nuremberga que

deve ser tida em conta. A mulher em questo  uma tal
Fraulein Gutmann, que tem sido vista a entrar no seu consultrio.

  Um assunto trivial. Em circunstncias normais t-lo-ia depositado nas mos de uma 
entidade local da RSHA, o departamento
que trata dos problemas relativos aos Judeus.
  Reflecti naquele relatrio durante um bocado. Devia meter-me
no assunto? Oh, a verdade  que estou empenhado no nosso programa e aceito as 
opinies de Heydrich sobre e questo das Judeus.
Voltei a ler Mein Kampf. Digeri a obra, aceitando nas suas linhas
gerais a argumentao contra a eterna ameaa que as Judeus constituem para a 
Alemanha, e acho que no devo deixar que a minha
velha lealdade para com um mdico tenha qualquer interferncia.
No tenho, por conseguinte, quaisquer certezas quanto ao que me
levou a fazer o que fiz hoje. <<Talvez deva um favor ao Dr. Weiss,
disse para mim mesmo, enquanto trocava o uniforme pelo fato
cinzento de civil.

  Tive e sensao de que a sala de espera parecia mais sombria.
A pintura dos tectos e das paredes caa aos bocados. Vi-me na
companhia de um velho judeu ortodoxo e de um casal jovem.
Bati na porta de vidro fosco do gabinete. O Dr. Weiss veio abrir.
Tinha vestida a bata branca. Parecia mais velho, tinha o rosto cheio
de rugas e o cabelo bastante. grisalho. Pediu-me que esperasse
uns momentos. Estava a examinar um doente.
  Em seguida, reconheceu-me.

  - Meu Deus! - exclamou. - Senhor Dorf! Entre. - Disse
ao doente que esperasse l fora.
  Voltei a examinar as fotografias penduradas na parede:
a mulher, os filhos, o retrato do casamento. Prestei ateno aos
filhos mais novos. O rapaz ;parecia forte e bem constitudo. Tinha
vestida uma camisola desportiva. ,
  -  Rudi, o meu filho mais novo - esclareceu o medico.

- Jogou na linha mdia do Tempelhof. Um grande atleta. Talvez
  j tenha ouvido falar nele.

  Sarudi a cabea negativamente, tentando dissimular uma certa
  tristeza. O mdico continuava a tagarelar sobre o filho, a prepara  o e 
capacidades atlticas que tinha e que ns, Alemes, respeitamos, quase implorando que 
fosse aceite por algo mais do que .

  Interessou-se pelo estado de sade de Marta, querendo saber
se estava ali por causa dela, e vi-me forado a interromp-lo.
No podia deixar que relaes do passado viessem interferir.
Mostrei-lhe o distintivo e identifiquei-me como tenente das SS,
quartel-general de Berlim.
  Subiu-lhe ao rosto um tom acinzentado, deixou de sorrir
e perguntou-me se fizera algum mal. Senti-me invadido por um
momentneo sentido de culpabilidade. O que levaria algum
  a perseguir este homem? Tanto quanto sei,  a imagem personificada da dignidade. 
(Heydrich responderia que com os Judeus nunca
  se sabe: escondem as seus planos diablicos por detrs de uma
  fachada de boas aces e caridade.)
  Mencionei o relatrio onde o acusavam de tratar uma mulher
  ariana. Confessou ser verdade. Era uma antiga criada, Fraulein

  Gutmann, e tratava-a de graa. Repliquei que esse pormenor no tinha importncia e 
que no poderia continuar. O Dr. Weiss acedeu.
Em seguida, tentando desarmar-me, recordou-me que outrora tratara muitos cristos, 
incluindo e minha famlia.
  Naquele momento apercebi-me do que Heydrich pretendia
dizer com um endurecimento ante certas aces. Respondi que os
tempos tinham mudado e os velhos hbitos desaparecido, tanto para
bem dele como para o nosso. Acentuei que, normalmente, no me
encarregava deste tipo de recados, que no avisava os Judeus
e estava no Executivo.
  - Entendo.  um especialista. No faz visitas a casas - observou com um sorriso 
forado.
  - No volte a tratar essa mulher - insisti, pondo-me em
p. - Exera a sua profisso com clientela judaica.
  Acompanhou-me at  porta vidrada. Antes de a abrir
comentou :
  - Tudo isto est para l do meu entendimento. Fui o mdico
da sua famlia. Preocupei-me com a sade da sua mulher.
  -Porque no abandonou a Alemanha?-interrompi-o.
- No  qualquer z-ningum. V-se embora.
  Entreabriu a porta o suficiente para me dar a observar as
doentes que esperavam na sala.
  - Os judeus adoecem e necessitam de cuidados mdicos - argumentou. - Se todos as 
mdicos partirem, o que acontecer?
S os velhos e as pobres ficaram.
  - Para si a situao no melhorar.
  - O que pode suceder de pior? J no somos cidados.
No temos direitos legais. Os nossos bens esto confiscados.
Encontramo-nos  merc dos rufias. No posso ingressar num
hospital. No consigo obter remdios. Em nome da Humanidade,
que mais nos podem fazer?
  Heydrich tem razo no que se refere a um contacto de perto
com os Judeus. Tm o hbito de apelar, de se queixar e insinuar.
Embora me veja forado a confessar que o Dr. Weiss se comportou
dignamente.
  - No me deve pedir ajuda - observei.
  - Nem sequer na base de uma relao do velho mdico
com o doente? Considerava as seus pais pessoas decentes. Tenho
motivos para pensar que me respeitavam.
  -No tenho nada contra si-argumentei, sacudindo
a cabea. - Siga o meu conselho e parta.


  A sada ouvi algum que tocava piano. Julgo que um dia
o meu pai me disse que a mulher do mdico  uma pianista de valor.
A msica era de Mozart.



A HISTdRIA DE RUDI WEISS


  Novembro de 1938, e ainda continuvamos em Berlim.
Ao recordar esses tempos, -me difcil culpar a minha me.
Ou algum da nossa famlia. Ficmos. Sofre mas. Quem -  excepo de uma minoria - 
estava ciente dos horrores que nos esperavam?
  Recordo-me de discusses infindveis. Ficar. Partir. As coisas
vo melhorar. Temos um amigo aqui. Alguma influncia ali.


  Um dia, estavam a minha me e a minha irm Anna a tocar
um dueto de Mozart, quando o meu .pai subiu as escadas penosamente. Conhecia-lhe os 
passos. No era um homem muito alto,
mas era forte. Deixou que a minha me e Anna acabassem a pea
no Bechstein e, em seguida, aplaudiu. Anna ;fingiu-se zangada.
A pea era uma das que tinha aprendido recentemente; tratava-se,
em princpio, de uma surpresa para o aniversrio do meu pai.

  Eu estava sentado a um canto da sala, a ler a pgina
de desporto. Desde a minha infncia que constitua a nica parte
do jornal que me interessava. Os meus pais, aborrecidos com os
meus fracos resultados escolares, diziam frequentemente que eu s
aprendera a ler para saber quem conseguia os primeiros lugares
no futebol.
  - Foi lindo - elogiou o meu pai, beijando Anna. - Ainda
gastarei mais no meu aniversrio. Um dia viras a ser melhor

pianista que a tua me, Anna - acrescentou, fazendo-lhe uma
festa no cabelo.-Tenho de falar com a tua me, querida.
Importas-te de nos deixar s
  - Aposto que sei do que se trata - observou Anna, com um
trejeito. - Ficamos ou partimos? - cantarolou.
  Obtive permisso para ficar. Talvez achassem que j tinha
idade para ouvir o tipo de dilogo que se seguiria. O meu pai
preparou o cachimbo e sentou-se do outro lado do Bechstein.
  - Recordas-te da famlia Dorf? - perguntou  minha me.
  - O padeiro. Os que te deviam todo aquele dinheiro e se
mudaram sem pagar as contas.
  - O filho acabou de sair.
  - Veio acertar contas?
  - O jovem Dorf  oficial nos Servios de Segurana. Avisou-me que no tratasse 
arianos e acrescentou que o melhor seria
abandonar o pas.
  Dei a entender que estava interessadssimo na pgina desportiva, mas continuei de 
ouvido atento. O meu pai parecia perplexo
e mais preocupado do que alguma vez o vira.
  - H trs anas que nos deveramos ter ido embora - observou. - Logo a seguir ao 
casamento de Karl. Quando tivemos
oportunidade.
  -Ests a querer dizer que ficmos por minha causa
  ,
Josef ? - retorquiu a minha me, puxando o cabelo para trs.
  - No, minha querida. Ambos. . . tommos a deciso.
  - Convenci-te, no foi? Disse-te que o pas era to meu
como deles. Continuo com a mesma opinio. Acabaremos por levar
a melhor sobre esses brbaros.
  O meu pai tentou responsabilizar-se por algumas das culpas
no cartrio. Os judeus que tinham ficado necessitavam de cuidadas
mdicos; tinha uma misso a cumprir. No entanto, a minha me
e eu sabamos que estava a representar, e no com convico suficiente. Fora a 
vontade frrea dela que nos mantivera ali.
  - Talvez estejamos a tempo - disse o meu pai. - A Inga
fala nesse indivduo do Departamento dos Caminhos de Ferro que
talvez possa conseguir qualquer coisa.
  - Sim. Podemos pedir-lhe outra vez - sorriu a minha me.
- Mas da ltima vez queria uma fortuna pelo suborno.
  - Se no for para ns, talvez para os midos: o Krl, o Rudi
e a Anna. Deixa que comecem vida noutro lado. Esse tal Dorf

preocupou-me.
  A minha me levantou-se do banco do piano. Passou a mo
pela superfcie polida do Bechstein. Era seu. Da sua famlia.
  - Sobreviveremos, Josef - declarou. - No fim de contas,
esta  a ptria de Beethoven, Mozart e Schiller.
  - Infelizmente, nenhum deles est agora no activo - suspirou o meu pai.
  Sa da sala sem pronunciar palavra. Tinha a sensao de que
esperramos demasiado.
  Nessa tarde fiquei com certezas.
  Tinha vestido o meu equipamento futebolstico verde e branco
e sara para a campo local, a fim de disputar um jogo contra um
grupo vizinho, Os Vagabundos. Ns escolhramos o nome de
Os Vikings. Eu era um dos jogadores mais jovens do grupo e um
dos melhores. Jogava como avanado-centro ou extremo-esquerdo
e no ano anterior fora responsvel pela boa classificao do grupo.
Havia mais jogadores judeus na associao, mas tinham sado.
Julgo que a minha permisso de continuar se devia a ser to bom
jogador. Alm disso, nunca tive problemas. Apenas me chamaram
<<judeu>> uma vez. No s conseguia rolar a bola pelo campo e passar
a defesa adversria, como era capaz de me servir dos punhos sempre
que necessrio. E os meus companheiros de grupo estavam ao
meu lado. Na maioria das vezes.
  Nesse dia, um indivduo alto e forte da equipa dos Vagabundos, um defesa chamado 
Ulrich, ,passou-me uma rasteira deliberada no momento em que eu passava a bola. 
Fintara-o algumas
vezes, o que no lhe agradara. Quando me levantei, dei-lhe um soco.
Tiveram de nos apartar, mas j o atingira no estmago e magoara-o.
  O irmo da minha cunhada, Hans Helms, jogava pelos Vagabundos no lugar de 
extremo-direito. Tentou convencer Ulrich
a acalmar-se e a continuar o jogo. Contudo, era evidente que haveria
mais problemas.
  Reiniciou-se o jogo. Ulrich e Helms voltaram ao domnio
da bola. Consegui agarr-la e contra-ataquei. Ulrich apanhou-me
por trs. Desta vez, levantei-me a cambalear e tiveram de nos
apartar mais uma vez.
  - Ele passou-me uma rasteira - gritei ao rbitro. - Porque
no assinalou?
  Ulrich estava a sangrar do nariz. Antes de nos separarem,
apanhara-o com a direita.
  - Judeu de merda - rosnou. - Lutas como a tua raa.
  Tentei libertar-me dos que me agarravam. Hans Helms fazia
parte do grupo dos que me puxavam para trs.
  - Talvez seja melhor abandonar  campo, Deixe - declarou
o rbitro.
  Olhei para os meus companheiros, esperando que um deles
- pelo menos um! - se colocasse ao meu lado. No entanto,
mantiveram-se em silncio. O nosso capito deu um pontap na
terra. No me conseguia olhar de frente.
  - Estive em todos os jogas este ano - repliquei. - Porque
hei-de sair?
  - No precisamos de judeus - disse Ulrich. - No jogamos
contra eles.
  - Anda l para fora e repete isso - ameacei. - S ns os
dois, Ulrich. - Uma raiva cega devorava-me as entranhas. Porque
 que o meu grupo no assumia a minha defesa? Porque me
deixavam s?
  O rbitro ps-se na minha frente. Eu lutava para me libertar.
  - Est suspenso por lutar no campo, Weiss. V para casa - disse.

  Tentei uma vez mais recorrer aos meus companheiros, rapazes
com quem jogara durante duas pocas. Respeitavam-me. Sabiam
que eu era um bom jogador, um dos melhores. Um especialista
em desporto escrevera, uma vez, que eu seria um profissional.
Mas nem uma palavra.
  Hans Helms tentou ser generoso, mas s conseguiu piorar
a situao.
  - A Liga queria pr-te fora no ano passado. . . Fizeram uma
excepo.
  - Que vo para o diabo! - explodi, e afastei-me.
  Ouvi o apito, os gritos e o embate dos corpos quando o jogo
prosseguiu sem a minha presena. Sabia que no voltaria a jogar.
  Tinha o olho dreito pisado, um golpe debaixo da orelha
direita, provocados pela luta que acabara de travar.
  - Que aconteceu? - quis saber o meu pai, que se estava
a lavar no consultrio. O ltimo doente acabara de sair. Cheirava
a ter.
  - Um indivduo riue brigou comigo - respondi. - Omiti-lhe a minha expulso da 
equipa e como pusera Ulrich a sangrar
do nariz. Tambm no lhe disse que o irmo da nora jogava na
equipa adversria. Sentia-me invadido por uma raiva cega. O meu
pai e todos os restantes membros da minha famlia no tinham
fora. A minha irritao tambm os atingia por se curvarem,
cederem, por se recusarem a lutar.
  - Sabes perfeitamente que a tua me no gosta que andes
metido em brigas - observou.
  - Sei que no. No entanto, para mim  olho por olho,
dente por dente.
  Sacudiu a cabea em discordncia. O meu pai fora sempre
um homem elegante - alto e de traos correctos. Agora dava
a sensao de ir ficando mais curvado de dia para dia e o rosto
apresentava rugas.
  - Bom. Acho melhor que te vs lavar. A Inga e o Karl
vm jantar connosco.
  - Quase aposto no que se ir falar.
  Pegou-me no brao e senti mais de perto o cheiro a ter.
Sempre que me magoava, era ele que me ligava o tornozelo ou
me fazia pensos. Costumvamos gracejar com o facto de que,
se alguma vez falhasse como mdico, daria um treinador de marca
numa equipa de futebol.
  - Queres que te ponha um pouco de mercrio? - perguntou
  ,
apontando para o golpe.

- No. J no  a primeira vez e c me arranjarei. Obrigado,

pap.

  O jantar dessa noite foi um dos mais tristes de que me
consigo lembrar.
  A mesma conversa, as mesmas discusses. Porque no nas
framos embora em 1933? Ou, pelo menos, a seguir ao casamento
de Karl? Pobre pai! Temia pela minha me. Era uma senhora
nobre e bonita. Hoch-deutsch 1, como lhe costumava chamar.
Uma famlia em que os antepassados tinham sido <<judeus da corte>>,
amigos de prncipes e cardeais. E Josef Weiss, de Varsvia?
O meu pai era dono de uma pequena farmcia, que era actualmente dirigida pelo meu tio 
Moses. Tinham poupado at ao ltimo

tosto e pedido at dinheiro emprestado para mandar o meu pai
frequentar a Escola Mdica. Foram os pais da minha me,
os Palitz, que, apesar das objeces quanto  filha casar com um
judeu polaco, o ajudaram a iniciar carreira.
  Inga e Karl tinham vindo jantar. Falavam daquele indivduo
dos Caminhos de Ferro que nos poderia ajudar a sair do pas.
  Karl, que no abandonara o seu temperamento melanclico
- andava mais magro e mais calado -, sacudiu a cabea negativamente.
  - Mas no h stio para onde ir = comentou.
  - Frana, talvez - sugeriu o meu pai. - Sua.
  - Esto a expulsar os Judeus - argumentou Karl.
  - Todos nos repelem - repliquei.
  - No outro dia um indivduo que trabalha no Consulado
dos Estadas Unidos informou-me de que os Americanos nem sequer
preenchem vagas com judeus alemes. Tm hiptese de admitir mais
  ,
mas no o fazem - sorriu Karl amargamente.
  Foi a vez de Anna falar e, como sempre, de uma forma
corajosa e revoltada.
  - E quem se importa com isso? Temo-nos uns aos outros,
no  verdade, mam? E nada mais interessa.

' Hoch-deutsch: Alem requintada. (N. da T.)

  - Claro - concordou a minha me com um aceno de cabea
afirmativo.
  - Esse grupo que estava a enviar crianas ,para Inglaterra - interferiu o meu 
pai.-Talvez se pedssemos...-Hesitou
e acabou por se remeter ao silncio.
  - Desfez-se - informou Karl. - Inga e eu investigmos
a possibilidade.
  - Podamo-nos esconder na floresta - disse Anna.
  A minha me ordenou que Anna e eu nos levantssemos
da mesa. Obedecemos e comemos a retirar as ,pratos. Ningum
comera muito.
  - J no tenho a certeza de nada - continuou o meu pai.
- A Polnia, talvez. Burocraticamente, ainda sou um cidado
polaco.
  - Nem pensar nisso - interferiu a minha me. - As coisas
no esto muito melhores por l.
  - A mam leva sempre a sua avante - comentei para Anna,
quando estvamos na cozinha.
  - Talvez porque quase sempre tem razo.
  Quando voltmos  sala, a minha me tinha assumido
o comando da situao. Estava convencida de que Hitler deixaria
de nos pressionar. Tinha a ustria e a Checoslovquia. Que mais
necessitava? Era um poltico como qualquer outro e servira-se
dos Judeus para unir o pas. Agora, podia esquecer-nos.
  Karl sacudia a cabea em sinal de discordncia, mas no
discutiu com ela. O meu pai tentou encarar os factos com coragem.
Tanto quanto me lembro, nunca na vida teve qualquer inteno
de ofender a minha me. A bondade que demonstrava para com
os doentes, os mais pobres e miserveis, reflectia-se sempre na
forma como tratava a famlia. No me recordo de alguma vez ter
batido nos filhos. E Deus sabe que pelo menos eu bem o mereci
algumas vezes.
  A minha me pediu-me que ligasse o rdio.
  Um noticirio referia-se a qualquer violncia que se verificara

em Paris. Von Rath, um diplomata alemo, tinha sido morto a tiro
or um judeu. Ficmos paralisados nas lugares, enquanto a voz
se expressava num tom montono. Os tiros haviam sido disparados
por um jovem de dezassete anas chamado Grynszpan. Era filho
de judeus polacas recentemente expulsos da Alemanha.
  <<Este acto inconcebvel e sangrento da conspirao judia
internacional ser vingado>, dizia o locutor. <<Os Judeus pagaro
por este ataque cobarde a um patriota alemo, um acto que ilustra
a conjura assassina da comunidade judaica internacional contra
a Alemanha, na realidade contra o mundo civilizado.>
  - Aumenta o som, Rudi - pediu o meu pai.
  Rodei o boto do volume. Ningum falava.
  << J se esto a verificar actos espontneos de represlia por
parte do povo alemo contra os conspiradores judeus.>>
  - Desliga - ordenou a minha me.
  - Por amor de Deus, mam. Deixe de fechar os olhos e os
ouvidos  verdade - retorquiu Karl com um esgar. - Inga pegou-lhe na mo.
  - J te disse que desligasses.
  O locutor continuava e falar: <<Herr von Rath encontra-se em
estado grave. Quer sobreviva ou no, declara o Governo, os Judeus
pagaro por este acto inadmissvel.>>
  - Um viva para ti, Greenspan, ou Grinspan, ou quem quer
que sejas - gritei. - Devias ter morto esse filho da me.
  - Rudi! - exclamou a minha me. - J te disse que desligasses o rdio.
  - Obedece  tua me! - ordenou o meu pai.
  No momento em que desliguei o rdio, ouviu-se o rudo de
vidras partidas. Vinha do andar de baixa, da sala de espera do
meu pai, que dava para Groningstrasse. Desci as escadas a correr.
Anna seguia-me mesmo atrs.
  A sala era uma confuso de vidros partidos. No meio da alcatifa via-se um tijolo. 
Corri para a janela e gritei para l do buraco:
<<Seus cobardes! Cambada de cobardes! Mostrem quem so!
  No entanto, tinham desaparecido.
  Atrs de mim estava toda a minha famlia - de rostos plidos,
assustados e silenciosos.

O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
Novembro, 1938

  Von Rath morreu na noite passada. Chamaram-me do quartel-general de Heydrich a meio 
da noite. Vesti imediatamente
o uniforme e chamei um txi.
  Enquanto espervamos, as crianas acordaram e entraram na
cozinha, onde Marta me preparava uma chvena de caf. Esfregavam os olhos e pareciam 
assustadas. Na rua ouviam-se gritos
e o barulho de vidros quebrados.
  Tentei explicar a Peter, que tem s oito anos, que algumas
pessoas ms tinham morto um bom alemo, em Frana.
  - Porque  que o mataram, pap? - quis saber Peter.
  - Oh!. .. eram maus. Doidos.
  Marta agarrou Peter, encostando-lhe a cabea loura ao seio:
  - Eram judeus, Peter. Pessoas ms que nos querem fazer mal.
  - Mas sero castigados - acrescentei.
  - Todos os judeus so maus, pap? - perguntou Laura.
  - A maior parte deles.

  - O pap vai castigar as pessoas ms - declarou Peter.
- E por isso que tem uma arma.
  Laura comeou a chorar. A mida tem apenas seis anos:
  - Tenho medo, mam. No quero que o pap se v embora.
  Marta, uma mulher capaz de dominar qualquer crise, acalmou
as crianas e meteu-as na cama. Depois, ajudou-me a pr o casaco,
as botas e o cinto.
  - O que se vai passar? - perguntou.
  - J comeou. Represlias. No podemos deixar que qualquer
judeu louco meta na cabea matar um diplomata alemo.
  - No esperam decerto que tu...
  - Eu, Marta? O tenente Dorf  o dactilgrafo de Heydrich.
Alm disso, tudo me parece obra de Goebbels. Tem inveja da Polcia de Segurana.
  Chegavam-nos os rudos da rua-marchas, uma banda,
homens entoando o Horst esseL. Ouvi,  distncia, o som de
vidros partidas. Marta ps a cabea de lado e escutou:
  - O que signific tudo isto para a tua carreira?
  Respondi-lhe que no tinha inteno de atirar tijolos contra
as montras das lojas dos judeus s para singrar na carreira:
  - No sou um desordeiro nem um valdevinos.
  - O que s ento? - perguntou-me.
  - Um funcionrio - respondi.
  Aproximava-se uma discusso e no me sentia com coragem
para a enfrentar antes de sair para o trabalho. No entanto, Marta
insistiu. Incitou-me a que falasse, desse sugestes, propagasse as
ideias de Heydrich. J que no era um desordeiro de rua, tinha um
crebro a funcionar. E fora por esse mesmo crebro que Heydrich
me contratara. Tinha  minha frente a possibilidade de mostrar
o que valia. Expressava-se firmemente.
  Tinha razo. Suspeitava de que se geravam movimentos importantes contra os Judeus e 
que que me veria envolvido. Sabia que
os programas vulgares eram demasiado triviais. Boicotes. Expulses.
Desapropriaes. Assinei documentos, ditei ordens, mas nunca me
tinha visto to prximo da aco. O maior passo que dera residia
na minha breve visita ao Dr. Weiss. Nada disto me agrada. Embora
compreenda a preocupao de Heydrich relativamente ao problema
dos Judeus, sinto-me confuso e sem certezas. No h dvida que
se devem tomar medidas. Mas de que tipo? Por quem? Eram estes
os confusos pensamentos que me fervilhavam na cabea quando,
antes de o Sol nascer, sa para o trabalho.

  Heydrich passou o dia inteiro a convocar e a mandar embora
oficiais novatos, encolerizado pela maneira como os comandos de
Goebbels se tinham antecipado nas represlias. Os seus grupos
das SA haviam espancado judeus, quebrado montras das suas lojas
e queimado sinagogas. Tudo sem informarem Himmler ou Heydrich.

  Almoo frequentemente no meu escritrio e so raras as vezes
em que estou presente nos requintados repastos servidos na sala
de jantar privada de Heydrich. Hoje ele estava mal-disposto e,
ao ver-me a comer sozinho, tomando o meu caf, deu a sensao
de se interessar por mim. Era como se os subordinados imediatos
o tivessem desapontado e andasse  procura de algum com quem
pudesse trocar impresses.
  - Venha ter comigo quando acabar de almoar, Dorf - ordenou o chefe.
  Raramente sou convidado a ir ao seu gabinete sozinho.
Pressenti estar  beira da oportunidade que Marta me aconselhara

a aproveitar. Bebi o caf e entrei no gabinete de Heydrich. Comeou
imediatamente a criticar Goebbels. Nada mais tinha do que desprezo
pelo homem a quem chamava <<esse maldito coxo>>.
  Comentei que, depois da violncia de Von Rath, se tornavam
necessrias algumas represlias. Pareceu surpreendido ao ver-me
expressar uma opinio.
  - Claro. Mas devamos ser ns a faz-lo - replicou Heydrich. - E a faz-lo como 
fora policial. Os estrangeiros, inclusive
os judeus estrangeiros, no tinham nada que ser molestados.
Nem to-pouco seriam de queimar os bens das no judeus.
Deveramos manter refns judeus ricos como reparaes de danas.
Mant-los sob custdia protectiva, ou qualquer coisa do gnero.
  Considero-o, de facto, um homem de inteligncia brilhante.
Goebbels, com toda a sua retrica bombstica e exibicionista,
no passa de um argumentista falhado. Heydrich  um crebro
genuno.
  - E se deixssemos que os nossos homens tomassem conta
da situao? - sugeri.
  - Com uniformes das SS?
  - No, senhor. Como civis. Sem distintivos. Nada de marchas
nem de cnticos. Castigar os Judeus, prender os que se encontram
sob suspeita, mas deixando bem claro que se trata da clera
justificada do povo alemo, a erguer-se espontaneamente contra
a conjura bolchevista-judaica. - As palavras atropelavam-se-me
na boca.
  - No  m ideia, Darf. Continue.
  Expliquei que deveramos contactar pela rdio as foras de
polcia locais e ordenar-lhes que se mantivessem fora de aco.
Poderiam manter-se discretamente numa posio de espectadores.
Ter ordens para no tocarem nos manifestantes, os nossos homens
das SS.
  - A est um tipo de raciocnio jurdico que aprecio, Dorf - apoiou Heydrich, 
sorrindo-me. - D seguimento  ordem. Resolveremos o problema, vencendo Goebbels com 
as suas prparias
armas.
  - Obrigado, senhor.
  - Fatos de civil e sobretudo. Gosto da ideia. Os cidados
enraivecidos. E porque no? Temas o pas inteiro a dar-nos fora.
Os Alemes apercebem-se da fora policial. Gostam da autoridade
que lhes impomos.
  Quando o nosso encontro terminou, disse-me que os documentos da minha promoo de 
tenente a capito teriam despacho
imediato.

  Este dia est-me gravado na memria -1o de Novembro
de 1938. Assinala o momento em que sa finalmente da minha
concha, tal como Marta sempre desejou. Heydrich tem-se mantido
simplesmente nessa expectativa e, agora, num momento de crise,
serviu-se da minha inteligncia.
  Como que celebrando a minha nova importncia e a forma
como na qualidade de marido e mulher incentivmos a minha
carreira, Marta e eu fizemos amor apaixonadamente esta noite.
Marta sempre se mostrou um pouco hesitante e insegura na sua
maneira de amar. Mais uma vez a influncia da educao da Alemanha do Norte: um pai 
duro, uma me tmida. (Confessou-me esta
noite que s aos dezasseis anos se apercebeu realmente do processo
sexual e de onde vinham os bebs.)
  No entanto, a minha ousadia, a maneira como, servindo-me

do crebro, consolidara a minha posio frente a um dos homens
mais temidos e poderosos de toda a Alemanha, granjeou-nos uma
espcie de excitao sexual; nada escondemos, ultrapassmos todas as fronteiras, 
explormos reciprocamente as corpos numa relao
cheia de novidade que parecia enquadrar-se com a minha nova
situao.



A HISTRIA DE RUDI WEISS

  O mundo conhece-a agora como a Kristallnacht (a noite dos
vidros partidos). Assinalou o verdadeiro comeo da destruio do
nosso povo. Vi-a e vivia. E, ainda que me faltasse o entendimento
bastante relativamente aos objectivos e mtodos dos nazis, tinha as
provas.
  Os cobardes filhos da me vandalizaram a rua onde o meu av
tinha a livraria. Quebraram os vidros das montras. Queimaram
a mercadoria. Espancaram todas os judeus a quem conseguiram
deitar a mo. Dois homens que tentaram resistir foram mortos
com pancada mesmo ali - o senhor Cohen, o peleiro, e o senhor
Seligman, proprietrio de uma loja.
  Quebraram a montra com os dizeres dourados: LIVRARIA
H. PALITZ. O meu av era um asso muito duro de roer.
Tal como a minha me, estava convencido - mesmo nesta poca
adiantada! - de que era um alemo mais convicto do que eles,
que a sua Cruz de Ferro o protegeria e que, por qualquer milagre
do Cu, deixariam de o perturbar.
  Saiu, portanto, da loja brandindo a bengala no momento em
que o primeiro tijolo despedaou os vidros e gritou-lhes que se
fossem embora. Os amotinados responderam atirando-lhe os
livros para a rua - edies raras, mapas antigos, tudo - e pegando-lhes fogo. 
Chamaram-lhe velho judeu, lanaram-no por terra
e bateram-lhe.
  Continuou a protestar, dizendo que era o capito Heinrich
Palitz, do 2.o Regimento de Metralhadoras de Berlim, o que apenas
serviu para lhes aumentar a raiva. A minha av observava todo
o espectculo da janela e gritava pela polcia. Trs polcias berlinenses 
mantinham-se  esquina e limitavam-se a olhar o bando, de uns sete ou oito, que 
espancava impiedosamente o av, transformando-lhe a cabea numa massa sangrenta e 
arrancando-lhe a roupa.
  Um deles obrigou-o a gatinhar e montou-o como se ele fosse
um cavalo.
  Em seguida, avistou Heinz Muller, o amigo da famlia Helms.
Trabalhador fabril e sindicalista, desempenhava actualmente o cargo
de oficial de segunda no Partido Nazi local. Estava vestido  civil
e chefiava um grupo que entoava cnticos. O Horst Wessel,
como de costume. Ansiavam pelo sangue dos Judeus.
  Puseram-no de p - os polcias continuaram a observar,
com aquele sorriso feito e frio - e Muller estendeu um tambor
de brinquedo ao meu av.
  - J que s um filho da me de heri de guerra, Palitz,
chefia a parada - ordenou Muller. - Toca o tambor, meu velho
judeu mentiroso.
  Atrs do meu av estavam meia dzia de outros judeus,
tambm donos de lojas. Os seus bens tinham sido destrudos,
reduzidos a nada, queimados. A rua brilhava com o claro das
chamas.

  Aquele filho da me do Muller! A minha av chorava
aterrorizada, observando o meu av a tocar o tambor e os comerciantes judeus a 
desfilarem pela rua com letreiros onde se lia
JUDEUS pendurados ao pescoo.
  E ningum ergueu um dedo.
  A minha av telefonou para a nossa casa a narrar os acontecimentos. Sabamos. 
Ouvamos o quebrar dos vidros em toda a vizinhana.
  Os meus pais mantinham-se pregados ao cho, na sala.
  - Vou chamar a polcia - anunciou o meu pai. - E intolervel. Claro que h leis 
contra ns, mas este tipo de violncia...
  A crena pattica do meu pai de que ainda existia alguma
justia na Alemanha quase me fez chorar. Na sua qualidade de
homem justo, no lhe era possvel pensar de outra forma.
  - Devemos esperar. . . esperar e rezar - disse a minha me.
- A situao no se pode prolongar eternamente. De que lhes
servir  
- podem esperar - anunciei. - Por mim, tenciono ir ajudar
o av.
  A minha me agarrou-me pela manga e tentou deter-me.
Estava habituada a levar a melhor, a forar os filhos a dobrarem-se
 sua vontade.
  - Probo-te que o faas, Rudi! No podes lutar contra
eles todos.
  - Andam  procura de pretextos para nos matarem - apoiou-a o meu pai. - No devemos 
resistir!

  - Tm todos as pretextos de que precisam.

  Desprendi-me da minha me e desci as escadas a correr.
Quando estava a vestir a camisola, Anna veio ter comigo.

  Na rua reinava a maior confuso. Todos os vidros das lojas
tinham sido reduzidos a estilhaas. A maior parte delas estava
a arder. O senhor Goldbaum, um joelheiro, manejava uma mangueira, tentando salvar o 
que lhe restava da loja. Todas as pertences
  lhe tinham sido roubados. Esses alemes patriotas, esses cidados
  que agiam com uma clera espontnea destinada a vingar a morte
  de Von Rath, no passavam de ladres e assassinos sem qualificao. imenso. Pe ei 
no
  Passou urn camio fazendo um barulho

  brao de Anna e escondemo-nos no meio do arvoredo. Era um

  camio aberto. Alguns homens erguiam fotografias de Hitler e todos
  usavam distintivos com a cruz sustica. Outros tinham organizado
  desfiles e muniam cartazes que denunciavam judeus. O senhor
  Seligman, a quem a minha me costumava comprar cortinados
  e roupa de cama, jazia de rosto para baixo numa poa de sangue
  e vidros quebrados.
  O camio parou e os desordeiros saram.

  - Repara quem est com eles! - chamei a ateno de Anna.

  - Aquele traidor do Hans.
  - Porco sujo. Sempre lhe tive p.

   o irmo da Inga. Algumas vezes interrogo-me
  - Sim,

  a respeito dela. Como gostava de o apanhar a sos uns cinco
  minutos !
  Em seguida, avistmos o desfile. O av, com a cabea a sangrar
e um dos olhos fechados, era obrigado a tomar a dianteira, batendo
no tambor de brincar. De vez em quando, ele e os restantes donos
das lojas eram espancados com maas e correntes. Hans Helms
estava a falar com Muller. Hans era <<um menino da mam>>,
um cobarde. Era alm disso estpido e preguioso. Algum que
Muller podia manejar com toda a facilidade.
  Sa do arvoredo. O cu comeava a adquirir um tom alaranjado devido ao crescendo 
das chamas. Chegavam-me aos ouvidos
os queixumes das mulheres. E o estilhaar dos vidros continuava,
como se tivessem inteno de quebrar as montras de todas as lojas
de Berlim cujos donos fossem judeus.
  Aparentemente, o grupo cansou-se daquela brincadeira.
O bando de Muller comeou a dispersar. O av continuava
a manter-se muito direito, recusando-se a gritar, a implorar ou
a ceder.
  Fui ao encontro dele e peguei-lhe na mo.
  - Sou eu, av. O Rudi.
  Anna apressou-se a correr para o meu lado e agarrou-lhe
o brao.
  Na rectaguarda da coluna formada pelos judeus, um jovem
embriagado revistava bolsos - roubando carteiras, canetas, relgios.
Muller dirigiu-se-lhe aos gritos.
  - O partido  contra isso. Estamos a fazer uma manifestao
patritica e no um saque vergonhoso.
  - Essa  a tua opinio, Muller - retorquiu o homem.
  - Obedece s ordens - imps-se Muller. - Nessa altura
divisou-me quela luz sombria e nos olhos brilhou-lhe uma chama
de reconhecimento quase humana. Nesta altura interrogo-me sobre
se existiria qualquer coisa de decente neste homem, qualquer coisa
atirada para o subconsciente. A verdade  que no se podia considerar, como alguns 
dos das SS, um gangster, um vadio ou um
desordeiro parasita; tinha uma profisso e dava-se com pessoas
decentes. O que o impelira a transformar-se num bruto? Ainda
agora no possuo certezas a esse respeito; to-pouco sei se isso
 importante. Um gomem digno que se transforma num criminoso,
e particularmente quando tenta moralizar esse facto, talvez seja
de odiar mais do que um ladro ou criminoso de raiz.

  Tamar troa da minha filosofia.
  - Tiveram dois mil anos de preparao at chegarem ao que
fizeram - diz. - E todos participaram, ou quase todos. Os homens
que matavam nas cmaras de gs e nas fornalhas eram frequentadores da igreja, amavam 
os filhos e tratavam bem os animais.

  Muller perguntou ao meu avo se me conhecia e ele respondeu
que era o seu neto, Rudi Weiss.
  - Cala a boca, velho judeu - ordenou Muller como resposta,
ao mesmo tempo que o esbofeteava.
  -  um velho - argumentei. - Se procura luta, tem-me
aqui. Sem mais ningum. S eu e voc, Muller.

  Cinco ou seis deles formaram um crculo  nossa volta.
  Anna abraou-se ao av. Hans Helms estava com eles. Viu-me.
  Conhecia-me agora perfeitamente, como  bvio.


  - Weiss. . . o parente judeu da Inga - ouvi-o sussurrar ao
  ouvido de Muller. queixo e fixou-me atravs da cortina de fumo.
  Muller coou o
  As pessoas tossiam, dobradas sobre si mesmas.

  - OK, Weiss. Desaparece. Leva o velho contigo. No te
  quero ver por estas bandas.
  Suponho que lhe deveria terd f odemm idSabiaao qns.
  que.
  Contudo, qualquer coisa crescia e
  Vingana. Desejava poder um dia sentir a alegria de lhes reduzir
  a cara a um bolo, de lhes mostrar que no nos poderiam fazer isto.

  Ajudmos o av a chegar a casa. Ele e a minha av viviam
  num apartamento por cima da livraria. Parou uma vez durante
  o percurso e baixou-se para apanhar uma primeira edio queimada
  do dicionrio de Johnson e, em seguida, uma edio antiga do

  pginas deterioradas com uma expresso de
  Fausto. Folheou as
  tristeza. i -chorava a minha av.-Como
  - Heinrich, Heinrich
   possvel que tenham feito uma coisa destas a um velho
  O meu av limpou o sangue que lhe escorria da testa e endireitou-se.
  - Conseguirei sobreviver - declarou, voltando a olhar para
os livros queimados. - Mas os meus livros...
  - Anna e eu daremos uma arrumao a tudo isto - ofereci-me. - No entanto, dei-me 
conta de que era intil. No voltaria
a vender um livro ou um mapa que fosse.



O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
Novembro, 1938

  Dois dias passaram desde a noite que a imprensa actual designa
par Kristallnacht.
  Agora que sou capito e subi na considerao de Heydrich,
tornei a meu cargo a tarefa de reunir dados relativos a essa noite
histrica.
  O chefe estava descontrado, bebendo pequenos goles de
conhaque e escutando Sieg f ried.
  -Wagner  um feiticeiro-comentou.-Um mgico.
Constitui o exemplo perfeito do que um puro esprito ariano
consegue produzir, Dorf.
  Fiquei a acompanh-lo, por momentos, naquela audio,
no querendo intrometer-me no seu divagar.
  - Que acordes! - exclamou. - Que acordes sublimes!
  - Esto aqui os relatrios, senhor. Sobre a Krstallnacht.
  A msica fantasmagrica de Wagner - acho que se tratava
de viagem no Reno - parecia constituir um acompanhamento ao
meu relatrio, de carcter bastante grave. Tinham ocorrido trinta
e seis mortes. Regra geral, quando os judeus haviam resistido.
A imprensa estrangeira teria dificuldade em especular. Setenta
sinagogas tinham sido queimadas e mais de oito mil lojas e comrcio

de judeus destrudos. A nossa gente apenas dava a sensao de se
ter excedido no aspecto das prises. Havia mais de trinta mil judeus
na cadeia.
  -Trinta mil?-repetiu Heydrich, erguendo os olhos.

- Deus do cu! So loucas. Enchero Buchenwald de uma noite
Para a outra. - Desligou o gira-discos. - No interessa. Viremos
afinal a ,precisar de muitas mais Buchenwalds. Os nossos inimigos
todos (judeus, comunistas, socialistas, franco-manicos e eslavos)
tero de ser reprimidos se resistirem.
  - Podem verificar-se protestos, general. Boicotes. Represlias.
  Heydrich riu. Que controle admirvel! Corre o boato de que,
um dia, embriagado e raivoso, disparou a Luger contra a sua prpria imagem reflectida 
no espelho. (Recuso-me, porm, a acreditar
na histria.)
  - Represlias? - repetiu. - Por alguns judeus terem sido
espancados? H sempre a poca de caa aos Judeus, Dorf.
  - Sou da mesma opinio. Quase como se houvesse um precedente moral para as punir. 
Decorridos dois mil anos...

  - Precedente moral! - interrompeu-me Heydrich, rindo uma
vez mais. - Mas isso  uma maravilha!
  - Desculpe se tive um comentrio estpido.

  - De modo nenhum, capito.  evidente que existe um precedente moral. E um 
religioso. E um racial. E, acima de tudo,
os valores de ordem prtica. Como unir o nosso povo seno assim?
  Colocou um outro disco. Deixei os relatrios respeitantes
 Kristallnacht em cima da secretria e dispus-me a sair.
  - Continua neutro quanto aos Judeus, Dorf?
  - No. Compreendo a importncia que tm para ns - respondi.
  - E a ameaa que constituem. Conhece o credo do Fhrer.
Os Judeus so seres inferiores, criadas por um outro deus. A sua
  inteno - bem expressa - consiste em pr os Arianos contra os
  Judeus, at  destruio das ltimos.
  Escutei, acenando afirmativamente com a cabea.
  - E se algum dia (o Fhrer disse-mo pessoalmente) milhes
  de alemes tiverem de morrer numa outra guerra em cumprimento
  do nosso destino, no hesitar em aniquilar milhes de judeus
  e outros vermes.
  Era uma estranha sensao a de escutar a sua voz calma juntamente com a msica 
celestial de Wagner que enchia o cmodo
gabinete. Tudo parecia lgio, inevitvel, o cumprimento de qualquer imperativo 
histrico.



A HISTRIA DE RUDI WEISS


  A 14 de Novembro de 1938, alguns dias depois da <<noite
dos vidros partidos>>, o meu irmo Karl foi preso.
  Muitos judeus tinham-se escondido e feito esforos de ltima
hora para sarem do pas, por intermdio de suborno. Nesta altura,
era praticamente impossvel.
  A priso de Karl foi um tributo  crueldade da actuao
das SS. Vivia com Inga num bairro cristo, num pequeno estdio
contguo ao apartamento dos pais dela. Porm, as nazis tinham

informadores por toda a parte. Inga tinha a certeira de que algum
do edifcio falara.
  Karl era um artista publicitrio de qualidade. Contudo, agora,
dificilmente conseguia sobreviver. Os cristos dos meios publicitrios recusavam 
contactar com ele. Durante algum tempo,
Inga tentou fazer crer que o trabalho era seu; mas a maior parte
deles sabia. Alm disso, Karl no se sentia satisfeito com a ideia.
Tinha ideais: a integridade do artista, a verdade inerente  arte.
(Belos conceitos, mas de pouca valia frente a brutamontes munidos
de maas e de armas.)
  - No sou nenhum Rembrandt - dizia Karl. - Apenas um
artista publicitrio no desemprego.
  Desistiu de ,pintar e comeou a deixar correr. Tinham uma
vida simples. A casa no tinha praticamente moblia; apenas
algumas plantas e uns desenhos de Picasso pendurados nas paredes.
  - s um artista maravilhoso - contraps Inga. - Um dia
ters a tua oportunidade.
  - Como te amo, Deus do cu! - exclamou Karl subitamente,
beijando-a.
  - No mais do que eu.
  - Acabarei por te prejudicar. Sou um homem com estigma,
Inga. No quero que te faam mal por minha causa. H um nome
que te do, Inga: s uma conspurcadora da raa.
  - Pouco me interessa o que me possam chamar - retorquiu,
pondo-lhe as mos nos ombros. - Olha bem para mim. Temos de
sair daqui. De qualquer maneira. Essa tua me muito limpa, perfumada e espartilhada 
leva sempre a sua avante e roubou-te o instinto de luta. J te pedi que olhasses bem 
para mim.
  - Estou a ver a jovem mais bonita de Berlim.

  -E teimosa, tambm. Arranjaremos documentos falsos. Vamos para Brema ou Hamburgo. 
Nunca sabero que s um...
  - Ests a sonhar, Inga. Para mim  a recta final.
  Deixou de pintar e nesse dia deu aparentemente a sensao
de perder todo o interesse no trabalho. Leu e releu os acontecimentos que a imprensa 
relatava sobre a Kristallnacht. Cidados
alemes encolerizados, furiosos pelo <<domnio judeu>> nos bancos,
na imprensa e no comrcio, invadiam as ruas. A mulher arrancou-lhe o jornal das mos 
e tentou anim-lo.
  - Beija-me - disse Inga.
  - Isso no servir para mudar o mundo.
  - Pode ajudar.
  Abraaram-se com fora. Nesse momento, a me de Inga
entrou nervosamente sem bater e ainda a limpar as mos ao avental. Ficou parada, como 
se fosse chorar e, no entanto, irritada com
a filha.
  - A polcia - anunciou a senhora Helms. - Querem falar
  com o teu marido.
  Karl empalideceu e no deu um passo.

  - A polcia? A procura de Karl? - exclamou Inga, correndo
  para a ,porta. - Quem. . . porque no nos avisou?
  A senhora Helms fez um gesto de impotncia com as mos.

  - No! - gritou Inga. - Ele nada fez de mal. Diga-lhes
qualquer coisa... diga-lhes que se foi embora...
  - No vale a pena. Andm por todo o edifcio a prender
judeus.

  - E, segundo presumo, sente-se feliz - retorquiu Inga de
olhos chispantes. - Podia ter mentido. O que  afinal?  minha
me, e afinal...
  Inga, num ataque de raiva e de tristeza, agarrou a me pelos
ombros e comeou a aban-la. - Sou sou filha e deixou que uma
coisa destas acontecesse!
  Karl teve de a apartar. Inga chorava lgrimas mais de raiva
do que de medo. Nunca lhe ocorrera que Karl, a viver no estdio
e esquecido pelos antigos patres, pudesse ser descoberto.
  Entraram dois homens vestidos  civil. Identificaram-se: Gestapo. Mostraram-se 
delicados e  vontade. Karl tinha cinco minutos para fazer uma mala e os acompanhar.
  -No-ops-se Inga.-Devem ter uma razo... documentos. . .
  - Interrogatrio de rotina - esclareceu um deles.
  - De que  suspeito? - gritou Inga.
  - Voltar dentro de algumas horas - respondeu o outro
detective. - No  nada importante.
  Karl meteu obedientemente, alguma roupa e artigos de toilette
numa mala. Sabia que estava apanhado, mas Inga no aceitava
a situao.
  - Vou com ele e conseguirei um advogado - declarou.
  - Boa sorte, minha senhora - desejou o homem da Gestpo.
- Despache-se, eiss.
  Inga meteu-se subitamente entre os dois homens e Karl, abraou-o e tentou com todas 
as foras impedi-lo de se ir embora.
  - No. No. Eles tm de apresentar um motivo. No fizeste
nada. No te podem levar. Ele no  um poltico,  um artista
- acrescentou, virando-se para eles.
  - No te preocupes, Inga - sossegou-a Karl. - Voltarei.
  Ambos sabiam que ele estava a fingir. Houvera demasiados
casos nos ltimos seis meses: prises inesperadas, pessoas que
desapareciam na noite.
  Os homens tiveram bastante trabalho em a separar do marido.
  - Vou com ele - decidiu.
  - No, no - ops-se a me de Inga, que tremia. - Vais
tornar tudo pior para ns.
  - No se meta - gritou Inga. - Se descobrir quem foi
o informador...
  - A tua me tem razo, Inga. Deves ficar - interrompeu
Karl, beijando-a.
  Teimosa e decidida, com a conscincia de ser o escudo e a proteco de Karl, no 
foi nada fcil afast-la.
  - No nos siga - disse um dos homens.
  - Foi esse amigo do pap, o Muller - gritou Inga. Foi ele
que lhes disse.
  - H meses que o Muller no aparece por aqui - replicou
a me.
  -No, mas bebe cerveja com o pap e com Hans, quando
ele est de folga - arguiu, atirando-se uma vez mais para os braos
de Karl. - Meu querido! Conseguirei que te libertem. Prometo que
no te faro mal. Diz-me onde ests, e irei ver-te.
  Mais uma vez se viram forados a arranc-la ao meu irmo.
  Acompanharam Karl para l da porta e dos portes do
Inferno.

  No prprio dia em que Karl foi preso, os meus avs, cujo
apartamento tinha sido incendiado, mudaram-se para a nossa casa,
em Groningstrasse.

  Lembro-me de que, nesse mesmo dia, um homem que desde
sempre havia sido cliente do meu pai, um tipgrafo chamado Max
Lowy, estava a ser tratado.
  O meu pai estava a mudar-lhe as ligaduras das feridas e ndoas
negras que Max Lowy sofrera durante o terror da Kristallnacht.
Lowy era um homem alegre e vivo como um pardal e falava
o <<melhor calo>> berlinense. Era um operrio habilidoso, embora
sem educao. Um homem do povo e totalmente dedicado ao meu
pai, como tantos dos seus outras doentes.
  - Tenha calma, doutor - exclamou Lowy.
  - Fizeram um bom trabalho, Lowy.
  - Seis gajos dos grandes. Correntes, maas. Os filhos da
me deram cabo da minha tipografia. Destruram as chapas todas.
Que lhes interessam afinal as palavras? S para envenenarem
o mundo.
  -  uma histria vulgar a tua. A loja do meu sogro tambm
foi destruda.
  Lowy era um optimista incurvel at ao ltimo momento,
um homem que no era possvel esmagar.
  - Ouvi dizer que o pior j l vai, doutor - continuou o tipgrafo. - O Goering est 
danado com o Goebbels por causa das
desordens. No queria que ele fizesse ondas depois de Munique.
Acredita nisso doutor?
  - J nem sei no que acreditar.
  - Veja as coisas  minha maneira. De que serve continuarem
em cima dos Judeus? Essa histria da morte de Cristo j tem barbas. Para qu 
perseguirem-nos?
  - Temos o nosso valor, amigo. Unimos o povo. Acho que
os nazis se interessam muito pouco por Cristo ou pelo dogma
religioso.
  - Claro. A no ser quando lhes  til.
  O meu pai acabou de fazer o tratamento - era um artista
na sua profisso - e despediu-se:
  - Ests outro homem, Lowy.
  A minha me bateu  porta. Fez um sinal de cabea ao meu
pai para que fosse ter com ela ao hall de entrada.
  Eu acabara de chegar, depois de ter acompanhado os meus
avs, que haviam abandonado o apartamento em runas. Anna
- uma jovem sem medo ou, pelo menos, nunca o revelou - tinha
ajudado a carregar as malas.
  - Ser esta a vossa casa a partir de agora - disse o meu pai
aos velhos.
  - Est aqui o que nos restou - retorquiu o av, apontando
para as malas. - Roubaram tudo. Os livros. . .
  - Aqui estar em segurana - acalmou-o a minha me,
pegando-lhe na mo. - E espao no falta. Ficaro no quarto que
pertencia ao Karl.
  - No temos o direito de vos dificultar a vida - observou
o av Palitz, sacudindo a cabea.
  - No diga disparates - retorquiu o meu pai. - Sentimo-nos honrados com a vossa 
companhia. Tenho boas notcias. Um
dos meus doentes, que est bem a par da opinio pblica, assegurou que a situao vai 
acalmar. A febre estagnou.

  Anna e eu pegmos nas malas e comemos a subir as escadas. Como todos eram cegos! 
Ou ser que, decorridos catorze anos
e observando os acontecimentos a uma luz retrgada, aqui na minha

casa em Israel, estou a ser cruel e injusto para com a sua memoria? No foram os 
nicos enganados, logrados, incitados a sentirem-se seguros num dia, para serem 
destrudos no dia seguinte.

  - Tambm me sinto inclinado a acreditar nessa hiptese

- concordou o meu av, que continuava a usar a sua Cruz de
Ferro. - Economicamente,  uma incoerncia. Schacht tem de
tomar conscincia do facto. Destruir o comrcio, expulsar-nos da
economia?  um disparate.

  Desci as escadas, desesperado ante a capacidade de se enganarem a si prprios.
  - Nunca aprendero - disse. - Nem a me - acrescentei,
  surpreendendo-a com a fora que dei s palavras.

  O meu pai estava ao telefone e tinha um ar plido e abatido.


  - Sim... Estou a ouvir-te, Inga... mas porqu. Sim  a
  preendo. O Karl. Mas o que disseram? Queres que algum
  Sim, sim. Tentaremos fazer uns telefonemas.

  Desligou. Recordo-me que tentou ocultar  minha me as ms
  novas. A sua figura enorme quase se dobrava ante o esforo de
  controlar as emoes.
  - Prenderam o Karl. No deram qualquer motivo. Est no
  posto principal da polcia. Com milhares de outros. p

  A minha me comeou a chorar. Sem histerismos. Apenas
  lgrimas silenciosas a 'correrem-lhe pelo rosto.

  - Oh, o meu filho! O meu Karl.
  - A Inga est na polcia. No tenciona ir-se embora sem lhe
  darem mais informaes. Volta a telefonar.
  Enquanto Anna e eu assistamos assustados ao desenrolar dos

acontecimentos, a minha me perdeu o autocontrole, que era
a qualidade que mais apreciava em si prpria. Comeou a soluar,
sem conseguir parar, e lanou-se nos braos do meu pai.
  - Nada acontecer ao Karl, mam - sosseguei-a. - Nunca
fez nada. No o podem acusar de nada. - Estava a mentir para
a animar; j no precisam de motivos, h anos que no precisavam.
  - O Rudi tem razo - concordou o meu pai. - Vers que
o poro em liberdade. No podem continuar a encher as prises
de pessoas inocentes.
  - Estamos a ser punidas - replicou a minha me, fixando
o olhar magoado do meu pai. - Pelo meu orgulho. Pela minha
teimosia. Oh, Josef! H anos que devamos ter fugido!
  - No, no. No penses nisso. A culpa no  tua, nem de
ningum.
  Mostrou-se surpreendida. Durante uns momentos, voltou
a assenhorear-se das suas emoes, limpou as lgrimas e alisou
o vestido:
  - Tenho de ir acomodar os meus pais. Vai comprar as coisas
para o jantar, Rudi.
  - Se houver lojas abertas.
  - s um jovem de recursos, filho - elogiou-me o meu pai,
dando-me uma palmada nas costas. - L te arranjars.

  Subiu as escadas a cambalear. O meu pai apressou-se a ir 'ter
com ela e a agarrar-lhe o brao.
  - Estou bem Josef - declarou.
  ,J
  - Precisas de descansar. Vou-te dar um calmante.
  - No, no. Estou ptima. Deixaste um doente  espera. No
te preocupes comigo.
  - Deixei, sim - disse o meu pai, que se encaminhou para
a porta envidraada, com o rosto cor de cinza, tentando esconder
o seu medo.
  Anna e eu observmos toda a cena sem pronunciar palavra.
Rogava pragas a mim mesmo por ser to novo, to inexperiente e,
pior ainda, sem capacidade de os ajudar.
  Fora de casa, com o cesto das compras debaixo do brao,
detive-me nos degraus.

3

  Dois filhos da me grosseiros e sorridentes, de uniformes castanhos, pintaram a 
palavra JUDEUS no muro de tijolos que ficava
  em frente da nossa casa. Ignoraram a minha presena. Cerrei os
  punhos e desci os degraus que me faltavam.
  Nos cintos traziam pequenos cassettes de madeira e facas
  de mato. De que serviria lutar? Oh, como desejava meter-lhes uma
  bala no corpo.
  - Ests a olhar para onde, mido? - perguntou um deles.
  No respondi.
  - O teu velho  judeu, no ? - observou o outro. - Por  que no fazer esta 
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  E continuaram a pintar. A estrela de seis bicas a seguir s
! letras.



O DIRIO DE ERIK DOR


Berlim
Novembro, 1938

  Marta est surpreendida com a minha subida meterica. Tornei-me um dos favoritos de 
Heydrich. Aprecia o que designa por
o <<meu gil raciocnio legal>>.
  No princpio da noite de hoje, quando Marta se sentou ao meu
colo, mais bela do que nunca e mais feliz do que alguma vez fora
nestes ltimos anas, comuniquei-lhe que Heydrich quer que
o acompanhemos  pera. muito em breve. Estamos a trepar
a escada. Temos de ter uma vida social mais intensa e comear
a receber em nossa casa.
  -Ficarei atrapalhada diante de todas essas mulheres
ricas, Erik.
  - Sers tu a mais bonita.
  -Oh, conheces-me bem! -retorquiu Marta, corando.
- Sinto-me contente por cuidar da casa e das crianas.
  - Uma casa muito melhor. Tenho um novo apartamento
debaixo de olho. Num bairro mais agradvel.
  - Oh, Erik! Sinto-me to feliz! - exclamou, abraando-me.
- E s de me lembrar que costumavas ranger os dentes com...

como  que lhe chamavas? A aco da polcia. Afinal, pensa no
xito que tiveste!
  Sentado com o capo de conhaque na mo (tinha sido um longo
e cansativo dia de trabalho), estou consciente de que no tenho
um temperamento narcisista, mas comeo a achar mais fcil falar
a meu respeito. E  evidente que Marta se mostra encantada com
esta nova imagem do capito Erik Dorf. Enquanto me escutava,
de sorriso nos lbios, contei-lhe como resolvi um delicado problema derivado de 
acontecimentos recentes.
  Muitas companhias de seguros alemes estavam  beira da
bancarrota, devido a reivindicaes de danos e prejuzos apresentadas por judeus. 
Depois de amadurecer a questo, aconselhei Heydrich a que permitssemos que as 
companhias pagassem as
indemnizaes, mas que, antes que os Judeus pudessem cobrar,
o Governo confiscasse os pagamentos, com base no facto de que
os Judeus incitaram a desordem, no tendo assim qualquer direito
a reembolso. O dinheiro pode em seguida ser devolvido a qualquer
firma ariana que o requisite (as firmas de seguros judaicas no
tero esse direito).
  Marta confessou que lhe era difcil seguir a minha linha de
raciocnio legal, mas concordou tratar-se de uma soluo justa.
Acrescentou que eram os Judeus os culpados pela situao surgida.
  A minha atitude frente aos Judeus mudou, sem sombra de
dvida, desde os meus tempos de ingnuo h trs anos. Agora,
vejo claramente como se insinuaram na nassa vida, estendendo os
tentculos e impedindo os alemes de darem cumprimento ao seu
destino. Compreendo o que o Fhrer quer dizer com uma Europa
<<liberta dos Judeus. S pode ser para o bem de todos, at dos
Judeus. De vez em quando, sinto-me perturbado por qualquer
conceito balofo de problemas legais, mas no tenho dificuldade em
o eliminar sob a benigna orientao de Heydrich. L evidente que
ele tinha razo naquela nossa primeira entrevista. Tenho de pr de parte noes 
antiquadas no que se refere  justia. Existem
pocas e casos em que, muito simplesmente, elas no se aplicam.
  Quando Peter e Laura acabaram de tomar banho, entraram
na sala com os roupes vestidos. Dei-lhes um beijo.
  - Vocs cheiram a flores do campo, filhos - observei.
  - No sou uma flor - retorquiu Peter, amuado. - Ela sim.
  Tem quase nove anos e  um mido alto e bem constitudo
com as traos bem delineados da me e a mesma vontade forte.
Laura, que denota inclinao para um temperamento meditativo
e triste - muito mais parecida comigo, quando era criana -,
assentou arraiais no meu joelho, como  hbito das crianas sempre que pretendem 
atrair as atenes.
  - Porque  que todos odeiam os Judeus, pap? - perguntou
fixando o seu olhar inocente no meu.
  - Porque mataram Cristo - respondeu Peter, antecipando-se-me. - No aprendeste isso 
na catequese ao domingo?
  - H outros motivos - interferiu Marta. - Algo que compreendero quando forem mais 
velhos. - E comeou a prepar-los
para se irem deitar.
  Ponderei na resposta ingnua e, no entanto, verdadeira que
Peter dera  pergunta de Laura. Sim. Mataram Cristo. E, embora
o partido, o nosso movimento, os escritos do Fhrer sobre a matria :pouca 
importncia dem ao facto, beneficiamos indubitavelmente de uma longa tradio. A 
minha cultura histrica no 
suficiente, nem to-pouco sou um filsofo, mas parece-me existir
uma cadeia quase inquebrantvel desde a denncia dos Judeus pelo

maior crime cometido contra Deus at ao que planeamos agora
em seu desfavor. De facto, no fomos ns que inventmos o antisemitismo.
  As minhas cogitaes foram interrompidas pela campainha da
porta. Marta sobressaltou-se, mas disse-lhe que ficasse junto das
crianas, que eu me encarregaria de ver o que se passava.
  Era o Dr. Josef Weiss que estava no hall. Parecia mais velho
e acabado.
  - Desculpe vir incomod-lo a esta hora, capito Dorf, mas
receei que, se telefonasse, pudesse recusar-se a receber-me.
Senti-me irritado com ele. Era seu dever no agir to impensadamente:
  - Avisei-o de que no viesse ter comigo.
  - No tenho a quem recorrer. O meu filho Karl, que  um
pouco mais novo do que o senhor e de quem talvez se recorde
de quando morava no bairro, foi preso. No nos disseram uma
palavra sequer. No apresentaram motivos. Nunca teve qualquer
conotao poltica em toda a sua vida.  um artista. Ele...
  A voz morreu-lhe na garganta.
  No o podia ajudar e foi isso que lhe disse.
  - Que crime cometemos? Que vos fizemos? O meu sogro
foi um heri da guerra. Teve a loja e a casa saqueadas por rufies.
Os meus filhos... sempre se sentiram to alemes como o senhor...
  - Estas atitudes no se lhe dirigem pessoalmente, nem  sua
famlia - interrompi-o.
  - Isso no nos facilita a vida.
  - Existe a poltica de longo alcance, doutor. Para seu benefcio como para o da 
Alemanha.
  - Mas as vidas so arruinadas e as pessoas destrudas.
Porqu?
  Estava a arrasar-me os nervos. No tinha o direito de vir ter
comigo:
  - No posso discutir isso consigo.
  - Por favor, capito Dorf. Tem influncia.  um oficial das
SS. Ajude o meu filho.
  Enquanto se mantinha no mesmo stio, implorando a minha
ajuda, Marta apareceu no hall.
  - Passa-se alguma coisa, Erik?
  - No  nada, querida.
  - Talvez a senhora me possa compreender, senhora Darf
- prosseguiu Weiss, cumprimentando-a com uma vnia. - Ponha-se no meu lugar. Imagine 
que lhe levavam o seu filho, como
fizeram ao meu. Outrora, ambos foram ter comigo por uma questo de sade... Apenas 
peo...
  Marta expressou-se num tom firme e ignorando-o.
  - As crianas, Erik - limitou-se a dizer.
O Dr. Weiss no se foi embora. Afastei-me dele e fui ter
com Marta.
  - Manda-o embora - sussurou-me. - Por em perigo a tua
carreira. Explica-lhe que nada podes fazer por ele. No foste tu
que lhe meteste o filho na priso.
  - J lhe disse isso.
  - Repete-lhe. Fala com delicadeza, mas d-lhe a entender
que nada podes fazer.
  - Receio no o poder ajudar, Dr. Weiss - declarei, indo at
junto da porta. - Esses assuntos esto fora do meu mbito.
  - Mas uma palavra aos seus superiores.. . pelo menos para
sabermos onde est o meu filho - que acusao pesa sobre ele. . .
  - No posso. Lamento.
  - Compreendo - anuiu tristemente. - Boa noite, capito.

  A porta fechou-se.
  Fiquei um pouco perturbado com a sua visita. Sempre me
pareceu um indivduo bastante digno e, tanto quanto sei, o filho
tambm o . Contudo, atravessei uma ,ponte, passei um rio e no
me  possvel recuar. Heydrich e Himmler acautelaram-nos frequentemente contra o 
<<,bom judeu>>, o que, devido a ser-se alemo
condodo, se deseja salvar. O nosso programa  de longo alcance,
complexo, e inclui povos inteiros e mudanas radicais. No podemos deixar que o 
sentimento e falsas simpatias se nos atravessem
no caminho.
  Apenas ns, a lite das SS, como diz Heydrich, temos fora
para levar a cabo esta misso. Depois de ouvir os passos arrastados
do mdico, sei aDora o que ele quer dizer.

A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Alguns dias depois da visita do meu pai a Erik Dorf - no
fazia ideia de quem era nem da sua importncia, mas apenas que
se recusara ajudar-nos -, o meu pai recebeu ordens de deportao
para a Polnia.
  O meu pai, que via sempre o lado melhor das pessoas e se
recusava a pensar o pior, estava convencido de que Dorf nada tinha
a ver com o assunto. Possivelmente, estava dentro da verdade. Era
uma poltica geral na altura. Todos os judeus imigrados residentes
na Alemanha - e havia milhares de judeus polacos - viam-se
forados a partir.
  De facto, quando o indivduo munido de uma pasta entrou
no consultrio onde o meu pai estava a tratar do tornozelo torcido
de um mido, ele ainda se convenceu de que iria receber boas
notcias de Dorf, talvez sobre Krl.
  Contudo, o homem era um funcionrio dos Servios da Imigrao e disse ao meu pai:
  - O senhor  o doutor Josef Weiss, nascido em Varsvia,
Polnia, e encontra-se ilegalmente neste pas sob as novas leis.
Tem ordem de exlio para a Polnia. Esteja na estao de caminho
de ferro de Anhalter, amanh s seis, com comida para um dia
e uma mala.
  Escutei do lado de fora da porta, chorando pelo meu pai
e desejando ajud-lo fosse como fosse. Como odiava aqueles homens
que tinham vindo ali! Como desejava bater-lhes, faz-los sentir a dor!
  -Mas a minha mulher e os meus filhos... as pessoas que
trato...
  - A ordem s lhe  dirigida a si. Entregue estes documentos
ao oficial de transportes, amanh.
  A recordao mais ntida na minha memria  a de que, em
vez de ir l acima comunicar os acontecimentos  minha me, ou
de ficar incapaz de continuar o trabalho, o meu pai voltou at junto do mido que 
estava sentado na marquesa e ocupou-se novamente
do tornozelo magoado.

  O meu irmo Karl tinha sido enviado para um campo prisional, Buchenwald. Soube do 
seu internamento nesse local por intermdio de um homem chamado Hirsch Weinberg que 
fora preso
uns dias antes de Karl. Weinberg era alfaiate de profisso e natural
de Brema. Lembrava-se perfeitamente de Karl Weiss, o artista.

  Buchenwald fica prximo de Weimar. Os Alemes tinham

construdo um campo enorme nesse local para todos os que fossem
considerados inimigos do Reich. Depois da KristaLlnacht transformou-se num inferno, a 
abarrotar, um stio onde centenas morriam
diariamente de espancamento e de doenas, ou eram executados
por qualquer motivo que aprouvesse aos guardas.

  O tormento iniciava-se a partir do momento em que os prisioneiros atravessavam o 
porto com a legenda ARBEIT MACHT
FREI (<O trabalho proporciona a liberdade>>).

  Karl e uma carrada de outros prisioneiros foram levados para
uma sala cheia de dactilgrafos, guardas, entidades oficiais, na totalidade pessoal 
das SS. As habituais perguntas, depois da indicao
do nome, da morada e da profisso, eram do gnero de:
  - Nome da puta que te cagou?
  - Nome do chulo que a fodeu para que te parisse?
  - Foste preso por que crime?
  Enquanto Karl esperava a sua vez e tremia de medo, um
jovem judeu corpulento, com todo o aspecto de camionista, recusou-se a responder a 
este gnero de insultas. Protestou; a me no
era puta, o pai no era chulo e no cometera qualquer crime. Foi
levado imediatamente para uma sala contgua. Ouviram-se gritos
e rudos abafados.
  Alguns minutos depois, espancado e acobardado, voltou a ser
trazido, com a cabea reduzida a uma massa ensanguentada e um
olho fechado. Respondeu a todas as perguntas.
  Chegou a vez de Karl.
  Deu o nome, a morada e a profisso: artista.
  Um sargento das SS, munido de um chicote curto, avanou
na direco de Karl e fez estalar a ponta. - Um desses judeus bolchevistas, Weiss? 
Desenhando cartoons impostores para qualquer
grupo de comunistas?
  - Sou um artista publicitrio - replicou Karl. - No perteno a qualquer partido. 
Eu...
  O chicote atingiu o rosto de Karl.
  Quando Weinberg me contou tudo isto, apenas conseguia pensar em Karl, um homem 
frgil, um mido perseguido e caado.
Era quatro anos mais novo, mas sempre fui mais forte e defendia
o lema olho por olho, dente por dente. Apetecia-me chorar quando
falei com Weinberg, mas Tamar, a minha mulher, estava presente
e no acredita em lgrimas.
  - A puta que te cagou?
  - No. . . a minha me. . .
  O chicote voltou a entrar em aco.
  - Berta Palitz Weiss - respondeu Karl.
  - O chulo que a violou?
  - Josef Weiss. Doutor Josef Weiss.
  - Que crime cometeste para te mandarem para Buchenwald?
  - No. . . no fiz nada.
  - Tenta uma vez mais, judeu. Que crime cometeste?
  - Nada. Juro. Estava em casa, a pintar. Estes homens foram
buscar-me. No existem acusaes.
  - s judeu. Como motivo, basta.
  - Mas. .. mas -isso no  um crime.
  Riram-se ante a resposta. O sargento e outros dois brutamontes arrastaram Karl para 
a sala contgua e espancaram-no at o deixarem inanimado. Acordou numa caserna 
escura, onde conheceu
Hirsch Weinberg, que tentou ensinar-lhe alguns truques para

sobreviver.

  Sem sabermos ainda onde estava Karl ou o que lhe estava
a acontecer, fomo-nos despedir do meu pai, que partia para a Polnia. Era o ltimo 
dia de Novembro de 1938.

  Recordo-me da cena na desabrigada estao de caminhos de
ferro. Havia uns mil judeus, na maioria mais velhos e mais pobres do que o meu pai, 
tendo como companhia uma bagagem miservel
        e comida. Corriam boatos de que os Polacos lhes viravam as costas.
        Os Judeus seriam deixados na terra-de-ningum, entre a Alemanha
        e a Polnia.
'       Contudo, O meu pai tentava mostrar-se optimista.
        - Se chorares, Berta - disse  minha me -, fico zangado.
        Limpou os olhos. Seria capaz de se controlar. A sua volta,
i'.    outras famlias no dissimulavam a tristeza que sentiam. Choravam, 
imploravam, tentavam impedir que os entes queridos subissem
'',;"   para o comboio que os levaria at  fronteira polaca.
        - Talvez seja o melhor que nos podia ter acontecido - observou o meu pai.- 
Era um actor terrvel. Contudo, quem poderia
        afirmar o que quer que fosse? Talvez tivesse razo.
j?"     - O meu irmo Moses disse que estaria  minha espera.
        Partiremos directamente para Varsvia. Moses tem relaes. Tenho
        a certeza de que arranjarei trabalho no Hospital Judeu.
        Ouvamo-lo num silncio atento e concentrado. - O choque da
        sua partida ainda no nos abalara em toda a sua profundidade.
        Karl tinha sido levado. - O meu pai via-se forado a partir. Os golpes 
sucediam-se ininterruptamente.
        - Vou ter contigo - declarou a minha me.- Deixar-me        -o. Arranjarei 
os dorumentos amanh.
I       - De modo algum - ops-se o meu pai.- As crianas precisam de ti. Disseram-me 
que os Polacos dificilmente recebem os
        judeus polacos de volta, quanto mais os alemes. E devemos ser
        optimistas - acrescentou, pegando na mo de Inga.- A Inga
        conseguir a libertao de Karl e todos ficaro de novo juntos.
        Ao escrever isto, de novo me surpreende como  possvel
        que muitos de ns, inclusive os meus pais, se pudessem ter enganado a si 
mesmos durante tanto tempo. Tamar afirma que se tratava de uma forma de histerismo em 
massa; uma auto-iluso
        propagada entre os Judeus. Argumento que muitos deles eram pessoas indefesas, 
sem dinheiro nem stio para onde ir. Poucos pases
        se mostravam dispostos a aceit-las. Resistir era palavra que no
        conheciam. Tnhamos sido um povo que se havia acomodado
        ,
        cedido, dobrado, tentado uma forma de contemporizao, esperado por um amanh 
melhor. Neste momento, a leste do nosso kibbutz,
as armas Srias voltam a disparar. No entanto, desta vez respondemos. A moralidade  
uma coisa admirvel e maravilhosa; no
entanto, ainda estou para ouvir falar de qualquer posio dentro
da moral e da justia que tenha conseguido desviar uma bomba
ou uma bala.
  Anna comeou a soluar. Abraou-se ao meu pai, a chorar.
  - No nos deixes, pap. Terei tanto medo sem ti... Por
favor, pap. Fica connosco.
  Inga encarregou-se de afastar Anna, acariciando-lhe os cabelos e beijando-a:
  - Tudo correr bem para o pap, querida Anna. Ele vai
voltar.

  Contudo, Anna no se conseguia dominar.
  - Cala-te - ordenei-lhe. - Ests a tornar tudo mais difcil.
  - Como  possvel que nos tenha acontecido uma coisa destas, Josef? - disse a minha 
me.
  - No fomos ns, Berta. No conseguimos controlar os
acontecimentos. No entanto,  preciso que acredites em mim - observou, com um 
sorriso. - Sinto-me optimista. Tudo isto servir
para nos abrir os olhos. Tenho o pressentimento de que nos reuniremos na Polnia, ou 
noutro stio. Em Inglaterra, talvez.
  - Fui eu que te obriguei a ficar - sussurrou a minha me.
  - No quero que me fales dessa maneira - interrompeu-a
o meu pai, expressando-se no tom brusco de um homem de negcios (e, a praticar 
medicina, jamais houve pior homem de negcios).
- Tens de vender a clnica, Berta. Procura uma casa mais pequena.
  - E tu no deves atender todas as chamadas de noite - retorquiu a minha me, 
esforando-se por sorrir. - No te esqueas de usar as galochas. A Polnia  um pas 
muito hmido.
  - Fao isso, se prometeres no vender o piano. A Anna no
deve interromper as lies de piano, seja como for.
  Aproximaram-se dois polcias berlinenses. As pessoas comearam a ser empurradas 
para o comboio, como se se tratasse de um
rebanho:
  - Mexam-se. Vamos partir dentro de cinco minutos.
- Rudi, Anna, Inga - chamou a minha me, virando-se para
ns.- Despeam-se do pap.
- Iremos viver contigo, pap...- chorava Anna, que no
conseguia controlar-se.-O tio Moses conseguir arranjar lugar
para ns.
- Claro que sim, Anna querida. Mas entretanto deves olhar
pelo av e pela av e temos de encontrar o Karl. No descures
a msica, Anna.
- Talvez fosse melhor voltares a estudar, Rudi - dirigiu-se-me, apertando-me com 
fora e olhando-me de frente.
- Se puder, pap.
- O Mundo no comea nem acaba com um desafio de futebol. Tens de te preparar para 
uma carreira.
O que lhe poderia dizer? Carreira! No entanto, entrei no
jogo dele.
- Tentarei, pap. Talvez possa vir a ser professor de educao fsica, como um dia me 
disse ser o seu desejo.
- Acho uma ideia fantstica.
As pessoas empurravam. Entre elas notei a presena de Max
Lowy, O tipgrafo. Era, tambm, um judeu polaco; fora deportado.
Dava a sensao de impvido e sereno, preparado para aceitar os
golpes do destino.
- Ol, doutor. Tambm o senhor? - gritou Lowy.- Pensei
que apenas dessem o pontap em tipos como eu. Esta  a minha
mulher, doutor.
Uma mulher baixa e morena cumprimentou o meu pai com
um aceno de cabea. Ele, sempre cavalheiro, levou a mo ao chapu.
Ao ver os Lowy, foi mesmo ao ponto de se virar para a minha me,
que ainda chorava, e de se lhe dirigir alegremente:
- Vs, Berta? Sou o nico mdico que deportaram juntamente com os doentes.
Abraaram-se pela ltima vez.
- No conseguem vencer-nos - ouvi-o  dizer.- Enquanto
nos amarmos.
- Josef...
  - Recorda-te do teu latim, querida. Amor omnia vincit

(o amor tudo vence).
  A multido empurrou-o e afastou-os. Numa das barreiras,
um polcia e um guarda das SS examinaram os documentos do meu
pai. Saam instrues de um altifalante: <<Sigam os guardas at ao
comboio. Este  o comboio especial, que vai apenas at  fronteira. . . >>
  A minha me correu at junto do gradeamento de ferro
e seguimo-la.
  - Adeus, Josef - despediu-se, acenando-lhe. - Manda-nos
dizer onde ests. Iremos...
  Voltei a cara para o lado, a fim de ocultar as lgrimas. O que
me apetecia, de facto, era esmurrar algum - um dos polcias
berlinenses, os guardas que encaminhavam as pessoas para os
comboios. Que direito tinham de nos fazer isto? De que nos
culpavam? Uma raiva controlada fervia no meu ntimo. De boa
vontade os teria morto - os sorridentes membros do partido,
todos de botas e de uniforme, fanfarres, desordeiros, mentirosos...
  - Tu, que s to corajoso, tambm ests a chorar! - troou
Anna, que tinha os olhos rasos de lgrimas e o rosto molhado.
  -  mentira. No choro.
  Agarrou-se a mim e abraou-me. Chormos nos braos um
do outro, mas consegui controlar-me.
  - Nunca me faro isto - declarei. - Nunca na vida!
  - No?
  - No. Recuso-me a ceder como o fizeram o pap, o Karl
e o senhor Lowy.
  No queria deixar que todos os meus pergaminhos de coragem
se perdessem. Contudo, neste momento em que olho para trs,
apercebo-me de que fizera uma jura a mim mesmo. No me humilhariam, no me dobrariam 
 vontade deles, como tinham feito
a tantos outros. Pressupostamente, os Judeus concordavam, eram
delicados, obedeciam, escutavam, aceitavam. Porm, eu nunca
compreendera essa atitude. Nunca procurei meter-me deliberadamente em lutas de rua, 
mas tambm nunca fugi. Quando jogava futebol, jogava para ganhar. E, caso o 
adversrio fizesse jogo sujo,
podia rasteir-lo, atacar e, se necessrio, aplicar-lhe um bom murro.
  - O que fars? - perguntou Anna, ainda a chorar.
  - Lutarei.
  Observmos o meu pai, que subia para o comboio e nos acenou
pela ltima vez. A minha me abraou-nos. Inga mantinha-se atrs
de ns, sacudindo a cabea desesperadamente. Apercebi-me da vergonha que lhe 
transparecia no rasto, vergonha pelo seu prprio
povo.
  - Vamos para casa, filhos - disse a minha me, num tom
de voz novamente calmo.

  Todos os prisioneiros de Buchenwald eram obrigados a trabalhar. Karl era um artista 
e, por conseguinte, partiu-se do princpio
de que os dedos eram o seu instrumento de trabalho. Foi enviado
- mediante influncia de Weinberg - para a alfaiataria.
  Weinberg explicou-lhe as vantagens de trabalhar l dentro.
Pelos menos, estava razoavelmente quente e o trabalho no era
exaustivo. L fora, os presos morriam diariamente nas pedreiras,
na construo de estradas, a que se chamava o <<trabalho de jardim>>
e que consistia em abrir valas.
  Um homem mais velho - e que tinha sido alfaiate de profisso - explicou que as 
mortes por espancamento e tortura, devidas
a qualquer infraco, faziam parte da ordem do dia. Um atraso

na chamada, rplica, resposta fora da vez - eram coisas que resultavam em severas 
espancamentos. E tudo o que era considerado
mais grave - ataque a um guarda, roubo - significava uma morte
imediata, regra geral numa diviso especial, onde mandavam colocar
o preso a um canto. Um carrasco que nunca se mostrava matava-o
com um s tiro na nuca.
  - J algum conseguiu escapar-se? - perguntou Karl.
  - Ouvi contar histrias de tipos ricos que compraram a fuga.
Goyim 1, na sua maioria. Provavelmente alguns judeus tambm.
Os SS dirigem tudo isto por processos de extorso. Apoderam-se

  ' Termo que era dado pelos prprios Judeus aos cristos, sobretudo por
comerem carne de porco. (N. da T.)

das bens e do ouro e dividem-no entre eles. Por isso, pode acontecer que os filhos da 
me aceitem o suborno de um judeu rico
e o soltem.
  O kopo - o guarda dos presos ou o fiel - aproximou-se
e ordenou a Weinberg que se calasse. Weinberg desculpou-se,
dizendo que estava apenas a explicar o ofcio a Karl. (Este kapo
chamava-se Melnik e era um indivduo corpulento, um antigo
ladro de carteiras. Os nazis escolhiam frequentemente criminosos
- judeus e gentias - e davam-lhes posies de chefia, o que contribua para 
aterrorizar os restantes presos.)
  Quando Melnik j no o podia ouvir, Weinberg pegou num
fardo de roupa e comeou a dar explicaes.
  - Assim, aprenders a conhecer os companheiros - disse,
comeando a mostrar tringulos de vrias cores. - Vermelho significa um preso 
poltico, desde trotskista a monrquico. Verde, um
criminoso vulgar. Prpura, Testemunha de Jeov. Preto, o que
eles chamam elementos sem eira nem beira, mendigos, vagabundos,
etc. Rosa para os homossexuais. Castanho para os ciganas.
  - Ciganos?
  - Buchenwald est cheio deles. Pem em gua a cabea
dos guardas, por no quererem trabalhar. Ontem, os SS ordenaram
que dois deles fossem enterrados vivos. Quando os tiraram,
tinham a lngua tesa como salame.
  Em seguida, Weinberg mostrou a estrela de seis pontas a Karl.
  - Sei o que  - declarou o meu irmo. - Mas isto. De que
trata? - inquiriu, pegando num ,pedao de fazenda com as letras
BORRO.
  - Idiotas, anormais, doentes mentais - explicou Weinberg.
  - Mas que crime cometeram?
  - Foram considerados como inteis pelo Estado. Devias ver
como as guardas se divertem  custa deles. Troam e maltratam-nos.
Aproveitam-se das mulheres nesse estado para lhes fazerem coisas...
  - No posso acreditar.
  - Ah, no? Ouvi algumas dessas histrias. H uma casa,
no muito longe daqui, para onde levam os doidos. Idiotas, aleijados, cretinos. 
Matam-nos com gs.
  - Gs?
  - H um tipo no servio dos camies que jura ser verdade.
  O kapo voltou a aproximar-se e mandou-os calar novamente,
ameaando Karl com o casse-tte. Os kapos usavam bons e casacos
escuros, que contrastavam com os fatos de riscas dos presos.
Todos os odiavam.
  O altifalante comeou subitamente a despejar msica. No se
tratava de uma gravao, mas de msica tocada ao vivo pela
Orquestra de Buchenwald.

  - Metade da Orquestra Filarmnica de Berlim est aqui - observou Weinberg com uma 
piscadela de olho para Karl. A Alemanha ir para o Inferno ao som de Das Rheingold.

  Numa manh de Maro de 1939, a minha me e eu ouvimos
  vozes no andar de baixo. O consultrio do meu pai estava, evidentemente, fechado h 
meses. No nos passava pela cabea quem
" pudesse ser.
  Segui a minha me at ao antigo consultrio - a minha me
  continuava a limpar o p diariamente, com a v esperana de que
  um dia o Dr. Josef Weiss voltasse a exercer a clnica - e abrimos
  as portas.
''_ Um homem alto, de cabea rapada e culos sem armao
  fazia um inventrio e ocupava-se do mobilirio, com a ajuda de
  dois operrios.
  -Senhora Weiss! -cumprimentou o homem de cabea
  rapada batendo os calcanhares e fazendo uma vnia. - Sou o doutor
  Heinzen. Incumbiram-me de ocupar o consultrio do seu marido.
  Lembra-se do meu telefonema? As chaves, por favor.
  A minha me pediu-me que as fosse buscar. Chegava-me l
  acima a voz de Heinzen, que verificava o equipamento do meu pai:
  - Raios X. .. metabolismo basal. .. diatermia. . . autoclave. ..
  Regressei com o molho de chaves e entreguei-as  minha me,
  que as passou para a mo do Dr. Heinzen. - Esto todas a, doutor:
  a do consultrio, a da porta da frente e das traseiras, da garagem,
  do rs-do-cho.
  -  muito amvel da sua parte.
  - No posso dizer o mesmo no que se refere ao seu pessoal.
  - Peo desculpa por esta intromisso um tanto abrupta...
mas seria uma pena deixar que este consultrio e todo o equipamento ficassem aqui ao 
abandono. Conheci o seu marido profissionalmente, e pode crer que lamento os 
acontecimentos.
  - Conheceu-o antes de o terem despedido do Hospital Central
de Berlim.
  - Outros tempos, outros hbitos, minha senhora. Sou um
membro do partido e o partido deu-me ordens para ocupar o consultrio e a casa.
  - E a nossa indemnizao? - retorquiu a minha me com
os olhos faiscantes.
  - O quadro mdico do partido est a rever a seu caso.
  A minha me entregou-lhe um pedao de papel com uma
morada e um nmero de telefone. Era o antigo estdio de Karl,
o apartamento de Inga: - Para o caso de nos ter qualquer coisa
a comunicar, doutor Heinzen.
  - Ser a primeira a sab-lo, minha senhora - respondeu com
uma vnia.
  No consegui controlar-me por mais tempo.
  - Esto a roubar tudo, mam. Ladres. No tm outro
nome - insultei, dando um passo na direco de Heinzen, que me
olhou como se achasse que eu tivesse enlouquecido. Os dois operrios que estavam a 
mudar a secretria do meu pai pararam e levantaram os olhos.
  - Por favor, Rudi. Retira da parede o diploma do teu pai - pediu a minha me.
  Passei pela frente de Heinzen, tirei o diploma do meu pai
da parede e sa.
  Continuavam a verificar tudo o que pertencera ao meu pai,
um preliminar do roubo. Continuava a ouvir a voz de Heinzen:
  -Fluoroscpio... centrfugo... lmpada de raios ultravioletas...

  Passmos o dia inteiro a fazer as malas. No apartamento de
Inga o espao era reduzido, o que nas obrigava a levarmos apenas o essencial. Anna, a 
minha me e eu sentmo-nas na sala, s escuras.
Tinha a percepo de que no voltaramos a viver naquela casa
de Groningstrasse. Parecia-me ainda ouvir a voz do meu irmo Karl
quando uma vez lhe pregara uma partida, uma partida desagradvel:
<<Rudi. Sei que me escondeste as calas. Preciso delas...>>

  - Podemos levar o piano, mam? - perguntou Anna.

  - Talvez mais tarde, Anna. O apartamento da Inga e pequeno.

  - Ento vamos tocar uma ltima pea juntas.

  A minha me e a minha irm sentaram-se ao piano e comearam a tocar o Lorelei.
  - Recordas-te de como todos cantmos isto no dia de casamento do Karl? - chegou-me 
a voz de Anna aos ouvidos.

  A msica do piano parecia erguer-se cada vez mais alta no
  silncio da casa. Havia um motivo qualquer que me levava agora
a odi-la. De certa maneira, o Bechstein e tudo o que simbolizava
mantivera-nos grudados a Berlim. ramos pessoas ricas e com
estabilidade. At tnhamos piano. Quem nos faria mal? (Na minha
actual qualidade de kibbutznik, um homem que ,praticamente nada
ganha e entrega o seu magro salrio  comunidade, apercebo-me
do pouco que as pessoas precisam para sobreviver e de como essas
coisas materiais podem ser destrutivas. No pretendo dignificar
a fome ou a misria; longe disso. Mas ser um escravo de coisas?
Definir a vida em termos de pianos e de casacos de peles? Talvez
  estivesse a a explicao - apenas parcial - do que ocasionara
  a nossa cegueira.)
  Dissramos aos nossos avs que se vestissem, fizessem as malas
  e estivessem prontos para partir, s quatro horas dessa tarde.
  Conhecia bem o av - um militar. Estaria pronto.

  Bati  porta, mas no obtive resposta.
  Entrei no quarto. - Estava s escuras e com as persianas
  corridas.
  - Chegou a hora, av - disse.

  Por momentos, pensei que estavam a dormir. No entanto,
  estavam totalmente vestidas. O av pusera o fato escuro, a camisa
  de colarinhos alto, uma gravata reta. A av tinha um vestido de veluda preto. 
Estavam deitados em cima da cama, abraadas
e com uma expresso calma nos rostos.
  Aproximei-me da mesa-de-cabeceira e vi uma garrafa com um
lquido castanho-escuro e aberta. Cheirei-a. Veio-me um odor
estranho e adocicado, semelhante a pssegos podres. Em seguida,
fui buscar um espelho ao roupeiro e coloquei-o por cima dos rostos.
No ficou embaciado. Estavam mortos.
  Praguejei contra a maldita msica, o maldito piano, e cheguei
mesmo a desejar odiar a minha me e o meu pai, por se terem
iludido durante tanto tempo. Inclinei-me sobre os meus avs
e beijei-os no rosto, interrogando-me sobre como seria capaz de dar
a notcia  minha me. Raciocinei que talvez os velhos tivessem
escolhido a nica sada possvel. E no o fizeram ss. Nesse Inverno,
depois da Kristallnacht, milhares de judeus optaram pelo suicdio.

Para eles, toda a esperana se desvanecera.



O DIRIO DE ERIK DORF


Viena
Julho, 1939

  Um dia maravilhoso. Heydrich enviou-me a Viena para conferenciar com Adolf 
Eichmann, que est  frente do programa de
<<reintegrao> dos judeus na ustria e nos novos territrios da
Bomia e da Morvia - o chamado <<protectorado>> do que outrora
foi a Checoslovquia.
  Um homem encantador. Elegante, moreno, de porte delicado
e casual, mas um olhar profundo. Declara estar bastante a par
do problema judeu. Contou-me que passou algum tempo como
agente de uma categoria qualquer na Palestina e que fala um pouco
de yiddish e hebraico.
  -Compreendo-os-disse-me.-Tm sido condicionados
a obedecer, a acomodar-se, a dobrar-se. Bom, ns os dobraremos
por inteiro.
  Explicou, no sem um toque de humor, que dirigia os judeus
da ustria (e passaria, agora, a encarregar-se dos judeus checos),
como se estivesse  frente de uma fbrica.
  - Imagine este enorme edifcio fabril, Dorf - observou
Eichmann. - Um judeu entra por uma porta com todos os seus
bens, valores e certido de nascimento. Tratamo-lo como o faramos
a um porco ou a uma galinha, e ele sai depenado, desnudado,
apenas com ordem para sair da ustria ou aceitar um bilhete para
um dos nossos campos.
  Esta conversa ocorreu no maravilhoso Prater, esse parque
amplo, maravilhoso e florido. Heydrich teve a amabilidade de me
deixar levar Marta e as crianas a passar l um feriado de Vero,
e todos desfrutmos aquela atmosfera de sonho. (Eichmann, um
indivduo sempre cauteloso, no fez comentrios sobre o problema
judeu na presena da minha famlia.)
  - Querem mais gelado? - perguntou a Peter e a Laura.
  Marta ordenou aos filhos que respondessem - <No, obrigado - ao major Eichmann. 
Obedeceram. Era uma mulher firme
quanto a boas maneiras.
  - Agora podemos ir andar no carrocel, mam? - perguntou
Laura com o rosto muito corado.
  A nossa volta, os vendedores de bales, homens a vender
moinhos de vento e flautas, vendedeiras de flores, amas empurrando
os carrinhos de beb formavam um todo colorido. Era um espectculo de uma beleza 
indescritvel. Apercebia-me agora do que levara
o Fhrer a pretender a ustria.  a Alemanha. Pertence-nos.

  - Receio que os bolos e os gelados te faam mal, se fores
andar de carrocel, Laura - respondeu Marta.
  Nessa altura Peter e Laura comearam a choramingar uma
volta no carrocel. Regra geral, ramos severos, mas aquele era um
dia especial.
  - Vo l - acedi. -  um dia das crianas.
  -E se ficarem agoniados, senhora Dorf-acrescentou
Eichmann com um sorriso-, providenciarei para que sejam

tratados.
  Quando Marta e as crianas se afastaram - sem que a minha
mulher se abstivesse de se queixar que necessitaria de um descanso
depois de as crianas se fartarem de andar d roda - Eichmann
deitou-me um olhar bondoso e compreensivo.
  - A sua mulher anda doente?
  - Um leve sopro no corao. Cansa-se facilmente, mas quanto
ao resto no tem problemas de maior.
  Interroguei-me sobre como saberia que ela estava doente.
  -  uma mulher encantadora - prosseguiu. - Sinto-me
muito satisfeito por o Heydrich o ter enviado para aqui. Berlim d
o devido valor s minhas aces. Inventrias dos comboios, armazenamento, processos. 
Quero mostrar-lhe o nosso stock de belos
servios de loua chinesa, pratas e antiguidades. Uma sala cheia
de Steinways e Bechsteins. Tudo, evidentemente, propriedade do
Estado.
  - No fazia ideia. . .
  - Oh! Himmler  muito rgido no que se refere a loteamentos e lucros privados. 
Excepto para alguns de ns, que usufrumos
os privilgios de patentes.
   um indivduo bastante misterioso, este Eichmann. Sentir,
de facto, que a apropriao dos bens dos Judeus  privilgio
daqueles de ns que pertencem aos escales superiores das SS?
No posso ter a certeza. Tem um olhar intenso e brilhante e torna-se-me difcil 
avaliar se por vezes est a ser sarcstico e trocista,
ou se a profundidade do olhar significa fervor e devoo.
  Aprendi que a lisonja constitui uma arma til a empregar com
os meus superiores, e por isso elogiei-o, repetidamente, sobre os
relatrios em Berlim. O tratamento que deu aos Judeus foi
exemplar. Agora, com a Checoslovquia absorvida, ser responsvel
por mais um quarto de milho de judeus. Eichmann  to susceptvel  lisonja como 
Heydrich. Falou com todo o -vontade sobre
os seus argutos mtodos de atrair os Judeus, de os registar.
No eram ameaados; prometia-lhes reintegrao e um tratamento
justo.
  -  com mel, e no com fel, que se atraem tanto as moscas
como os Judeus - disse Eichmann.
  Perguntei-lhe como explicava a expropriao dos bens?
Respondeu-me a rir que nada havia de mais simples. As posses
ficavam <<congeladas>> at a situao internacional acalmar.
  - Mas eles acreditam nisso? - quis saber.
  De novo lhe transpareceu no olhar o costumado brilho intenso.

  - Acreditam, porque no lhes resta outra alternativa - retorquiu. - No tm armas 
nem poder de resistncia; to-pouco
imprensa, ou advogados no Governo.
  Estive prestes a comentar que, sendo assim, se tratava de uma
questo de f ora. Com toda a <<psicologia> de Eichmann e o conhecimento que alegava 
dos costumes hebraicos, yiddish e judeus, a verdade nua e crua era que tnhamos poder 
de vida e de morte
sobre eles. No entanto, no lhe fiz referncia a este facto.

  - Pela minha parte limito-me a obedecer a ordens - observou. - Un bon soldat. Sei 
que fala francs, Dorf.
  - Como sabe?
  - Li a sua ficha. Tento dar uma olhadela aos dossiers de toda
a gente. Ajuda bastante.
  Durante uns momentos, senti-me muito pouco  vontade.

O que o levaria a ter consultado a minha ficha? Ele leu-me no
  rosto o que se passava no meu ntimo.
  - Pai, Klaus Dorf - prosseguiu Eichmann. - Padeiro em
  Berlim. Suicidou-se com a sua Luger da guerra mundial em 1933,
  depois de o estabelecimento ter aberto falncia. Segundo parece,
  em tempos, foi socialista.
  - Macacos me mordam!
  - Voc comeou a frequentar a Faculdade de Direito. ptimo
  estudante, embora um pouco apagado. Mulher, Marta Schaum,
  nome de solteira de uma famlia de Brema. Gente catlica.

  Devo ter empalidecido e comeado a suar um pouco. Sabia
  bastante a meu respeito, talvez mais do que dava a entender. No
que tivesse alguma coisa a esconder. Sentia-me, porm, um pouco
nervoso ao saber que Eichmann, o meu fantstico e generoso anfitrio, estava 
informado daquela maneira sobre mim. Para dizer
  a verdade, sentia-me um pouco assustado. Sobre aquele maravilhoso dia no Prater 
pairava uma nuvem escura.
  Eichmann deve ter-se apercebido da minha mudana de expresso. Tocou-me ao de leve 
com a bota e assegurou-me que tinha
as melhores intenes. A verdade  que as SS, na sua qualidade
de fora de polcia de segurana e operacional, tinham evidentemente de conhecer bem 
os seus membros. A Gestapo, SS, SD,
RSHA e todos os departamentos especializados - vigiam-se constantemente uns aos 
outros.
  - S assim sobrevivemos, Dorf - observou.
  Respondi-lhe que no fazia teno de sobreviver dessa maneira, mas sim por uma 
absoluta obedincia a Heydrich, o homem
mais inteligente que me fora dado conhecer.
  Nesta altura, Eichmann recostou-se na cadeira, bocejou
e naquele rosto de traos rectilneos voltou a transparecer a expresso trocista.
  - Claro, Dorf, claro. Inteligente, engenhoso, audacioso. No
entanto, como todos ns, tambm Heydrich tem o seu calcanhar
de Aquiles.
  Devo ter apresentado um ar de quem fora atingido com um
tijolo na cabea.
  - Quer dizer que no ouviu ainda os boatos? Diz se que
Heydrich tem um judeu na sua rvore genealgica.
  - No acredito.
  - Foi a tribunal, h uns anos. Subornou pessoas. Conseguiu
que se queimassem os registos.  uma coisa que o pe louco e o
motivo que o leva a seguir to  risca as polticas raciais do Fhrer.
Para matar o judeu que existe dentro de si. Pelo menos  o que
dizem.
  Demorei alguns segundos a deglutir esta chocante informao, embora com toda a 
probabilidade de ser falsa.
  - E o que dizem a meu respeito? - quis saber.
  - Oh, que  um auxiliar esforado e leal do chefe da Gestapo e da Fora de 
Segurana. Uma espcie de intelectual domstico, Dorf. Devo dizer-lhe que os 
relatrios de Heydrich se tornaram muito mais legveis desde que voc assumiu as suas 
funes.
  -Est a troar de mim, major.
  - Nem pense nisso. Adoro os vocbulos substitutos que nos
arranjou. Palavras de cdigo. - Dava a sensao de saborear cada palavra que 
pronunciava. - <<Reintegraov, <<realojamento>>, <<tratamento especial>>. Sinnimos 
fantsticas para pr de parte os
Judeus.

  Eichmann deu um estalo com os dedos e mandou v ir mais
vinho. Os criados apressaram-se a servi-lo. As pessoas conheciam-no bem. Compreendiam 
todo o poder do uniforme e das botas
pretas.
  - No h qualquer motivo para se preocupar - continuou
Eichmann - Os relatrios a seu respeito so bons. Heydrich tem
toda a gente debaixo de olho.  o seu garante para o caso de esse
boato da sua descendncia judaica vir  superfcie. Tem dossiers
sobre Himmler, Goering e Goebbels. Por vezes, chego mesmo
a pensar que tem um sobre o Fhrer.
  Nem me mexia, demasiadamente perturbado para conseguir
pensar claramente.
  Marta regressou com as crianas.
  - Foi tudo excitante de mais - anunciou. - Para eles
e para mim.
  A fim de descansarmos, sugeri que fssemos para o Hotel
Sacher (Eichmann encarregara-se de nos reservar uma suite de
luxo paga pelo partido).
  Peter nem me deixou terminar. Queria andar na grande roda.
E Laura tambm. Iniciaram a lamria que s as crianas conseguem quando esto 
excitadas de mais.

  - Est bem - acedi. - Eu levo-os. Peo-te que faas companhia ao major na minha 
ausncia, Marta. 
  Marta sentou-se. Eichmann voltou a agracia-la com uma vnia,
elogiando-lhe a beleza e atractivos. Falaram dos nosso filhos, quanto
significavam para o futuro da Alemanha, a nova Alemanha revitalizada que estava a 
reconstruir a Europa.
  Observei-os, enquanto juntavam os copos num brinde e bebiam  famlia, honra e 
ptria. Ocupei-me das crianas e consegui
esquecer as surpreendentes revelaes de Eichmann (se  que assim
lhes podia chamar) quanto ao facto de a nossa organizao no
passar de um ninho de espies internos.
  Foi, de facto, um dia feliz e maravilhoso. Talvez no tenha
contribudo muito para o progresso da minha carreira, pela ingenuidade que demonstrei 
perante Eichmann. No entanto, Marta,
com a sua simplicidade e encanto, compensou inteiramente essa
minha falha.
  Mais tarde, esta noite no Hotel Sacher, fizemos amor apaixonadamente e num total 
abandono de hesitao sobre novas
- como direi? - aproximaes, mtodos que e ambos nos surpreendeu e nos deixou 
prostrados. De certo modo, os novos poderes, que sinto usufruir na minha profisso e 
a confiana por ser
um membro da organizao, repercutem-se na nossa relao sexual.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  O meu pai fez parte de um dos ltimos grupos de judeus com
permisso de ingresso na Polnia. Ele e as pessoas com quem foi
deportado passaram uma semana, chocalhados em comboios sujos
e a abarrotar, antes de os Polacos se decidirem, relutantemente,
a aceit-los. Uma mulher morreu no comboio com um ataque cardaco. O meu pai 
prestara-lhe assistncia at ao final.
  Um sobrevivente contou-me como tudo se passou.

  Primeiramente, os judeus foram dispostos em fila do lado alemo da fronteira, 
depois de terem sado do comboio.
  Receberam ordem para percorrer a p estradas lamacentas
at chegarem  barreira. Alguns velhos desmaiaram. Os que protestavam eram 
espancadas.
  Por sorte, o meu pai estava em boas condies fsicas. Caminhava ao lado de Max 
Lowy, o tipgrafo, e de Chana, sua mulher.
  Quando a barreira pintada de vermelho e branco ficou  vista,
os guardas das SS deram ordem de paragem  coluna. Todos foram
obrigados a esvaziar os bolsos. Apenas lhes permitiram levar
dez marcos cada um.
  - Roubaram este dinheiro ao povo alemo e, agora, iro
devolv-lo. Exigimos o dinheiro em nome do povo alemo.
  Os judeus viram-se despojados de relgios e de jias. O meu
pai foi obrigado a entregar a caneta de tinha permanente, o relgio
e a carteira. O guarda das SS olhou para o caduceu que o meu pai
tinha na lapela - a serpente enrolada no bordo, smbolo do
mdico.
  - Que diabo  isso? - perguntou.
  - Sou mdico. Foi um presente da minha mulher quando
me formei pela Escola Mdica.
  O guarda das SS arrancou-lho.
  - Os Polacos no do importncia aos mdicos. So quase
to animais como os Judeus.
  Por qualquer motivo, o meu pai assumiu o papel de lder.
A maior parte destes judeus polacos eram pessoas pobres e sem
educao. Viraram-se, naturalmente, para ele naquela altura de
sofrimento. Conduziu-os atravs dos campos cobertos de neve

- estava um dia de intenso frio - e da barreira, enquanto os
guardas e os oficiais da Imigrao polaca, embrulhados nos seus
capotes com capuz, inspeccionavam os documentos.

  - Papis em ordem, prova de cidadania - gritou um capito. - Como se precisssemos 
de mais estes malditos judeus!
  Reporto-me a este incidente - o desprezo e o dio dos Polacos - e a outros 
incidentes muito mais brutais e envolve-me uma
incapacidade aptica de compreender. Os Alemes tinham praticamente um dio to 
grande aos Polacas como em relao a ns.
Hitler no fazia segredo das planos que lhes reservava. Iriam ser
escravos, um furo acima dos Judeus, na hierarquia de organizao
nazi. Poderia pensar-se numa comunho de interesses frente  opresso. Mas no. Nem o 
mnimo de piedade ou de compreenso.
  Quando, finalmente, todo o peso do Exrcito alemo, as SS,
os assassinos e carrascos oficiais atacaram a Polnia, os Polacos
ainda tiveram tempo e energia pra odiar os Judeus, para nos
  atraioar e ficar de lado, passivos e indiferentes, enquanto ramos
sistematicamente destrudos. Ainda no consigo divisar causas.
Tudo se passou como se, no meio de uma dura partida de futebol,
  alguns dos jogadores do grupo derrotado se virassem contra os
seus membros mais fracos e comeassem a espanc-los.
  Decorridas horas de espera, investigaes e interrogatrios,
o ltimo grupo de judeus obteve permisso para pisar territrio
polaco. Numa bifurcao da estrada, h dias que os amigos e os
parentes dos desterrados esperavam, a tremer e aterrorizados, sem
saber se voltariam a ver os entes queridos.
  Lowy e a mulher seguiam na peugada do meu pai:
  - Tem famlia aqui, doutor? Eu e a Chana. . . no conhecemos ningum.

  - Um irmo - respondeu o meu pai.
  E Moses estava  espera do meu pai. Era solteiro, o irmo
do meu pai, um homem calmo e contemplativo que outrora pensara em estudar para 
rabino, mas par questes de ordem econmica se vira forado a tomar conta da farmcia 
do meu av, no
bairro judeu de Varsvia.
  Os irmos olharam-se mas no choraram. O meu pai adquirira alguma da reserva da 
minha me, da sua absoluta calma e dignidade. Assim, os dois homens, que no se 
tinham visto desde
o casamento de Karl, em 1935, limitaram-se a um estudo mtuo.
A respirao formava nuvens na atmosfera gelada. A volta deles,
as pessoas choravam, abraavam-se, davam graas, amaldioavam
os nossos inimigos.
  - Ests... ento aqui! - exclamou Moses.
  - Sim, de regresso  ptria.
  - Uma viagem agradvel, Josef?
  - Nada que se assemelhe ao Oriente-Express. Andaram connosco aos trambolhes de um 
lado para o outro, durante oito dias.
Julgo que somos os ltimas que os Polacos vo deixar entrar.
  O dilogo casual terminou subitamente e os dois homens abraaram-se a chorar. 
Moses, embaraado - a minha me costumava
dizer que elevava a timidez ao infinito-, levou a mo aos olhos:
o p. A praga da Polnia.
  - Em Janeiro, Moses? - gracejou o meu pai. - No tenhas
vergonha por chorares.
  - No me envergonho, s que as lgrimas de nada servem.
Acho que o melhor ser pormo-nos a caminho. O Exrcito polaco
recusou-se a deixar que troxssemos transporte. Estamos a quilmetro e meio da 
estao de caminho de ferro.
  O cortejo de pessoas pegou nos sacos e nas malas e comeou
a seguir o meu pai e o meu tio. O meu pai contou-lhe as nossas
tragdias. O Karl na priso. O consultrio fechado. Perguntou
se a mulher fizera algum telefonema para Varsvia. Ao ver que
o meu tio hesitava, apercebeu-se de que tinha ms notcias para
lhe dar.
  - Que se passa, Moses?
  - Os Palitz morreram, Josef. Os velhos. Suicidaram-se.
  O meu pai cambaleou, ofegante, e engolindo em seco. Uns
velhos to dignos... Na sua qualidade de homem dotado de uma
infinita pacincia, sempre cheio de simpatia pelos velhos, doentes
e pobres no lhe era passvel entender a ilimitada violncia que
o atingia. Estava preocupado com a minha me, com Anna
e comigo, segundo confessou mais tarde a Moses. E as garras da
dvida comearam e roer-lhe as entranhas: talvez se estivessem
a preparar coisas muito piores para a famlia que deixara em Berlim. Talvez o 
suicdio dos Palitz fosse um agouro, um pressgio.
  Atravessaram, penosamente, campos cobertos de neve e estradas com camadas de gelo. 
Alguns camponeses vieram espreit-los.
Um velho desmaiou. O meu pai prestou-lhe assistncia e pediu a um
fazendeiro polaco que o deixasse passar a noite na cabana aquecida.
O fazendeiro recusou. O homem teve de ser levado em braos para
a estao.
  Moses tentou mostrar-se optimista. As coisas acabariam por
melhorar. Tinha conseguido que o meu pai comeasse a trabalhar
em Varsvia no Hospital dos Judeus. Tambm havia a hiptese
de partilhar um pequeno apartamento, caso o meu pai no se
importasse de viver por cima da loja.
  - Vivi por cima de uma at aos meus dezanove anos, Moses.

  Moses trouxera po, salsichas e queijo. Foram mastigando
a caminho da estao e dividiram o pouco que tinham com Lowy
e e mulher.
  Quando o meu pai apresentou os Lowy a Moses, o tipgrafo
gracejou:
  - Mas que maneira esta de judeus se conhecerem, numa
estrada suja da Polnia! No assinalam o caminho com marcos
  ,
mas com anti-semitas.
  Em seguida, perguntou se os poderia acompanhar at Varsvia. Nem ele nem a mulher 
tinham conhecimentos. Eram naturais da Carcvia, mas h muito que as famlias tinham 
partido.
  - No pretendo caridade. Nem um cntimo - esclareceu
Lowy. - Sou um trabalhador habilitado. Um tipgrafo. Vejam as
minhas unhas. H quarenta anos de tinta de impresso debaixo
delas. Contudo, seria pelo menos mais fcil se estivesse com pessoas amigas.
  - Varsvia no  um paraso - avisou Moses.
  - H muito que desisti do paraso - retorquiu Lowy.
- Basta-me uma cama e uma chvena de ch. E talvez arranje
trabalho de tipografia.
  Moses simpatizou imediatamente com ele.
  - Tenho muito prazer em que me acompanhe e ao meu
irmo, senhor Lowy.
  Continuaram a caminhar, cansados, gelados at aos ossos, na
direco do comboio para Varsvia.

  Em Agosto de 1939, h meses que a minha me, Anna e eu
vivamos no que tinha sido o estdio de Karl. Inga, sempre boa
e afectuosa, mudara-se para o apartamento dos pais, contguo ao
nosso. Dormia na cama de Hans. Ele estava em manobras, algures
a leste.
  Tnhamos afastado para um dos cantos do estdio o cavalete
e a mesa onde Karl pintava e colocramos os esboos e as telas
atrs do armrio. A minha me partilhava o div com Anna.
Quanto a mim, descobrira um antigo saco-cama que usara no campismo e dormia no cho.
  Da casa de Groningstrasse a minha me trouxera mais do
que suficiente material de cozinha, louas e coisas como candeeiros
e tapetes, para tornar o ambiente mais confortvel. H anas que
andara a levantar dinheiro das vrias contas bancrias, e antes da
partida do meu pai ele revelara-lhe que conservara grande parte do rendimento em 
dinheiro. De momento, no tnhamos, portanto,
dificuldades financeiras.
  O apartamento situava-se num bairro de trabalhadores cristos
e procurvamos sair  rua o menos possvel. Inga oferecia-se voluntariamente para nos 
fazer as compras. O pior de tudo era a terrvel
monotonia em que vivamos.
  Algumas vezes dava uns pontaps na bola, sozinho, no parque
prximo ou corria alguns quilmetros para me manter em forma;
mas sentia-me inquieto, impaciente e, para ser verdadeiro, um
pouco assustado. Ocupava-me bastante a cozinhar e a limpar
o pequeno estdio. No liceu, tinha sado com uma colega. Uma
vez tentei localiz-la; a famlia desaparecera. Ningum me soube
informar para onde tinha ido.
  No levvamos uma vida fcil, mas sabamos que muitos
judeus estavam em piores condies, inclusive o meu irmo Karl.
Dava a sensao de que no tnhamos futuro, de que no havia
  sada. Era o que me assustava, embora a minha me mantivesse

a calma que a caracterizava. Ainda a consigo recordar nitidamente,
  atando o lao do avental e afastando da testa uma madeixa grisalha, quando comeava 
a preparar a hortalia para o nosso jantar:
  sopa feita com alguns ossos. Passara muito tempo desde aquelas
  nossas belas refeies na antiga casa.
  Se a minha me andava aterrorizada ou roda pelo desgosto,
  conseguia na maior parte do tempo disfarar na perfeio. No
  era pessoa para se lamentar, nem derrotista. Contudo, apercebi-me
  de que se estava e operar uma mudana em Anna. Fora noutros
tempos uma jovem viva, alegre e dinmica, e agora passava horas
calada, amuada e no reagia quando <<puxava>> por ela.

  - Odeio isto aqui - costumava dizer-me, quase todas as manhs, quando nos 
levantvamos para utilizar a casa de banho por
  turnos e tentvamos inventar maneiras de ocupar o dia.

  Um dia, Heinz Muller foi visitar a famlia Helms. Era, agora,
  sargento das SS, embora desconhea em que ramo. Inga contara-nos
  que outrora esperara casar com ela e tinha pedido a sua mo
  ao pai. Detestava-o. Muller sentia-se encantado por o meu irmo 
  - e seu rival - estar na priso, mas via-se obrigado a agir prudentemente diante de 
Inga.
  Decorria um dia quente de Vero e tanto a porta do apartamento dos Helms como a 
nossa estavam abertas. Chegou-me
  o som de vozes, enquanto estava deitado no div a ler a pgina
  dos desportos pela dcima primeira vez.
  Inga insistia com Muller para que descobrisse para onde
  tinham levado Karl. Sabamos que muitos dos judeus presos depois
da Kristallngcht tinham simplesmente desaparecido. Alguns haviam
sido assassinados, executados, sob falsas acusaes.
  - Sou apenas um sargento - desculpava-se Muller. - No
posso meter o nariz nos arquivos.
  - Mas saber onde ele est. . .
  - Inga! -- interferiu o pai dela. - O Muller no pode arriscar-se pelo...
  - No receies as palavras, pap. O meu marido judeu.
  Muller hesitou e, em seguida, disse:
  - Suspeito de que esteja em Buchenwald, uma priso de
civis. Mandaram para l a maior parte das de Berlim.
  - Posso escrever-lhe? Posso v-lo?
  - No tenho a certeza. So muito rigorosas. Uma carta talvez. Mas, na minha 
opinio, o melhor ser... esquecer. Deixe-o
entregue a si prprio. O seu pai est cheio de razes. No se
prejudique.
  - Um conselho sensato - comentou Helms.
  - Concordo com o Muller, querida - disse a me. - Talvez
tenha sido melhor assim.
  - Quando penso naquela me pretensiosa, sempre a dar-se
ares de pessoa importante, e no mdico, que no passava de um
nojento judeu polaco! - acrescentou Helms.
  - Pare com isso! - gritou Inga. - No tem vergonha! No
permito que fale dessa maneira sobre o meu marido.
  Fez-se um silncio momentneo, apenas interrompido pelo
resmungar em voz baixa do pai e o choramingar da me.
  Inga era uma rapariga dotada de uma fora e um sentido de
justia enormes. Tais qualidades, aliadas ao amor que tinha por Karl, tornavam-na uma 
mulher espantosa. Talvez uma palavra
sobre a maneira como se conheceram sirva para um melhor esclarecimento a este 
respeito. Karl era estudante no Instituto de Arte,

como j mencionei, onde Inga, uma jovem bonita, e muito <<ariana>>,
trabalhava como secretria do director. Quando os empregados da
escola - funcionrios administrativos e professores - pediram um
aumento de ordenado, no concedido, foi Inga Helms quem liderou
a recolha de assinaturas e as reunies e estabeleceu os planos de
greve.
  Karl recordava-se de a ter visto pr=se de p numa das reunies e exigir que 
estivessem preparados para fechar a escola, se
necessrio. Declarou no ser <<vermelha>>, socialista, e pouco se interessar por 
poltica. Contudo, sabia estar dentro da razo. Os professores - na totalidade 
membros do partido - ouviram-na (a
greve foi proibida, mas receberam aumento de ordenado).
  Era dotada dessa qualidade rara que se encontra em algumas
pessoas: um sentido de justia intrnseco, quase biologicamente
inserido. Depois da reunio sobre a greve, Karl, um indivduo
tmido e muitas vezes pouco eloquente, viu-e sair sozinha. Concluiu que no tinha 
namorado e convidou-a para tomar caf com
ele. Apaixonaram-se quase de seguida. Karl contou-me que, apesar
da sua descendncia humilde, possua uma compreenso enorme
das pessoas e dos motivos e falava bem.
  Argumentou que era apenas uma secretria, nada percebia
de arte e no podia discutir Picasso ou Renoir com ele. Karl rira.
Teve a audcia de lhe pegar na mo quando a acompanhou a casa.
  - S precisas de te recordar de uma coisa - disse-lhe.
-  uma frase do crtico Berenson. O propsito da arte consiste
em incentivar a vida. - Beijou-a impulsivamente. No restavam
dvidas de que acabariam por casar.
  Ao ouvir o tom elevado em que o pai falava, recordava-me
destas suas qualidades.
  - ns  que devemos estar zangados. Casaste com um e meteste c a famlia inteira. 
A viverem mesmo ao lado.
  - Cale-se! - explodiu Inga.
  - No  nada aconselhvel esconder judeus - declarou Muller num tom calmo, 
semelhante ao de um conselheiro de famlia.
- Pode dar mau resultado.
  - Peo-lhe que me diga, Muller. Ser possvel mandar uma
carta? Subornar? O que consegue fazer por mim?
  - Subornar? Ouvi falar em casos de judeus ricos que o fizeram de vez em quando por 
um preo elevadssimo. Mas um artista
pobre como o seu marido nunca conseguiria dinheiro suficiente.
  - Ajude-me. Por favor. Ajude-me.
  - No arrisque a pele por ela nem pelo judeu com quem
casou, Muller - interferiu o pai. - J basta que estejam a viver
aqui ao lado.
  - Vocs todos enojam-me - exclamou Inga.
  O pai estava enraivecido. Como todos os fracos, perdia
a cabea e gostava de gritar com os filhas:
  - Quero essa cadela judia daqui para fora. E os filhos
tambm.
  - No. So a minha famlia. E, algumas vezes, chego a pensar que so mais da minha 
carne e do meu sangue do que vocs.
  Ouvi uma porta a bater.
  Muller estava a tentar acalmar o pai de Inga.
  - Bom, no se pode dizer que no tenha sido avisada. Uma
bonita rapariga ariana misturada com eles. Com os diabos! Se ao
menos a tivesse forado a adiar o casamento. As leis de Nuremberga j estariam 
emitidas e tudo seria ilegal.

  - Muller. . . como nosso velho amigo.. . no dir nada sobre... - estava a dizer a 
me de Inga.
  - Os vossos parentes hebraicas? Nem uma palavra.

  Eu estava e ouvir msica no estdio. Anna fazia os trabalhos
escolares. Agora que se via impossibilitada de frequentar qualquer
liceu e todas as instituies judaicas tinham sido fechadas, a minha
me fazia as vezes de professora particular, dando-lhe livros para
ler e exerccios para fazer. Poderia ter aproveitado a ocasio
ara me cultivar; mas estava demasiado irritado e perturbado para
aprender. Alis, estudar nunca foi a minha especialidade.

  Na rdio, o locutor citava o ltimo discurso de Hitler. A pacincia do Fhrer em 
relao aos Polacos estava esgotada. Estes
mostravam-se arrogantes e revoltosos e teriam de lhe responder
por isso. Avisou a Frana e a Inglaterra de que no se metessem
no assunto.
  - Cabe-te a vez, Polnia - comentou Anna.
  -  de loucura - concordei. - Ningum o acredita quando
diz que vai fazer estas coisas. Uma vez, dei uma vista de olhos
pelo Mein Kampf. Porque  que ningum o levou a srio sobre
o que declarou a respeito dos Judeus e dos Eslavas?
  A minha me escrevia uma carta, com a esperana de que
o meu pai a recebesse em Varsvia. Estava um dia quente, mas
tinha posto um xaile. Dava a sensao de estar mais velha e tinha
o rosto plido.
  - As pessoas enganam-se a si prprias quando tm
medo, Rudi.
  - Como ns - observou Anna. - Somas tanto de criticar
como esses polticos estpidos que no deixam de ceder.
  Inga apareceu  porta e fez-me um gesto com a cabea. Sa
de junto da janela e fui ter com ela ao patamar.
  - Esse porco do Muller pensa que o Karl est em Buchenwald. Vou l.
  - No te deixaro aproximar dele.
  - Tentarei.  meu marido, Rudi. precisa de mim.
  - Muller falou em qualquer hiptese de o libertarem?
  - No. Mas seja como for, vou.
  Contemplei o rosto comprido e bonito. Via-me forado a admir-la. Podia ter-se 
divorciado de Karl, ignor-lo, servir=se da sua
situao de ariana para fugir a toda esta embrulhada.
  - Tambm vou - declarei.
  - Comigo?
  Respondi-lhe negativamente. No estava a favorecer a minha
me nem Anna estando escondido no apartamento. Ou estaria?
Agora, era eu o homem da famlia. Contudo, confessei a Inga estar
convencido de que seramos presos e deportados. Em Berlim, ainda
existia um conselho de judeus, mas a sua voz ia-se ouvindo menos de dia para dia; 
estvamos isolados, apertados no cerca. Garanti
que nunca deixaria que me apanhassem. Pelo menos, ningum me
apanharia vivo.
  <<Como Karl foi?>>, era a pergunta que lhe lia nas olhos. Contudo, no pronunciou 
as palavras e lamentei a minha disparatada
bravata. Como podia estar certo do que o faria? No era ningum
para poder estar a vangloriar-me da coragem que ainda no provara. Ela desafiara a 
famlia, casara com um judeu, mantinha-se ao
lado dele. Perguntei-lhe porqu.
  - Amava-o - respondeu.
  - Tinha de ser mais alguma coisa - argumentei.
  - Respeito. Afecto. O Karl  um homem bom, incapaz de

fazer mal a algum. Assisti a muitas rixas na rua, mesmo aqui no
bairro. Vermelhos, nazis, todos. O meu pai regressava a casa ensanguentado e os 
inquilinos do prdio gritavam e discutiam. Karl
constituiu uma revelao para mim. Desconhecia existirem pessoas
que no compreendiam a crueldade nem a violncia. Que importncia tinha ser judeu? 
Sempre fui dona e senhora dos meus sentimentos. - Sorriu. - J sou veterana na fuga, 
Rudi. Fugi de casa
duas vezes, quando era mida, para me escapar deste lugar terrvel.
Nunca cheguei, porm, muito longe.
  Quis saber se ela achava uma cobardia que abandonasse a minha me e Anna. Pensou 
uns momentos e respondeu-me que no.
Cuidaria delas e era uma melhor protectora do que eu. Eu estava
marcado e, mais tarde ou mais cedo, apanhar-me-iam.
  Agora que me recordo deste dilogo, pergunto a mim mesmo
se deveria ter ficado. Tamar assegura-me que no poderia ter
tomado uma deciso mais sensata. Nunca conseguiria arrancar a
ninha me nem a Anna ao destino que as esperava. Apenas teria
sido mais uma vtima.
  Voltei ao estdio, na companhia de Inga.
  - De que estavam a falar? - quis saber a minha me. Ser
que ouvi o nome de Karl?
  - No, mam - respondeu Inga.
  - Gostava que o Karl estivesse connosco - interferiu Anna,
erguendo os olhos do livro: - E o pap tambm. No seria to
mau se estivssemos juntos.
  - O pap est bem - assegurou a minha me. - Na ltima
carta, dizia que as coisas no corriam mal em Varsvia. -Dificilmente consegui 
dissimular a minha irritao ante a sua cegueira.
Tudo ia pelo pior na Polnia. - O pap est a trabalhar no hospital como director 
mdico adjunto. Toda a comunidade judaica
o admira e respeita.
  - Pergunta-me as datas, Rudi - pediu Anna.

  Sentei-me na frente dela, tendo na mo o caderno onde escrevera o trabalho de casa 
com a sua caligrafia clara e regular.
  Enquanto lia as datas, pensava: <<Aqui tm judeus, preocupados com a Histria, a 
aprender palavras e lies e a ler livros, ao
mesmo tempo que todo o seu mundo se desfaz numa nuvem de
fumo.>> Talvez estivesse, de novo, a ser duro de mais para com
o meu prprio povo. Que mais sabamos para alm de aprender
  ,
tratar dos nossos assuntos, fazer negcios e esperar que o mau
tempo acabasse?
  Quando comecei a ler, o locutor da rdio mencionava as novas
leis referentes aos Judeus. Deveria ser usada a estrela amarela. No
nos poderamos servir de transportes pblicos. Nenhum judeu poderia beneficiar de 
assistncia social ou qualquer outro servio
governamental. As sinagogas seriam encerradas.
  - Vai para o diabo, filho da me! - gritei para o rdio.
  - Isso no ajuda nada, Rudi - interferiu a minha me com
uma calma que me enfureceu.
  - Ajuda-me a mim.
  - Vais fazer-me as perguntas, ou no? - irritou-se Anna.
  Como sentia pena da minha irm e da minha me... Achavam
que a vida iria continuar: a escola, a educao, a famlia.
  - Est bem. Est bem. 1521 ?
  - Conclio de Worms.
  E a voz na rdio continuava a falar: <<Todos as documentos

e passaportes devem ser marcados com um J. .. >>
  -1618? - continuei.
  - Incio da Guerra dos Trinta Anos - gritou Anna.
  Sim. Sabamos, de facto, Histria. mas no compreendamos
a Histria que se estava a fazer naquele momento.
  <<A posse de armas por judeus>>, arrastava-se a voz no rdio,
<<ser considerada crime capital e pode ser.. . >>
  -1776.
  - Revoluo Americana.
  <Quanto  estrela amarela>>, prosseguia o locutor, <dever
sempre ser usada, e quando tal no acontecer significar ofensa ao
Governo. . . >>
  -1814? - perguntei, sentido o desejo de aniquilar a voz
que saa do rdio.
  - Derrota de Napoleo.
  <<As lojas de posse dos judeus devem ser registadas e os proprietrios devem.. . n
  Dei um salto da mesa e desliguei o aparelho.
  A minha me mostrou-se indiferente. Ou seria a sua maneira
de nos dar coragem manter esta farsa, e este seu pequeno drama
a sua forma de dar a entender que tudo correria bem se mantivssemos a calma e 
deixssemos passar a tempestade?
  Ergueu o olhar da carta que estava a escrever. O rosto outrora
fresco e sem rugas afilara. Comia pouco. Tinha olheiras. Apercebia-me de que punha de 
parte a melhor comida para Anna e para
mim, subornava os comerciantes locais, governava as nossas pequenas economias e 
preocupava-se com a nossa sade.
  -  importante que continues com as tuas lies, Anna - observou. - Amanh 
ocupar-nos-emos de lgebra. Apesar de tudo,
tens de te preparar ;para a vida que te espera. E garanto-te que
ters um bom futuro. Quanto a ti, Rudi, no te faria mal nenhum
leres um livro de vez em quando.
  Reparei que Anna tinha os olhos cheios de lgrimas. Fiz-lhe
uma festa na mo, sem pronunciar palavra.

  Nessa noite, quando todos estavam a dormir, enchi uma mochila com artigos de 
toilette, alguma roupa interior e outras coisas.
Quando era mido fizera muito campismo e praticara muita vida
ao ar livre. Karl nunca apreciara esse tipo de desporto; era sempre mordido pelos 
mosquitos ou escolhia ervas venenosas. Tinha uma
faca de mato que o meu av me oferecera e juntei-a ao restante.
  No pronunciara, evidentemente, uma palavra sobre isto
 minha me ou a Anna, mas, uma semana antes, tinha ido falar
com um indivduo que trabalhara com Lowy, o tipgrafo. Era gravador, chamava-se 
Steinmann e conseguira arranjar-me um bilhete
de identidade falso. A fotografia era minha, mas tudo o mais forjada. O documento 
fazia-me passar por um estudante livre do
servio militar devido a uma lcera.
  Eram duas da manh quando fui dar um beijo  minha me
e a Anna, que dormiam profundamente. Fazendo o menor rudo
possvel, pus a mochila ao ombro e avancei at ao hall, com as
botas de alpinista caladas.
  Inga sabia da minha partida. Saiu do apartamento, em roupo:
  - Ests ento decidido!
  - No posso ficar. No as posso ajudar. Talvez consiga salvar
a pele e voltar para as levar comigo... no sei.
  - Para onde tencionas ir?
  - Para qualquer stio onde no me descubram.

  - Como vivers, Rudi?
  - Raubo. Mentira. Luta.
  - Toma isto - ofereceu, estendendo-me um rolo de notas.
- D-te pelo menos para alguns dias.
  Agradeci-lhe. Hesitmos um momento, num estudo mtuo de
expresses. Apercebo-me agora de que ramos muito parecidos.
Teimosos, ressentidos por nas empurrarem, prontos a resistir, a
recusar aceitar sem protestos o que nos impunham. Os meus pais
nunca me chegaram a compreender. <<Um mutante>, costumava
dizer o meu pai. <Um intruso nesta famlia de amantes da literatura e das artes.>> 
(Dizia-o por brincadeira e sentia tanto afecto
por mim como por Karl ou por Anna.) Do mesmo modo, Inga,
que desde criana assistia a cenas de sangue e de violncia
- o bairro em que habitava foi dos mais afectados pelas lutas de
rua das anos vinte e trinta -, criara um pavor ntimo, um dio,
pela violncia e pelas que a praticavam.
E nada disto diminura a sua capacidade de compaixo e de
generosidade. Interroguei-me com um sentimento de medo e solido como conseguiria 
Karl aguentar a priso sem e fora dela
a apoi-lo.
  - Tens de nos escrever, Rudi - disse. - A tua me sofrer
um choque, mas vou tentar explicar o que te levou a partir.
E  Anna.
  - Durante uns tempos no escreverei. Diz  minha me que
no se preocupe comigo. Protege-a. Cuida da Anna.  uma mida
difcil s vezes, mas gosta de ti. Tanto como todos ns.
  Beijmo-nos como irmo e irm.
  - Se vires o Karl, assegura-lhe que estou bem. Diz-lhe que
os irmos eiss se voltaro a unir... em breve. Talvez a minha
me tenha razo. Pode ser que a situao se resolva. Acabaro por
concluir que nas espancaram o suficiente, roubaram tudo o que
temas, e desistiro. Adeus.
  Voltou a beijar-me e ainda a ouvi dizer:
  - Adeus, irmozinho.
  Desci as escadas, atravessei o ptio e sa para a rua escura.
Tinha preparado uma srie de mentiras para o caso de me deterem.
Os meus planos eram o de me meter num comboio de mercadorias, saltar de um comboio 
para outro e caminhar para sul. Para
qualquer stio menos para a Alemanha.



O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
Setembro, 1939

  Polnia caiu em vinte dias.
  No entanto, o xito militar no  tudo o que procura  mos. A segurana das terras 
conquistadas, a purezrd raci
dessa parte da Polnia que ser incorporada na Alemanha, as polticas contra os 
Judeus, os Eslavos e outros no <<Governo-Geral
so factos que continuam numa situao bastante confusa.
  O nosso Executivo continua a receber relatrios incomodativas sobre as aces 
contra os judeus da Polnia.
  No que as aces sejam contra a poltica - Heydrich afirma
que estamos a fazer uma guerra dupla: uma contra os exrcitos
inimigos, outra contra a conjura judaica -, mas sim problematicamente, ao acaso, 
desorganizadas e descontnuas.
  As barbas e patilhas desses estranhos judeus ortodoxos do
Leste parecem pr os nossos homens fora de si. Cortam-nas,
arrancam-nas, queimam-nas.
  Os judeus so metidos como rebanhos dentro das sinagogas
e os edifcios incendiados.
  Em Bielsko, amarraram judeus num ptio de uma escola
judaica, enfiaram-lhes tubos de borracha na boca e ligaram a gua
at lhes rebentarem as estmagos.
  A violao acontece frequentemente, embora todo o soldado
que se entregue a um prazer deste tipo corra o risco de acusao
de conspurcao da raa.
  Despem as mulheres judias e obrigam-nas a danarem nuas
  pelas ruas, tanto para divertimento dos Polacos como das nossos
  homens das SS.
  Houve uma cidade em que os judeus foram levadas todas nus
  desde os banhos at um matadouro, e a queimados vivos.
  Um dos relatrios informa - estou a pedir a algum que faa
  a confirmao, embora no veja motivo ,para no acreditar - que
  numa aldeia polaca decapitaram trs rabis e expuseram as cabeas
  na montra da loja principal, cujo proprietrio era, evidentemente
  ,
  um judeu.
  E assim por diante. Tudo desorganizado e sem mtodo
  ,
  a bel-prazer de qualquer comandante local das SS.
  - As Foras Armadas mostram-se um tanto aborrecidas  observei a Heydrich, depois de 
ler as notcias matutinas sobre
  a Polnia.
  - No percebo porqu. O prprio Keitel, esse desavergonhado, passou um comunicado 
ao seu glorioso exrcito, afirmando
  que os Judeus so parasitas venenosos, que constituem uma praga
para o Mundo. Recordo-me das palavras exactas do marechal-de-campo: <<A luta contra o 
judasmo  uma luta moral pela pureza
e sanidade da humanidade criada por Deus. 
  - No interprete mal as minhas palavras, senhor - apressei-me a retorquir. - As 
Foras Armadas no se importam com as
aces contra os Judeus. Trata-se da deteriorao do poder militar
nas reas ocupadas. Os nossos homens tomam a iniciativa, recrutam

o equipamento e do ordens.
  - Bom. As Fora  Armadas tero de aguentar. Que conquistem e faam ocupaes. Ns 
trataremos dos Judeus e de outros
vermes.
  No entanto, apercebi-me de que ficara perturbado.
  O esprito dinmico e inventivo de Heydrich elaborou nas
horas seguintes uma nova frmula para tratamento dos judeus
da Polnia. Sero empurrados dos territrios que conquistmos
para lugares como Lublin e Varsvia, para, utilizando as suas
palavras, apodrecerem nas suas prprias comunidades. E os prprios Judeus dirigiro o 
movimento, a organizao desses enormes guetos. Os conselhos judaicos, constitudos 
pelos membros mais
idosos e influentes da comunidade, faro o trabalho para ns.
  - E se recusarem?
  - Os Judeus no recusam. Cooperam. Esto aterrorizados,
desarmados e sem aliados.
  A Polnia, de acordo com o desenvolvimento do plano de
Heydrich, ser um local de desembarque das judeus da Europa.
No ser apenas para os judeus polacos mas tambm para todos
os que esto na Alemanha, na ustria, na Checoslovquia.
  Pediu-me que convocasse todos os colaboradores para uma
importante reunio amanh - 21 de Setembro -, a fim de formular planas exactos quanto 
ao tratamento dos Judeus. Tiroteios
ao acaso e enforcamentos no so processo de resoluo de uma
campanha em massa contra um inimigo subtil.
  Comeo a conhecer bastante bem a maneira de raciocinar
do chefe, e de vez em quando tento analis-la em pormenor.
  - Talvez o nosso problema, general, seja o de que, relativamente aos Judeus, poucos 
dentro ns tm uma ideia clara do objectivo final.
  - Fale, Dorf.
  - Estou a pensar... na eliminao da sua influncia na
Europa. No Mundo, expressando-me melhor.
  - E o que significa essa eliminao? Esterilizao? Desterro?
Empobrecimento? - Fez uma pausa. - Extermnio?
  - No sei. Refiro-me  ltima noo. Foi apenas sugerida.
  - Faa uma reviso das palavras do Fhrer, Dorf. Leia nas
entrelinhas.
  - Sim, mas a aniquilao de qu? Oito milhes de pessoas
ou mais... Parece-me uma misso quase impraticvel.
  Sentia-me a tremer por dentro.
  -  um argumento possvel - comentou Heydrich -, mas
quando houver a reunio de amanh faa recuar a ideia para as
profundezas do seu crebro. Falarei sobre algo chamado <<medidas
de planeamento geral> com um objectivo ltimo, em oposio
a f ases que nos levaro a esse objectivo.
  Com todas as suas qualidades de prepotncia organizadora
  ,propaganda, distribuio elaborada de operaes policiais, Heydrich
estonteia-me um pouco, devido  sua verborreia labirintuosa
(embora tenha a sensao de que aprendeu um pouco comigo).
  - Com que preciso... com que nitidez falar na reunio
de amanh? -perguntei: -Pode arriscar-se a interpretaes
erradas.
  - Oh, Dorf! - riu Heydrich com gosto. - Algumas vezes
comporta-se como se ainda fosse um estudante de Direito, Certifique-se de que 
Eichmann estar presente amanh. Ele compreender-me- perfeitamente.
  Fiz um aceno de concordncia, tentando digerir o que me
acabara de ser dito:
  - Talvez qualquer quarentena de moderao fosse uma boa

forma de comeo.
  Heydrich sentou-se, colocou as pernas em cima da secretria
  ,
cruzou-as e ergueu um dedo na minha direco:
  - Diga-me uma coisa, Dorf. Acha que os Judeus servem
um objectivo?
  - Objectivo?
  - Que percentagem do que lhes fazemos  por convico
e quanta  por oportunismo?
  - No estou certo. Porm, quanto  convico, o Fhrer
  ,
Himmler, o senhor, no fizeram segredo dos vossos pontos de vista.
  - Contudo... passar por tudo isto s para os eliminar?
  Fez uma pausa na palavra <<eliminar. Todos estamos e criar
o hbito de nos servirmos de palavras de cdigo, de rodear a verdade. Pergunto a mim 
prprio porqu. Se o que planeamos so
actos morais (como afirma Keitel), se o cristianismo se revelou
indulgente, sculos a fio, relativamente ao dio para com os Judeus,
porque nos mostramos to relutantes quanto a uma exposio clara
dos nossos verdadeiros planos? A verdade  que estamos e lutar
contra uma praga, um inimigo mundial, uma conspirao. Pelo
menos, Hitler assim o afirma.
  Heydrich continuou. Sendo um orador excelente e de uma
extrema verbosidade, expandia-se, agora, sobre a sua tese.
  - O anti-semitismo no s unifica o povo alemo como servir para cimentar toda a 
Europa numa nica pea sabe nosso
comando, assim o diz. Na maioria das pases europeus proliferam
movimentos antijudaicos, que serviro para nos dar fora. A Croix-de-Feu em Frana, o 
Arrow Cross na Romnia, vrios partidos
fascistas nativos na Hungria, Eslovquia e Crocia. Locais como
a Ucrnia e os estados blticos, que se encontram sob o domnio
bolchevista, abundaro em sentimentos pr-alemes, e esses sentimentos sero tanto 
mais fortes quanto mais lhes mostrarmos os
nossos pontos de vista em relao aos judeus que os tm oprimido.
A maior parte do que lhes vamos impingir no passa de mentiras,
Dorf - continuou, piscando o olho -, mas mentiras teis. Depois
de incentivarmos as suas paixes anti-semitas, de forma a ajudarem-nos a resolver o 
problema judaico, sero eles os prximos na bicha.
  Heydrich prosseguiu com a exposio do plano:
  - Os alicerces j foram escavados a nosso favor: dois mil
anos de doutrina crist, apoiada por padres e telogos eminentes,
provando que o Povo Eleito se resume aos assassinos de Cristo,
deicidas, envenenadores de almas, descendentes do Diabo, derramadores do sangue de 
crianas crists para as suas celebraes de
Pscoa. Uma lista infindvel de velhas ideologias, muitas delas
disparatadas, mas extremamente teis.
  Discutimos, seguidamente, problemas mais imediatas. Os assassnias e fogas postos 
ao acaso teriam de acabar. As SS teriam a seu
cargo um vasto movimento para leste dos Judeus. Apenas os bolchevistas, criminosos, 
resistentes e lderes potenciais - rabis, profissionais, etc. -, sero executados. A 
grande massa dos Judeus
ficar de quarentena em cidades polacas como Lublin e Varsvia.
De facto, os <<transportadores de germes sero isolados>>.

  Sugeri que chamssemos a estas reas <<territrios autnomos
judeus>>. Heydrich aprovou a designao e fez-me um elogio.
  - Soar como se fossem comunidades permanentes - observei. - Contudo, como diz, 
ser apenas uma fase para.. .

  - Regularizao do problema judeu - riu, de novo. - Cus
  ,
Dorf! Estou a parecer-me consigo!
  - Sir?
  - Servindo-me de palavras com um significado diverso do
que pretendo dizer. Recorde-se da nossa conversa quanto  reunio
de amanh. Acentue o ponto de ningum mencionar nada que se
Parea com aniquilao ou extermnio.

  Berlim
  Novembro, 1939
  Esta noite houve um baile fabuloso nas instalaes do chefe.
  Temos muito que festejar. A Polnia est acabada. A Rssia
  ocupa a Polnia de leste e Estaline, tomado por um terror enorme
  ,
  negociou um tratado de paz connosco. Os Franceses e os Ingleses
  tm o armamento parado a ocidente, demasiado assustados para
qualquer avano.
  Ningum diria que estamos em guerra. Nunca vi uniformes
mais elegantes nem mulheres mais atraentes, ofuscantes e cobertas
de jias,  melhor maneira alem.
  Marta anda radiante. Resplandece. H alguns anos era uma
dona de casa cumpridora, que se contentava em cozinhar tratar dos
filhos e ocupar-se da casa. Contudo, a vida social que nas foi
imposta dotou-a de uma nova elegncia, um porte em que ainda
  me  difcil acreditar. Veste a roupa mais moderna com o maior
  -vontade, dana a valsa e o f oxtrot na perfeio e vai mesmo ao
ponto de <<flirtar>> um pouco.
  Observei-a a danar com Heydrich e pus-me a pensar na
modesta Marta Schaum com quem me casara. No entanto, deveria
ter-me apercebido de que se tratava de uma mulher com um enorme
potencial. A forma como praticamente me ps a marchar rumo
  !
N lpa s o d carreira Para ser verdadeiro, foi ela que me fez!
  a e um advogado no desemprego, cheio de autopiedade
e desculpas, e ela transformou-me num homem confiante, influente
e empenhado numa obra de extrema importncia no que se refere
ao futuro da Alemanha. No h dvida de que a guerra se aproxima
do fim. A Inglaterra e a Frana tomaro uma atitude racional
  ,
a Rssia contentar-se- em ficar com parte da Polnia e ns poderemos voltar a viver 
em paz e remodelar a Europa.
  Enquanto estava a admirar Marta, que escolhera um vestido
verde-plido - condizendo maravilhosamente com o cabelo louro,
penteado ao alto da cabea pequena e graciosa - e danava com
Reinhard Heydrich, ouvi uma voz atrs de mim.
  - Heydrich sabe sempre escolher a mulher mais bonita - foram as palavras.
  Franzi o sobrolho, mas no me voltei. Quem falava no sabia,
obviamente, que se estava a referir  minha mulher.
  - Uma maravilha - insistiu a voz. - O marido deveria ser
posto a par de que Heydrich foi expulso da Marinha por haver
tido uma ligao com a mulher de um superior.
  Dei meia volta, irritado:
  - Devo inform-lo de que a senhora que est a danar com
ele  a minha mulher e agradeo-lhe...
  - Acalma-te, Erik - interrompeu-me o interlocutor.
  Encarei com um homem alto, de traos correctos, vestido
de smoking, e quando' me sorriu no pude deixar de rir ante

a partida que me pregara. Tratava-se de Kurt Dorf, o meu tio Kurt,
a quem no via h quatro ou cinco anos.
  - Mas que surpresa maravilhosa! - exclamei. - No fazia
ideia de que regressara a Berlim.
  Explicou, no seu tranquilo tom de voz, que estava actualmente na Polnia, a 
trabalhar para o Exrcito, como construtor
de estradas e engenheiro civil. Deu a sensao de impressionado
com a minha aparncia.
  - Deus do cu! O mido do meu irmo Klaus. Um oficial
das SS - exclamou Kurt. - Um capito e, segundo me dizem,
o brao-direito de Heydrich.
  - Exageram! Mas porque est aqui?
  - Os generais encaram estas coisas como um bnus pelo
facto de cumprir os prazos.
  Estudmo-nos mutuamente. Assemelha-se ao meu pai, mas
 mais alto e de aparncia mais dura. O meu pai instalou-se na vida
como um padeiro sem dinheiro e falhou. Kurt trabalhou esforadamente, nunca recuou e 
teve empregos que o ajudaram a formar-se
em engenharia civil.  solteiro, um tanto solitrio, um homem
com poucos amigos.
  -Neste momento desejava que o ,pap estivesse vivo
  e pudesse assistir a este nosso encontro.
  - Tenho a certeza de que se sentiria orgulhoso. - Fez um
  aceno de cabea aprovativo na direco de Marta. - E a Marta
   muito bonita, Erik.
  - Amo-a mais de dia para dia. E mais do que isso, tio Kurt:
  respeito-a e admiro-a.
  - Parece-me que ela conquistou a admirao e a simpatia
  do teu superior. Neste momento, pouco se parece com a <<Besta
  Loura>> de que as pessoas falam.
  A frase desarmou-me. Kurt devia acautelar a maneira como
se expressava, mas fora sempre um homem directo e sem o mnimo
de sofisticao.
  - Pareces chocado - comentou.
  Fitei-o. Heydrich veio acompanhar Marta, que lhe fez uma
vnia e declarou ter sido uma honra. Ele beijou-lhe a mo e acrescentou que teramos 
de combinar ir a outra pera uma destas
noites.
  Em seguida, Marta reconheceu o tio Kurt, abraou-o e beijou-o,
enquanto Heydrich observava a cena.
  Fiz as apresentaes.
  - Este  o meu tio Krt Dorf, general.
  Kurt retorquiu que era uma honra cumprimentar o chefe
das SS e que conhecera muitos dos seus comandantes-de-campo
na Polnia.
  Heydrich analisou, por momentos, o rosto pleno de personalidade de Kurt e o seu 
smoking de civil e depois pronunciou-se:
  - Kurt Dorf, engenheiro e especialista em construo de
estradas. Ao servio do general Von Brauchitsch. Encarregado das
estradas e trminos nos territrios ocupados. Certo?
  - No fazia ideia de que os seus servios estavam to bem
informados sobre os modestos trabalhadores de estradas.
  - Estamos bem informados sobre toda a gente.
  Heydrich afastou-se. Voltaram-se a ouvir os acordes da msica.
Marta sugeriu-me que danasse com a mulher de Eichmann.
Deu a entender que a minha carreira no seria afectada.
O tio Kurt acompanhou Marta at ao bar. Beberam champanhe. Seguiu-se um dilogo 
bastante curioso e que a perturbou

um pouco. Sem se mostrar particularmente diplomtico, Kurt
declarou em voz baixa que Heydrich no lhe dava a sensao de ser
o que algumas pessoas lhe chamavam - <<o jovem e diablico deus
da morte do partido>>.
  Marta ficou chocada e no o escondeu. Quem se atreveria
a dizer uma coisa dessas? Oh, os habituais inimigos polticos!
Marta informou o meu tio de que ambos adorvamos Heydrich.
Ele representava o exemplo resplandecente da Alemanha do futuro
- ousado, sensvel, inteligente, nobre. Kurt tentou desculpar-se;
era um engenheiro e no um poltico. No passava de um mero
construtor de estradas. Esse o motivo que o levara a manter-se
fora da poltica de partidos: um civil. Mudou de assunto e elogiou
Marta pela sua beleza, ,por ter um marido com uma carreira
brilhante e uma famlia encantadora.
  - Foi simples - comentou Marta. - Passmos a fazer parte
da nova Alemanha de alma e corao.
  - Oh, claro!
  - Podia empregar um tom mais alegre - retorquiu Marta.
  - Oh, tambm fao parte dela. Estou a par do bom trabalho
efectuado pelo partido. As pessoas saem do desemprego, embora na
maioria das vezes para funes de tempo de guerra. No se fazem
greves. Verifica-se o equilbrio da balana de pagamentos. E, a partir
do momento em que a Frana e a Inglaterra peam a paz, o futuro
pertence-nos.
  - Nesse caso est de acordo com o Erik. A nica diferena
reside em que ele usa um uniforme e o tio no.
  - Oh, minha querida Marta, como s maravilhosa a simplificar as coisas! Mas talvez 
tenhas razo.
  Convidou-a para danar, desculpando-se pela idade e falta
de prtica, devido ao tempo que passava a percorrer as ms estradas
da Polnia de um lado para o outro. Foi maravilhoso voltar a rever
Kurt naquela noite e igualmente a impresso que Marta causou
no chefe. No se levantam, de facto, barreiras diante de ns.

A HISTRIA DE RUDI WEISS

  Como atrs mencionei, o meu pai e o meu tio Moses eram
membros de um dos primeiros conselhos judaicos organizados
em Varsvia. Isto em Dezembro de 1939.
  Muito se escreveu a este respeito: comentrios favorveis,
desfavorveis, neutros. O que podiam fazer? Estavam indefesos,
sem armas e sem amigos. Os Polacos sentiam-se deliciados ao verem
a clera dos nazis abater-se sobre os Judeus, sem se aperceberem
de que tambm acabaria por chegar o dia deles - escravos da
Nova Ordem.
  O meu pai e o meu tio serviam, pois, o Conselho, na tentativa
de tornarem a vida um pouco melhor s centenas de milhares que
estavam a ser despejados em Varsvia. O mesmo estava a acontecer
em Lublin, Cracvia, Vilna e outras cidades polacas. Sabemos agora
o que tudo isso significava: um passo para a deciso final de Hitler.
  Quase diariamente chegavam comboios, carruagens de gado
apinhadas de judeus esfomeados e assustados. Havia pessoas que
ficavam pelo caminho. Crianas morriam asfixiadas. Os passageiros
chafurdavam nos seus prprios dejectos. No tinham gua, mas
apenas a comida que lhes permitiam transportar. E as maas e chicotes dos guardas 
nunca abandonavam o seu poiso. No s os dos
alemes mas tambm os de muitos polacos que aderiram como
auxiliares das SS.

  A estes judeus contavam mentiras em que continuariam
a acreditar nos anos futuros. Reintegrao. A vossa prpria comunidade. As vossas 
cidades. Longe das Polacos...
  Um homem que conseguiu sobreviver a um desses transportes
recorda-se de que o meu pai e o meu tio Moses foram esperar
o comboio em que ele vinha, num dia de Inverno. Havia corpos
congelados nas carruagens. Dois bebs tinham morrido asfixiados.
  Tentaram fazer com que as recm-chegadas se sentissem

bem-vindos. Lowy ajudou o meu pai, dirigindo as pessoas ,para as
instalaes que lhes estavam destinadas. Os judeus viviam aos oito
e nove numa diviso. Os sanitrios faltavam. Os telhados deixavam
passar a gua. No havia combustvel para aquecer as casas. De dia
para dia era maior o nmero de pedintes que andavam pelas ruas.
  No comboio, uma mulher recusou-se a abandonar o filho
morto. Um rabi teve de e convencer de que a criana seria devidamente enterrada, 
devolvida  terra.
  O meu pai odiava o trabalho que efectuava no Conselho,
mas no desistia. Agradava-lhe muito mais trabalhar no Hospital
dos Judeus, apesar de este se encontrar a abarrotar, sem pessoal
suficiente nem condies. Contudo, travara uma acesa discusso
com um mdico militar alemo e tinham-no suspenso temporariamente. O mdico alemo 
andava a tratar doentes atacados de tifo
com um remdio chamado uliron. No os curava. Matava-os com
dores insuportveis. O meu pai protestou, discutiu com o alemo.
Ameaaram o meu pai com castigo, espancamento, priso, mas ele
recusou-se a ceder. O uso do uliron foi posto de parte por algum
tempo. (<<Mais tarde, fizeram-se experincias diablicas com judeus;
ramos as cobaias deles, os animais de laboratrio.>>) Contudo,
durante as poucas horas que podia passar no hospital, o meu pai
estava limitado ao seu primeiro amor: a medicina.
  Nesse dia frio, ao regressar do comboio com os trmulos
recm-chegados do Oeste da Polnia, o meu pai confessou ao
tio Moses que detestava decidir quem ficava com esta ou aquela casa,
qual a distribuio da comida, etc.
  - As pessoas respeitam-te, Jasef - retorquiu Moses.
  - Achas que sim?
  - Acho. Tal como eu. Desde que ramos crianas e amos
de boleia nestes mesmos comboios. Tu eras o irmo esperto e eu
o indeciso. Recordo-me de como o pap ficou orgulhoso no dia
em que ganhaste o prmio de qumica.
  - Sim - recordou o meu pai com um sorriso. - E aquele
reitor no me deixou receb-lo no anfiteatro, porque - servindo-me
das suas palavras - eu era de crena hebraica.
  - Certo. E eu fui-lhe roubar ao gabinete o diploma e cinquenta zlotis. Como o 
consegui? Foi o meu ltimo acto de coragem.
  - Recordas-te de tudo!
  Os irmos encaminharam-se para o gueto. At essa altura
ainda no tinha sido erguido o muro. Passaram do chamado <<lado
ariano para o velho bairro judeu.
  - E aquele drugstore falido? - prosseguiu Moses. - Foi
a minha recompensa por no ser to esperto como tu.
  O meu pai deu o brao a Moses:
  - Prejudiquei-te, mas sem inteno. O dinheiro s chegava
para ser eu a ir para a universidade.
  - No, no. . .
  - O filho apaparicado. E quantas vezes te procurei ou
escrevi? Pergunto a mim mesmo se, subconscientemente, teria

vergonha de pertencer a uma famlia de judeus polacos pobres..
  -Claro que no. Eras um homem ocupado. Com uma
carreira, mulher, filhos.
  O meu pai deteve-se. A sua volta caminhavam as esfomeadas,
espancadas e eternas vtimas: os judeus da Europa Oriental.
  - Lamento, Moses.
  - No so necessrias desculpas. Estamos, de novo, juntos
numa espcie de pobrezia fraterna. Faamos o melhor que pudermos
por esta gente.

  Houve uma reunio no apartamento dos Helms na vspera
de Ano Novo, em 1939. Karl no tinha sido ainda liberto de
Buchenwald. Entretanto, Hans, o irmo de Inga, regressara a casa,
vindo da frente polaca. E Muller tambm estava presente, com o seu
uniforme de sargento das SS.
  A minha me e Anna continuavam a partilhar o velho estdio
contguo, No estiveram, como  bvio, presentes. A minha me
tinha o seu orgulho. E Anna, embora estivesse como convidada
na antiga casa de Inga (e de Karl), no escondeu o ressentimento
sentido ante a atitude dos Helms.
  Se bem que os exrcitos alemes tivessem obtido a vitria
na Polnia e tanto os Franceses como os Ingleses se mostrassem
relutantes em lutar e se mantivessem nos aquartelamentos da Linha Maginot, estava em 
vigor uma economia de tempo de guerra.
Por curioso que parea, os Alemes no pareciam afectados.
Saqueavam sistematicamente a Polnia e a Checoslovquia.
Podia-se muito simplesmente evitar racionamentos, retirando
alimentos das pases ocupados.
  Para os Judeus, porm, a vida tornara-se insuportvel.
Foi determinado o uso da estrela amarela. Na rua, os Judeus eram
alvos fceis. A minha me, orgulhosa de mais para se submeter,
levava uma vida de reclusa. De vez em quando, Anna aventurava-se
a ir visitar uma amiga que tivera a pouca sorte de ser deixada
para trs. No podiam ir a cinemas, nem a teatros nem to-pouco
andar em transportes pblicos ou fazer compras em lojas crists.
Inga continuava a fornecer-lhes alimentos: uma dieta de po,
um pouco de carne, caf de cevada. Inga empregara-se como
secretria numa fbrica. Tivera dificuldade em arranjar trabalho,
depois de se saber que era casada com um judeu preso.
  Contudo, para os Helms aquele era um momento de festa.
A Polnia arrumada! Os Aliados a tremerem de medo. Hans Helms
  ,
embriagado e conversador, tagarelava sobre a maneira como os
seus tanques e as 88 tinham aberto caminho atravs da Polnia.
  - Como faca quente em manteiga, no Hans? - comparou
Muller com uma risada. - Correram com os Polacos. - Bebeu
a cerveja e olhou para Inga. - J sou velho de mais para combater.
No passo de um guarda prisional. Buchenwald.
  Inga, que durante toda a noite se mantivera triste e silenciosa,
endireitou-se subitamente na cadeira:
  - Buchenwald? Viu o meu marido?
  - Ele est l?
  - Ouvi-o da sua boca. . . Que provavelmente o tinham
mandado para l.
  - Verdade?
  Muller jogava ao gato e ao rato com aquela mulher que lhe
implorava ajuda. Concordou em procurar o nome de Karl nos
registos do campo. Era um local vastssimo, como ela bem sabia.

Contudo, Muller tentaria. Houve uma altura em que lhe tocou
no joelho e Inga afastou-se. Desejava assegurar-lhe que Buchen

wald no era um destino mau de todo para os Judeus. Hans,
o irmo, estava em condies de lhe contar histrias do que lhes
faziam na Polnia!
  Embora embriagado, Muller sabia o que estava a dizer
e referiu-se ao rumo cada vez pior que as coisas iam tomando.
O que levara a Inglaterra e a Frana a entrarem em guerra?
Os banqueiros judeus, evidentemente. O pai de Inga meteu-se
na conversa. Odiava a ideia de estar a esconder dois judeus mesmo
ali ao lado - ingressados na famlia ou no.
  Inga ficou furiosa e gritou-lhes que se lhe tornava difcil
reconhec-los como famlia. Quando Hans a espicaou, chamando-lhe simpatizante dos 
Judeus e dizendo-lhe que os envergonhara,
atirou-lhe uma caneca de cerveja  cara. Muller e Hans desataram
a rir. Inga saiu a correr do apartamento e foi passar a noite com
a minha me e a minha irm.
  Elas estavam virtualmente na situao de prisioneiras,
no estdio. As ltimas contas bancrias da minha me tinham sido
confiscadas, embora ainda tivesse conseguido esconder algum
dinheiro no forro de um casaco. Era impossvel conseguir assistncia
mdica, at dos colegas cristos que tinham conhecido o meu pai.
Ningum estava disposto a levantar um ledo para ajudar Judeus.
  Inga recorda-se de que, quando entrou no estdio, a rdio
celebrava a vspera do Ano Novo com um coro de Bach.
  - Sebastian Bach, Inga - observou a minha me, que estava
novamente a escrever ao meu pai. A maior parte das cartas nunca
lhe chegavam s mos. As autoridades nazis do que se designava
como o <<Governo-Geral>> da Polnia interceptavam o correio dirigido aos guetos.
  - Ser que algum toca no nosso piano nestes dias? - interrogou-se Anna num tom de 
voz quase inaudvel.
  - O velho Bechstein? - retorquiu a minha me, erguendo
os olhos. - Nem pensar nisso. Aquele mdico horrvel que ocupou
a clnica do pap no me pareceu nada musical.
  - Roubou a clnica do pap - emendou Anna. - S espero
que partam os dedos se tentarem tocar.
  Ao recordar os acontecimentos, encaro aquele maldito piano
como smbolo de uma ncora, um peso morto que nos manteve
na Alemanha, nos deu um falso sentido de segurana. H alguns
anos, aqui no Kibbutz Agam, um professor de lnguas checo
confessou-me que tambm tivera um belo piano em Praga:
um Weber. Tanto ele como a mulher sempre albergaram o sentimento de que nada poderia 
suceder a pessoas com pianos valiosos.
  A minha me selou o sobrescrito. Inga observou a morada
do Dr. Josef Weiss (ao c do Hospital dos Judeus, Varsvia).
Beijou a minha me.
  - No se perde nada em tentar - observou a minha me.
-Talvez 1940 seja um ano melhor.
  - Tem razo, mam - concordou Inga. - No podemos
perder a esperana.
  Sentou-se em frente da minha me na diviso escura e pegou-lhe na mo. - Est fria, 
mam - reparou.
  - Estou sempre fria. O Josef costumava dizer que era do
meu sangue azul.
  - O que estava a tua famlia para ali a gritar? - quis saber
Anna, erguendo os olhos do livro.
  - Nada de importante. O Hans est embriagado.
  - Querem mandar-nos embora - retorquiu Anna.
  - Talvez. . . talvez consegussemos encontrar um dos antigos

doentes do Josef disposto a aceitar-nos - sugeriu a minha me.
  - Mam! - explodiu Anna, irritada. - Os doentes do pap
desapareceram: esto na priso, fugiram ou foram-se muito simplesmente embora.
  - Mas podamos tentar, minha filha.
  Anna ergueu a voz. Tinha, nessa altura, dezassete anos, era alta
e de traos finos, como a minha me, e dotada da mesma personalidade forte. Contudo, 
a vontade da minha me estava a quebrar-se
e Anna ainda tinha juventude suficiente para se mostrar irritada.
  - No h esperana, mam. Nem um mnimo. O Karl est
preso. O pap na Polnia... e os nazis tambm esto l agora,
como se tivessem ido em sua perseguio. E Rudi fugiu.
No o voltaremos a ver.
  A mam manteve-se silenciosa.
  - Est a comportar-se como se tudo isto fosse uma pea
  de teatro, mam, como se nada de mau nos tivesse acontecido.
  Escreve cartas e fala dos doentes do pap, como se ainda restassem
  alguns.
  - No prejudica ningum, Anna - tentou apaziguar Inga.
  - Sempre esteve convencida de ser algum especial - continuou Anna, sem querer 
ouvir. - To bonita, to educada.
  E ensinou-nos e sentir da mesma forma. Os nazis nunca lhe fariam
  mal nem aos seus filhos... E veja o que nos aconteceu!
  - A tua me no tem culpa, Anna! - interferiu Inga,
  aproximando-se da minha irm, abraando-a e tentando evitar que
  chorasse.
  -Vspera do Ano Novo!-desfez-se Anna em lgrimas.
  - Nenhum de ns estar vivo para a prxima.
  Inga falou-lhe com suavidade. A minha me fechou os olhos
  e apoiou a cabea nas mos entrelaadas.
  - No compreendes como a tua me te ama? - perguntou
y, Inga.-E quanto ama o teu pai e os filhos? Escreve cartas,
  fala sobre eles e mantm a esperana de que viro a ser felizes.
  - No quero ouvir mais. So tudo mentiras.
i. - Mas as pessoas, por vezes, precisam de mentiras para
  sobreviverem no dia-a-dia - argumentou Inga.
  - Eu no. Quero o meu pai, o Karl, o Rudi. . .
  - No chores, filha - pediu a minha me. - No chores,
  por favor. O Rudi no gostaria que o fizesses. E lembra-te de que
  era o teu preferido. - A minha recordao pareceu anim-la.
  Voltou a pr os culos e comeou a rever velhas cartas, cartas de
  h anos, lembranas do que fora e nossa vida.
  - Sei que teremos notcias do Rudi - declarou convicta  mente. - Tenho a certeza de 
que encontrar maneira de nos
  tirar daqui.
  Anna deu um salto do saf-cama e atirou as cartas para
  o cho.
  -No! No quero mais mentires! No quero escutar mais
nada. Vou-me embora tambm.

  Estava uma noite de um frio cortante. Anna agarrou no casaco
que estava pendurado na porta.
  - No a deixes ir, Inga - gritou a minha me.
  - No tens dinheiro. . . nem stio onde ficares, Anna - argumentou a minha cunhada. 
- O Rudi  forte e resistente.
  - Oh, deixa-me em paz. Sei que no posso fugir. Apenas
quero sair daqui.
  - Anna, por favor. . . - interferiu a minha me, levantando-se, preocupada.

  Anna, porm, passou por elas e correr, atravessou o corredor
escuro e desceu as escadas de caracol, que levavam ao ptio.
Habitualmente havia um guarda de servio fora do edifcio de
apartamento. No entanto, era vspera de Ano Novo e todos
estavam a beber, a comer e a celebrar.
  Anna correu pela rua. Como se recusasse o que nos acontecera,
arrancou as estrelas amarelas do casaco.
  Anna sempre tivera esta centelha de rebelio e de independncia. O meu pai 
estragara-a com mimos. A menina nas mos
das bruxas. Filha nica. Em vez de a tornar suave e tmida,
produzira-se o efeito contrrio. Era agressiva, atrevida, por vezes
mesmo descarada. A minha me repreendia-a continuamente:
<As senhoras no usam essa linguagem, Anna>>, ou <<Anna, minha
querida, no podes fazer menos barulho quando recebes os teus
amigos? >
  Era, alm disso, extraordinariamente inteligente, muito melhor
estudante do que o Karl ou eu. Tudo lhe era fcil: os estudos
  ,
a msica, a apreenso de pormenores que escapavam aos mais
velhos. Jovem como era, transpirava desejo de viver, de experimentar tudo, de 
mergulhar no que quer que a paixo de momento
lhe ditasse: coleccionar borboletas, interesse por msica de jazz,
crochet.
  Deve-lhe ter sido extremamente doloroso ver-se privada da
expresso dos seus talentos, da liberdade, dos direitos naturais da
maturidade, dos amigos. Antes da minha fuga, confessou-me,
uma vez, que receberia com um beijo rapazes que afastara do seu convvio e haviam 
desaparecido para sempre. Uma confisso importante para a filha do Dr. Josef Weiss!
  Foi assim que, sem hesitaes e presa de uma enorme rebeldia,
caminhou pelas ruas escuras. Estavam em vigor medidas de segurana blicas. Dado os 
Berlinenses serem um povo cumpridor
das leis, as ruas apresentavam-se desertas.
  Segundo parece, Anna percorreu alguns blocos sem que
a vissem ou molestassem. Sentia o desejo de rever a nossa velha
casa de Groningstrasse. Ficou alguns minutos parada a olh-la,
recordando a vida familiar, unida e sem problemas que ali tivramos.
A msica. As brincadeiras no ptio. O parque do outro lado da rua,
onde jogramos futebol e tnis. Os doentes do meu pai  espera
ou agradecendo-lhe. As entradas e sadas.
  Tanto quanto Inga conseguiu reconstituir o que aconteceu,
a partir da narrativa histrica de Anna antes de se reduzir ao
mutismo, aproximaram-se trs homens, enquanto estava ali, parada
e trmula, iluminada pelo candeeiro.
  Dois eram civis. O outro, mais velho, vestia o uniforme das
trapas de choque locais e era encarregado de fazer o servio de
guarda da noite. De incio, julgaram tratar-se de uma prostituta
que desobedecera ao sinal de recolher, para ganhar algum dinheiro
na vspera de Ano Novo.
  Contudo, um olhar para o rosto fresco e jovem bastou para
lhes tirar tal ideia. Em seguida, um deles reparou na mancha escura
do casaco de l, de onde arrancara a estrela. Estavam embriagados
e a festejar a noite. Um deles - Inga nunca soube qual - foi
mesmo ao ponto de a reconhecer como a filha do Dr. Weiss.
Devia pertencer quelas paragens. Talvez fosse mesmo algum dos
antigos doentes.
  Tentou fugir-lhes. Agarraram-na. Disse-lhes que viera apenas
apanhar um pouco de ar fresco. Explicou que vivia a pouca distncia

e que, se desejassem, a poderiam acompanhar a casa, para terem
a certeza de que no estava a fugir  lei.
  Um dos homens sugeriu que <<discutissem o assunto>> no
pequeno parque do outro lado da nossa casa. Estava deserto,
o cho coberto de gelo e de uma leve camada de neve. De incio
acreditou, mas quando comearam a agarrar-lhe na roupa, a despir-lhe o casaco e a 
violarem-lhe o corpo com mos de bbados,
apercebeu-se de quais eram as suas intenes. Gritou.
  De nada serviu. As pessoas no acorriam a gritos durante
a noite. Eram frequentes. Havia um pequeno coreto no parque
para. onde os homens a arrastaram. Quando voltou a gritar,
esmurraram-na.
  Um dos homens tapou-lhe a boca, para lhe abafar os gritos.
Lutou, conseguiu libertar-se, e s por pouco no se escapou.
Contudo, apanharam-na, arrastaram-na para o mesmo stio, e,
enquanto dois lhe seguravam os braos e lhe enfiavam o cachecol
na boca, outro arrancou-lhe a roupa e violou-a.
  Fizeram turnos.
  Depois de a terem submetido a vrias formas de violncia
sexual, obrigaram-na a actos que me sinto incapaz de descrever,
atiraram-na para o lado e afastaram-se, deixando-a a chorar,
ferida e sangrando nos degraus do coreto.
  Deixando um rasto de sangue na neve, Anna conseguiu
encontrar o caminho de volta para o estdio. Os sinos das igrejas
de Berlim badalavam a meia-noite, assinalando o Ano Novo.
  A minha me perdeu toda a compostura quando a viu na
ombreira da porta. O rosto era uma massa de verges e ndoas
negras. Tinha um corte nos lbias, que ela prpria fizera para
suportar a do e a humilhao. Por baixo do casaco de Inverno,
todas as roupas estavam em tiras. Perdera um sapato.
  Inga abraou-a e tentou confort-la. A minha me conseguiu
finalmente controlar-se. P-la em cima da cama. Despiram-na
e deram-lhe banho, aplicaram-lhe pomadas e anti-spticas nas
feridas e passaram e noite a tentar descobrir o que tinha acontecido.
  Anna apenas conseguia responder com soluos abafados.
  Foi o comeo do ano de 1940 para a minha famlia.

  A p e escondendo-me, acabei por ir parar a Praga, num dia
cinzento e hmido de Fevereiro. Nada sabia da minha famlia.
Continuava em fuga: mentindo, servindo-me da minha documentao falsa, fazendo 
corta-mato, dormindo em palheiros e celeiros.
  Desenvolvera um sexto sentido no que se referia a uniformes:
qualquer tipo de uniforme, da Polcia, do Exrcito, dos homens
das SS, da polcia local. Quase os conseguia cheirar, antes de
poderem avistar a minha figura esfarrapada e a mochila.
  Uma vez, passei trs semanas como trabalhador rural na
Bavria, a cavar batatas e cenouras, confundindo-me com a gente
daquela remota aldeia. No falava e passava por um idiota recusado
no servio militar. Quando uma unidade militar acampou nas
proximidades, desapareci no dia seguinte.
  Servia-me de estradas secundrias, saltei milhares de sedes
e vedaes, comendo tudo o que conseguia roubar ou mendigar.
Atravs de jornais deitados fora, inteirei-me dos sucessos do
Exrcito alemo, da guerra impostora no ocidente e do bombardeamento de Inglaterra. 
Em cada dia que passava, apercebia-me de
que os Judeus estavam condenados e decidi que, se morresse,
o faria lutando. Mantinha a velha faca de mato escondida no cinto.
Jurei que, se tentassem agarrar-me, se me descobrissem, mataria

pelo menos um deles antes de me matarem.
  A pouca distncia de Munique, numa cidade chamada Starnberg - mantinha-me, tanto 
quanto possvel, nas cidades pequenas
e estradas secundrias -, roubei um alicate numa loja de ferramentas. Tornara-me um 
ladro muito fino. Tendo sido criado como
um jovem educado da classe mdia, impregnado de todos os velhos
preceitos judeus, que proibiam o roubo, a intrujice, a mentira,
aprendia que algumas vezes a sobrevivncia dita coisas diferentes
da adeso ao decoro. Depois da minha partida, muitos donos de
lojas davam pela falta de um pedao de po, uma caixa de biscoitos,
um par de pegas.
  Aprendera, alm disso, a fazer corta-mato, servindo-me do meu
sentido de orientao e dos marcos de sinalizao local. Ao mnimo
sinal das autoridades, embrenhava-me num campo, nos bosques,
ou atravessava uma herdade. Muitas dos ces dos fazendeiros me
perseguiram, e numa das vezes tive de fugir a um touro. Aprendera
a ser cauteloso, a esconder-me e a descobrir o melhor processo
de seguir viagem. Por estranho que parea, a meio do dia era
sempre um boa altura. Os polcias e os homens das SS, bem como todas as foras de 
segurana, davam a sensao de apreciar refeies
prolongadas e pesadas, e depois a sesta.
  Foi a 10 de Fevereiro de 1940 que atravessei a fronteira checa,
num ponto cerca de vinte e cinco quilmetros a sul de Dresda,
com a maior exactido que me  possvel calcular. A Checoslovquia
estava ocupada, mas ainda havia barreiras. Esperei at ao cair da
noite, escondido na casa das ferramentas de uma construo abandonada. Em seguida, 
dirigi-me para sul, Evitei as guaritas situadas
ao longo da estrada e esgueirei-me, de rastos, por baixo da barreira
de arame farpado, servindo-me do alicate. No foi to difcil
como isso.
  Embora a Checoslovquia se encontrasse sob domnio nazi
-chamavam-lhe o <<Protectoradov-, ouvira dizer que os Checos
eram menos cooperativos com os Alemes e que a polcia checa
denotava tendncia a poupar os Judeus. No tardaria a tirar
concluses.
  Em Praga existia uma vasta comunidade judaica da classe
mdia. Talvez os Alemes tivessem qualquer motivo para ignorar
estes judeus, pelo menos durante uns tempos. Caso Praga se
revelasse demasiado perigosa, tencionava seguir para sul, a caminho
da Jugoslvia, e da talvez para qualquer cidade costeira do Adritico, onde me fosse 
possvel ingressar num navio.
  Levava uma vida solitria e dura, mas cheguei  concluso
de que o desafio de sobreviver em cada dia, o jogo de percia
a que me via obrigado, me davam foras para continuar. Era como
um jogo de futebol nos momentos de tenso, em que tudo depende
do movimento exacto na altura exacta: uma finta, um pontap,
um passe, uma entrada ao corpo ou aos ps do adversrio.
  Numa das ruas do velho bairro judeu de Praga, parei numa
ombreira a contemplar os judeus da cidade. Faziam-me recordar
os nossos vizinhos berlinenses: educados, pertencentes  classe mdia, tmidos, 
preocupados, sem a mnima conscincia da carnificina
prestes a desabar sobre as suas cabeas.
  Dois polcias checos estavam a colar regulamentas nas portas
de uma sinagoga. Faziam-no - segundo me pareceu - quase como
se pedissem desculpa da incumbncia. Os Checos nunca tinham sido anti-semitas 
violentos, pelo menos em Praga. Eram, na opinio do
meu pai, um povo bonacheiro e genial.
  Contudo, estes regulamentos impostos pelos nazis no eram,

de forma alguma, bonacheires nem geniais. Era a Alemanha por
todo o lado.
  Para grande aborrecimento do resto da multido, um velho
estava a ler os regulamentos.
  <<No sero passadas mais senhas de roupas aos judeus>>, lia.
<<Todos as judeus que no estiverem registados no Conselho Judeu
dos Ancios devero :faz-lo imediatamente, sob pena de severos
castigos.  proibido vender bagagem, mochilas, malas ou artigos
de couro aos Judeus.>>
  O velho deu meia volta.
  -Bagagem, heim Para onde irei? Talvez para a Amrica?
  Outro continuou a leitura: <<Nenhum judeu pode transportar
uma mala, ba ou mochila sem prvia autorizao da Polcia ou
uma licena especial.>> E assim por diante. Os habituais preliminares. Antes das 
prises, deteno e Deus sabe que mais.
  Os polcias voltaram-se. Demorei um pouco mais do que
devia a esconder-me na ombreira. Notaram a minha mochila.
Comecei e andar com um ar despreocupado e vieram no meu
encalce.
  - Eh! - chamou um deles. - Viu perfeitamente as ordens.
O que est a fazer com essa mochila?
  Murmurei qualquer coisa entre dentes quanto a desconhecer
as ordens. Mostrar-lhes a minha identificao falsa do Servio de
Informaes significava correr um risco. O que estava um trabalhador rural alemo a 
fazer em Praga
  Tentei passar por estpido e expressar-me com as mos. Cortaram-me a sada junto de 
uma pequena loja. Era um loja de couros
e malas, um lugar bastante sombrio. Um deles retirou um bloco-notas do bolso enquanto 
o outro cerrava os olhos, fitando-me
intensamente.
  - D-nos a mochila - ordenou um deles.
  Hesitei. Talvez tivesse cometido um erro em vir para uma
cidade estranha. At agora tinha sobrevivido, escondendo-me nos campos, 
confundindo-me com as rvores e florestas, dormindo em
prados e celeiros.
  Uma jovem observava a cena por detrs da porta de vidro
da loja. Olhou-me, apercebeu-se do meu embarao e veio c fora.
  - No. No  a si que lhe vai dar a mochila, mas a mim
- interferiu.
  - A si, menina Slomova? - admirou-se o polcia.
  - Vendi-lha e nunca me chegou a pagar. Vamos l. D-ma.
Se lha tirar ou o prender, nunca mais verei o meu dinheiro.
  Era muito bonita. Uma jovem baixa, de feies correctas
e cabelo castanho-escuro. E tinha os olhos mais castanhos que
vira em toda a minha vida. Tambm mentia na perfeio, o que
se tornava uma caracterstica til.
  - Vendeu-lhe essa porcaria? - retorquiu o polcia.
  - Quando lha vendi, estava nova. Sinto-me furiosa com ele
- acrescentou, fitando-me. - No tente escapar-se. Sabe bem que
 minha e que ma deve. As coisas correm bastante mal por aqui.
  Os polcias checos entreolharam-se. Eram, evidentemente
  ,
autoridades locais e conheciam a bonita jovem.
  - O que te parece? - perguntou um deles ao outro.
  -  bonita de mais para discutirmos. Se o afirma,  porque
 verdade - respondeu. - Mas quanto a si, tenha muito cuidado
- avisou, erguendo um dedo na minha direco. - Se os alemes
o apanham a transgredir os regulamentos, no ficar muito tempo

por estas paragens.
  A rapariga abriu a porta e entrei. Sentia-me impressionado
com a sua ousadia e sangue-frio. E salvara-me a pele. Ficou a observar os polcias a 
descerem a rua e depois empurrou-me, praticamente, atravs da loja. Ali estava uma 
jovem que admirava e me
entrara no corao. Sentia-me profundamente grato a esta jovem
cheia de coragem e nervos de ao.
  - Depressa - indicou. - Para as traseiras.
  Voltou a olhar uma vez mais para e rua escura e fria.
Tinham-se reunido mais pessoas a ler a lista dos regulamentos.
Falavam em voz baixa e algumas das mulheres estavam a chorar.
  Nas traseiras da loja, por detrs de uma cortina, havia uma
mesa, algumas cadeiras e ch ao lume. Sentia o cheiro e ansiava
por uma chvena. A minha dieta de cenouras roubadas e po seco
deixara-me fraco. Frequentemente, sentia tonturas.
  - Sente-se - convidou.
  - Porque fez aquilo? - perguntei.
  - Voc estava com problemas. No  checo. No sei o que .
  - Sou alemo - respondi. - Fiz uma pausa. <<Um alemo
os diabos! >>, pensei. - Sou judeu - emendei, sem me conseguir
conter.
  - Em Praga?
  - Ando fugido. H muito tempo.
  Olhei para a parede, onde estava pendurado um calendrio
velho, mostrando uma praia costeira e arenosa.
  - Palestina - comentou. - Gostaria de estar l.
  - Tambm  judia! - exclamei.
  - Quem o no  aqui? - retorquiu, com um aceno afirmativo de cabea. - Este  o 
famoso gueto de Praga. O que resta.
Os ricos foram-se embora e os pobres desapareceram.
  Comecei a sentir a cabea a andar  roda e pensei que ia
desmaiar de fome e de fraqueza. Ajoelhou-se na minha frente
e pegou-me nas mos.
  - Chamo-me Helena Slomova. Estou s. Os meus pais foram
presos h dois meses. Acusaram o pap de agente sionista. Desconheo para onde os 
levaram.
  - Chamo-me Rudi Weiss. - Segundo me parecia, era aquela
a primeira vez que, de h um ano para c, usava o meu verdadeiro nome.
  - Oh, meu Deus! Como est fraco. Beba um pouco de ch.
  Deu-me uma caneca de ch quente, desculpando-se por no
ter acar nem leite, e deixei que o calor da bebida se me entranhasse nas mos e nos 
braos. Fitou-me com aqueles olhos brilhantes e escuros. Interroguei-me como era 
possvel que algum
atormentasse uma jovem assim, lhe causasse dor e sofrimento.
  Em seguida, tirou-me a chvena e comeou a esfregar-me
as mos.
  - H muito que no tenho entre as minhas umas mos de
mulher - observei. - Apenas preocupado em me esconder, em
  fugir. . .
  - O que tenciona fazer agora?
  Sacudi a cabea, sem saber que resposta dar. Estava exausto.
  Talvez no houvesse um esconderijo. Talvez os Judeus estivessem
condenados, fossem indesejveis em toda a parte e no se encontrassem seguros em 
stio nenhum.
  De sbito, ao contemplar-lhe o rosto pequeno e de traos
perfeitos, inclinei-me e beijei-a. Entreabriu a boca e mantivemo-nos
de lbios unidos muito tempo. Em seguida, acariciou-me a fronte.
  - Desculpe - murmurei. - No o devia ter feito. Mas

acho-a uma rapariga maravilhosa. To bonita e corajosa!
  - No tem importncia. Agradou-me. tambm me sinto s.
Choro todas as noites, interrogando-me sobre onde estaro o meu
pai e a minha me.
  - Talvez no lhes tenha sucedido nada de mal. Ouvi dizer
que esto a embarcar judeus para a Polnia, a fim de viverem nas
suas prprias cidades. O meu pai est l.  mdico em Varsvia.
  Mostrou-me fotografias dos pais: proprietrios de uma loja,
sem nada de especial, embora a me tivesse a mesma correco de
traos fisionmicos e os olhos escuras de Helena. Estavam dispostos
a ir para a Palestina, a conseguir passagem. Contudo, esperaram
tempo de mais.
  Ficmos sentados a conversar e tive dificuldade em me controlar e no lhe acariciar 
suavemente as mos e o rosto. Tentei
no o fazer. ramos praticamente desconhecidos. Era muito jovem,
mas dotada de uma certa firmeza e fora. E bonita, mesmo vestida
com uma usada bata branca de lojista.
  Falei-lhe um pouco da minha famlia, contei-lhe que fugira
e referi um pouco das minhas ltimas vagabundagens. Julgo que
cheguei a vangloriar-me das minhas qualidades de atleta, Em seguida, apercebendo-me 
de que estava receptiva e contente por me
ter salvo, atraa-a a mim. Sentei-a no colo. Era to pequena que
quase no pesava nada. Contudo, a graciosidade das ancas, a pele
macia, enchiam=me de paixo. Uma paixo que dificilmente dissimulava.
  - Confia em mim com demasiada facilidade - observei.
  - Tenho aprendido a no confiar em ningum.
  - D-me a sensao de ser honesto, Rudi. Acredito no que
j me est a contar.
  - No me refiro a isso. Podia. .. Podia...
  Ps-me o dedo nos lbios.
  O que se passava comigo? Respirava to ofegantemente como
  se tivesse acabado de correr os duzentos metros-barreiras. H tanto
  tempo que no sentia a proximidade de uma mulher; para falar
  verdade, era um tanto desajeitado neste aspecto. Ela parecia muito
  mais  vontade.
  Quando me acariciou a nuca com a mo e encostou o rosto
  ao meu, comeou a contar-me o sonho que os pais tinham de uma
  casa na Palestina, falou-me de um homem chamado Herzl, que
  dera incio a tudo aquilo, e da lenta emigrao dos Judeus para
  a regio seca na orla da sia. Tudo me parecia terrivelmente estranho e difcil de 
acreditar. Devo ter feito uma expresso de dvida
  ou sorrido.
 - O que achas to divertido? - quis saber Helena.
  - No sei. Sempre que penso nos Sionistas, imagino esses
, . velhos de barbas e em midos chocalhando latas pelas ruas, mendigando umas 
moedas. Nunca em jovens bonitas como tu.
  - Oh, s alemo. s mesmo alemo.
i
  - J no.
I. Beijmo-nos outra vez e permanecemos abraados. A campainha da porta da frente 
tocou. Helena levantou-se e passou para
  o outro lado da cortina.
  Ouvi uma voz de homem. Era outro lojista, que a vinha avisar
  que fechasse a porta. A Gestapo, descontente com a negligncia
  da polcia, andava a fazer investigaes por conta prpria, a fim
  de se certificar de que os novos regulamentos estavam a ser cumpridos.
  Helena fechou a porta da frente  chave e apagou as luzes.
  Quando voltou ao quarto das traseiras, pegou-me na mo.

  - Vens para casa comigo - decidiu.
  Falei-lhe mais sobre a minha famlia, pessoas que me pareciam agora estranhos. 
(Escrevera uma vez  minha me, mas no me
atrevera a dar-lhe uma morada.) Descrevi-lhe o meu pai, um homem
bom e incansvel, que nunca perdia a calma. Tambm no esqueci
Karl e Inga. To-pouco Anna e a minha me, to bonita e talentosa, a autoridade 
mxima no nosso lar. Falei-lhe at do piano
Bechstein. Acrescentei que s voltaria se os pudesse salvar e que
estava decidido a lutar e a continuar fugindo.
  Falmos, comemos um pouco e depois, to naturalmente como
se nos conhecssemos h anos, fizemos amor.
  J tivera algumas experincias anteriores: aventuras passageiras e sem interesse. 
Helena era virgem. Tinha apenas dezanove
anos. Contudo, nessa noite, unimos os corpos como se estivssemos
predestinados para marido e mulher, como se Deus nos tivesse
lanado nos braos um do outro. Apoiou e cabea no meu brao.
Era uma rapariguinha pequena e suave, com a pele muito branca
e o cabelo castanho-escuro contrastando com o meu corpo duro
e musculoso e as minhas mos calejadas do trabalho.
  - Rudi.. . Abraa-me... No te afastes.
  - As minhas mos magoam-te.
  - No me importo.
  - Tudo por causa daquela maldita mochila - disse. - Nunca
mais me afastarei dela.
  - Nem eu de ti - retorquiu, sentando-se na cama e sorrindo-me.
  Perguntei-lhe se tinha namorado ou parentes que nos pudessem descobrir. Sacudiu a 
cabea negativamente: no tinha ningum.
  - Nem me importaria - acrescentou. - Costumava ser uma
estudante sempre bem-comportada. Saia, blusa, lies. Agora, apenas tento viver o 
dia-a-dia.
  Beijei-lhe o cabelo, a fronte, os olhos.
  - Helena Slomova. A minha salvadora numa loja de artigos
de viagem.
  - Tivemos sorte em a polcia checa ser to negligente
- comentou. - E <<flirtei>> um pouco com eles. Conheciam-me,
e tambm  minha famlia.
  Saltei da cama, preocupado. Para onde ir? O que fazer?
  Sabia que tudo tenderia a piorar. Vira comunidades judias inteiras
  desaparecerem nas cidades alems. Era apenas uma questo de
  tempo, antes de os alemes comearem a despejar a Checoslovquia.
  - O que fars agora? - perguntei.
  - No sei. Sinto-me assustada. Agora menos, desde que ests
  ao meu lado, mas...
  - Ficarei contigo, Helena. Mas no aqui.
  Sentou-se na cama, puxando o lenol e o cobertor at ao pescoo. Estava um frio de 
gelo no pequeno quarto.
  - H maneiras de fugir... atravs da Hungria, Jugoslvia.
H barcos que te levaro para a Palestina, se tiveres dinheiro
para pagar.
  Ambos rimos. Estvamos sem dinheiro, sem qualquer esperana de podermos comprar uma 
passagem. E tnhamos fronteiras
a atravessar, guardas a evitar, bem como as SS e os fascistas locais
na peugada de gente como ns.
  - Virs comigo - decidi.
  - Sem dinheiro? Sem documentos?
  - Cheguei at aqui.
  - Mas viajaste sozinho. Serei um impedimento pare ti.
  Voltei a abra-la.

  - Fars uma saudvel dieta de nabos crus. - Escondi a cabea entre os seus seios, 
beijando-os vezes sem conta. - Nada
existe de piar no mundo do que a solido. Tentei mostrar-me firme,
mas tambm sinto medo. J no me resta famlia e tenho o pressentimento de que no 
voltarei a v-la. Preciso de algum que
esteja ao meu lado durante a noite. Algum capaz de me dar afecto
e que me abrace quando lhe tocar. Quando estiver frio e escuro.
  - Oh, Rudi! Tambm preciso de algum.
  - Irs dormir em palheiros e roubar fazendeiros.
  - No propriamente uma lua-de-mel - sorriu.
  - Ser pior ficar aqui e permitir que nos apanhem. No do
esperanas. Limitam-se a mentir. No tm compaixo nem piedade
e querem ver-se livres de ns. No interessa como.
  Abramo-nos com fora, voltmos a fazer amor e sentimo-nos
felizes.
  - Conheces a histria da Ruth da Bblia? - perguntou.
  - No estou bem certo. Era um s e faltar s aulas da escola
hebraica.
  - S precisas de te recordar de um ponto - replicou, beijando-me a face. - Para 
onde fores, irei.

  Karl continuava em Buchenwald.
  No era um campo de extermnio. Contudo, ali morriam centenas diariamente, devido a 
tortura, espancamento e fome. Conseguiu sobreviver trabalhando na alfaiataria e 
escutando vozes
experientes, como a do seu amigo Weinberg, que conhecia bem
o ambiente.
  No era possvel sobreviver s. Tornava-se necessrio ser
parte de um grupo: comunistas, sionistas, o que quer que fosse.
Os homens da alfaiataria tinham o seu prprio quadro e tentavam
partilhar comida extra e protegerem-se mutuamente. Contudo, estavam sempre em perigo 
de vida. Alimentavam-se com uma espcie
de sopa e po escuro. As condies de higiene eram horrveis.
O pior passava-se na pedreira e no chamado <<jardim>, onde os
homens eram espancados de morte pela mnima infraco. O desporto favorito dos 
guardas consistia em enterrarem os presas revoltosos vivos.
  Um dia, um judeu, antigo oficial da Exrcito austraco, dirigiu-se ao comandante de 
campo e queixou-se destas prticas selvagens. Comunicaram-lhe que, devido  sua 
qualidade de antigo
militar, os seus conselhos seriam tomados em devida considerao. Em seguida, 
levaram-no para fora, obrigaram-no a ajoelhar-se
na praa central em frente dos outras presas e mataram-no com um
tiro na nuca.
  Houve uma noite em que o altifalante despejou a notcia da
rendio da Frana para os aquartelamentos sujos e a abarrotar.
Karl, Weinberg e as restantes do seu <<blocov escutaram, com um
peso no corao, as notcias vindas do altifalante.
  <<Deste modo, a Frana une-se  Holanda, Blgica, Noruega,
Dinamarca, ustria e Checoslovquia e grande parte da Polnia
como partes da Nova Ordem europeia. O Fhrer renunciou a todas
as reivindicaes territoriais e apenas deseja a paz e e segurana
da Europa. Dentro deste objectivo, pede-se  Inglaterra que se
  submeta. . . >>
  - Cus! - exclamou Weinberg. - Tem tudo nas mos
  ,
  excepto a Sua e a Rssia. Claro que no far reivindicaes.
  O altifalante continuava a propagar as notcias: <<O Fhrer
  acentuou uma vez mais as suas cordiais e fraternas relaes com

  a Unio Sovitica e envia as melhores saudaes ao camarada Estaline. . . >>
  - Espera pela pancada, Estaline - comentou Weinberg, que
  estava a coser uma combinao de enfeites cor-de-rosa. - Chegar
  a tua vez.
  - Quando chegar a nossa? - perguntou Karl.
  - No me perguntes, Weiss - respondeu Weinberg, inclinando-se da tarimba de cima e 
acrescentando, num murmrio:
  - Ouvi dizer que um tipo comprou a fuga. Cinquenta mil
francos suos pagos ao comandante SS. A mulher conseguiu introduzir o dinheiro.
  - A mulher - reflectiu Karl. - H dois meses que no vejo
a minha... Nem uma carta, nem um sinal de vida.
  - Riscaram-nos da lista, mido. Mas no te deixes ir abaixo.
- Weinberg deu um salto da tarimba e mostrou a Karl a pea de
roupa que estivera a coser, exibindo-a como se fosse uma vendedora de balco. - 
Agrada-te?  para o sargento Kampfer das SS,
para a puta dele.
  - No puxes por mim, Weinberg - sorriu Karl.
  - Estou a falar a srio.  negcio. Fao roupa interior para
Kampfer e recebo extras.
  - Surpreendes-me, Winberg. Talvez tenhas razo. Sobrevives, ris, ages como se nada 
tivesse mudado.
  - No troces, mido. Na semana passada fiz um par de culotes com laos para 
Kampfer. Algumas vezes, pergunto a mim
mesmo se no ser homossexual e no as usar, dizendo que so
para a amante polaca. Mas v s o que me deu.
  O alfaiate exibiu furtivamente metade de um po de aveia
- po a srio e fresco -, que retirou do fato prisional s riscas.
  - Toma um bocado - ofereceu a Karl.
  - No posso, Weinberg. Foste tu que fizeste o trabalho.
Eu s sirvo para me queixar.
  - No sejas parvo. Serve-te  vontade. E po como o que
costumava comprar em Brema.
  Karl agradeceu-lhe, partiu um pedao e mantiveram-se sentados, mastigando 
pensativamente. Entretanto, Melnik, o ko,
aproximou-se.
  - Engole depressa - avisou Weinberg. - Esconde o po.
  Entretanto, durante a sua deteno em Buchenwald, operara-se
uma modificao em Karl. A semelhana do que acontecera a muitos presos. Entravam 
assustados, cheios de conceitos de honra e de
decoro, e tornavam-se duros, concentrados na autodefesa. Karl no
era estpido; nunca o fora. E aprendia a pouco e pouco que s
havia duas hipteses: vencer de vrias maneiras ou morrer. Por
exemplo, na alfaiataria e servindo-se do apoio de Weinberg, lutara
por um lugar perto do nico fogo existente na diviso - uma
vantagem importante - e vencera. A triste realidade  a de que
os nazis sabiam o valor de colocarem judeus contra judeus. O facto
explicava o sadismo dos kapos. E explicava tambm como um
homem pacfico como o meu irmo conseguira desenvolver dureza,
esperteza e capacidade de resistncia.
  Karl fitou Melnik.
  - Que v para o diabo! - disse em voz alta para Weinberg.
  - Comer nos aquartelamentos  proibido, Weiss - observou
o kapo.
  Weinberg pediu a Melnik que fechasse os olhos. O kapo era,
porm, uma vtima como eles. Se as SS descobrissem, perderia
aquele emprego fcil.

  - s um judeu como ns, Melnik - prosseguiu Karl. - D-nos uma oportunidade. No 
estamos a comer, mas apenas a provar.
  - Cala o bico e d-me o po. At  ltima migalha.
  - No - ops-se Karl. - Foi Weinberg que o ganhou. Este
po  para alfaiates e no para o safado de um polcia e de um
informador como tu.
  IGIelnik arrancou o duro casse-tte de borracha do cinto e aproximou-se da tarimba. 
- O menino bonito e filho do doutor Weiss
de Berlirzi, hem, Weiss? Muito acima dos outras presos, no
D-me j a merda do po!
  - D-lho, Karl - aconselhou Weinberg, enquanto entregava
a sua parte a Melnik. No entanto, Karl recusou-se. Estava a morrer de fome e o sabor 
daquele po gostoso recordara-lhe tudo o que
tinha perdido, a vida livre, a mulher, a famlia, a destreza.
  Quando Melnik lhe tentou arrancar o po, Karl fez-lhe frente.
Caram enrolados no cho e o kapo comeou a espancar Karl com
o pequeno e duro casse-tte de borracha. Karl transformara-se num
demnio que gritava, dava pontaps e mordia, tentando arrancar
a arma das mos de Melnik.
  Weinberg tentou interferir e tambm comeou a ser espancado. Os outros prisioneiros 
assistiam  cena, animando Karl, mas
recusando participar. A punio por luta dentro das casernas podia
representar a morte: um tiro na nuca ou o enforcamento pblico.
  - Weiss! Melnik! - gritou Weinberg. - Por amor de Deus,
acabem com isso! Judeus a lutarem contra judeus!
  - Este filho da me atacou-me - rugiu o kapo. - Guardas!
Guardas!
  Um outro kapo apareceu a correr e tambm ele, um antigo criminoso, como Melnik, 
aderiu  confuso, batendo com o casse-tete
nos braos de Karl e em seguida na cabea.
  no espao de segundos, o meu irmo e Weinberg foram vencidos, e espancados at 
ficarem praticamente sem sentidos.

  O castigo foi imediatamente posto em prtica. O sargento das
SS que estava de servio ordenou que os levassem para
as << rvores >>.
  As <<rvores>> estavam erigidas no ptio e eram armaes de
madeira em forma de T, as quais serviam para uma variante do
processo de crucificao.
  Karl e Weinberg foram atados com cordas speras, com os
braos presos atrs na barra de madeira. Deixaram-lhes os ps pendentes, a sessenta 
centmetros do cho. Impossibilitava-se, assim,
a circulao de sangue nos braos e nas pernas e tornava-se difcil respirar. 
Sabia-se que alguns homens tinham morrido depois de um
dia de aplicao deste castigo.
  Weinberg recorda-se de que, decorridas algumas horas, Karl
comeou a delirar. Repetia incessantemente o nome da mulher:
<<Inga... Inga... >>
  -Tem calma, mido - aconselhou Xleinberg. - Poupa a respirao.
  - Desisto, Weinberg. Quero dizer-lhes que venceram, que
me espanquem. Deixa-os matarem-me.
  - No, no, Weiss.  sempre prefervel viver. H sempre
uma oportunidade. Cada um de ns que vive santifica Deus. Julgo
ter esse direito. No sou religioso, mas  o que os rabis nos dizem.
  - No quero viver.
  - Claro que sim. Geme, se achas que ajuda.
  Weinberg garantiu a Karl que os tirariam dali no dia seguinte.

A gua reanm-los-ia. De facto, Weinberg tinha um amigo no dispensrio de Buchenwald 
que os poria em condies. E o prestvel
sargento, que ansiava por roupa interior de enfeites berrantes, no
deixaria que Weinberg, o melhor alfaiate de servio, ou o amigo
morressem.

  Desde que tinha sido violentada, na vspera de Ano Novo,
a minha irm Anna no recuperara. Ela, que fora sempre to alegre
e cheia de vida, recusava-se a comer, a tomar banho e, por fim,
em Julho, com grande desgosto e ,pavor da minha me, deixou
de falar.
  Tamar informa-me de que existe um termo mdico para este
estado. Anna passava o tempo sentada a um canto do estdio, com
 cabea encostada  parede, o corpo estranhamente enroscado, os
braos cruzados e apertados contra o peito e as pernas encolhidas.
No aceitava comida e a minha me e Inga tentavam aliment-la
 fora. Outrora a mais higinica e maravilhosa das raparigas, Anna
afastava-se agora do sabo e da gua, no mudava de roupa e no
articulava qualquer som, salvo pequenos gemidos.
  Apesar de ser tempo de guerra e de os servios mdicos especializadas para os civis 
- quanto mais judeus! - serem escassos, a minha me e Inga acharam ser passvel 
recorrer a um tal
Dr. Haefer, que conhecera o meu pai e era tido na conta de um
indivduo bastante liberal. Tanto quanto sabiam, no era membro
do partido e continuava a praticar neurologia.
  A minha me no teve coragem para acompanhar Inga e Anna.
Alm disso, era prefervel que se mantivesse escondida. Inga fazia-lhe as compras, 
aconselhando-a a manter-se no estdio o mximo
de tempo possvel.
  O Dr. Haefer olhou para a figura enroscada, retrada e imvel
e pareceu realmente condodo. Inga contara-lhe, em particular,
o que tinha acontecido a Anna e como comeara a decair desde essa
altura: pesadelos, ataques de histerismo, comportamento irracional,
e agora esta recusa do mundo, esta incapacidade de cuidar de si.
  - E o que pretende, senhora Weiss? - perguntou.
  - Talvez umas sesses de terapia. Uma clnica que a aceite.
Estou provavelmente a conjecturar. Partindo do princpio de
que ...
  O Dr. Haefer fez um aceno de concordncia. Estava a ser
diplomata.
  - Talvez a possa ajudar. H uma instituio em Hadamar
para onde enviei casos semelhantes.
  - Ficar-lhe-amos muito gratas, doutor.
  Nessa altura Inga no fazia ideia se estaria a tomar a deciso
correcta. Contudo, a viso de Anna, enroscada a um canto, de olhos
perdidos no vazio e os braos cruzados em redor do peito, convenceram-na de que no 
lhe restavam opes. Inga sentia-se atormentada com aquele incidente brutal e 
animalesco. A maneira como
Anna tinha sido tratada por trs dos seus compatriotas - tratava=se provavelmente de 
homens que conhecia - enchiam-na de tristeza. No conseguia imaginar um mundo to 
cego, to cruel, to
tendente a infligir a dor e a humilhao.
  Destruir algum to cheio de vida e bom como e sua jovem
cunhada! Com que finalidade? Em benefcio de quem? Inga no
era uma mulher culta mas possua dignidade. E via agora diante
de si uma jovem destruda, reduzida a um vegetal, incapaz de
tomar conta de si. Inga comunicara o crime  Polcia. Quando
o sargento foi informado de que a jovem implicada era judia, despediu Inga com um 
esgar.

  - Decerto uma prostituta, senhora Weiss. Mesmo que o mantivesse em segredo da 
famlia.
  Inga poupou esta histria  minha me. Mentiu-lhe, dizendo
que a Polcia tentaria prender os violadores.
  - E de que servir? - retorquiu a minha me, que comeava a sentir-se derrotada e 
incapaz de prosseguir.
  - No me devolvero a sanidade mental e fsica da minha
filha. Oh, estamos condenadas, Inga!
  Enquanto Inga pensava na minha me, que finalmente cedera,
perdendo a vontade frrea ante a srie de golpes que se abatiam
sabre a famlia, ouvia o Dr. Haefer pedir  enfermeira que telefonasse para o 
sanatrio de Hadamar e indagasse se tinham lugar
para uma doente. Segundo parece, existia um eficaz sistema de
transporte de pessoas para l, a expensas do Governo.
  - Acha que a vo tratar bem? - quis saber Inga. - Sabe
ao que me refiro.
  Referia-se, evidentemente, ao facto de Anna ser judia.
  - Dentro dos limites impostos por uma economia de guerra
- respondeu Haefer, ignorando o fulcro da pergunta.
  - Partir ainda hoje?
  - Daqui a algumas horas. Pode ficar aqui no consultrio at
 chegada do autocarro.
  A minha cunhada sentiu-se invadida por uma onda de pnico.
Nunca ouvira falar de Hadamar. Anna estava a balanar-se lentamente para diante e 
para trs, com os braos em volta do peito.
<< como se tentasse controlar demnios habitantes no seu corpo,
suprimir uma dor intratvel>, pensou Inga. Todo o amor que ela
e a minha me tinham dedicado a Anna depois da prova por que
passara no a tinha liberto do seu inferno ntimo.
  O mdico garantiu a Inga que no sanatrio havia pessoal
especializado capaz de tratar Anna. Seria submetida a terapia.
Alguns medicamentos novos poderiam ser eficazes.
  A enfermeira entrou, a fim de acompanhar Anna at uma sala
  de espera.
' Inga abraou-a e beijou-a no rosto. Contudo, a minha irm no
  teve qualquer reaco.
  - Minha querida Anna. Sou a Inga, e mulher do Karl. Tens
  de me conhecer. No te recordas do Rudi? Um casamento no jardim? A casa em 
Groningstrasse
  Os olhos de Anna ofereciam um vazio que no pertencia
  e este mundo.
  - Quando estiveres melhor, irei buscar-te. Eu e a mam levar  -te-emos para casa.
  A minha irm continuou sem dar resposta. Inga beijou-a
  novamente.
':' - No consigo acreditar no que aconteceu, doutor - disse
  a chorar. - Era a mais corajosa e alegre das raparigas. E agora.. .
  - Casos como estes so difceis, senhora Weiss.
  - Estou a tomar a deciso certa? Responda-me, por favor.
  Talvez deva ficar com a me e comigo. Contudo, d a sensao de
  piorar cada vez mais, de perder reflexos..
  - A jovem encontra-se profundamente perturbada. Pratica mente uma autista. Chamamos 
perseverao a esse movimento
  especfico de balano. Um indcio de profundas psicoses. Fazem
  bem em a submeter e cuidados de profissionais.
  A palavra <<submeter>> provocou um calafrio momentneo
  em Inga.
  - Mant-la-ei a par do seu progresso - prometeu o mdico.

  - E peo-lhe que d cumprimentos  sua sogra. Uma notvel pianista, se bem me 
recordo.
  Inga pensou que no era possvel ter  sua frente um indivduo mau ou capaz de 
fazer mal a Anna. Era delicado, compassivo
  e at se lembrava da minha me. A verdade  que, h anos, at
  conhecera o meu pai.
  - Adeus, Anna - despediu-se Inga.
  Por momentos Anna ergueu os olhos, como se se tivesse estabelecido qualquer 
consciencializao no seu esprito confuso de que algum que a amava se afastava da 
sua vida. Contudo, os olhos
continuaram perdidos no vazio e a boca fechada.
  A enfermeira conduziu-a para fora da sala, pronunciando
algumas palavras de conforto.




O DIRIO DE ERIK DORF


Varsvia
Agosto, 1940

  Hans Frank  governador-geral da parte da Polnia que no
anexmos formalmente ao Reich. Um homem moreno e forte, de
lbios sensuais, que tenta mostrar-se duro e impiedoso, mas pressinto nele uma certa 
autodefesa e fraqueza. Como se fosse o intelectual da aula que tenta ultrapassar os 
cbulas com uma fingida
bombstica.
  Heydrich enviou-me  Polnia a fim de fiscalizar o avano
do nosso plano de reinstalao. Estamos a transferir centenas de
milhares de judeus para leste, concentrando-os em lugares como
Lublin e Varsvia.
  Frank entrou na minha vida com o p errado, apelidando-me
com ar de troa de <<o novo rapaz de Heydrich>>. No gostei do
termo e dei-lho a entender.
  - No fique ofendido, major Dorf. Os seus olhos e ouvidos,
por assim dizer. Presumo que o enviou a Varsvia para me vigiar.
Para ver como administro as novas regies.
  - De facto,  isso mesmo. Em primeiro lugar, a sua queixa
de que necessita de mais quarenta mil civis para gerir o influxo
da mo-de-obra judia e polaca. Em segundo lugar, a sua informao
de que, na Polnia, representa uma fora mais poderosa do
que as SS.
  - J calculava - comentou Frank, cerrando os olhos. - Sei
o que me chamam. O rei vassalo da Polnia. Saqueador. Conspirador.
  - Deixemo-nos de rodeios - retorqui, apercebendo-me imediatamente de que no era um 
indivduo de temer. - Os quarenta
  mil civis esto fora de questo. Deixe que os Judeus e os Polacos
  se encarreguem da administrao do seu povo. Queremos que a nobreza, a polcia e o 
clero influente da Polnia sejam destrudos.
  A grande massa dos polacos ser utilizada para trabalhos forados, tal como os 
judeus dos guetos.
  -  bastante esperto para um mido de vinte e oito anas
  - comentou Frank. - Deve ter conseguido enganar bem o
  Heydrich.
  - Enganar?
  - Sei que tal como eu,  advogado. O partido odeia-nos.

  O Fhrer gostaria de abater a tiro todos os advogados da Alemanha. Fazem-lhe 
recordar os Judeus. O que me salva  ter conseguido tirar todos os grandes da cadeia 
nos anos vinte, quando voc ainda no existia.
  - Estou a par dos seus primeiros trabalhos jurdicos para
  o partido.
  - E eu de como beija o cu do Heydrich. Apenas posso afirmar que ele comea a 
rodear-se de funcionrios mais qualificados.
  Todo o sangue me afluiu ao rosto, colorindo-me o pescoo, as
orelhas, o rosto. Descobri, no entanto, com grande satisfao, que no tenho medo de 
Hans Frank. Est encarregado de um trabalho de relevo, mas no passa de um outsider. 
Heydrch ensinou-me que
a fora  a verdade ltima. Quando se consegue fazer pairar a
ameaa sobre uma pessoa, dar-lhe a entender que se  apoiado por uma autoridade mais 
elevada, sugerir, independentemente da hierarquia que ocupa, que no s no nos 
inspira medo como detemos o poder de a arruinar, consegue-se a longo prazo levar a 
melhor.
  No pretendo, evidentemente, ser um espelho de Heydrich.
Ele  o que se chama um verdadeiro lder e, em certa medida, Frank tinha razo ao 
apelidar-me jocosamente de <<funcionrio>>.
Contudo, no me passou despercebida a autopiedade dos olhos de
Frank, nem to-pouco a fraqueza que o traado da boca definia.
De facto, ele fazia-me recordar a minha personalidade de h cinco
anos atrs, antes de o partido e as SS me terem enrigecido e ensinado a fora do 
poder.
  Pousei a pasta na secretria e fitmo-nos naquele amplo gabinete, cheio de 
insgnias vermelhas, brancas e pretas do partido e de
retratos gigantescos do Fhrer.
  Podia ter continuado a atorment-lo, mas no o fiz. A verdade  que os crculos do 
centro do partido no confiam inteiramente em Hans Frank. Est sempre a reclamar a 
necessidade da
lei e de processos legais. Recordo-me bem de mais do conselho de
Heydrich quanto a esquecer os conceitos que aprendera nos meus
tempos de estudante. Simultaneamente, Frank no tem rival no
que se refere a ambio, sede de sangue, falta de princpios e argcia. Constitui um 
aglomerado negativo. As SS esto a par do facto
e tencionam dom-lo  sua vontade.
  - Estou farto dos judeus que me impingem - queixou-se,
quando comecei a ler o memorando de Heydrich. - Vocs empurram esses malditos 
transportadores de doenas para a Polnia e o
que hei-de fazer com eles? Estvamos muito melhor nos tempos em
que as SS os abatiam a tiro durante a invaso do ano passado.
  - Os indesejveis, continuam a poder ser eliminados. Comunistas. Criminosos. 
Revoltosos. De momento, os judeus capazes de
produzir, em particular no mbito do armamento militar, sero de
deixar em paz. E, por amor de Deus, deixe-os administrar os seus
guetos. Os nossos homens das SS apenas devem ser utilizados para
reforar a disciplina, fazer relatrios e cumprirem as misses que
lhes esto designadas.
  O varivel temperamento de Frank dificulta-me a manuteno
de um dilogo coerente. Talvez tenha sido advogado, mas tem um
crebro semelhante a um labirinto. Comeou a vociferar sobre os
nossos <territrios autnomos judeus - Varsvia, Lublin, Lodz.
Chamou-lhes escoadouros e esgotos que teriam de ser destrudos.
  Sem alterar no mnimo o seu comportamento agitado, levou-me
at junto da janela e mostrou-me o gigantesco muro que os judeus
esto a ser obrigados a erguer em redor do gueto de Varsvia.
Queixou-se de que arruinar a economia de Varsvia. Os judeus
desempenham cargos primordiais fora do gueto, e a partir de agora

ficaro isolados. Como conseguiria continuar a fazer com que as
fbricas do exterior funcionassem? Respondi-lhe que o muro, de
tijolo, pedra, cimento, est a ser construdo por ordem expressa
de Hitler.
  Quando o vi prestes a explodir de novo, declarei firmemente
que o isolamento das Judeus  mais importante que a economia.
Teria de encontrar um processo de manter as fbricas e indstrias
e funcionar, se necessrio, sem os Judeus. Comeou a passear de
um lado para o outro no gabinete, batendo com as taces no cho
encerado. Vive sem dificuldades e criou a imagem pessoal de um
cavaleiro teutnico, um baro medieval servido por exrcitos de
escravos polacos.
  Depois de o deixar explodir durante alguns minutos, repeti
a ordem: <<Muro no gueto.>>
  Nesta altura, ergueu um dedo na minha direco, chamou-me
moo de fretes e gritou que sabia perfeitamente o que o muro
significava.
  - Esclarea-me, Herr Frank.
  - Com mil raios! Sabe perfeitamente o que quero dizer, o que
voc quer dizer e todos os que esto abaixo de Hitler querem
dizer. Os Judeus tero de desaparecer.
  Sugeri que me informasse precisamente do significado das
suas palavras.
  Tinha o rosto a pouca distncia do meu. O hlito era desagradvel e os olhos 
brilhavam-lhe.
  - Desaparecer. O que com mil diabos, significa uma Europa
liberta dos Judeus, Dorf? Para onde os vamos mandar? Para a Lua?
  Desta vez, no o aborreci. Estava mais prximo de uma verdade que no me atrevo a 
admitir ou, pelo menos, a articular, nem
mesmo ao rei vassalo da Polnia.
  - Talvez tenha um estmago mais farte do que o seu - rugiu Frank. - Talvez no me 
mova com pezinhos de l, como faz
Heydrich. No entanto, ainda h pouco disse aos meus homens que
poderia ser um problema fuzilar ou envenenar os trs milhes e meio de judeus da 
Polnia, mas que mais cedo ou mais tarde
tomaramos medidas tendentes  sua aniquilao.
  - Sei que o fez. Desobedeceu a ordens.
  - Ordens urna merda!
  Conseguira, porm, sobressaltar-me. Utilizamos to frequentemente palavras de 
cdigo, rodeamos tantas solues extremas,
sugerimos tantas coisas uns aos outros sem as pronunciar que as
frases directas de Frank me chocaram. Para me recuperar, recordei-me de uma coisa que 
Eichmann me ensinara: quando tiveres
dvidas, obedece. O assassnio em massa no  uma perspectiva
agradvel. Mas se no se tratar de um assassnio verdadeiro, mas
de uma medida protectiva, uma profilaxia contra o contgio? Guardei estes pensamentos 
lgicos para mim. Tais subtilezas perder-se-iam num tipo de pessoa como Hans Frank.
  Nesse momento - afundado na sua enorme cadeira de reiqueiava-se de que seria 
forado a executar a nossa suja tarefa
e que no lhe agradava a ideia. Acrescentou que quando chegasse
a altura nos esfregaria os narizes no que fizssemos>.
  No consegui resistir a troar do seu pretensiosismo e da sua
curiosa insistncia quanto a <justia e mtodos legais>>. A semelhana de um paciente 
professor de escola, citei-lhe Heydrich.
Os velhos conceitos de justia encontraram ponto final no Terceiro Reich. Somos ns, 
a fora policial, quem decide o que  justo
e o que  injusto.

  - O rosto  o rosto de Dorf, mas a voz  a voz de Heydrich - comentou.
  Deixei-o pensar que aceitava a observao como um elogio.
Bebemos conhaque e tentou mostrar-se conciliador. Tinha-lhe metido um certo medo. 
Deveria manter a boca fechada relativamente
a <aniquilaes>, m.zro no gueto, deixar que os Judeus fizessem
o trabalho, o registo do seu povo e encontrar maneira de conseguir
aceitar centenas de milhares de mais judeus.
  Resmungou entre dentes que estava de acordo e convidou-me
a dar uma volta pelo gueto no automvel de servio.
  O gueto de Varsvia  um local deprimente e sujo, uma prova
de que os Judeus so incapazes de cuidar das suas casas. As ruas no so pavimentadas 
e o lixo abunda. Com grande surpresa, cheguei mesmo a ver dois cadveres por 
sepultar, na sarjeta. Frank
disse tratar-se de pedintes ou vagabundos sem casa. Talvez anormais. Acrescentou com 
uma expresso desdenhosa que os Judeus,
que proclamavam os intrnsecos laos familiares e o interesse pelos
pobres, se estavam a desfazer como comunidade.
  E, no entanto, vejo-me forado a confessar que naqueles arredores sombrios 
sobrevive uma curiosa vitalidade. Vendedores
ambulantes apregoam as mercadorias. Os carroceiros empurram os
seus veculos pelas ruas irregulares. Os velhos entram nas sinagogas, imersos em 
conversas, fazendo gestos largos. Mulheres empurram os carrinhos de beb. As lojas, 
embora sujas e mal
aprovisionadas, continuam aparentemente a fazer negcio. Mesmo
defrontando os meus melhores juzos de valor, vejo-me forado
a admitir que este povo tem vitalidade. Talvez seja o que os torna
to perigosas.
  - Estes estpidos continuam a agir como se nada tivesse
acontecido - rosnou Frank. - Acabaro por aprender a lio.
  Em seguida, verificou-se um curioso incidente.
  Na altura em que o automvel virava uma esquina e parou
momentaneamente, devido a uma descarga de madeira, prendeu-me
a ateno um homem alto, vestido de preto, que caminhava pela
rua,  nossa frente. Transportava o que me pareceu uma mala de
mdico.
  Pensei, por momentos, tratar-se do Dr. Weiss, o homem que
cuidara da minha famlia e mais tarde tratara Marta. Vira-o pela
ltima vez, h dois anos, quando me viera implorar pelo filho.
  O indivduo nem deu por mim. Ia acompanhado de um outro
homem, vestido mais modestamente, e conversavam animadamente.
Entraram num edifcio onde estava escrito JUDENRAT - Conselho Judaico de Varsvia - e 
Perdi-os de vista.
  Uma coincidncia curiosa, caso fosse realmente o Dr. Weiss.
Claro que j nada tenho a ver com ele. No lhe atribuo qualquer
significado. Pertence ao passado. Um homem bastante digno,
segundo me recordo, mas ingnuo e casado com uma mulher obstinada que se recusou a 
sair da Alemanha na altura indicada.
  Perguntei a Frank se conhecia o homem da mala.
  - No ando atrs de todos os judeus de Varsvia - respondeu com um encolher de 
ombros. - Pelo chapu, d-me ideia de
ser um dos membros do Conselho. Uma cambada de preguiosos
e parasitas. O melhor ser que se organizem, ou teremos alguns
tiroteios para os espicaar. J matei mais do que a minha conta
de membros dos conselhos nas pequenas cidades, quando no fazem
nada, Dorf.  isso o que se pretende, no? Nada de antigos conceito de justia, 
apenas a arma. Certo?
  No respondi. Durante uns minutos no consegui afastar
a imagem do indivduo alto. Provavelmente no era o Dr. Weiss.

E se fosse, que me importava? No me deu a sensao de vtima
sofredora.



A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Um punhado de judeus sobreviveu ao horror de Varsvia.
Alguns vivem aqui em Israel, e uma mulher que habita perto do
Kibbutz Agam, Eva Lubin, conheceu o meu pai e o meu tio Moses.
Lutou na resistncia e participou nas reunies do Conselho antes
de este perder todo o crdito entre os Judeus e ser substitudo
pelas unidades de combate. Eva contou-me uma grande parte dos
acontecimentos.
   frente do Conselho estava um homem chamado Dr. Menalzem Kohn. Na opinio de Eva, 
tratava-se de um contemporizador,
um homem que fazia exactamente o que os nazis lhe ditavam.
  Depois da acesa discusso que travara com o mdico alemo,
quanto ao uso de drogas txicas para tratamento do tifo - remdios que matavam os 
doentes com dores horrorosas -, o meu pai
ganhara uma certa fama de resistente. Na altura, nada poderia
estar mais longe da verdade. Mantinha-se na posio de homem
prudente, interessado em conservar um certo nvel na assistncia
mdica, apesar do excesso de doentes, da falta de condies sanitrias, do 
racionamento de comida, de aquecimento e de remdios.
As pessoas morriam diariamente no hospital e arredores. Ele,
o irmo Moses e as enfermeiras eram meros espectadores indefesos.
O pior eram as crianas: dzias delas metidas em enfermarias cheias
de piolhos, enroscadas, aterrorizadas, os olhos cada vez maiores
nos corpos enfezados, pedindo incessantemente comida.
  Eva recorda-se de um certo dia em que se discutiu muito
sobre contrabando, o que tanto o Dr. Kohn como muitos dos ancios
consideravam um crime grave.
  Um homem chamado Zalman, um vulgar trabalhador, que
representava os sindicatos judeus, dera incio  discusso, fazendo
comentrios sobre o muro.
  - Dezoito quilmetros - exclamou. - Para nos meter dentro
e aos Polacos fora.  uma priso e mais nada!
  - Receio que Varsvia se venha a transformar no maior
gueto de todos os tempos - concordou o meu pai. - E a situao
tende a piorar.
  Levantou-se uma discusso sobre o trabalho no muro, e Kohn
insistia em que os trabalhadores de Zalman deviam despender mais
esforo, para apresentarem mais resultados.
  - No  to fcil como isso, doutor - argumentou Zalman
levando a mo ao bon. - Muitos deles sabem que, uma vez
erguido o muro, ficamos isolados. Sem negcios, nem trabalho
l fora.
  - Em Roskow, .meu amigo - retorquiu Kohn erguendo um
dedo na sua direco -, um Conselho Judaico, exactamente como
este, no apresentou a produo de trabalho que lhe competia.
Os membros do Conselho foram enforcados publicamente. Temos
de cooperar com os Alemes. No nos resta outra escolha. Somos
o que sempre temos sido: vtimas.
  - No posso dizer isso aos meus camaradas do sindicato - replicou Zalman.
  -  o melhor que tem a fazer - contrariou o Dr. Kohn.

  O meu pai e o meu tio mantiveram-se silenciosos uns momentos. Um silncio de morte 
abateu-se sobre a reunio do Judenrat.
  - Temos de deixar de nos lamentar e queixar relativamente
a este conceito de gueto - prosseguiu o Dr. Kohn. - Pelo menos
 algo que compreendemos, algo com que vivemos durante sculos
a fio. Poderemos ter as nossas escolas, os nossos hospitais
e associaes. Foi o comandante das SS em pessoa que me fez
tal promessa. A verdade, meus senhores,  que precisam de ns:
mo-de-obra especializada, comrcio, a economia polaca...
  De novo pairou o silncio.
  - Durante quanto tempo precisaro de ns? - interferiu,
seguidamente, o meu pai.
  - Desculpe-me, doutor Weiss?
  - Estou a perguntar-lhe, doutor Kohn, por quanto tempo
precisaro de ns. Durante quanto tempo vrios milhes de judeus
pobres tero valor para eles? A longo prazo podemos ser apenas
um fardo. E depois...
  O Dr. Kohn sacudiu a cabea, em discordncia:
  - No temos outra escolha seno a de colaborar de todas
as maneiras possveis. Produzir trabalho. Limpar as ruas da cidade.
Manter as fbricas em funcionamento.
  - Parece-me que essa questo de trabalho e produtividade
tem muito que se lhe diga - interrompeu Moses. - Ouvi dizer
que os homens so espancados de morte, assassinados a tiro,
por infraces mnimas.
  -  verdade - concordou Zalman com um aceno de cabea
- Eu prprio assisti a alguns casos. No somos tratados como
trabalhadores, mas como escravos.
  - Contudo, no nos resta mais nenhuma escolha para alm
da obedincia a ordens - argumentou solenemente o Dr. Kohn.
- No podemos resistir. No devemos resistir. No haver contrabando, nem operaes 
de mercado negro ou tentativas de sabotagem. Apenas podemos rezar para que as coisas 
melhorem.

  Em Outubro, trs meses depois de Anna ter sido mandada
para a clnica psiquitrica de Hadamar, a minha me recebeu uma
carta oficial do hospital. Era breve e assinada por um <<director
de servios>>.
  Uma carta estranha, com o cabealho <<Fundao de Caridade
de Assistncia Mental, Hadamar, Alemanha>.
  Comunicava que Anna eiss, de dezoito anos de idade,
morrera de <pneumonia e outras complicaes>>. No estava datada.
Tinham tomado a liberdade de lhe cremarem o corpo, a fim de
evitarem o perigo de contgio. Posteriormente, a senhora Weiss
seria informada quanto  localizao da sepultura da filha.
  A minha me entrou em histeria. Chorou sem parar dias
seguidos. Estava inconsolvel. Anna tinha sido a menina querida
da famlia, a mais inteligente de todos ns, a que mais amor tinha
 vida. A minha me no podia conceber que tivesse morrido desta
maneira: sem ningum que a amasse ao seu lado, o crebro perturbado e sem esperana. 
Fora capaz de aguentar a priso de Karl.
A verdade  que estava vivo. At mesmo o meu desaparecimento
tinha sido compreensvel. Contudo, a morte de Anna assemelhava-se
a uma faca cravada no peito, abrindo uma ferida que no parava
de sangrar.
  - A culpa  minha - lamentava-se a Inga. - Pedi para que
a levassem.
  -No, mam-opunha-se Inga.-Achmos que seria
melhor para ela... no podia ter uma vida normal.

  As mulheres sentiam-se culpadas. Da famlia Helms, do apartamento contguo, 
receberam condolncias e nada mais. Inga ouviu-os
sussurrar que Anna tinha sido culpada do seu destino, ao sair para
a rua na vspera de Ano Novo.
  Nas semanas que se seguiram  marte de Anna, a minha me
deu frequentemente a sensao de se encontrar  beira da loucura.
Contudo, sempre que o histerismo atingia o ponto mximo e Inga
se preocupava com ela, aquela fora que mantinha em reserva
vinha  superfcie e impunha a si mesma um equilbrio emocional,
recordando Anna, Karl, a mim e ao meu pai.
  -Voltaremos a estar juntos-afirmava convictamente.
- Tenho a certeza. A Anna estar sempre viva na nossa memria.
Quando o Karl e o Rudi tiverem filhos, daro o seu nome a uma
filha. Recordas-te de como era brincalhona, Inga? De como costumava arreliar o Rudi? 
Os jogos que inventavam?
  - Recordo-me, sim. No esqueceremos a nossa Anna.
  S descobri exactamente como a minha irma morreu, alguns
anos mais tarde, quando Inga desenterrou provas.
  Anna foi uma das cinquenta mil vtimas - judias e gentias do programa nazi de 
<<eutansia>>.
  No tinha sido levada para uma clnica de Hadamar, mas para
uma das primeiras instalaes de cmaras de gs, um modelo das
estruturas que mais tarde seriam usadas para matar milhes de
judeus.
  Existiam doze locais semelhantes a Hadamar, e o Estado
tomou a deciso de quem deveria ser metido nas cmaras de gs,
sem consultar as famlias dos condenados.
  Assim, os aleijados, idiotas, atrasados mentais, paralticos, etc.,
foram levados para estas fbricas de assassnios, despidos e embrulhados em papel, 
aplicando-se-lhes gs mortfero espalhado por
meio de enormes motores de combusto interna.
  Estas primeiras mortes por gs verificaram-se algures em 1938
e prolongaram-se por alguns anos. Rodearam-se do maior segredo,
mas conseguiu ser passada a palavra. Em certa medida, constituram
ensaios do que viria a ser, anos depois, o modelo de extermnio
dos Judeus e de muitos outros.
  Soube por intermdio das minhas pesquisas que, quando a confirmao do assassnio 
destas pessoas <<inteis>> chegou ao Vaticano
se dirigiram pesados protestos a Berlim. As autoridades protestantes
tambm ergueram a voz. Os idiotas, mongolides, anormais e aleijados eram igualmente 
filhos de Deus, insistiram os clrigos. O programa da <<eutansia>> foi assim 
eliminado em silncio. Contudo
  ,
os planos permaneceram com vida.
  Quando os Judeus foram mortos aos milhes por meio de gs,
no se levantaram protestos do honrado clero. Nem uma palavra,
 excepo de alguns corajosos, que se podiam contar pelos dedos
da mo.
  Tomo agora conscincia de que devo escrever sobre estes
assuntos com a mxima objectividade e frieza. Talvez para me
defender de chorar uma vida inteira o assassnio da minha
querida irm.

O DIRIO DE ERIK DORF

Berlim
Novembro, 1940


  Fui informado por um telefonema annimo feito para o meu
gabinete, em 15 de Novembro, de que um certo padre est e fazer
sermes destinados a minar a nossa poltica racial.

  O indivduo chama-se Bernard Lichtenberg e  presbtero
na Catedral de Santa Hedviges.  um homem de aparncia vulgar
e cabelo grisalho, na casa dos sessenta. Pouco sei do seu passado,
  b
mas no consigo imaginar o que o levou a esta atitude arrojada.
A grande maioria das igrejas, catlicas e protestantes, apoiaram-nos
ou mostraram-se discretamente neutras.
  Fui, assim, assistir a um dos ofcios religiosos em Santa
Hedviges. (No sou catlico nem tenho sido cristo praticante
desde a minha infncia. Os meus pais eram luteranos, mas pouco
se enquadravam em religies organizadas.)

  A igreja pouco mais cheia estava do que um tero. Talvez j
tivesse sido passada a palavra relativamente aos comentrios antiestatais de 
Lichtenberg. De facto,  medida que foi pregando,
no decurso da missa, pelo menos meia dzia de pessoas levantaram-se e saram.
  O velho padre pisava um caminho perigoso. Nada tenho
pessoalmente contra ele, mas quem quer que mine as nossas polticas tem de ser 
eliminado. So estas as ordens das hierarquias
superiores.
  - Rezemos em silncio pelos filhas de Abrao - dizia o padre
Lichtenberg.
  Foi nesta altura que quatro ou cinco pessoas saram. Outras,
ergueram a cabea e no rezaram.
  - L fora - prosseguiu o padre -, a sinagoga est a arder
e tambm ela  uma casa de Deus. Em muitas das vossas casas
circula um jornal inflamatrio, avisando os Alemes de que,
se exibirem um falso sentimentalismo para com os Judeus, cometem
traies. Esta igreja. e este padre rezaro pelos Judeus, porque
eles sofrem.
  A maioria das pessoas levantou-se e saiu.
  - No se deixem enganar por tais ideias anticrists. Actuem
de acordo com o mandamento de Cristo: <<Ama o prximo como
a ti mesmo. >>
  Esperei at o ofcio religioso terminar e, em seguida, atravessei
a nave e entrei na sacristia. Estava vestido  civil, por achar um
tanto imprprio apresentar-me na missa de uniforme. (Embora
muitos dos nossos homens sejam bons catlicos ou protestantes
devotos e assistam sempre fardados aos ofcios religiosos.)
  Um sacristo idoso estava a ajudar o padre Lichtenberg
a despir os paramentos. Aproximei-me e mostrei o meu carto de
identificao e a insgnia.
  - Capito Erik Dorf - leu. - Em que lhe posso ser til,
meu filho?
  - Escutei o seu sermo com muito interesse.
  - E aprendeu alguma coisa com ele?
  - Aprendi que  um homem de bom corao, mas erroneamente informado.
  Fitou-me com um olhar cansado e sensvel. Desejei no ter
de o enfrentar.
  - Sei o que est a acontecer aos Judeus. E o senhor tambm,
capito.
  De preferncia a entrar em discusso com ele, dei a volta
 mesa da sacristia, medindo bem o peso das palavras: - H alguns
anos que o papa Pio assinou uma concordata com o Fhrer, padre.

O Vaticano declarou muitas vezes que considera a Alemanha como
o ltimo bastio cristo da Europa contra o bolchevismo.
  - O que no justifica a tortura e o assassnio de inocentes,
capito.
  - Ningum est a ser torturado. Desconheo qualquer
assassnio de inocentes.
  - J vi judeus espancados e espezinhados nas ruas. Vi-os
serem metidos nas prises sem motivo...
  - So inimigos do Reich. Estamos empenhados numa guerra,
padre.
  - Contra exrcitos ou contra judeus indefesos?

  - meu dever aconselh-lo a que seja mais moderado nos
seus comentrios, padre. Outros clrigos no viram problema numa
reconciliao da sua f com a nossa. Na semana passada, em Brema,
inauguraram uma nova igreja em nome do Fhrer.
  No se deixava apanhar facilmente:

  - Ouvi histrias contadas pela boca dos nossos soldados
regressados da Polnia - retorquiu. - Ultrapassam em muito
a mera deslocao das chamadas <<raas estranhas>>.

  - Confisses de jovens cansados de lutar. Deve tomar essas
histrias de nimo leve.
  - Contudo, na qualidade de padre, tenho de escutar e conceder a absolvio. Nesses 
assuntos rejo-me pela minha conscincia.

  Era um velho obstinado, bastante digno, mas cego relativamente aos nossos fins e 
objectivos. Despedi-me com um cumprimento de cabea e avisei-o de que no deixasse 
que a conscincia
lhe arranjasse problemas.
  Agradeceu-me e virou-me as costas.
  - Um jovem to inteligente e encantador - ouvi-o dizer ao
sacristo. - A nossa ddiva  nova gerao.

  Apreendi o tom sarcstico da voz e decidi mentalmente no
o perder de vista.



A HISTdRIA DE RUDI WEISS


  A minha me acabou por ser presa e enviada para Varsvia.
  Creio que quase se sentiu contente pelo abater do machado.
Embora pudesse ter permanecido mais alguns meses no velho
estdio de Karl, estava a destruir-se, devido  perda de Anna
e  ausncia dos filhos e do marido. Talvez fosse <<denunciada>>
por algum da famlia Helms. Inga jura que os pais nada disseram,
embora no dissimulassem o dio que sentiam pela minha me.
  Fosse como fosse, prenderam-na durante uma rusga quele
bairro da cidade e meteram-na num vago de gado juntamente com
centenas de outros judeus berlinenses, na sua maioria mulheres
e crianas, a caminho de Varsvia.
  O meu pai estava a trabalhar na ala das crianas do Hospital
dos Judeus quando ouviu dizer que uma tal Berta Weiss, reivindicando ser sua mulher, 
chegara  Umschlagplatz, perto da estao
principal de caminhos de ferro do gueto.

  Max Lowy, o tipgrafo e antigo doente do meu pai, foi a correr
dar-lhe a notcia. O meu pai e uma mulher chamada Sara Olenick,
uma enfermeira, estavam a tentar arranjar comida e remdios para
as crianas doentes. Morriam diariamente, enroscadas em volta de
um fogo apagado, incapazes de resistir s doenas que devastavam
o gueto.
  Low insistia que tinha visto a minha me. O meu pai abandonou imediatamente o 
hospital e correu durante praticamente
todo o caminho que o separava do departamento de registos da
estao.
  E reuniram-se assim, mais de um ano decorrido aps a deportao do meu pai.
  Cartas que a minha me escreveu a Karl (segundo parece
nunca expedidas; foram devolvidas e guardadas por Inga) revelam
a profundidade de sentimentos que a uniam ao meu pai. Em frente
dos filhos, mostrava-se sempre controlada, a imagem perfeita da
filha de um antigo oficial de infantaria.
  Contudo, as cartas contavam uma histria diferente. Numa
delas escreveu:

  Talvez seja minha a culpa, querido Karl, pelo teu
temperamento tmido e, coyrco dizer, retrado. Nunca denotei,
exteriormente, um amor profundo ou emoes para com
o teu querido pai, de facto para com os meus filhos. O que
no quer dizer que no vos amasse ou a ele. Como seria
possvel? O teu pai  simplesmente o tipo de homem cuja
bondade desde logo se divisa. Trata o mais mesquinho dos
doentes, o pior dos mendigos, canalhas e embusteiros com
os cuidados que devotaria a um prncipe. E quanto s contas
por pagar! E nunca ter ido atrs deles!
  Por vezes chega a provocar a confuso no meu espirito,
e sei que  melhor do que eu. O meu amor por ele  uma
mistura de admirao e medo ante a sua continua bondade.
Tambm isto existe em ti, Kard...

  A minha me sempre fora incapaz de demonstrar afecto
profundo e calor. Filha nica, criada num-; atmosfera de estufa
e com uma educao prodigalizada por pais rgidos, era incapaz
de beijar, abraar e muito menos ter qualquer expresso sexual
publicamente.
  Contudo, agora, ela e o meu pai beijaram-se descaradamente,
como jovens ,amantes. Ele troou da insistncia dela em se manter
na bicha de registo, observando-lhe que continuava a ser a berlinense submissa  lei. 
Garantiu-lhe que at mesmo no miservel
gueto de Varsvia a burocracia era ineficaz e poderia esperar um
pouco para se registar, enquanto se sentavam no que passava por
ser um caf, fingindo estarem no Hotel Adlon.
  - Onde h judeus, tem de haver stios para as pessoas se
sentarem, darem a mo e conversarem - declarou o meu pai.
- Mesmo que seja um caf sem caf.
  Contemplaram-se por momentos. Tinham envelhecido. O sofrimento cavara-lhes rugas 
nos rostos.
  - Ests a esconder-me alguma coisa - observou o meu pai,
que lhe conhecia o comportamento e as reaces.
  - Josef... a Anna morreu.
  Falou-lhe da estranha carta e na morte de Anna na clnica,
devida a uma pneumonia. Inga tinha tentado saber mais, descobrir
a sepultura, e nada conseguira.
  O meu pai chorou incontrolavelmente, incapaz de dissimular

a tristeza que sentia. A minha me mentiu-lhe quanto aos acontecimentos que lhe 
provocaram a morte. No soube que tinha sido violentada por canalhas embriagados e 
como o facto ocasionara
a sua perturbao mental.
  - No sofreu - continuou a minha me. - As pessoas do
hospital disseram que as drogas lhe tiraram as dores e morreu
em paz.
  - No posso acreditar - soluava. - A minha filha, a minha
Anna. O que querem de ns, em nome de Deus? Que tributo nos
exigem? As vidas dos nossos filhos?
  Durante muito tempo, manteve-se silencioso, de cabea pendente, as mos nos olhos, 
enquanto a minha me lhe mentia
a respeito de Anna. Era um mdico qualificado de mais para
aceitar a histria de que entrara simplesmente em depresso.
Argumentou, tentando minorar o desgosto profundo com a anlise
mdica, que tais quebras mentais se deviam regra geral e um
trauma qualquer. Acontecera qualquer coisa a Anna? A minha me
respondeu negativamente. Apenas se tratara de uma depresso
gradual.
  - A vida que ela tinha! - chorava. - Mataram-lhe toda
a vida que tinha.
  Apercebia-se agora de que no havia indignidade, humilhao
ou tortura que nos fosse poupada.  famlia Weiss e aos judeus
da Europa. Durante o resto da vida, nunca mais se conseguiu
libertar da imagem da filha perdida.
  A minha me tentou distra-lo. Perguntou-lhe quais as condies de vida no gueto de 
Varsvia. Tinha trabalho? Onde iriam
viver? Com a sua infinita capacidade optimista de ver o lado bom
das coisas, declarou que se iria oferecer para ensinar na escola.
Ouvira dizer que as escolas do gueto, apesar das dificuldades,
estavam em actividade e cheias de estudantes vidos de aprender.
Sentir-se-ia feliz por ser professora de uma aula de msica, talvez
de literatura tambm.
  O meu pai concordou, mas no conseguia abandonar o assunto
de Anna:
  - No consigo acreditar que tenha desaparecido. No me
contaste tudo. Onde era esse hospital? Quem foi o mdico?
  -Chora, se achas que isso te ajuda, Josef-replicou,
pegando-lhe na mo. - Mas no conseguirs trazer a nossa filha
de volta. Talvez... talvez seja melhor assim.
  - Melhor? A vida  sempre prefervel  morte.
  -No estou assim to certa. No me faas mais perguntas.
  - Os rapazes?
  - O Karl continua na priso. Sabemos que ainda est vivo.
Inga diz que continua a tentar v-lo, a mover influncias para
o libertar.
  - O Rudi?
  - Fugiu. O nosso rebelde. Desapareceu de noite, deixando-me
um bilhete a dizer que no nos devamos preocupar com ele,
mas que no ficaria  espera que o prendessem.
  O meu pai sacudiu a cabea.
  - Como sinto a falta deles! Nunca lhes falei o bastante nem
lhes dediquei o tempo suficiente. Como desejava que pudessem
estar ao nosso lado, para emendar erros cometidos! Uma vez
desapontei to terrivelmente o Rudi! A primeira vez que jogou
como avanado-centro num jogo importante. Dezasseis anos e o
mais novo jogador da equipa. E tive de assistir a uma reunio
mdica. Afirmou-me que no tinha importncia, mas sei que

o desiludi.
  - Conpens-los-emos quando tudo isto acabar.
  - Sim. Claro que sim. E no devemos chorar sobre leite
derramado. H centenas de milhares em piores condies. Pelo
menos, teremos trabalho: o suficiente para comer e onde viver.
  Levantaram-se do caf e comearam a andar de mos dadas,
como jovens amantes.
  - Nunca te amei tanto, Josef - disse a minha me.
  - Nem eu. Deus do cu. Olho para ti e vejo a Anna.
  - Mas no deves voltar a chorar - retorquiu, pegando-lhe
  firmemente no brao. - Agora, quero que me leves a esse belo
  apartamento.
  -  apenas uma diviso, por cima da velha farmcia.
  - Sem piano? Sem o Bechstein?  possvel que te deixe,
se no houver.
  - Sem piano - respondeu o meu pai. - Mas com a recordao de um outro.

  Pouco antes do Natal, Inga recebeu uma carta do sargento
Heinz Muller dizendo-lhe que fosse a Buchenwald. Mostrava-se
vago, mas dava a entender que talvez lhe fosse possvel arranjar
um encontro com Karl. Nada ,podia prometer, mas pelo menos
tentaria. E ordenava-lhe que queimasse a carta.
  A minha cunhada era uma mulher corajosa e obstinada. Calou
umas botas, ps a mochila ao ombro, para passar por alpinista,
e aproximou-se destemidamente das vedaes do campo prisional.
H muito de elogioso que dizer a respeito do passado do proletariado, de mulheres 
independentes e cheias de recursos. Inga estava
adiantada em relao  poca.
  Foi evidentemente detida por sentinelas armadas. Avistava
proteces duplas de arame farpado, uma sebe elevada e um fosso
a cercar o local.
  A distncia, na terra gelada do campo de internamento,
distinguia homens de fatos listrados que se moviam lentamente,
cavando o solo com ps e enxadas.
  Um soldado das SS aproximou-se com a inteno de a afastar,
mas ela insistiu em falar com o sargento Heinz Muller, um velho
amigo. O soldado, intimidado com aquela tenacidade, falou com
Muller por um telefone do campo, avisando Inga para que esperasse
do lado de fora das barreiras.
  Muller saiu da casa da guarda, ajeitando o cinto do uniforme
e afastando o cabelo da testa. Sorriu-lhe de uma maneira cordial,
quase untuosa.
  Muller mandou embora a sentinela curiosa e abriu-lhe os braos
em sinal de boas-vindas. Ela ignorou-o.
  - Vejo que recebeu a minha carta.
  - Recebi - disse Inga.
  - Como tem passado, querida amiga? A estimada e digna
senhora Weiss.
  - Bastante bem. Estou aqui para ver o Karl. Dizia na carta
que me conseguiria um encontro.

  Muller olhou  distncia para os homens que trabalhavam
 distncia, batidos por um vento invernoso. Inga recorda-se de que
havia leves flocos de neve.
  - Os regulamentos tornaram-se mais rgidos - respondeu.
- No tenho poder directo sobre os presos.
  - Nesse caso ,porque me enganou?
  Furtou-se ao olhar dela.

  - Senti que devia um favor  sua famlia. Velhos amigos
e assim por diante...
  - Quero ver o Karl.
  - Tem medo de mim? - perguntou Muller, agarrando-lhe
o brao.
  - No. Sei demasiado a seu respeito. E de outros como voc.
No se deve mostrar medo a pessoas da vossa laia. O meu cunhado
Rudi apercebeu-se disso.
  - Bah! Esse estpido jogador de futebol. Ho-de apanh-lo
e dar-lhe a conta que merece.
  - Leve-me junto do Karl.
  - Venha comigo. Discutiremos isso na casa da guarda.
Temos uma sala de visitas.
  Conduziu-a at a um edifcio semelhante s casernas,
introduzindo-a por uma porta lateral. Viu imediatamente que no
estava numa <<sala de visitas>>, mas nos seus aposentos privados,
com uma cama, secretria, cadeiras, fotografias na parede.
  - Este  o seu quarto - disse.
  - Por favor. As visitas so sempre bem-vindas aqui. Sente-se.
  Inga acedeu.
  - Um cigarro? - ofereceu Muller. - Talvez um pouco de
conhaque? Nada  bom de mais para os nossos bravos soldados
que defendem o Reich dos inimigos. Fazemos to bom trabalho
aqui como os que esto na frente.
  - Vim aqui por um motivo: para ver o meu marido.
  - Talvez um pouco de caf. No  cevada, garanto-lhe.
Caf do bom.
  Sacudiu a cabea negativamente.
  - Ah! A teimosia dos Helms. - Ps-lhe e mo no ombro
e comeou a afagar-lhe a nuca.
  Suportou a carcia por momentos, antes de lhe afastar a mo:
  - Como est ele?
  -No muito bem, receio. Arranjou um sarilho na caserna.
Luta, roubo de comida. No sei bem. Tiraram-no daquele trabalho
fcil na alfaiataria e puseram-no na pedreira. A verdade  que ele
e um amigo, um judeu qualquer chamado Weinberg, estiveram
amarrados e pendurados.
  - Oh, meu Deus! Pobre Karl.
  - Sim. Esse trabalho de p e enxada no  brinquedo nenhum.
Os guardas no lhes do descanso. Algumas vezes trabalham at
carem para o lado. E com a chegada do Inverno...
  Inga levantou-se cheia de raiva, mas conseguindo controlar-se:
  - Mentiu-me. Mas que belo amigo do meu pai.. . Mandou-me
vir aqui em falso. No o posso ver. E acabo por ser informada
que est em trabalhos forados. Tenho ouvido histrias do que
se passa aqui.
  - Disparate! Quem trabalha sobrevive. Quem no trabalha
mete-se em sarilhos.
  Inga amava profundamente o meu irmo e o pensamento
de saber que sofria, a imagem daquele homem frgil nos campos
cobertos de neve, a picar pedra, espancado, sob a ameaa da morte,
quebraram-lhe a sua vontade frrea. Escondeu a cabea entre as
mos e comeou a chorar silenciosamente.
  Muller sentou-se na cama, em frente dela, e ps-lhe a mo
no joelho:
  - No chore. Tenciono ajud-la.
  - Como? - perguntou, erguendo os olhos e envergonhada
pelas lgrimas. - Pode apelar para que o libertem?

  - No passo de um sargento. Mas. . . levo-lhe uma carta sua.
  - Leva?
  - E trago a carta dele c para fora e remeto-a para Berlim.
  - Ficar-lhe-ei grata.
  - Por si, Inga Helms, ser uma honra. - Ergueu-lhe o queixo
com uma das mos. Inga recorda-se de que para um homem da sua classe, um antigo 
operrio fabril, tinha uma mo curiosamente
  macia, como se a vida fcil dos ltimos anos o tivesse mudado.
  Tambm cheirava a uma gua-de-colnia masculina.
  Em seguida, ajoelhou-se na frente dela. Inga retraiu-se.
  - No, por favor - pediu. - No sou um monstro. Cumpro
  uma misso e mais nada.
  - Vocs fazem mais do que cumprir uma misso.
  - Vocs. Condenar uma nao inteira que luta pelos seus
direitos, pela sua vida? Algum tem de se encarregar dos inimigos
internos.
  - Deus do cu, Muller. Poupe-me a esses discursos da linha
do partido.
  - De acordo. Ponhamos o problema numa base pessoal.
H muito tempo que me conhece. Sou um velho amigo do seu pai,
do seu irmo. Estive no seu casamento. Vi-a unir-se a um judeu
de uma famlia distinta. E eu? Um mecnico toda a minha vida.
Sem receber educao. Havia o direito de ser escorraado, troado
por esse motivo? Amei-a, Inga. Amei-a mais do que esse... esse...
  - Cale-se, Muller.
  - E a verdade. Senti as entranhas rodas no momento em
que trocaram as alianas. Devia ter sido minha mulher.
  - No fale nisso, por favor. Trouxe uma carta comigo.
Entregue-lha por mim. - Abriu o saco, tirou a carta e entregou-a
ao homem das SS.
  Muller olhou-a como se estivesse envenenada ou prestes
a explodir na sua mo:
  - De acordo.  um risco que corro, Inga. Mas por si. ..
pela sua famlia... Heinz Muller est disposto a ceder.
  Nesta altura desabotoou o casaco e p-lo em cima da cadeira.
Inga levantou-se para se ir embora. Ele colocou-se em frente da
porta, cortando-lhe a sada. Em seguida, forou-a a sentar-se
na cama.
  - O seu homem.. . vi-o ontem - disse. - Est com um
aspecto horrvel. Mais uns dias na pedreira podem causar-lhe
a morte.
  - Garantiu-me que ia andando.
  - No a queria preocupar. Mas agora estou a dizer-lhe
a verdade. Morrem diariamente l.
  - Imploro-lhe que o ajude.
  - Tenho um pouco mais de influncia do que dou a entender - prosseguiu Muller, 
comeando a desabotoar a camisa. - Se
estabelecermos um certo acordo, conseguirei tir-lo da pedreira
e p-lo num trabalho melhor ainda que o da alfaiataria. Tm aqui
um estdio de artistas. O paraso para ele.
  - Que tipo de acordo?
  - Julgo que me est a compreender. - Desapertou o cinto.
  - Seu porco.
  - Mais uma semana na pedreira, e ser outro judeu marto.
  Aproximou-se dela, barbeado de fresco, tresandando a gua-de-colnia masculina, e 
comeou a molhar-lhe o rosto com lbios
hmidos e sfregos. Ela caiu sob o peso do corpo e deixou que
lhe levantasse o vestido. Tentava ser suave, mas as mos quentes

e trmulas atraioavam a paixo animalesca.
  Cheia de desdm e repulsa, encontrou uma forma de combater
o dio que sentia por ele e pelo que a obrigava a :fazer. Olhou para
o tecto da caserna, escutando os grunhidos e gemidos, aceitando
a forma desajeitada como a penetrava e detestando-o. << uma
experincia mecnica>, dizia de si para si. Como uma pequena
operao cirrgica ou a aplicao de um instrumento ortopdico.>>
  Veio-se no espao de segundos. Ofegante e esgotado, deixou-se
cair para o lado. <<Sim>>, continuou a pensar. <<Uma coisa mecnica,
sem qualidades humanas, desprovida das formas mais bsicas da
fisiologia. >>
  - Amo-te, com mil raios - sussurrou Muller, que se encaminhou, aos tropees, para 
a casa de banho. - Amo-te. Voltars.
E acabars ;por me amar.
  No lhe respondeu, mas pensou: <<Talvez te mate primeiro.

  Perdi a noo do tempo que Helena e eu levmos a tentar
atravessar a fronteira para qualquer pas no ocupado pelos nazis.
Fizemos vida de vagabundos. O seu conhecimento de lnguas era
uma ajuda preciosa - checo, alemo e, posteriormente, o seu
excelente russo. Eu fazia o papel de trabalhador rural estpido
e falava o menos possvel.
  Um ia, algures, em Janeiro de 1941, depois de passarmos
a noite num celeiro abandonado, interroguei um velho fazendeiro
e este informou-me de que a sul havia um pedao de fronteira
pouco vigiado. Disse que a estrada se bifurcava, que o lado direito
levava a bosques espessos, donde se podia avistar a Hungria de
Leste e at uma curva do rio Tisza. Acrescentou tratar-se de uma
regio plana e com rvores, no sendo difcil descobrir a barreira
de arame farpado.
  Quando caiu a noite, levei Helena at ao local que me
descrevera. Adquirira olhar de gato. Conseguia ver de noite,
cheirar praticamente o caminho at  gua, herdades e casas.
O odor humano destacava-se por entre a vastido da natureza.
  Rastejmos por entre os arbustos at uma barreira de arame
farpado. O alicate iniciou o trabalho devido. Decorridos minutos,
Helena e eu, de costas, ajudando o impulso do corpo com os ps
e fazendo presso na terra, arranhados pelo arame e pelos espinhos,
passmos para a Hungria. No fazamos ideia de qual a aldeia
mais prxima, nem do destino que nos aguardava.
  Eu ia  frente. Ela seguia. O meu nariz sentiu o cheiro tarde
de mais. Um homem surgira por detrs de uma rvore e apontava-me uma espingarda de 
cano curto  boca do estmago. Era um
indivduo baixo e gordo, com um uniforme de um verde acinzentado, botas e chapu de 
bico.
  - Encostem-se  rvore - ordenou.
  Helena respirava ofegantemente. O homem falava alemo,
mas tinha a certeza de que no era alemo. Um guarda da fronteira
hngaro. O alemo era de uso comum nas regies fronteirias.
  - Documentos - pediu o guarda.
  - Perdemo-los - respondi.
  - Ponham as mos atrs da cabea - disse, ao mesmo tempo
que segurava a espingarda numa das mos e se servia da outra
para nos examinar com uma lanterna. - O que esto a fazer aqui?
  - Por favor - implorou Helena. - Estamos a tentar chegar
 Jugoslvia. A casta. D-nos uma oportunidade.
  -Podemos pagar-menti, pois no tnhamos dinheiro
nenhum.

  - Malditos judeus - insultou o hngaro. - Os filhos da me
dos Judeus so todos iguais. Pensam que podem comprar o Mundo.
  Medi-o com o olhar. Cerca de trinta e cinco anos. Barriga.
Ps pequenos. Podia arrum-lo com alguns pontaps, se a apanhasse
desprevenido.
  - D-nos uma oportunidade - pedi. - No queremos fazer
mal a ningum. Dentro de dias podemos estar na Jugoslvia.
  - Comecem a andar - ordenou o guarda, fazendo um gesto
com a espingarda. Tu primeiro. A mulher atrs. Se te armares
em esperto, abato-a. A caminho.
  - Para onde nos leva? - perguntou Helena.
  - Priso da fronteira. A Gestapo manda diariamente um
camio para apanhar judeus, comunistas e outros fugitivos da
Checoslovquia.
  - A Gestapo? - perguntou.
  - Claro. No discutimos com eles. At ficamos satisfeitos
por mandarmos de volta alguns judeus.
  Obrigou-nos a andar. Devemos ter percorrido uns quatrocentos
metros de uma descida. O caminho estava rodeado de rvores e o
cho era hmido. Havia ,pinheiros e devamos estar a uma maior
altitude do que a que calculara. Avistei  distncia os contornos
de uma guarita pintada s listras. Outra luz brilhou. Algum
chamou.
  - Lajos. Ests bem?
  - Estou - respondeu o nosso guarda. - Apanhei mais dois.
  Afastei Helena do caminho - com tanta fora que ficou com
a anca e a perna negras durante um ms - e ataquei o homem,
que ia atrs dela. Bati-lhe com todas as minhas foras - nos braos,
cabea e peito - e ele caiu com um gemido. Agarrei na arma
e na lanterna, mas no sem primeiro lhe bater duas vezes no peito
e mais uma na cabea.
  A outra sentinela - o homem da guarita - comeou a gritar.
Mas no disparou. O nosso guarda ia a pr-se de p, mas voltei a atingi-lo com um 
forte murro nos queixos, que o deixou
  inconsciente.
  - Lajos? O que aconteceu? - gritou o outro.
  Ouvimos o som de botas e de ramos partidos.
  Tomado por uma raiva incontrolvel, ergui e espingarda
   altura da cabea de Lajos e engatilhei a arma. Estava disposto
  a fazer ir pelos ares a cabea daquele filho da me. Pagamento
  parcial aos que em todo o mundo odiavam os Judeus. Depois,
  encarregar-me-ia do que se aproximava a correr na nossa direco.
  - No, no! - gritou Helena.
  No disparei. Segurei-lhe o brao. Desatmos a correr desenfreadamente na direco 
da barreira de arame farpado que acab  ramos de atravessar. Dava a sensao de que 
corramos para
  a eternidade. Pisando razes, arrastei-a, enquanto ramos partidos
  lhe arranhavam a cara e lhe puxavam pela roupa.
  - Corre, com os diabos! Corre! - gritei-lhe.
  - No posso.. . no posso.. .
  - Ou corres ou morres.
  A outra sentinela detivera-se, aparentemente, a examinar
o camarada, aquele a quem tinha batido na cabea como se fosse
uma bola de futebol.
  - Safados judeus! Filhos da me! - explodiu. - No me
escapam.
  Os tiros sibilavam  nossa volta, quebrando ramos. S que
ele disparava s cegas. Obriguei Helena a caminhar dobrada.

Os tiros cessaram. Depois de ter visto o que eu fizera ao companheiro e sabendo que 
estava armado, no tinha estmago pare
nos seguir. Os brutos e fanfarres tem esta caracterstica comum
  ana: m quan '
que aprendera em cri hesita do pensam que haver
uma luta de igual para igual ou se encontram em posio de
desvantagem.
  - No posso mais.. . no ,posso mais - chorava Helena.
- Rudi.. . pra.. . sinto o peito a estoirar. ..
  Encostmo-nos um pouco a um pinheiro, a descansar uns
momentos. O cheiro adocicado que se desprendia dos ramos
recordou-me as frias de Inverno quando era mido - a minha
me, o meu pai, e ns os trs, Karl, Anna e eu, num hotel austraco
a aprendermos esqui e patinagem.
  - Basta! - ordenei, irritado. - Temos de continuar a fugir.
  - No. .. no. . . mais no. . . - comeava a ficar histrica.
- Estamos apanhados, Rudi.
  - Tero de nos matar, antes de me obrigarem a desistir.
  Olhei para a espingarda. Parecia uma carabina, com uma
cmara enorme para as balas.
  Agarrei no brao de Helena e comemos a correr novamente
pelo caminho, no sentido contrrio. Depressa me apercebi de que
a barreira de arame farpado fora cortada em alguns lugares,
como se outros tivessem tentado idnticos processos. Tivemos
apenas de passar atravs de uma seco j aberta.
  - Ironia do destino - comentei. - Acho que estamos novamente na Checoslovquia.
  -  importante, Rudi? - chorou.
  - No tenho a certeza. - Atra-a suavemente para o meu
carpo, beijei-lhe a testa e esforei-me para que deixasse de chorar.
- Voltaremos a tentar, Helena. Ainda no estou disposto a morrer
por causa deles. Nem tu o deves estar.



O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
Abril, 1941

  Fala-se por toda a parte - pelo menos nos crculos governamentais - da chamada 
<<Ordem Comissarial>> do Fhrer, emitida
no ms passado. Envolver profundamente o nosso povo.
  No estive presente na reunio, uma vez que foi efectuada
para cerca de duzentos dos mais antigos oficiais do Exrcito.
No  segredo que est iminente uma enorme invaso da Rssia
  ,
desde o Bltico ao mar Negro>>.
  Entre outros pontos, Hitler acentuou os seguintes: a guerra
com a Unio Sovitica no se assemelhar a qualquer guerra do
passado e no pode ser conduzida de <<maneira medieval>> (as suas
palavras exactas). H que eliminar a intelligentsia bolchevista-judia.
(Um oficial dos mais novos, que assinalou que muitos da hierarquia
bolchevista eram russos, ucranianos, armnios, e Deus sabe que
mais, foi rapidamente mandado calar.)
  Esta tarefa de <<eliminar>> em grande escala todos os inimigos

do Reich - judeus, bolchevistas, clero, comissrios intelligentsia to grave que no 
pode ser confiada ao Exrcito. Heydrich,
ao contar-me tudo isto com um sorriso, informou-me de que os
lderes do Exrcito, Jodl, Keitel, todos esses indivduos arrogantes,
engoliram isto como crianas a quem se desse uma colher de leo
de rcino. No entanto, se por um lado lhes desagrada a ideia de
perderem a jurisdio, por outro sentem-se aliviados por no terem
de se encarregar de misses que s as nossas SS, os nossos temerrios <<Corvos 
Negros>>, sero suficientemente corajosos para levar
a cabo.
  Nem uma s voz se ergueu naquela reunio para protestar
um mnimo contra a eliminao macia de civis, prisioneiros e quem
quer que, ainda que remotamente, se enquadre nas categorias indicadas pelo Fhrer. 
Keitel, capaz de fazer inveja  maior das prostitutas, tornou a ordem ainda mais 
elaborada, especificando que
o Reichsfhrer das SS (Himmler) e os seus homens ficariam responsveis por <<misses 
resultantes da luta final que ter de ser
travada entre dois sistemas polticos opostos>. Esta fraseologia,
bastante complexa, significa, muito simplesmente, que as SS sero
incumbidas do morticnio dos Judeus. (Apenas me sirvo destas
palavras na intimidade do meu dirio; no me atreveria a empregar
tais termos em apontamentos, nem sequer em conversa.)
  A fim de implementar esta <<ordem comissarials>, Heydrich,
o sempre brilhante organizador, elaborou um plano para quatro
Einsatzgruppen (Comandos de Aco) que dividiro e Unio Sovitica em quatro 
jurisdies. O comandante de cada um destes
grupos - que se designam por A, B, C e D - assumir inteira
responsabilidade pela limpeza da sua rea.
  Somos actualmente, de facto, grupos de morte em movimento,
equipados para aniquilar vastas quantidades dos inimigos polticos
e raciais da Alemanha. Depressa nos inteirmos de que a galante
ZXlehrmacht, to orgulhosa das suas tradies cavalheirescas, no s
se afasta do nosso caminho como tambm nos prodigaliza uma
ajuda generosa e, algumas vezes, se nos une nesta misso sangrenta
de eliminar estes inimigos sub-humanos da civilizao.
  O que se passou no meu crebro quando estes planos foram
delineados?
  Em primeiro lugar, ocorreu-me um dito de Eichmann: obedecer. Mas at mesmo a 
obedincia requer uma compreenso precisa
das ordens que se cumpre. E hoje, 21 de Abril de 1941, apercebo-me de que o nosso 
mandato faz parte de um plano circundante.
Um plano visto de cima, se assim se lhe quiser chamar. Devo excluir
do pensamento noes da individualidade judaica. No so importantes. Devo, em vez 
disso, dar toda a ateno ao vasto plano
do Fhrer relativo a uma nova Europa, ou melhor, um novo Mundo,
dirigido pelos mais qualificados dos homens, ns, os Arianos,
e governado, no por conceitos bolorentos e antiquados, mas pela
Nova Ordem de fora, vontade, impulsos raciais puros e um poder
ilimitado.
  As palavras soam-me um tanto estranhas quando as escrevo.
Contudo, apercebo-me agora do profundo valor histrico destes
conceitos. A verdade  que os colonos americanos dizimaram os
Peles-Vermelhas para formarem uma nao nova e poderosa.
O Imprio Britnico no se constituiu  base de sopas e mel,
alm de que, para a criao de um vasto sistema comercial, tanto os
Zulus como os Hindus, inocentes ou revoltosos, foram feitos
em tiras.
  E o objectivo do Fhrer  muito mais digno e mais glorioso
do que um mero imprio de fbricas e de herdades. Envolve as

mais altas aspiraes do esprito humano. Os Judeus erguem-se
no nosso caminho. H que pr de parte todo o sentimentalismo,
todos os conceitos inteis e enferrujados cristos relativos a caridade e piedade. 
Hoje sou capaz de entender tudo isto muito melhor
do que dantes. Decerto incomparavelmente melhor do que no dia
em que entrei pela primeira vez no gabinete de Heydrich e me
  comportei como um ingnuo.
  Heydrich organizou uma ceia volante nos seus aquartelamentos, a fim de falar dos 
Einsatzgruppen. O ambiente nada tinha
  de formal. No se leram nem distriburam regulamentos. Falou-se
  franca, amistosa e abertamente. Verificou-se um entendimento
  mtuo. Na parede estava pendurado um mapa enorme da Unio
  Sovitica, a que de vez em quando o chefe fazia referncia
  ,
  mostrando como a URSS seria dividida em reas operacionais
para os nossos grupos. Apenas o mapa constitua um indicativo
de que estvamos ali para algo mais do que uma reunio social.
  Como jovem membro das SS, senti-me surpreendido e encantado ante o elevado nvel 
dos compatriotas enquadrados nas nossas
fileiras. Muitos dos novos comandantes de grupo h muito que
se encontravam em campo, e apenas os conhecia como inseridos
numa ficha ou num dossier. Heydrich alardeava as qualidades dos
seus subordinados, dos homens que teriam como misso tornar
a Europa <<liberta dos Judeus>>.
  - O coronel Blobel, por exemplo - observava Heydrich,
enquanto bebamos puro champanhe francs, e erguendo a taa
na sua direco. - Um arquitecto eminente.
  Paul Blobel, um indivduo bastante corpulento, ruidoso e com
tendncia para e bebida, fez um aceno de concordncia.
  - E com ,projectos engenhosos relativamente aos judeus da
Rssia - comentou.
  - O coronel Ohlendorf  um advogado, como voc, Dorf,
e um perito em economia - prosseguiu Heydrich. - Weinmann
 um cientista. Klingelhoffer foi cantor de pera. E ainda temos
o coronel Biberstein, um antigo pastor luterano.
  Sentia-me, de facto, impressionado. A imprensa estrangeira
tem tentado descrever-nos como vndalos e assassinos. De momento,
desejei que pudessem estar a par da elevada qualidade dos oficiais
das nossas hierarquias.
  -Biberstein-dirigiu-se-lhe Heydrich num tom jocoso.
- Fale-nos da organizao que formou quando abandonou o plpito... Como se chamava?
  - A Confraria do Amor - retorquiu o coronel Biberstein,
corando.
  - Mas que diabo era essa Confraria do Amor? - riu
Ohlendorf.
  Biberstein tinha conscincia de que o estavam a gozar,
mas era bom desportista. Somos, de facto, um grupo fraterno,
unido pela conscincia das graves misses que nos esperam:
  - Senti a necessidade de se formar uma organizao civil,
algo independente da igreja como era e que encorajasse o amor
humano por intermdio da f crist.
  - Como se saiu? - perguntou Blobel.
  - Bastante mal, receio. Foi assim que vim parar s SS.
Primeiro como capelo e agora dentro de um novo enquadramento
de aco.
  -Pregando os Evangelhos, Herr Biberstein?-troou
Blobel.

  - No h essa necessidade aqui - retorquiu o antigo pastor.
- Somos todos convertidos a uma nova f.
  Blobel soltou uma gargalhada, e at os de temperamento
mais sisudo, como Ohlendorf e o coronel Artur Nebe, sorriam.
No percebi onde estava a piada, embora Heydrich no se mostrasse
perturbado.
  - Uma nova f - observei. - E somos ns os apstolos.
  - Ouam s o capito Dorf! - exclamou Blobel. - Nesse
caso, a quem cabe o papel de Pedro?
  - Eu serei o incrdulo Tom - declarou Ohlendorf.
  - Desde que no tenhamos Judas - acrescentei.
  Blobel fitou-me com um certo desdm. Estava embriagado.
Durante a ceia cavaqueara sobre o champanhe francs, o presunto
polaco, a salada de chicria belga e os queijos holandeses.
Acrescentou que s faltava o caviar russo, o que no demoraria
a chegar.
  - Um Judas? - repetiu Blobel. - Neste grupo?
  - Tenho a certeza de que no haver traies - contemporizou Heydrich. - O capito 
Dorf referia-se segundo creio,
 necessidade de manter segredo.
  - Como  possvel fazer segredo de uma misso destas? - insistiu Blobel.
  -Nada de ordens escritas-apressei-me a elucidar.
-Nenhumas referncias ao Fhrer. Total cooperao por parte
do Exrcito. O programa de reintegrao deve efectuar-se rapidamente e sem deixar 
vestgios. Mesmo em conversas casuais,
e muito particularmente em relatrios escritos, deveremos abolir
palavras que descrevem exactamente as aces dos Einsatzgruppen.
  O coronel Ohlendorf - um indivduo de culos, simptico,
a prpria imagem do professor transformado em militar - tamborilava no vidro da taa.
  - Talvez no seja fcil - comentou. (No  apenas um
advogado e economista mas tambm um perito em jurisprudncia.)
  - Nada importante o  - comentei.
  Ohlendorf fitou-me. Estava um pouco ofendido. A verdade
 que no sou apenas um jovem oficial, mas um seu colega de
advocacia.
  Blobel pegou-me, subitamente, no brao e afastou-me do
grupo. Voltaram a troar de Biberstein sobre a sua carreira
eclesistica. Ohlendorf fazia-lhe uma pergunta terica quanto a uma
sano crist para medidas antibolchevistas.
  - Ouvi falar de si, Dorf - disse Blobel, que se expressava
num tom de voz velhaco e untuoso. - Como sendo o monitor de
Heydrich, o seu espio. Contaram-me que conseguiu badalar um
carrilho aos ouvidos de Hans Frank.
  Aprendi muito desde que ingressei na profisso. Uma das
regras consiste em nunca mostrar medo, ainda que o tenhamos.
Blobel  meu superior e est encarregado de importantes tarefas
de campo, mas encontro-me prximo de Heydrich.
  - Foi mal informado, coronel - respondi. - Eu e o governador Frank tivemos uma 
conversa til e construtiva.
  Preparava-se para me retorquir maliciosamente na altura em
que Heydrich nos pediu que nos reunssemos em redor do mapa
da Rssia.
  - Uma rea vasta - observou Heydrich. - E uma misso
ainda mais vasta. A eficincia e produtividade sero requisitos indispensveis. Sero 
vigiados. O capito Dorf ser destacado para
a frente russa na qualidade de uma espcie de caixeiro-viajante do
meu gabinete.

  - Para vender o qu? - explodiu Blobel. - Extermnio?
  Soaram alguns risos nervosos, a que no aderi.
  - Tenha cuidado com a escolha das palavras, Blobel - avisou Heydrich. - Informar o 
capito Dorf das suas aces e campanhas, mas escrevendo o menos possvel.
  - Permita-me que sugira que o nome do Fhrer no seja
mencionado, senhor - acrescentei. - O prprio Fhrer no ps
o preto no branco, no escreveu com exactido o que pensava,
embora se tivesse expresso claramente perante os generais.
  Vi que os vrios coronis e majores, os homens que dirigiriam
os grupos de aco, me olhavam com um misto de respeito, desconfiana e surpresa. 
Alguns tinham ouvido falar do jovem inteligente do gabinete de Heydrich e outros 
tinham travado um breve
conhecimento comigo. Mediam-me com o olhar e no se mostravam
nada simpticos.
  Quase juraria que ouvi Ohlendorf comentar para lobel:
  - Teremos de lhe dar o tratamento devido.
  Heydrich voltou-se para o mapa pendurado na parede. - Mais
de mil e seiscentos quilmetros de frente russa de que nos temos
de encarregar aps a invaso - observou. - Do Bltico ao mar
Negro.
  - E os nossos grupos apenas sero de trs mil homens no
total? - perguntou Blobel.
  - Faz parte do desafio, coronel - retorqui. - O plano
inclui o recrutamento da milcia local simpatizante: ucranianos,
lituanianos, blticos. Sentir-se-o contentes por participarem na
reintegrao dos Judeus.
  Ohlendorf, com o esprito de homens de leis que o caracteriza,
sacudiu a cabea. - Permita-me observar-lhe, general, que as aces
pretendidas so mais complicadas do que meras recolonizaes.
Pastorear os Judeus para Varsvia ou Lublin ou qualquer outro
campo  uma coisa totalmente diferente desta.
  - Mas em certa medida mais fcil - retorquiu Heydrich.
  - No precisam de ser alimentados, vestidos nem que se lhes d
  assistncia mdica.
  - Claro. mas estou a pensar nas pilhas de caixas de munies - riu Blobel, no que 
no foi acompanhado pelos outros.
  Heydrich gostava de Ohlendorf. Era muito parecido comigo:
  grave, exacto, com esprito analtico.
  - O coronel Ohlendorf defende um ponto de vista. Tenham
  bem presente que e chave das nossas operaes estar na mobilidade. A partir do 
momento em que uma regio esteja nas mos
  do Exrcito, devemos encontrar-nos um passo atrs, prontos a montar o cerco a 
bolchevistas, comissrios, judeus, ciganos, quaisquer
elementos indesejveis. O Exrcito dar a sua colaborao. Aceitaram a Ordem 
Comissarial do Fhrer e foram, mesmo, a ponto
de a melhorar. Leia-lhes aquela ordem recente do Exrcito, Dorf.
  Procurei na pasta o documento a que o chefe fizera referncia:
  - Instrues gerais para tratamento de chefes polticos e de
outros, de acordo com as ordens do Fhrer de Maro de 1941.
Onze categorias de pessoas da Unio Sovitica encontram-se designadas como sujeitas  
nossa jurisdio.
  - Jurisdio! - explodiu Blobel, j bastante embriagado.
- Uma vala e uma metralhadora.
  No lhe prestmos ateno e prossegui a leitura:
  - As categorias incluem elementos criminosos, ciganos, entidades oficiais do Estado 
e do partido sovitico, agitadores comunistas e todos os judeus.
  - Isso  uma lista do Exrcito? - inquiriu Biberstein.

- No  uma lista das SS?
  -De certo modo - respondeu Heydrich. - Tomaram a palavra do Fhrer  letra. S que 
a jurisdio destes grupos nos
pertencer. Contudo, d-vos uma ideia do sincero desejo de colaborao por parte do 
Keitel e de outros.
  - Sinto curiosidade em saber se haver excepes - observou Ohlendorf.
  - Excepes? - repetiu Heydrich.
  - Sim. Pessoas que nos sejam teis... mo-de-obra... colaboradores. . .
  - Evidentemente - assentou Heydrich com um aceno de
cabea: Servir-nos-emos de alguns elementos antibolchevistas,
como  bvio ucranianos. E os prprios russos que no tenham
conotao poltica sero utilizados para trabalhos forados, pois
para mais no servem.
  - E.. . quanto aos Judeus? - interferiu Biberstein que cruzava e descruzava os 
dedos. - A ordem do Fhrer faz qualquer
excepo?
  - Nenhuma - retorquiu Heydrich.
  -  tudo suficientemente claro - comentou Blobel, arrotando. - Sempre pensei que 
fosse esse o objectivo deste encontro.
  - No quero que fiquem com dvidas - disse Heydrich.
- Seja como for, h que libertar a Europa dos Judeus.
  - E deveremos pressupor que esta ordem provm. . . ?
- Ohlendorf deixou a pergunta pendente.
  Heydrich fitou-me:
  - Peo-lhe, Dorf, que, de entre o seu arquivo de excelentes
memorandos, retire o que se refere s conversaes do Fhrer com
o embaixador italiano.
  Procurei na pasta e encontrei o documento em causa.
  - H alguns anos - declarei - o embaixador de Mussolini
queixou-se de que o Duce se preocupava com a nossa campanha
contra os Judeus. Receava que a imprensa estrangeira se sentisse
ofendida, e assim por diante.
  - Tipicamente italiano - comentou Ohlendorf. - Todos
rimos.
  - O Fhrer informou o enviado de que, dentro de quinhentos anos, Adolf Hitler seria 
venerado. Mesmo que mais no fosse,
pelo menos como o homem que varrera os Judeus da superfcie
da Terra.

A HISTRIA DE RUDI EISS

  Em Junho de 1941, Helena e eu - fosse para melhor ou pior,
no sei - entrmos na Rssia.
  Na ponta ocidental da Ucrnia, no local onde a Checoslovqua, a Hungria e a Unio 
Sovitica convergem - roubara um
mapa de uma estao de caminho de ferro, semanas atrs -, atravessmos muito 
simplesmente uma vedao de arame e entregmo-nos a um soldado russo.
  Era um trabalhador rural, com um uniforme largo e cinzento.
Ficou com a espingarda que eu tirara ao hngaro meses antes e fez-nos avanar at um 
acampamento do Exrcito Vermelho.
  O desmazelo e a indiferena dos Soviticos surpreenderam-me. Por toda a 
Checoslovquia tnhamos visto movimentao de
tropas, tanques e camies na direco de leste. Com que objectivo?
Alguns fazendeiros eslovacos tinham-nos escondido durante alguns
meses, dando-nos cama e comida a troco de trabalho no campo.
Havia dias em que o cu se apresentava coberto de uma poeira
amarelada, devido  infindvel parada de equipamento mecanizado
em movimento. Os eslovacos trataram-nos de uma forma bastante

decente. A aldeia era to <<apagada>>, que as SS nunca se incomodaram em enviar 
qualquer grupo de inspeco para aquelas bandas.
  Contudo, agora estvamos na Rssia, em frente de um capito de infantaria do 
Exrcito Vermelho, sentado com as botas
apoiadas numa mesa e encarando-nos com desagrado e indiferena.
  - Onde arranjaram a espingarda? - dirigiu-se a Helena.
Verificou tratar-se de uma velha arma de fabrico italiano.
  - Roubei-a - retorqui.
  Helena, que falava um russo excelente, aconselhou-me a manter a calma. Seria ela a 
encarregar-se do dilogo. No tenho a certeza do que disse ao oficial russo, mas este 
no pareceu
surpreendido. Helena voltou-se para mim, desiludida. - Sempre
a mesma histria. Afirma no estarem contra os Alemes - traduziu. - Pergunta se 
ignoramos que Estaline e Hitler assinaram um
tratado e so bons amigos.
  - Fala-lhes dos tanques e camies alemes.
  Helena obedeceu. Denotou ainda menor surpresa. Levantou-se. Era um indivduo alto, 
gingo, de rosto corado e vestido
com um uniforme desmazelado e com ndoas. Os soldados andavam
por ali a dar pontaps numa bola de futebol. De uma cozinha no
campo, chegou-nos o cheiro de um guisado. Estavam absolutamente
seguros das boas intenes dos Alemes.
  Helena continuou e falar, <<flirtando>>, mentindo, tocando-lhe
no brao. Disse-lhe que ramos da Checoslovquia e recevamos os
Alemes. <<Porqu?>>, quis saber. <<Oh! ramos membros devotos
do partido>, mentiu. Acrescentou que tnhamos frequentado a Academia 
Marxista-Leninista de Praga (no existia tal coisa) e as nossas cabeas estavam a 
prmio.
  Em seguida, vi que o capito fazia sinal ao soldado que nos
trouxera e lhe dizia:
  - Zhidn.
  Conhecia bem o significado da palavra: <<judeus>>.
  - Sim, camarada capito. Somos judeus - confirmou Helena. - Mas tambm marxistas 
devotos e admiramos a pacfica
Unio Sovitica e o seu maravilhoso povo.
  Seguiu-se um debate: entre um dos oficiais mais novos, o qual
exigia que fssemos recambiados para a fronteira e o nosso capito
de rosto rubicundo, cuja deciso final foi a de que podamos ficar,
mas no no seu acampamento.
  - No estamos em luta com os Alemes - declarou o oficial jovem.
  - Viro a estar - explodi. - Volta a repeti-lo, Helena.
  Ela obedeceu.
  - Bah! Manobras - comentou o capito, com um ar de indiferena. Na sua opinio a 
ltima coisa de que os Alemes necessitavam seria de uma guerra de duas frentes, e 
fez uma pequena
preleco a Helena sobre poltica internacional. A Inglaterra submeter-se-ia e, em 
seguida, o Mundo seria dividido entre a Rssia
e a Alemanha.
  - Por favor, camarada capito, deixe-nos ficar - implorou
  Helena. - O meu pai foi o fundador do Partido Comunista em
  Praga. (Uma mentira ousada a que, no entanto, no se furtou; o seu
  pai fora sionista anos a fio.)
  - Beija esse filho da me, se for necessrio - decidi.
  Helena ps-lhe os braos em redor do pescoo e beijou-o r
  cara. Embora estivesse queimada do sol, sem a habitual frescura
  de pele e com o cabelo desgrenhado, continuava a ser uma rapariga bonita e jovial. 
Exercia uma atraco a que nem a polcia checa
  ou os oficiais do Exrcito Vermelho conseguiam resistir.

  Concordou, finalmente, em nos mandar para a cidade ucraniana de Kiev. Ali haveria 
certamente um centro de refugiados,
  e seramos devidamente registados, talvez metidos na priso ou
  interrogados, ou obteramos emprego no caso de conseguirmos provar a nossa lealdade 
 URSS. Tudo se apresentava terrivelmente
  confuso e incerto. Pelo que Helena me informou, conclu que
  o oficial se queria ver livre de ns. Significava uma menor sobre  carga 
burocrtica.
  Voltou a beij-lo.
  - Por Marx, Lenine, Estaline e por si, camarada capito.
  Este deu-lhe uma palmada no traseiro e meteu-nos num camio
a abarrotar de pessoas de toda a qualidade que se tinham
infiltrado, furtivamente, na Unio Sovitica - hngaros, eslovacos... -, todos 
pretextando serem refugiados polticos dos
  Alemes.
  No demormos a ver-nos a caminho, ao longo de uma estrada
poeirenta. O camio avanava aos solavancos, que nos atirava uns
de encontro aos outros, e as nuvens de poeira sufocavam-nos. Um
velho judeu, acocorado ao meu lado, no parava de rezar, balouando-se para a frente 
e para trs e murmurando oraes hebraicas.
Sabia yiddish o bastante para poder compreender que estivera de
visita a parentes perto da fronteira e se dirigia agora de regresso
a casa, em Kiev.
  - Que gnero de cidade , av? - perguntei.
  - Bonita. Grande. Cinemas. E muitos judeus, com as suas
prprias sinagogas e lojas.
  Abracei Helena e o velho perguntou-me se era minha mulher.
Respondi afirmativamente, mas mostrei-me relutante em falar
muito.
  Meia hora mais tarde, naquele avano pela estrada esburacada, a caminho de Kiev, 
ouvimos o troar de armas. Parecia equipamento de potncia, artilharia pesada.
  Um trabalhador, vestido com uma roupa suja, ps a mo em
concha no ouvido e disse qualquer coisa a Helena.
  - O que foi? - perguntei.
  - Diz que  o Exrcito Vermelho. H uma brigada de artilharia
nas proximidades.
  Muller mentira a Inga. No fez qualquer esforo para tirar
Karl do trabalho da pedreira. Desconheo como o meu irmo conseguiu sobreviver 
durante esses meses.
  Por fim, Inga, pressentindo que estava a ser ludibriada
- levava uma carta todos os meses e recebia outra em troca, pagando o preo de Muller 
-, exigiu que este mudasse Karl para
o trabalho que lhe prometera. Nas suas cartas, Karl dava a entender
a Inga que continuava na pedreira,  merc dos chicotes, maas
e ces dos guardas das SS.
  Muller divertia-se a espica-lo. Weinberg, que tambm se
encontrava nos trabalhos forados da pedreira, recorda-se do dia
em que Karl foi finalmente transferido. Lembra-se porque foi o dia
em que os guardas das SS mataram dois ciganos a tiro.
  Weinberg contou que os ciganos enfureciam os SS. Recusavam-se a trabalhar e quando 
acabavam por se dirigir, a resmungar,
para a pedreira ou o <<jardim>, no tinham rival em arranjar artimanhas engenhosas. 
Alm disso, fingiam no ouvir os guardas,
o que era considerado uma ousadia ilimitada ou uma obstinao.
Pagaram o seu preo.
  Estava um dia quente. Weinberg recorda-se de que dois dos
ciganos da seco de Karl tinham acendido pontas de cigarro.

Quando o guarda lhes ordenou que parassem de fumar, um dos
ciganos soprou imediatamente o fumo na direco do guarda.
  Foi enviado um kapo para os espancar e no levou a melhor
na luta. Karl, Weinberg e os outros da pedreira - homens sem-mortos de fome e 
esgotados, que dificilmente sobreviviam no dia
  a dia - ficaram a observar os ciganos que com laivos milagrosos
  de energia, arrancaram o casse-tte ao kopo e, rindo, acabaram de
  fumar.
  Sem qualquer aviso, o guarda SS abriu fogo com a metralha  dora e os dois ciganos 
tombaram na pedreira: dois montes de
  roupa ensanguentada. Na opinio de Weinberg parecia terem recebido a morte 
alegremente.
  - Pobres safados! - exclamou Karl. - Mais corajosos do
  que muitos de ns.
  - Mas estpidos !- observou Weinberg.
  O guarda SS ordenou ao meu irmo e a Weinberg que arrastassem os cadveres pela 
ravina acima.
  - Recebero a mesma moeda, judeus, se no se despacharem
- gritou o SS.
  Karl e o amigo meteram-se nas guas sujas da fossa e puxaram
um dos cadveres para fora.
  - Agora, o outro - ditou o guarda. - E levem-nos para
o crematrio.
  Muller, que estivera a observar a cena - nada havia de especial no assassnio de 
presos a tiro por ligeiras infraces -, deteve
Karl, na beira da pedreira. Falou ao guarda que matara os ciganos.
  - Quero o Weiss - disse.
  Um outro preso recebeu ordens para ir buscar o segundo
cigano e Muller puxou o meu irmo para o lado. Pararam junto da
casa onde eram guardadas as ferramentas da pedreira.
  - A tua mulher no falha a escrever - observou Muller.
  - Esteve c hoje?
  - A tabela. A visita do ms.
  - Por amor de Deus, Muller. Deixe-me v-la. Uma vez
p ,
elo menos.
  - Oh. J se foi embora.  perigoso demorar-se por aqui.
Para os implicados.
  - Leva-lhe uma carta minha?
  - Claro. Aqui est a sua. V. Leia-a.
  - Mais tarde. Quando estiver s.
  Muller sorria-lhe: um sorriso estranho e de ,posse.
  - Sente-lhe a falta, no?
  Karl fez um aceno afirmativo de cabea.
  - No me pode tirar daqui, Muller? Conhece a famlia da
Inga. Esquea o que sou. Para qu fazer sofrer a Inga?
  - No esteja assim to certo de que ela sofre - retorquiu,
depois de uma pausa.
  - O que quer dizer com isso? - perguntou Karl.
  - As mulheres l se arranjam.
  - Porque... com os diabos. . . porque sorri dessa maneira?
EIa contou-lhe alguma coisa?
  - Tudo isto  um negcio, Weiss, um negcio - respondeu
Muller, cujo sorriso se transformara num esgar. - Acha que arrisco
o pescoo a servir de correio sem receber a minha paga?
  - Est a mentir - explodiu Karl, que se sentia como se
Muller o tivesse atingido com uma pancada em plena nuca.

  - Porque acha que vem aqui pessoalmente? Podia mandar-me as cartas pelo correio.
  - Deus do cu. . . voc. . . voc obriga-a. . .
  - Nada de dinheiro. E no e obrigo a nada, Weiss. Nada faz
contrariada.
  Karl cerrou os punhos. Mais tarde disse a Weinberg que
estava disposto a morrer da mesma maneira que os ciganos, desafiando, lutando, 
protestando. Contudo, o meu irmo no era combativo. Nunca o fora. E estava 
convencido de que qualquer dia
voltaria a adquirir a liberdade.
  - Vocs querem sempre qualquer coisa a troco de nada
- comentou Muller com um abanar de cabea reprovativo. - No
admira que toda a gente vos odeie.
  - No quero as cartas dela. No me traga mais.
  - Nem pense nisso, rapaz. Se recusar, o caso pode ficar muito
feio para si.
  - Pouco me interessa.
  - Claro que se interessa. No ficar na priso eternamente.
Um dia, o Fhrer decidir que vocs, Judeus, pagaram a conta
devida e sairo. Nem sequer notar qualquer diferena nela - acrescentou com um olhar 
irnico para Karl.
  Karl tentou afastar-se e voltar ao trabalho. Muller pegou-lhe
no brao:
  - No seja estpido, Weiss. Jogue com as minhas cartas.
  - Largue-me.
  - Vai escrever-lhe uma carta maravilhosa, dizendo-lhe que
  deve continuar a vir aqui. Eu leio-a depois, para ter e certeza.
  - V para o diabo. No quero escrever-lhe nem voltar
  a v-la.
  - Quer acabar como esses ciganos?
  - Talvez fosse a melhor soluo.
  Muller fez um gesto na direco de Engelmann, o guarda que
assassinara os dois ciganos. Era um indivduo gordo e cabeudo,
visivelmente homossexual, e aproveitava-se dos presos mais jovens.
  - Ou talvez lhe agradasse mais ser um dos amiguinhos de
Engelmann. Por outro lado, talvez seja j velho e magro de mais
para os gostos dele.
  - Basta, Muller.
  - Estou prestes a fazer-lhe um favor. Amanh, encarrego-me
da sua transferncia para o estdio dos artistas. Um trabalho fcil.
Debaixo de telha. No entanto, ter de continuar a escrever  Inga.
  - No.
  - Acho que mudar de opinio depois de ter passado uma
noite com o Engelmann.
  Karl olhou para Weinberg e para os outros que desciam pela
pedreira, a fim de recuperarem o cadver do cigano - o corpo
tinha, aparentemente, desaparecido nas guas lamacentas -, e cedeu. Contudo, no 
pronunciou palavra a Muller.
  Muller avanou na direco de Engelmann.
  - Trata bem o meu amigo Weiss. Vai ser requisitado para
o estdio dos artistas.  um indivduo sensvel que se est e perder neste trabalho 
da pedreira.
  - Isso fica para amanh, Weiss - comentou Engelmann.
- Hoje, ainda continua a picar rocha.

  - E o judeu nem sequer me agradece - comentou Muller
para Engelmann com uma piscadela de olho.


  Dado o temperamento que os caracterizava, os meus pais continuavam a fazer os 
maiores esforos para tornar a vida suportvel
aos judeus presos no gueto.
  A minha me ofereceu-se voluntariamente para ensinar msica
e literatura. Por estranho que parea, no meio de toda aquela
doena, fome e degradao, os judeus continuavam a fazer fora
para que os filhos frequentassem a escola. Havia as aulas seculares
(onde a minha me ensinava) e as religiosas.
  Os pais faziam o possvel para que os filhos se apresentassem
limpos e lavados na escola, embora houvesse uma enorme falta
de roupa. Existia at um caf onde  noite se efectuava um espectculo de variedades, 
bem como um grupo de teatro e concertas.
Tudo isto numa atmosfera de excesso populacional, de falta de
condies de higiene, dietas de po e ,batatas e uma espcie de
crescente derrotismo, uma percepo de que, agora que o muro
os aprisionara, estavam condenados a um isolamento da parte
<arianav da cidade.
  Um dos estudantes que mais problemas dava  minha me era
um rapaz de treze anos, chamado Aaron Feldman, plido, de orelhas grandes, 
considerado o rei dos contrabandistas juvenis. O contrabando conseguia que o gueto 
sobrevivesse em muitos aspectos.
Algum que conseguisse escapar furtivamente atravs de um tnel,
de um buraco ou servindo-se de qualquer artimanha e tivesse dinheiro ou mercadoria 
para negociar (ou a ousadia suficiente para
roubar) ajudava a alimentar e a abastecer os judeus.
  Aaron chegava frequentemente atrasado, com o casaco esfarrapado a servir de 
esconderijo a alguns ovos, uma lata de presunto
e, algumas vezes, at uma galinha. A minha me estava a par do
que se passava, mas no tinha coragem de o repreender, mesmo
quando aparecia j a meio do ensaio de uma rapsdia de canes
populares do gueto.
  Cito aqui o nome de Aaron por me parecer o tipo de mido
digno de merecer a minha admirao. Mais tarde, quando o gueto
  se disps a combater os nazis, ele desempenhou um papel relevante.
  O seu contrabando beneficiava mais os judeus do que qualquer
  reunio concordata ou debate.
  J O meu pai, que trabalhava horas infindveis no Hospital dos
  Judeus e continuava a prestar servio no Judenrat, chegou a ir um
  dia  escola para avisar Aaron de que devia cessar a sua actividade.
  Os polcias do gueto tinham visto Aaron sair de buracos abertos
  no pavimento e desaparecer noutros, abertos no muro. At essa
  altura, tinham fechado os olhos, mas o meu pai avisou o ovem de
  que da prxima vez que o tentasse seria preso.
  - No me prendero - respondeu Aaron. - Dou-lhes ovos.
  - Os ovos talvez os satisfaam, mas no aos alemes quando
  apanham os contrabandistas. No tens medo?
  - Claro. Mas continuarei a faz-lo. No me obrigaro a morrer  fome.
  O meu pai riu. Talvez visse um pouco de mim naquele mido
  esperto, que recusava ficar de braos cruzados e deixar que o tratassem como a um 
escravo.
  Eva recorda-se de que, quando o meu pai devolveu o estudante delinquente  aula a 
cargo da minha me, olhou de lgrimas
nos olhos a mulher que, sentada ao piano, ensinava as canes.
  E nos corredores - Eva tambm se recorda - havia desenhos
coloridos pintados pelas crianas mostrando como seria o <<novo
  gueto depois da guerra>: rvores parques, locais de recreio, as
  ,
  mes a empurrarem carros de beb, bicicletas. O meu pai e os
  outros que visitavam a escola paravam frequentemente a observar

  os desenhos das crianas e interrogavam-se sobre se chegaria esse
dia, que representava a concretizao de um sonho.
  Pouco depois de ter tentado levar Aaron a mudar de tctica
  ,
o meu pai assistiu a uma reunio do Conselho Judaico de Varsvia.
O racionamento de comida era, na altura, um problema grave
e imediato. O Dr. Kohn, o presidente do Conselho, concentrava
as suas esperanas nos saudveis e produtivos. Gente esqueltica
e meio morta, coberta de farrapos, pululava nas ruas, pedindo ou
simplesmente vencida, deitando-se na valeta ou numa esquina
 espera da morte.
  - Temos de tentar alimentar todos - argumentou o meu pai.
  Zalman, o chefe sindicalista, mostrava-se deprimido:
  - H muito que os contrabandistas nos tm vindo a manter.
  Contudo, os nazis esto a assassin-los a tiro.
  - Exacto - concordou Kohn. - E mais vinte judeus, de
cada vez que apanham um.
  O meu pai, que acabara de ler a coragem nos olhos de Aaron
Feldman, descontrolou-se, o que era raro nele. Deu um murro
na mesa:
  - Esses rapazes que se esgueiram atravs dos buracos podem
ser a nossa salvao.
  - Isso  um disparate! - explodiu Kohn. - Acabaro por
nos causar a morte.
  Nesta altura, um jovem magro, de aparncia vulgar mas com
um ar calmo e estranhamente autoritrio, levantou-se do lugar que
ocupava ao fundo da sala. Tal como Zalman, dava a sensao de
um operrio de qualquer arte. Estava vestido com roupas e bon
de proletrio.
  - Seja como for, todos acabaremos por morrer - pronunciou, fitando calmamente o Dr. 
Kohn.
  - Desculpe?
  - Disse que todos acabaremos ,por morrer.
  - Como o sabe?
  - J comeou. Os nazis esto a matar os judeus da Rssia.
No apenas dez, vinte ou uma centena. Esto a eliminar os guetos.
No haver mais guetos como este ou outro qualquer. Apenas
sepulturas em srie.
  Falava de uma maneira calma, mas to autoritria que se fez
um silncio absoluto na sala da reunio.
  - O que est para a a dizer, jovem? - interferiu o meu
pai. - E como sabe isso?
  - Estou a referir-me a assassnios em massa. Mudaram de
poltica. Estes guetos no passam de pontos de reunio. Na Rssia
  ,
milhares e milhares de judeus esto a ser sistematicamente mortos
a tiro pelos alemes. Tm inteno de assassinar todos os judeus
da Europa. Recebemos informaes dessas comunidades.
  - Tudo isso  ridculo. Boatos - comentou o Dr. Kohn,
recostando-se na cadeira, mas reduzindo-se ao silncio,
  - Como se chama, jovem? - quis saber o meu pai,
  - Anelevitz. Mordechai Anelevitz. Sou sionista. Contudo,
no interessa quem somos ou o que somos, ricos ou pobres, jovens
ou velhos, comunistas, socialistas
  ou burgueses. Acabaro por nos
  matar a todos.
  - Quem deixou entrar este homem? - foi tudo o que o
  Dr. Kohn conseguiu articular como resposta ao desafio do homem

  do bon.
  - Declaro perante este Conselho e a todos vs que no
  devamos apenas desviar comida mas tambm armas e granadas.
  Esta afirmao, feita por um homem do proletariado e vestido
  com roupas sujas, enraiveceu o Dr. Kohn,
  - Silncio! - gritou. - No sei quem , mas est a falar
  disparatadamente. Esse tipo de conversa  um garante das nossas
  mortes.
  O meu tio Moses tambm estava presente nessa reunio. Apelou a Kohn para que 
deixasse falar Anelevitz  vontade.
j - Nem mais uma palavra! - gritou Kohn. - Estou mesmo
  a ver esta cidade de judeus semimortos pela fome e minados pela
  doena fazendo, de sbito, frente ao Exrcito alemo... Os Ale  mes limparam toda 
a Polnia em vinte dias, Anelevitz. Esto
  actualmente a avanar pela Rssia e a aniquilar as melhores divises de Estaline. E 
somos ns quem vai resistir a tal poder?
  - Devemos faz-lo.
  - Sei tudo sobre vocs, militantes sionistas, jovem - retorquiu Kohn, tentando uma 
tctica diferente - e sobre as vossas
  ,
  reunies secretas. Todos uns sonhadores! A luta no faz parte da
 ;'i maneira de ser dos Judeus. Sobrevivemos durante milnios me
 
  diante uma acomodao. Ceder um pouco aqui, submeter-se alm
  ,
  firmar um negcio. Arranjar um aliado, um amigo, talvez algum
  prncipe, um cardeal, um poltico...
  - No esto a lidar com cardeais nem polticos - interferiu
  Anelevitz. - Os nazis so assassinos de massas. O seu principal
  objectivo na conquista da Europa consiste na matana dos Judeus. 
O que quer que faamos, por mais submissos que nos revelemos,
seja quais forem os negcios que lhes ofereamos ou por mais que
trabalhemos para eles, no nos pouparo.
  Eva recorda-se de que um pesado silncio pairou na reunio.
  Alguns concordaram com Anelevitz. Ao que parece, tinha surgido
  de algures, um homem humilde e de fala directa. Contudo, expressara em voz alta 
pensamentos que alguns j acalentavam no ntimo.
  - J chega - exclamou o Dr. Kohn. - No queremos ouvir
  mais. V-se embora.
  - Dado este Conselho ser demasiado cobarde para dar ordens
  de armamento e luta, os sionistas f-lo-o. No tencionamos morrer
  sem lutar.
  - Ordenei-lhe que se fosse embora - gritou Kohn. - E tenha cuidado com a lngua. 
No espalhe ideias desse gnero.
  - Vocs todos acabaro por morrer aqui, batendo a pala
aos alemes, apresentando-se para destacamentos, enviando gente
para as fbricas, assistindo s aulas, debatendo a Tora. No tm
autoridade, nem a representam.
  - Ponham-no l fora! - gritou Kohn.
  Contudo, ningum fez qualquer movimento. Anelevitz tinha
lanado uma espcie de toque de magia na sala. Lanou um olhar
de apelo das membros do Conselho, no descobriu quem o apoiasse
sem rodeios e saiu: uma presena perturbadora.
  O meu pai e o meu tio Moses levantaram-se logo a seguir
e foram atrs dele pelo corredor sombrio.
  - Sou o doutor Josef Weiss - apresentou-se o meu pai.
- Este  o meu irmo Moses. Passamos a maior parte do tempo
no hospital.

  - Sei quem so - retorquiu Anelevitz.
  - Faltam-se.. . faltam-me as palavras. No somos sionistas.
No temos conotao poltica. Somos profissionais que tentamos
tornar a situao um pouco mais fcil para a comunidade.
  Anelevitz informou-os de que as suas crenas polticas, as
crenas de quaisquer judeus, pouca importncia tinham para os
nazis. Calmamente e num tom seguro, explicou que os Alemes
acabariam por matar todos, a longo prazo.
  O meu pai nunca tinha acreditado em tal. To-pouco Moses.
Contudo, entreolharam-se, sentindo-se possuidores de uma nova
tomada de conscincia. Havia qualquer coisa de tal forma convincente e de uma 
sinceridade to profunda no comportamento do
  jovem que se sentiram obrigados a falar-lhe.
  - Podemos.. . podemos conversar um pouco? - perguntou
  o meu pai.
  - Claro. Precisamos de membros do Conselho. Somos na
  maioria gente trabalhadora, estudantes, jovens.
  E foi desta forma que o meu pai e o meu tio se deixaram
  atrair pela Resistncia. Interrogaram-se, na altura, sobre o porqu
de serem to poucos a resistir. O que levava a maioria dos judeus
do gueto a agirem como se a vida pudesse continuar - com escolas
  ,
teatros, religio, empregos -, quando o que os esperava era uma
eventual chacina? No estou certo de que ele ou Moses o tenham
entendido na altura. De uma forma estranha e com o poder psicolgico de demnios, os 
Alemes haviam-lhes destrudo a vontade de
viver, fazendo com que tivessem de se agarrar  vida.
  Tamar afirma, com razo, que o registo da resistncia entre
europeus de maior fora e mais numerosos se apresenta irregular.
O totalismo absoluto do terror nazi, os requintes da polcia do
Estado, o recurso sem hesitaes a assassnios, torturas, mentiras
  ,
privaes, humilhaes deixavam as pessoas sem defesa. Se se criticar os Judeus por 
no terem oferecido resistncia como deveriam
  ,
o que se dir ento de naes inteiras como a Frana, onde a resistncia foi 
marginal? No  um problema fcil de resolver.
  Fosse como fosse, o meu pai e o meu tio Moses envolveram se
numa situao de compromisso.

O DIRIO DE ERIK DORF

Ucrnia
Setembro, 1941

  Todo eu tremo. Tenho, no entanto, de escrever objectiva  mente. Tentar esquecer. 
No, compreender. Finalmente, tambm
  matei.
  Na qualidade de <<olhos e ouvidos>> de Heydrich, encontro-me
  actualmente nos arredores de Kiev, a vigiar o funcionamento do
  Einsatzgruppe C, sob o comando do coronel Paul Blobel.
  Detesto Blobel. Bebe de mais e dirige a operao de uma
  maneira desorganizada. Interrogo-me sobre o que ter levado Heydrich a deix-lo 
avanar at este ponto. No entanto, encontra-se
aparentemente empenhado em cumprir a misso, e rapidamente.
Para a concretizao do nosso mandato h necessidade de um tipo
especfico de alemo; e presumo que este Blobel, apesar das suas
falhas, se enquadra nas caractersticas desejadas.

  Parmos, primeiramente, numa caserna de homens recrutados,
onde alguns dos novos estavam a receber instruo. Existem aproximadamente mil homens 
em cada um dos quatro grupos de
<<Comando de Aco>>, os quais foram recrutados nas SS, na SD,
na Polcia Criminal, etc. Tambm nos serviremos de elevado nmero
de ucranianos, lituanianos e blticos, sem compulses quanto a um
tratamento especial dos judeus.
  - Tambm recrutmos uma srie de inteis e intrujes - informou Blobel, ao 
aproximarmo-nos das casernas. Alguns homens
descansavam, em camisola interior - a Ucrnia :pode ser terrivelmente quente em 
Setembro -, a ler, e escrever cartas e a limpar
as armas. Ningum se ps em sentido quando Blobel, eu e o nosso
grupo nos aproximmos.
  - Esto cansados - observou Blobel. - E pouco se lhes d.
Mantmo-los despertos com schnaps.
  Um sargento ps-se de p e fez uma saudao lenta.
  - Tudo corre bem, Foltz. Descansar - ordenou Blobel.
  - Chegaram mais homens hoje, senhor.
  - Belo, belo, belo. D-lhes instruo.
  Ouvi Foltz dar as boas-vindas a um dos recm-chegados, que
se chamava Hans Helms e estivera numa diviso de infantaria,
tendo sido designado para o Einsatzgruppe C.
  - Vai gostar disto por aqui - troou o sargento Foltz.
- Ningum vai disparar contra si. Regularidade de horrios. E dividimos o saque, 
depois de os oficiais ficarem com a sua parte.
No faa essa cara, Helms.
  - Sou um soldado de combate - retorquiu Helms. - No
pedi para me juntar a esta unidade de merda.
  - Aprender a adaptar-se - assegurou Foltz,
  O recm-chegado encaminhou-se para a caserna. No me agradou o tom da pequena 
preleco do sargento Foltz e disse-o a Blobel. O homem estava a troar da nossa 
misso.
  - Conversa fiada, Dorf. - retorquiu Blobel. - Que interessa a atitude, desde que 
matem?
  - Est em causa o tipo de linguagem, Blobel. No pretendemos referir a morte. Sabe 
bem quais as palavras aprovadas.
  - Oh, claro! - exclamou, voltando o rosto de lua cheia
e rubicundo na minha direco. - O vosso maldito vocabulrio.
Tratamento especial. Aco especial. Reintegrao. Aco executiva.
Comunidades autnomas judias. Transporte. Transferncia.
  Ignorei as palavras de Blabel. No tinha qualquer obrigao
de explicar a este homem, pouco subtil e de ideias limitadas, que
as palavras de cdigo servem para muitos objectivos. Em primeiro
lugar, ocultam dos Judeus as realidades que os afectam. Predispem-se a dizer a si 
prprios que esto a ser <<reintegrados>> e mostram-se praticamente mais convictos 
nessa crena do que ns quanto
a os desmantelarmos. Alm disso, tudo fica mais facilitado nas
nossas hierarquias e nas hierarquias dos nossos aliados.
  A verdade  que continuamos a ser uma nao crist, e h
sempre a hiptese de que qualquer membro da Igreja bem-intencionado mas mal informado 
(como Lichtenberg) proteste em alta voz. O Vaticano mostra simpatia pela nossa 
cruzada contra o bolchevismo na Rssia. Para qu enlamear este entendimento gritando
que tencionamos abater vrios milhes de judeus? H ainda a questo dos julgamentos 
finais, aps dominarmos a Europa. Podemos,
no entanto, dizer que alguns judeus pereceram, enquanto se procedia  reintegrao, 
morreram devido aos seus deplorveis hbitos,
 sua tendncia para propagar o contgio, ou foram executados por

sabotagem e espionagem.
  Blobel fez-me atravessar um prado, at uma rea bosqueada.
Em frente de uma pequena mata de altos vidoeiros e ulmeiros
tinha sido, recentemente, escavada uma vala enorme. A terra
amontoada por detrs ainda parecia molhada. Calculei que esta vala
teria uns trs metros de largura por um e vinte de profundidade.
Era bastante comprida: uns cento e cinquenta metros.
  - Obrigmo-los a cavarem - informou Blobel. - Esto convencidos de que se trata de 
trabalho de destacamento.
  Diante da trincheira havia duas mesas de madeira. Em cima
de cada uma viam-se uma metralhadora ligeira e cintos de munies.
Havia igualmente garrafas de conhaque russo barato, copos, maos
de cigarros. Por trs de cada arma estava um grupo de trs homens,
membros do Einsatzgruppe das SS chefiado por Blobel.
  Deram-me a sensao de poucos cuidados: colarinhos abertos
e botas por engraxar. Dois estavam a fumar e um terceiro sorvia
conhaque em pequenos goles. Dificilmente se pensaria numa unidade militar. Queixei-me 
da sua aparncia ao coronel Blobel
e estabeleci uma desagradvel comparao com o Exrcito, em que
os soldados se deviam apresentar limpos e em ordem, mesmo
quando preparados para o combate.
  De uma forma tpica e rude, Blobel fez um reparo insultuoso
a respeito do Exrcito, recordou-me que eu era um oficial das SS
e fazamos as nossas prprias regras. Referiu-se a um <<filho da puta>>
de um major do exrcito que se queixara sobre actividades <<no
alems>> das SS; Blobel pusera-o a andar com alguns insultos
escolhidos.
  Avistei os judeus  distncia. Tinham colocado um grupo
 beira da vala. Estavam a obrig-los a despirem-se sob a vigilncia dos guardas SS. 
As roupas eram empilhadas cuidadosamente.
Revistavam as pessoas em busca de valores: relgios e artigos
do gnero.
  Era absolutamente despropositado o fascnio que alguns dos
guardas mostravam pelas mulheres nuas e seminuas. Punham as
mulheres em roupa interior - cuecas, soutiens e cintas - e olhavam-nas. Ouvia 
comentrios lascivas. Quando finalmente se viram
totalmente nuas, as mulheres tentavam debalde cobrir os seios
e partes pudendas. Algumas seguravam os filhos ao colo. Havia
velhas praticamente incapazes de se aguentarem nas pernas e uma
que teve de ser transportada por dois homens.
  Tratava-se de judeus de uma aldeia perto de Kiev, segundo me
informaram. Muitos eram ortodoxos, com compridas barbas,
cabelo encaracolado e uma expresso perdida nos rostos magros.
No admira que Himmler e outros dos meus superiores tenham
concludo que os Judeus pertencem a uma espcie sub-humana.
Basta v-los nus, expostos, com a pele branca e macia atormentada
pelo sol quente da Ucrnia, para se saber que so diferentes das
outras pessoas.
   curioso. No sinto dio por eles, mas a conscincia que
tenho de que so, na realidade, diferentes de ns e no passam
de conspiradores e coniventes que, desde a era de Cristo at  nossa,
atraioaram grandemente a Histria facilita-me a aceitao do que
testemunhei pela primeira vez.
  - Continua, Foltz - ordenou Blobel com um esgar na minha
direco. - Obriga-os a entrar l dentro. No sobrecarregues
a trincheira.
  Gritaram ordens l em baixo. Cerca de cinquenta dos judeus
nus foram empurrados, espancados com os casse-ttes, obrigados

a entrar na vala e a porem-se de frente para as duas mesas onde
se encontravam as metralhadoras. Com grande surpresa, reparei
que no mostravam resistncia. Havia apenas uma certa lentido
por parte dos mais velhos. Os ortodoxos davam a sensao de
rezarem. Uma mulher falou em surdina para o filho que segurava
nos braos. Uma criana no cessava de perguntar quando iriam para casa. Iria jurar 
que uma mida, de cerca de doze anos,
queria saber se nessa noite ainda poderia fazer os trabalhos de casa.
  Tudo acabou em segundos.
  Ante um sinal do sargento Foltz, as armas dispararam,
soltando labaredas cor de laranja. O cheiro acre a plvora tapou-me
o nariz.
  Atravs das nuvens de fumo, observei a queda dos judeus,
montes de carne sem forma. Eram corpos pejados de pequenos
buracos vermelhos.
  A rapariguinha que acabara de perguntar se ainda poderia
fazer os trabalhos de casa jazia sobre o corpo da me. Abraavam-se
naquela hora de morte.
  - Duas balas por judeu, cabea de abbora! - dizia Blobel.
- Esse filho da me do Von Reichnau que venha aqui e conte
os buracos nos corpos, se quiser.
  Levei rapidamente um bocado de plstico de proteco aos
olhos. Estava a chorar. Apercebi-me de que no o fazia devido
a um sentimento de compaixo pelos Judeus. Tinham morrido to
fcil e rapidamente, sem uma queixa, que se torna difcil aceitar
qualquer conceito de morte. Fazia-o por uma vaga percepo,
perdida no inconsciente das horrveis dimenses da nossa tarefa.
Heydrich convenceu-me, para l de todas as dvidas, de que
estamos a formar uma nova civilizao. Tornam-se necessrios actos
duros e cruis. Posso dizer que assisti a um deles.
  O sargento Foltz caminhava ao longo da vala, de Luger
aperrada. Ajoelhou-se por trs vezes e disparou  queima-roupa.
  - Porque est a fazer aquilo? - perguntei a Blobel.
  - As vezes, no morrem logo - respondeu. - Um acto de
piedade.  prefervel a enterr-los vivos. Contudo, tambm acontecem dessas coisas 
quando andamos muito ocupados - acrescentou, cerrando as olhos na minha direco, 
como se suspeitasse que
estivera a chorar. No fez, porm, quaisquer comentrios.
  Os seus modos falsos e obscenos convm ao trabalho que
executa. E terei de cultivar uma defesa semelhante. Nestas pginas
posso referir-me francamente ao facto. Informaram-me de que
Ohlendorf, um outro chefe de um Einsatzgruppe,  capaz de intelectualizar a misso 
que lhe cabe. Professor, perito em transaces
e em jurisprudncia, encara a eliminao dos Judeus como uma
necessidade de ordem econmica e social. Certamente sou to inteligente e corajoso 
como Ohlendorf; arrancarei uma pgina  sua
cartilha.
  Ocorreu-me um pensamento logo a seguir aos tiros: no existe
futuro para os Judeus na Europa. So geralmente desprezados,
seja por que motivo for. Estamos a solucionar um problema de
dimenses praticamente universais. Os nossos meios e objectivos
so idnticos. Ao elimin-los da Terra, estamos a prestar um enorme
favor  humanidade. Um crtico do nosso movimento classificou-nos
uma vez como <<bomios armados. Sinto-me satisfeito por ser
um deles.
  Tambm aprendi com aquele tiroteio - depois de me ter
recomposto - que, afirmando a minha considervel autoridade,

fazendo o papel de <<homem de Heydrich>>, posso abafar sentimentos de piedade, 
capazes de virem  superfcie. Reparei por
exemplo que havia civis a assistir  execuo e que, pelo menos,
dois homens, um deles soldado, estavam a tirar fotografias e a
filmar. Um civil, vestido com uma samarra poeirenta, estava a tirar
apontamentos.
  Ordenei a Blobel que os dispersasse. No queria que se
tirassem fotografias nem que estivessem presentes jornalistas.
Com grande alvio, conclu que, ao embrenhar-me nestes deveres
insignificantes, conseguia superar quaisquer resduos sentimentais
relativamente s vtimas. Depressa me comearam a surgir como
eventualidades, meros produtos secundrios da nossa campanha.
A guerra,'como declarou Hitler, no se assemelhar a qualquer
outra guerra da Histria, <<no ser feita  maneira medieval>>.
  Estavam a mandar avanar um segundo grupo de judeus.
Desta vez mostraram-se menos submetidos ao destino. Algumas
mulheres gritavam e arrancavam os cabelos. Uma lanou-se aos ps
de um dos guardas SS, abraou-lhe as botas e tentou beijar-lhe
as mos e as ps. Teve dificuldade em a afastar para longe,
ao pontap.
  - Heydrich receber um relatrio completo sobre esta operao deseonesta - 
declarei.
  Ao dar ordens e ao tornar-me parte da cadeia de comando,
conseguia desligar-me das pessoas metidas na vala. Alguns velhos,
que se assemelhavam a profetas de barbas, entoavam oraes em
hebraico. Iniciou-se um estranho sussurro de lamentos. Os Judeus
adquiriram muita prtica da morte, de servirem como vtimas sacrificadas. Obedecem a 
uma rotina, uma espcie de processo talmdico.
Eichmann dissertou frequentemente sobre este assunto. Facilita-lhes
a morte.
  Blobel distanciou-se de mim.
  - Flotz! - gritou. - D ordens!
  As metralhadoras dispararam uma vez mais. Pareceu-me o som
da terra a abrir-se sob o impacto de um meteoro.
  os judeus voltaram a cair sobre os corpos dos que tinham
morrido uns minutos antes. A distncia, um terceiro grupo - de
nus e trmulos - estava a ser conduzido para a vala. E mais longe
ainda, camies do Exrcito descarregavam mais judeus.
  Neste momento, j conseguira adquirir bastante controle.
A vasta magnitude da operao - e sei que h centenas como esta,
desde o Bltico ao mar Negro - fez-me superar a sensao do que
poderia sugerir como crueldade. Esta gente tm de ser os nossos
inimigos, os nossos rivais de raa, pessoas cuja progenitura poderia
destruir a Alemanha, cujas aces vis, bem-estar e noes errneas
poderiam condenar a civilizao ariana.
  Levou-me algum tempo a aperceber-me da absoluta verdade
das convices de Heydrich, derivadas do Fhrer e de Himmler.
Contudo, tm de representar a verdade. Um povo talentoso,
dinmico, inteligente e artstico como os Alemes nunca participaria
em tais actos se no fossem organizados, obrigatrios e benficos
para o futuro da nao.
  Reconfortado com estas consideraes, dispus-me a enfrentar
Blobel.
  -Farei um relatrio crtico a seu respeito, coronel - informei.
  - Far o qu?
  - Quero que limpe esta rea de civis. Nem os homens das SS
  ou quaisquer outros tero licena para tirarem .fotografias. Entendido?
  Junto das metralhadoras, alguns SS, incluindo Foltz estavam

  a proceder  escolha das roupas. Um homem gargalhava ruidosa  mente, exibindo um 
soutien de mulher, que fora bem provida.
  - E no haver mais coisas destas - acrescentei. - Quais  quer bens deixados pelos 
judeus reintegrados sero propriedade
  do Estado.
  - Reserve essa conversa de merda para as reunies.
  - O seu tipo de linguagem ser igualmente comunicado.
Heydrich deu-me ordens para que vigiasse os Einsatzgruppen.
O seu no obedece nem de longe aos padres impostos.
  O rosto colrico e gordo ficara escarlate. As feies de porco
tinham manchas vermelhas, tal a irritao.
  - Falhei, eu? Deixe-me dizer-lhe uma coisa, Dorf. Ohlendorf
  ,
Nebe e todos ns temos os olhos em si. Conhecemos um espio
quando o vemos.
  - No tente jogo baixo comigo, coronel. Estou diariamente
em contacto com Heydrich.
  Murmurou qualquer coisa entre dentes, mas no encontrou
as palavras exactas. Se se pode atemorizar os Judeus, destruir-lhes
a vontade, devassar-lhes o interior, tambm  possvel domar um
coronel Blobel, caso paire sobre ele a ameaa da humilhao ou
da morte. Os nossos homens em campanha sabem que tipo de
homem  Heydrich. No teme nada nem ningum. E, na qualidade
de seu emissrio, sirvo-me dessa fora.
  O sargento Foltz tinha dado ordens para que mais cinquenta
judeus avanassem para a vala. Os encarregados de disparar as
metralhadoras sorviam conhaque em pequenos goles e fumavam
com prazer.
  Desta vez, a minha preleco teve o seu efeito. Blobel ordenou
ao sargento que dispersasse os ucranianos, afugentasse o jornalista
e impedisse que fossem tiradas fotografias.
  As armas voltaram a despejar fogo; os judeus caram. A pilha
era, agora, bastante elevada, e imaginei que, depois do acrscimo de mais alguns 
grupos, teriam de se utilizar tractores para cobrir
os restos e dinamizar grupos de judeus, munidos de ps, para enterrarem os seus 
prprias mortos.
  Blobel estendeu, subitamente, a mo para o meu coldre,
de onda tirou a Luger, que apenas disparara uma vez nos exerccios
de tiro ao alvo das SS, em Berlm.
  - O que est a fazer? - protestei.
  - Ainda h alguns a mexerem, l em baixo - riu. - V.
Acabe com eles. Conhece a velha tradio. S se  homem depois
de se ter morto um judeu.
  Ordenei-lhe que pusesse a minha Luger no local de onde
a tirara. Em vez de me obedecer, enfiou-ma na mo:
  - Soldado de secretria. Manga-de alpaca. Desa l abaixo
e mate uns deles.
  - Parecem todos mortos.
  - No se pode ter a certeza. Os Judeus so como bolas de
borracha. Saltam sempre. Consigo ver alguns a mexerem-se.
  Que mais podia fazer? No corria qualquer risco a nvel
pessoal. Decerto os judeus no me fariam mal. Tinham morrido
como carneiros, como frangos inofensivos. As palavras de Heydrich
ajudaram-me a aguentar quando desci a vertente arenosa na direco da vala fedorenta. 
O judasmo no Leste  a fonte do bolchevismo e deve, portanto, ser eliminado, de 
acordo com os objectivos
do Fhrer.
  -  como comer macarro - gritou-me Blobel. - Depois de
se comear, j no se pode parar. - Os outros soltaram uma

risada. - Pergunte aos meus homens como , capito - berrou.
-Depois de se matar dez judeus, os cem seguintes so mais fceis
de abater e, quanto aos prximos mil, j nem se d por isso.
  O sargento Foltz seguia  minha frente. Abrimos caminho
por entre os corpos nus e ensanguentados. Pareciam passadores
com buracos vermelhos.  curioso como  preciso to pouco para
se matar um homem. Mortos, os judeus davam-me a sensao de
mais naturais do que vivos, de p,  espera, rezando, numa aceitao da sentena que 
os condenara.
  - Est ali um, senhor - indicou Foltz.



20O HOLOCAUSTU

  Apontou para uma mulher nova, de cabelos castanhos e longos.
  Tinha uma expresso implorativa. As balas haviam-lhe penetrado
  nos ombros, deixando largos buracos ensanguentados, mas aparentemente no tinham 
atingido rgos vitais.
  Ergueu um brao na minha direco, um brao longo e bem
  torneado - e tive uma sbita viso dos braos de pele macia de
  Marta -, fitando-me com os olhos semicerrados.
  -  um acto de generosidade acabar com o sofrimento destes
  pobres filhos da me, senhor - disse o sargento Foltz. - No deve
  ter mais de vinte anos.
  Hesitei. Voltei a ver Marta. To claramente que quase pronunciei o seu nome. Diante 
dos meus olhos ergueu-se uma nvoa
  e vi toda a cena: o grupo dos carrascos das SS sobre a minha cabea,
  as metralhadoras silenciosas, os homens bebendo conhaque, o prado
  verdejante, as rvores, a enorme vala ensanguentada de onde agora
se desprendia o odor a sangue, os enxames de moscas vidas - vi
tudo isto, como se estivesse debaixo de gua, como se me encontrasse noutro planeta a 
viver uma vida que no me pertencia.
  - Dispare, Dorf! - gritou Blobel.
  Os olhos da mulher procuraram os meus. Estava praticamente
morta. Contudo, uma chama de vida ainda a alimentava. No conseguiu voltar a erguer o 
brao. Os olhos eram escuros e rasgados.
O cabelo, comprido e castanho, fazia-me recordar uma rapariga
que conhecera no liceu. Porqu estes pensamentos dispersos
A convico apoderou-se de mim. O horror dos nossos actos est
justificado. No se podem fazer tais coisas se no forem actos
valorosos, partes de um plano grandioso, de uma ideia capaz de
abalar o Mundo.
  Apertei o gatilho, como me tinham ensinado naquela breve
sesso na escola das SS. A exploso foi surpreendentemente
pequena, semelhante ao rudo de uma pistola de fulminantes.
A cabea abriu-se, devido ao disparo de to perto. As minhas 
botas ficaram sujas de ossos, sangue e pedaos de crebro. Senti um
n no estmago e tive de fazer um grande esforo para que 
o almoo no me sasse pela boca.
  -  assim mesmo, senhor - aprovou Foltz. - Acabar por
se habituar depois das primeiras vezes. Do e sensao de no
se importarem. Nunca vi gente como esta.
  Estava forosamente certo. Disse para mim mesmo que somos
praticamente aliados dos Judeus quanto ao seu extermnio. Que
outra explicao para a facilidade com que os eliminamos?
  -Encarregar-me-ei dos outros, senhor-disse Foltz.
- Ouvi-lhe a voz, como se me estivesse a falar de muito longe.
Voltei a colocar a Luger no coldre. No voltei a olhar para a jovem
que acabara de matar. Se os homens abaixo de mim podiam matar
milhares, centenas de milhares, cabia-me como dever matar, pelo
menos, um. Embora, o deteste, em certa medida Blobel tinha razo
ao obrigar-me e matar.
  Quando me aproximei do grupo de Blobel, este aplaudia
e sorria, piscando o olho aos subalternos.
  - Bom trabalho, Dorf - aprovou. - Von Reichenau afirma
que duas balas chegam para um judeu. Voc conseguiu com uma.
  O dilogo interrompeu-se momentaneamente devido ao disparo das metralhadoras. Mais 
judeus estavam e morrer. E agora

estou convencido da necessidade do acto. Apenas servem a finalidade da morte.



A HISTRIA DE RUDI WEISS


  O muro estava a estrangular lentamente a vida no gueto.
Fora erguido com a desculpa de finalidades higinicas, como impedimento de contgio 
do tifo. De facto, era uma ampla priso,
onde se esperava que os judeus morressem por falta de nutrio,
at se efectivar a soluo final.
  Contudo, os Judeus continuavam a infiltrar-se no lado
ariano>>. Muitos eram mulheres que procuravam comida para os
filhos. Uma delas era uma enfermeira chamada Sarah Olenick,
que trabalhou para o meu pai na ala infantil do hospital. Sarah
tinha sido apanhada e metida na priso.
  Irritado, o meu pai foi avistar-se com o chefe da polcia
do gueto, um judeu chamado Karp, que se convertera ao catolicismo e conseguira desta 
forma algumas boas graas das SS.
  - Quero a libertao da Sarah Olenick - declarou o meu pai.
  -  uma contrabandista.
  - Sabe melhor do que eu o que se passa, Karp. Passou para
o outro lado do muro com o fim de conseguir po para os filhos.
  - Conhece as regras. O contrabando  proibido.
  - Peo-lhe que a liberte. Precisamos dela no hospital.
  - Um pouco de snobismo de classe, doutor? Pediria a sua
libertao da mesma forma se ela fosse uma pedinte ou a mulher
de um trabalhador rural?
  - Claro que sim.
  - Nesse caso, pode fazer o apelo para oito.
  - Oito?
  Levou o meu pai at junto de uma janela do gabinete e apontou para o ;ptio da 
priso, que ficava l em baixo. Havia oito
mulheres de idades variadas, e entre elas Sarah Olenick.
  - Quem pensa que sou? - gemeu Karp. - Um monstro?
Recebo ordens, obedeo-lhes ou enforcam-me. Aquela pedinte,
a Rivka, tem dezasseis anos.
  - Que crime cometeu?
  - O mesmo. Contrabando. Passou o muro e conseguiu leite
para o filho.
  O meu pai baixou a cabea e tentou rezar. Debalde. Sentia-se
constrangido, dobrado, aprisionado.
  - Voc  judeu, Karp. Apele para os seus superiores.. .
  - Fui judeu. Assim salvei o pescoo.
  - Mas tem conhecimentos nas SS. Sirva-se da sua influncia.
No pode permitir que eles...
  Karl comeou a ficar irritado:
  - Quem  voc para falar assim, com os diabos? Voc e o
seu irmo Moses to bem colocados no Conselho! Que fazem para
alem de receberem ordens dos Alemes? Abanam a cabea
e cumprem. Listas de nomes, destacamentos, infractores. Revoltam-se tanto contra os 
contrabandistas como os nazis. No me venha
com preleces. Quer armar-se em heri e queixar s SS? Tente.
  O meu pai olhou mais uma vez para o ptio, tentou avistar
Sarah de relance - era uma mulher alta e de aparncia digna,
dotada de enorme pacincia e bondade - e, em seguida, foi-se
embora.

  As oito mulheres acusadas de <<contrabando>> foram abatidas
a tiro, alguns dias depois. A polcia judaica recusou-se a proceder
ao fuzilamento e, assim, alguns polacos do exterior receberam
ordens para o fazer.
  Do lado de fora reuniu-se uma multido que rezava e protestava.
  Pouco adiantou: quer as oraes quer os protestos.
  A minha me, com o seu velho casaco, outrora muito em
voga na moda berlinense, manteve-se de p junto do meu pai,
pegando-lhe na mo. Dissera-lhe que no era necessrio ir,
mas insistira.
  - Sou um deles - declarou a minha me.
  Aaron Feldman, o jovem especialista em contrabando, trepou
pelo muro da priso e gritou para a multido, enquanto as mulheres
eram levadas uma a uma, de venda nos olhos, e depois abatidas
a tiro.
  Mataram a pedinte Rivka em primeiro lugar. Seguiu-se Sarah.
Depois, as restantes seis mulheres. Tinham cometido o crime de
tentarem arranjar comida para crianas esfomeadas.
  - Oh, Josef! - chorava a minha me. - No as ,podamos
ter salvo?
  - Nenhuma esperana - respondeu.
  O meu tio Moses, o mais pacfico dos homens, no chorava
mas praguejava:
  - Clamo vingana. Desejo ver alguns deles mortos e cobertos
de sangue.
  O meu pai tentou uma vez mais convencer a minha me a ir-se
embora, mas ela insistiu em ficar at ao final do tiroteio.
  Um rabi comeou a entoar a orao hebraica pelos mortos
e os meus pas, que mal conheciam as palavras, tentaram acompanh-los nas preces. O 
meu tio Moses mantinha-se silencioso.
A raiva era tanta que lhe impedia a fala.
  Depois de terminadas as oraes, a multido lacrimosa,
contando entre ela parentes das vtimas, comeou a trepar ao porto
da priso e a aban-lo, acabando por se dispersar.
  Eva Lubin, a minha informadora relativamente e este perodo
da vida dos meus pais, recorda-se de que ela e Zalman se aproximaram de Moses Weiss. 
Anelevitz estava por perto. Como habitualmente, tinha uma expresso calma e 
pensativa, como que
fixada em qualquer objectivo, numa aco futura.
  - Pode vir connosco? - perguntou Zalman.
  - Claro - respondeu Moses.
  Algumas pessoas continuavam a rezar junto do porto.
As vozes, cheias de tristeza, pairavam na atmosfera fria de Novembro.
  - Sinto-me embaraado por no conseguir rezar mais - declarou Moses.
  - As oraes de nada servem, Weiss - comentou Zalman
com um encolher de ombros.

  Levaram-no at  cave de uma casa da Rua Leszno.
  Numa diviso escura, escondida atrs de uma parede falsa,
havia uma mesa, livros, resmas de papel e uma mquina impressora.
  Era uma oficina pequena e praticamente artesanal, mas funcionava. O tipgrafo era o 
velho amigo do meu pai Max Lowy,
o seu doente de Berlim. Ele e Moses trocaram cumprimentos.
  - E ento daqui que ,parte tudo - concluiu Moses.
  - Algumas objeces ao nosso jornal? - quis saber Zalman.
  -Nenhumas. Desejava que fosse maior. Mais notcias, mais
palavras. Leio-o de uma ponta  outra.
  - Est a faltar-nos a tinta - retorquiu Anelevitz. - O senhor

tem acesso  farmcia.
  - No se pode utilizar iodina para imprimir.
  - Pois no - concordou Lowy. - Mas podemos ser ns
a fazer a tinta com negro-de-fumo, carvo e leo de linhaa.
Forneo-lhe uma lista.
  Lowy arrancou uma folha de papel, examinou-a com olhar
crtico, amachucou-a e deitou-a fora:
  - Continuo a ser um operrio especializado, mesmo numa
cave.
  A um canto da diviso, um rdio de ondas curtas grasnou.
Moses apercebeu-se de que era neste local que recebiam as notcias
de alm-mar. Compreendeu tambm que todas as actividades
levadas a cabo naquela diviso eram punveis com a morte e que
qualquer pessoa apanhada ali seria torturada, at desvendar toda
e operao clandestina.
  - Um jornal da Resistncia? - inquiriu Moses. - At agora
  ,
diria que se tm mantido bastante passivos.
  - Isso terminou - declarou Anelevitz. - Vamos levantar
o povo. A partir de hoje, no h resistncia passiva que possa
resultar. Devem tomar conscincia do que os espera.
  Moses hesitou:
  - Mas. . . mas se vos trouxer material para fazerem a tinta,
ficarei envolvido.
  -  prefervel estar envolvido connosco do que com o Conselho - comentou Eva.
  - Os membros do Conselho esto vivos. Os infractores so
abatidos.
  - Morrer de qualquer maneira - disse Anelevitz.
  - E  melhor morrer a lutar e protestando - concluiu
Zalman.
  Moses contemplou por momentos Lowy, ocupado a pr tinta
na velha mquina, bem como as expresses sinceras da gente que
se encontrava no apertado compartimento.
  O meu tio comeava a acumular dvidas. Que espcie de
exrcito eram? Como conseguiriam resistir? Talvez ele e o meu pai
tivessem agido com demasiada impulsividade, arriscando tudo com
estes visionrios, embora bravos e ousados.
  - Quero dizer-lhe uma coisa, Zalman - decidiu-se o tio
Moses. -  um trabalhador, um chefe do proletariado. Os nazis
no sabem o valor dos operrios? Desconhecem como mantemos
as fbricas em funcionamento? De que lhes serve uma mo-cheia
de judeus mortos?
  - Fecharo todas as fbricas da Polnia, Weiss - retorquiu
Zalman, coando o queixo. - Permitiro que os polacos e russos
as dirijam, de preferncia a deixarem um nico judeu com vida.
  Moses tentou continuar o debate. Quais as oportunidades
de que dispunham frente s Waffen SS e ao Exrcito alemo?
O meu tio concordava que deviam pensar em resistir. Mas como?
Que sentido fazer? Os judeus passavam a maior parte do tempo
a discutir uns com os outras: ortodoxos contra os descrentes,
sionistas contra no sionistas, comunistas contra socialistas. Havia
disputas internas por todo o lado.
  Anelevitz moveu a cabea na direco da porta.
  - Pode ir-se embora. No necessitamos da sua ajuda. S tem
que ficar calado quanto ao que viu, Weiss.
  Contudo, Moses deixou-se ficar. Sentia-se fascinado com Lowy,
totalmente imerso na sua ocupao. Era como se estivesse a dirigir

uma gigantesca mquina automtica. Na cabea tinha um chapu
de tipgrafo, feito de ,papel. No nariz apresentava uma mancha
de tinta.
  - Vejam o mestre a trabalhar! - exclamou Lowy em yiddish.
- Em Berlim, expulsavam-me do sindicato se soubessem a mistela
que estou a fazer. - Piscou o olho para Zalman. - Claro que no
me refiro s palavras, mas  qualidade da impresso.
   Moses apelou para Zalman e para os restantes:
  - No me interpretem mal. Estou ao vosso lado. Contudo,
l diz a lgica que nem todos estamos necessariamente marcados
para... para...
  - A lgica  uma batata, Weiss - interrompeu-o Lowy.
  Moses apenas necessitou de mais um momento para se decidir.
Estendeu a mo a Anelevitz.
  - Estou com vocs - declarou.
  O jovem sorriu. Zalman e Eva abraaram Moses.
  - O doutor tambm nos pode ser til - sugeriu Lowy.
- Ser bom ter uma pessoa no hospital, um homem que todos
respeitem.
  - Falarei com o meu irmo.
  Lowy tirou mais uma folha da impressora, agitou-a um pouco,
para que secasse, e em seguida estendeu-a a Moses:
  - No est mal. No ganharia um prmio de tipografia,
mas para o efeito serve. Leia.
  Moses pegou na folha e comeou a ler:
  <<Aos judeus de Varsvia: Ponhamos fim  apatia. Nada de
mais submisses ao inimigo. A apatia pode ocasionar o nosso
colapso moral e exterminar os nossos coraes, o nosso dio pelo
invasor. Pode destruir o desejo de luta que vive dentro de ns
e minar a nossa deciso. Dado estarmos numa situao de tal
maneira desesperada, h que reforar o nosso desejo de darmos
a vida por um objectivo mais sublime do que o da nossa existncia
diria. A nossa juventude deve caminhar de cabea erguida.>>
  Moses ficou, assim, ligado a um compromisso. No s aderiu
 Resistncia nesse dia como se ofereceu como voluntrio para
lanar o primeiro apelo de luta em pontos-chave do gueto. Ele,
Eva e alguns outros saram e, certificando-se de que no havia
polcia  vista, colaram os panfletos clandestinos em portas, paredes
e ,postos telefnicos.
  Eva recorda-se de ver Moses pregar a proclamao na porta
de uma loja abandonada e, em seguida, fingir ser um mero transeunte, na altura em que 
o meu pai e a minha me dobravam
a esquina. O meu pai deteve-se a ler as palavras de protesto,
sem fazer a menor ideia de que tinha sido Moses que acabara
de as colocar ali.
  <<... um objectivo mais sublime do que o da nossa existncia
diria>>, leu o meu pai.
  - Palavras nobres.
  A minha me acompanhou-o na leitura.
  - Quem quer que tenha escrito estas palavras e as colocou
aqui-declarou- gente mais corajosa do que ns, Josef.
E talvez melhor.
- Oh, no sei bem! - exclamou Moses. - Talvez no
passem de jovens e insensatos.
  - Isto faz-me lembrar o Rudi - riu o meu pai. -  o ,tipo
de coisa que faria se estivesse aqui.
  - Tens razo - concordou a minha me. - Se estivesse

aqui, seria um dos mais renitentes. Sabes Josef? Tenho o pressentimento de que est a 
salvo que conseguiu escapar.
  - Eu tambm - respondeu, beijando-a na face. - E o Karl.
E a Inga. E que todos ns no demoraremos a estar juntos.



O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
Novembro, 1941
  Esta manh, 16 de Novembro, Heydrich e eu assistimos
 projeco de fotografias e filmes tirados na Ucrnia.
  Com surpresa minha, no participou da minha indignao
  quanto aos registos visuais que as pessoas tinham efectuado sem
  autorizao do nosso gabinete. Concordou, porm, que se tornava
necessrio controlar esse tipo de aco e que todos os filmes e fotografias deveriam 
ser arquivados no quartel-general.
  - Algum motivo, senhor? - perguntei.
  - Para provar ao mundo que no hesitmos.
  Estava sentado no estdio, s escuras, imvel, pensativo,
a fumar, passando de vez em quando pelo nariz aqueles dedos
de msico.
  Observmos no ecr, a preto e branco, imagens dos judeus
a serem conduzidos para a beira da vala, obrigados e despir-se,
empurrados l para dentro, voltados para as armas. E, em seguida,
a carem sob o impacto esmagador das balas. Confesso que o espectculo em filme me 
era menos penoso do que a cena real.

  - Morrem bastante pacificamente - comentou Heydrich.
-  notvel a falta de resistncia. Sabe uma coisa, Dorf? Conseguiremos cumprir o 
objectivo do Fhrer com muito menos dificuldade do que imaginaria.
  Referi-lhe que Blobel se queixava de que milhes de judeus
estavam a fugir para leste,  frente dos nossos exrcitos vitoriosos.
  - Oh! Acabaremos por os apanhar a todos - comentou com
um bocejo. - A Rssia cair e sero nossos.
  Fiz, em seguida, algumas sugestes teis sobre a cuidadosa
superviso de toda a documentao dos Einsatzgruppen: filmes,
fotografias, relatrios, documentos. Teria de ser designada uma
unidade especial para elaborar listas. Mostrou-se de acordo.
J tinha coligido algumas informaes, que lhe li:
  <Os vrios comandantes tentam efectuar o tiroteio numa
rea de cento e cinquenta a cento e oitenta quilmetros de distncia
das cidades de onde vieram os judeus. Lamento dar-lhe conhecimento de que nestas 
viagens, a p ou de camio, os judeus por
vezes se escapam. Os nossos melhores resultados foram obtidos
na Litunia, onde voluntrios treinados da populao local nos
prestaram ajuda enorme.
  ptimo para os Lituanos.
  O coronel Jager, chefe de um dos nossos comandos, designa
Kovno como um "paraso do tiroteio".
  Estas frases devem ser retiradas dos registos, mas representam,
segundo parece, a verdade. Kovno est liberta de judeus. E seguem-se algumas 
estatsticas ao acaso, que depois organizarei metodicamente para Heydrich: trinta mil 
judeus foram abatidos a tiro em
Lvov, cinco mil em Tarnopol, quatro mil em Brzezany. A Litunia
mantm-se, porm, no topo. Calcula-se que cerca de trezentos mil
judeus foram exterminados nas reas de Vilna e de Kauna.>>

  Enquanto lia estas estatsticas observava qualquer reaco
que Heydrich deixasse transparecer. Aquele rosto de feies
atraentes manteve-se imperturbvel. A misso est a ser cumprida.
Obedece  vontade do Fhrer. Est a ser banida da Europa uma
praga, uma peste. Alm disso passmos a encarar esta operao
to sangrenta, fora do vulgar ou significativa como um bombardeamento, o cerco e 
aniquilao de uma diviso sovitica ou
  a administrao de uma regio ocupada. O importante consiste em
  levar a cabo esta tarefa.
  A verdade  que as estatsticas, embora surpreendentes em
  termos de nmeros - confesso que o pensamento do extermnio
  de trezentos mil judeus provoca uma certa tenso emocional  facilitam a aceitao. 
Comprovam que somos uma organizao
  funcional e eficiente, em que se do e cumprem ordens. H que
  conceber estas operaes no em termos de uma jovem que ergue
  o brao ou uma criana que pergunta se pode fazer os deveres
  escolares, mas em termos de um mal essencial, e persistente
  perniciosidade das Judeus.
  Continumos a observar as imagens no ecr. Nesse momento
  passavam as fotografias. Mulheres nuas, cobrindo os seios e as
  partes privadas, corriam de uma forma desajeitada e cambaleante
  tipicamente feminina, na direco da vala. Judeus velhos, corpos
  de pele branca e rostos barbudos. Conservavam os chapus, mesmo
  ao enfrentarem as armas. Jovens de olhos arregalados e uma
  expresso de pnico. Em termos da nossa misso, independente  mente dos motivos (e 
so muitos), somos os executantes perfeitos
deste tipo de aces e encontrmos as vtimas ideais. Assemelha-se
a um casamento no Olimpo, algo concebido por deuses mitolgicos.
  - Acho que a feio pictrica da nossa misso no deve ter
  limites - comentou Heydrich. - Vele para que se efectue saber
  a nossa sano, Dorf, e para que todos os filmes sejam revelados
  passados e guardados aqui. '
  - Claro que me encarregarei disso - concordei, hesitante.
-Mas...
  - Alguma dvida?
  - Nenhuma, senhor.
  Heydrich dava a sensao de estar distante das macabras
fotografias passadas no ecr. Fumou, conversmos e de vez em
quando fazia uma pergunta com marcada nfase. S uma vez me
surpreendeu, quando acentuou que <<eu lia entre as linhas>> na obra
do Fhrer, buscando velhos memorandos, como que para reforar
nele (e em mim) a justia absoluta do que estamos a fazer.
  Passou no ecr a ltima fotografia. Trs midos judeus, nus,
de cabea rapada. Tinham as mos erguidas e os olhos arregalados
de pavor. Dentro de segundos estariam mortos. Estatsticas.
  Acenderam-se as luzes. Voltou-se na minha direco e, em
seguida, reafirmou (um homem to poderoso levado a reafirmar
as suas prprias crenas...) a necessidade de expurgar a Europa
dos Judeus. Falou-me de um relatrio que um antigo membro
do partido conservara sobre uma conversa com o Fhrer no ano
de _1922.
  Hitler proclamava que, quando subisse ao Poer, enforcaria
todos os judeus de Munique e, em seguida, as de todas as outras
cidades, <<at os corpos apodrecerem. Continuaria sistematicamente a enforcar judeus, 
at a Alemanha se ver livre do ltimo.
  - Faz parte do zelatrio, Dorf - declarou o chefe. - Estamos a fazer precisamente o 
que sempre desejou.
  Voltei a inquirir a razo de sermos to prudentes quando

 privacidade da misso. Heydrich deixou a minha pergunta pendente. Com o isolamento 
a que a Inglaterra estava votada e a
nossa guerra contra os Russos a correr pelo melhor, era muito
provvel que Churchill recorresse a um pedido de paz. Para qu
complicar as coisas ao permitir que o Mundo ficasse a par do
problema judeu?
  Parece-me bastante lgico.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Kiev caiu em alguns dias.
  A grande cidade ucraniana, que, pressupostamente, ofereceria
uma resistncia de morte aos Alemes, estava agora ocupada por
eles. O Exrcito Vermelho fora derrotado e praticamente no
restavam chefes.
  Assim que avistei as primeiras tropas alems, obriguei Helena a sair do centro de 
refugiados para onde nos haviam levado.
  As armas cujo troar ouvamos durante o percurso no eram
  soviticas: pertenciam  frente que os alemes abriam, atravessando
  a Ucrnia.
  Durante alguns dias reinou a confuso. Assemelhvamo-nos
  a muitos russos miserveis, passando por trabalhadores rurais.
  O impecvel russo de Helena ajudava-nos muito. Roubei po por
  vrias vezes - uma delas da prpria viatura com destino ao Hotel
  Continental, que o Exrcito alemo transformara em quartel-general.
  Em algumas partes de Kiev, a luta continuava. Vrios guerrilheiros russos tinham-se 
deixado ficar para trs, colocando minas
  e armadilhas. Grande parte da cidade estava em runas.
  Ouvi o disparar de uma metralhadora, observei cadveres de
  russos e alemes espalhados pela rua e arrastei Helena para as
  traseiras de uma loja reduzida a destroos, onde comemos o po.
  o fim, Rudi! -lamentou-se, comeando a chorar
  baixinho. - Estamos apanhados.
  - No, com mil diabos. Come o po. Imagina que  um
empado de batata.
  Nas traseiras da loja havia uma torneira. Enchi de gua
a minha malga de lato e bebemos.
  -  terrvel - gemeu.
  - Consegui jantar. Imagina que ests a beber vinho. No
suporto queixas. Espera at nos casarmos.
  Soltou uma risada e mandei-a calar. Apercebi-me de movimento do outro lado da 
montra estilhaada. Eram trs soldados
alemes com equipamento de batalha completo. Pararam, olharam
em volta e esperaram.
  - O que se passa? - sussurrou Helena.
  - Parecem das SS. Provavelmente a prepararem-se para
encurralar as pessoas.
  - Oh, meu Deus, Rudi. O que havemos de fazer?
  - Escondermo-nos. Pe-te atrs do balco. Se entrarem,
conta-lhes as mentiras habituais. Somos fazendeiros. Bombardearam-nos.
  Subitamente, ouviu-se uma exploso enorme, como se toda '
a cidade de Kiev fosse pelos ares.  nossa volta caam estilhaos.
L fora a situao era ainda pior. A rua dava a sensao de se ter
erguido ante o impacto da exploso. Seguiu-se uma segunda e depois

uma terceira.
  Chegou-me aos ouvidos o eco do voar de estilhaos, tijolos e,
finalmente, um rudo ensurdecer, como se um prdio inteiro se
tivesse desmoronado.
  A poeira cegava-nos, mas mesmo assim verifiquei que, do lado
de fora da loja, os trs soldados se erguiam da valeta, ajustavam
os cintos e apontavam na direco do Hotel Continental, de cuja
carrinha acabara de roubar o nosso jantar.
  Nas ruas soavam gritos e a confuso era tremenda. Chegaram
mais tropas a correr. Um motociclista coberto de porcaria passou
perto, e ouvi-o gritar para os outros:
  -O Hotel Continental. Os russos fizeram-no explodir.
H mortos e feridos por toda a parte.
  Enquanto ainda estava a falar, ouviram-se mais duas exploses
ensurdecedoras. Procuraram abrigo, encostando-se  parede da loja
onde nos encontrvamos. Um dos homens foi atingido por uma
trave e caiu para dentro da loja. Acocormo-nos ainda mais por
detrs do balco destrudo.
  Os camaradas iam a correr em seu auxlio, mas o motociclista
deu-lhes outras ordens:
  - Vigiem a rea. Prendam qualquer russo a que consigam
deitar a mo. Disparem a matar contra esses filhos da me. Jesus!
L vem outra!
  - E o Helms? - perguntou um dos soldados.
  - Parece morto! Cristo! Vamos embora daqui!
  L fora as sereias apitavam. Camies passavam, deixando
o rasto dos potentes motores. Aparentemente, as detonaes tinham
parado, mas continuava a ouvir-se um som surdo e trovejante,
como se a prpria terra voltasse ao lugar.
  Helms. Pareceu-me impossvel. Era um nome vulgar. No
entanto, assim que a rua ficou livre da presena dos alemes,
rastejei at  frente da loja e observei o soldado atingido pela
trave de madeira.
  Contemplei um rosto de traos agradveis e familiar. Tratava  -se de Hans Helms. 
Sabia que estava h anos no Exrcito, mas no
  azia ideia de que pertencia a uma unidade das SS.
  - Estou ferido - gemeu. - Tire esta coisa de cima de mim.
  - Filho da puta! - insultei. - Nem consigo acreditar.
  Ainda no me reconhecera.
  - Quando levantar a trave, puxa-o para fora, Helena - disse.
  Pus-me de costas para a trave, peguei-lhe em peso e desloquei-a. Suavemente - 
demasiado suavemente, na minha opinio  Helena puxou-o.
  - Tira-lhe a espingarda - ordenei.
  Obedeceu-me.
  Arranquei-lhe o capacete de proteco. Tinha a cabea ferida
  e o sangue corria-lhe para os olhos. Fitei-o e tratei-o pelo nome:
  Hans Helms.
  Fixou os olhos, pestanejou como se acabasse de acordar de um
  sonho e disse:

como. eiss. Rudi Weiss. Deus do cu. O que ests... aqui...
  Agarrei-o pelo colarinho e comecei e sacudi-lo:
  - No  da tua conta, meu safado. Alis, nunca gostei de ti.
  - Acalma-te. Obrigaram-me a entrar nisto. Era um simples
  soldado de infantaria. Infringi e transformaram-me num <<corvo
  negro>>.
  - Cabro de merda! Mentiroso!
  - Conhece-lo? - perguntou Helena, confusa.

  -  meu parente - respondi.
  - A culpa no  minha, Rudi - desculpou-se, ofegante.
de Deus tive nada contra ti. Vai-me buscar gua, por amor
  Helena pegou no capacete e dirigiu-se  torneira que ficava
atrs da loja. Encheu-o de gua e regressou. Helms bebeu. Parecia
ter apenas algumas equimoses. Mexeu as pernas e pegou no capacete. Conservei a 
espingarda nas mos.
  - Ouve uma coisa, Helms. Tenho andado fugido, h trs anos
  , por causa de safados como tu - disse. - Fala-me da minha famlia.
  Voltaste a ver a tua irm?
  - H seis meses. Em Berlim.
  - Falou dos meus pais? Do Karl? Da minha irm?
  Hesitou. Encostei-lhe a espingarda  garganta.
  - Responde, pedao de asno.
  - A Inga disse que o teu pai e a tua me esto bem. Vivem
na Polnia. Varsvia, acho. No  mau. Os judeus ocuparam uma
grande parte da cidade. Inga recebe notcias deles.
  No fazia ideia de at que ponto me estava a mentir. Contudo,
a mentira era prefervel  falta de informaes.
  - O Karl?
  - Est em Buchenwald. E bem, segundo creio. A Inga ajudou-o a obter um trabalho 
menos pesado.
  Passei a arma a Helena e comecei a sacudi-lo novamente.
  - Acho que te vou fazer saltar a cabea, meu filho da puta.
Diz-me a verdade. Um nazi a mais ou a menos pouco me importa.
Podes morrer pelo Fhrer.
  Comeou a implorar:
  - Cus, Weiss. Que te fiz eu? Nada tenho contra ti. Jogmos futebol juntos centenas 
de vezes...
  Pensei nos judeus indefesos, assustadas, desarmados que os
da sua laia haviam liquidado e apeteceu-me mat-lo; mas no podia:
  - E a Anna?
  Helms afastou-se uns centmetros de mim:
  - Est morta. Adoeceu. Pneumonia. No sei.
  Procurei-lhe a garganta e agarrou-me as mangas com toda
a fora:
  - Jesus! Nada tive a ver com isso. Ningum lhe fez mal.
Adoeceu... e morreu. No sei mais nada.
  Negou que os pais a tivessem denunciado. Afirmou estar na
Rssia nessa altura. A raiva que sentia impedia-me as lgrimas.
De momento, apenas me apetecia feri-lo, faz-lo pagar pelos crimes
contra a minha famlia e todos os ultrajes a que assistira.
  Em seguida, foi-me impossvel conter as lgrimas. Chorei
desabaladamente e sem vergonha.
  - Tinha dezasseis anos, Helena - solucei. - Tenho a certeza que esses filhos da me 
foram os culpados.
  - Oh, Rudi. Como lamento. Gostavas tanto dela!
  Olhei para a cabea ensanguentada de Hans. Tinha uma ex  presso de pavor nos 
olhos. Aqueles safados tambm sentiam
  medo. Tambm podiam aprender o que era morrer, sem hiptese
  de defesa.
  - D-me a espingarda dele - ordenei.
  - No, Rudi.
  - Vou estourar-lhe os miolos.
  - D-me uma oportunidade, Rudi - implorou Hans. - Aceitmo-vos. Arriscmo-nos por 
causa de vocs.
  - Porque a Inga vos obrigou.
  - E ento? Fizemo-lo. Ouve. .. O teu ,pai e a tua me esto

bem. O Karl tambm...
  -Mataste a Anna.
  - No lhe toquei nem com um dedo.
  - Esse uniforme torna-te to culpado como algum que
o fizesse. Sei que ests a mentir, Helms. Aconteceu alguma coisa.
Conta-me.
  - Juro que no sei.
  Sabia, evidentemente, que ela tinha sido violentada; mas 
provvel que no estivesse a par do seu assassnio em Hadamar.
  Finalmente, devido aos pedidos implorativos de Helena e s
exploses que voltaram a abalar o cu e a terra, decidi deix-lo ir.
Ainda no atingira a fase em que era capaz de disparar sobre um
homem desarmado. Ainda no.
  - Estou ferido, ajuda-me a sair daqui e a ir a um posto
de socorros.
  - Talvez te enterre vivo. Como vocs fazem aos judeus
velhos. Pem-lhes terra em cima enquanto ainda respiram.
  - Nunca fiz nada disso. Ouve: posso conseguir-vos passes
de trabalhadores. Acreditem-me que as Judeus no esto seguros
em Kiev. Encarregar-me-ei de que vos deixem em paz.
  Helena contemplou o rosto bonito e franco, coberto de sangue coagulado.
  - Acho que podemos acreditar nele, Rudi.
  Era uma jovem de temperamento confiante e conciliador. Acabei por dar-lhe ouvidos. 
Demorei alguns segundos a seguir-lhe
o conselho. Talvez Helms fosse diferente. H muito que o conhecia. E era irmo de 
Inga.
  Ajudmos Helms a pr-se de p, pusemos-lhe o capacete na
cabea, pendurmos-lhe a espingarda ao ombro e samos da loja
para a rua pejada de cascalho.
   nossa esquerda havia um peloto de alemes e mais adiante
alguns camies e carroas puxadas por cavalos.
  Cada um de ns amparou Helms com um dos braos, e encaminhmo-nos na direco da 
brigada, Um sargento avanou. Ouvi-o
falar aos homens e voltar a cabea.
  - Cristo, mandaram metade de Kiev pelos ares.
  - Estou ferido - disse-lhe Helms.
  - Quem  voc?
  - O cabo Helms. 22.a Diviso das SS.
  O sargento fez um aceno de cabea na nossa direco.
  - E esses?
  Helena ia a falar e deteve-se.
  - Judeus - denunciou Helms. - Tentaram matar-me.
  - No -retorqui. - Somos trabalhadores rurais ucranianas.
Diz-lhes, Helena.
  - Judeus - insistiu Helms.
  - Filho da puta, safado e mentiroso - insultei Helms.
- Salvmos-te a vida, arriscmos a pele por ti e agora...
  Dois soldados avanaram e sentaram Hans num monte de
pedras. Um mdico comeou a limpar-lhe a ferida da cabea e a pr
uma ligadura tirada de uma mala de primeiros-socorros.
  O sargento olhou-nos indiferentemente, como se fssemos
dois sacos de batatas.
  - Vocs os dois subam para aquele camio - ordenou, movendo o polegar na direco 
do camio e de outras viaturas que
estavam a ser carregadas com civis russos.
  - Porqu? - perguntei.
  - Cala o bico, judeu - ameaou-me com o cano da pistola

encostado  minha cara. - Ests a ser tirado daqui para teu prprio bem. Obedece.
  Helena estremeceu. Limpei o sangue. Descemos a rua, percorrendo a distncia que nos 
separava dos camies.
  - O que vai ser de ns, Rudi? - sussurrou.
  - No sei. Apenas quero viver o tempo suficiente para acabar
com aquele filho da me do Helms.
  No momento em que nos empurravam para dentro do ltimo
camio, ouviu-se mais uma exploso ensurdecedora. Detonara uma
mina praticamente por baixo do stio onde estavam Helms e os
restantes. Olhei para trs e apercebi-me de que o meu desejo de
vingana no mais seria satisfeito. Hans Helms tinha ido pelos
ares, juntamente com o posto de socorros.




O DIRIO DE ERIK DORF



Kiev
Setembro, 1941

  O Hotel Continental, o aquartelamento do Exrcito, est
reduzido a um monte de destroos. mais de duzentos dos nossos
oficiais superiores e os seus homens esto mortos.
  Por sorte, o posto de comando de Blobel situa-se numa outra
parte da cidade. O Exrcito no tem muito interesse em nos conservar por perto. As 
Waffen SS, a diviso de combate,  na generalidade aceite. No entanto, os oficiais do 
Exrcito, se bem que
no nos levantem obstculos (e, de facto, frequentemente prestam-nos ajuda), preferem 
manter uma certa distncia entre o pessoal
dos Einsatzgruppen e eles. Neste caso, o vento soprou a nosso
favor.
   terrvel a carnificina e a destruio que reinam no centro
de Kiev. Segundo parece engenheiros russos colocaram minas em
vastas reas do centro da cidade, particularmente no hotel, e ao
serem evacuados, tinham preparado as exploses intervaladas.
Quem pensaria numa tal esperteza por parte dos primitivos eslavos?
  Blobel estava fora de si. Berrava ordens aos telefones, tentando obter informaes. 
Heydrich encarregar-se- de lhe dar
a devida conta. Na realidade, a eliminao dos Judeus  apenas
uma das nossas funes. Tambm esperam que exterminemos os
sabotadores, criminosos, comissrios e outros elementos que se
possam provar perturbadores da ordem. Decerto o Exrcito Vermelho deixara para trs 
espies encarregados de impedir essa destruio.
  Blobel e eu detestamo-nos mutuamente, em especial desde
a cena passada h alguns dias, quando me envergonhou de maneira
a fazer-me matar a mulher. (Vim mesmo a descobrir que ele nunca
puxa um gatilho: limita-se simplesmente a dar ordens.) Seja como
for, o desastre que se abateu sobre ns, em Kiev, deu-me oportunidade de voltar  
carga contra ele.
  - Os seus servios deixam bastante a desejar - acusei, ao
v-lo correr de telefone para telefone, recebendo informaes de
mais mortes e de uma maior devastao na capital ucraniana.
  - Estamos to ocupados a dar cabo dos Judeus - rosnouque no temos ningum a vigiar 
o Exrcito Vermelho.
  - Pressupostamente, as duas misses pertencem-lhe.

  - Claro e j estou a v-lo a denunciar-me a Heydrich
- exclamou, pousando bruscamente um dos auscultadores. - E a
Himmler. <<Aquele bbado do Blobel e a sua desorganizada operao. >> Bam. Porque no 
se inteiraram de que o Exrcito Vermelho minara a cidade? O que pensam que andamos a 
fazer o dia
inteiro, com as diabos? A beber vodca e a fornicar :bailarinas?
  As exploses tinham terminado, mas sobre a cidade destruda
pairava uma miasma, uma nvoa de p, estuque, terra. Olhei pela
janela. Pelotes das SS prendiam as pessoas, quem quer que encontrassem  solta pelas 
ruas. O Exrcito nisso desaparecera. Os que
no foram feitos prisioneiros fugiram para leste. Consolo-me com
a ideia de que organizaram um combate sem finalidade em Kiev,
e que foram desarmados e vencidos em todas as operaes. Diz-se que o Grande 
Estaline>> est terrivelmente deprimido. Dificilmente consegue ler os relatrios que 
lhe chegam
  da frente e est
  pronto a render-se. g
  Ocorreu-me uma ideia.
  - Voc est a pensar em mim em termos de iniinizade Blobel, mas acredite que faz 
mal ,
  - retorqui. - Talvez consigamos
  pr um pouco de ordem em toda esta confuso.
  - Como, por exemplo? Rec
  Continental? p eber o seguro feito sobre o Hotel
  O sarcasmo de Blobel irritou-me. Estou a ora convencido de
  que a minha inteligncia  muito superior  dele
  , que sou capaz
  de o domar, de fazer com que me escute e aceite as
  ses, mesmo tendo uma patente superior  minha, minhas deci  elaborado o rel   
ns ficar em muito bons lenis quando for
  - declarei. - Em vez de nos determos a pensar porque no estvamos informados sobre 
os campos minados
  pelo Exrcito Vermelho que nos impede de deitarmos todas as
  culpas sobre os Judeus?
; Blobel arrotou e abriu o colarinho:
  - Cus, Dorf. Esses velhos de barbas? Ou os midos? Essas
  mulheres todas sujas? Eram pessoas ca azes de minar uma cidade
  e quase destru-la? p
  Expliquei-lhe pacientemente que as mentiras ao servio de
  uma maior verdade, as afirmaes e aces extremistas rumo a um
  amplo objectivo, so perfeitamente aceitveis. Os Judeus so um
  meio e um fim, voltei a repetir-lhe. Berlim acreditar na nossa
  histria, a todos os nveis. No precisamos de mais desculpas 
  atgica ara
  os matarmos, e, tanto estr como emocionalmente, a culpabilizao dos Judeus pela 
destruio de Kiev cair bem a toda a gente.
  Conseguiremos o apoio inabalvel de amplos sectores da populao
  lgruaniana e ficaro destrudas quaisquer crticas do exterior
  " - caso
  ma vez venha a descobrir-se a existncia dos Einsat ru en.
  Recordei a Blobel o comentrio jocoso que me dirigi : p De  pois de se matar dez 
judeus, os cem seguintes so mais fceis de
  abater e q p
  Pegouuimediaos rximos mil  nem se d por isso.>>
I:' atamente no telefone e ordenou uma nova rusga. 

A HISTdRIA DE RUDI WEISS


  A alguns quilmetros de Kiev - no dia 29 de Setembro de
1941- mandaram-nos sair dos camies e fazer o percurso a p.
  Estava muito calor. Nuvens de p amarelado asfixiavam-nos.
As pessoas que tropeavam e caam eram abatidas a tiro. Os guardas estoiravam-lhes os 
miolos com pistolas e espingardas. Helena
comeou a tremer. Apertei-a de encontro a mim e tentei impedir
que ficasse histrica.
  Helena comeou a dirigir a palavra a um homem que caminhava  nossa frente, na 
linha de marcha. Parecia educado, estava
bem vestido e disse ser professor. No me recordo do nome. Qualquer coisa como 
Liberman ou Liebowitz.
  - Vo levar-nos para um campo de trabalho. Foi o que ouvi
aos guardas - declarou num tom de voz quase alegre. - No deve
ser to mau como isso. Pelo menos, teremos comida.
  - Dizem que seremos protegidos dos Ucranianos para nosso
prprio bem - acrescentou uma mulher.
  - Onde fica esse campo? - quis saber Helena. - A que
distncia?
  - Oh, no  muito longe - retorquiu o professor. - Mesmo
por detrs do Cemitrio dos Judeus. Num stio chamado Babi Yar.
  - Um nome curioso. Babi Yar - comentou Helena, virando-se na minha direco. - 
Significa a <<Ravina da Av>>.
  - No vamos para nenhum campo de trabalho - sussurrei-lhe. - Pretendem vingar-se 
pelo que aconteceu em Kiev. J no
acredito numa nica palavra deles. Vamos fugir assim que tivermos
uma oportunidade.
  - No. . . Rudi. . .
  - Arrasto-te pelos cabelos.
  Contemplei os pobres judeus de Kiev: os velhos. os fracos,
os ortodoxos, jovens casais, mulheres com os filhos ao colo. Acreditavam; algo os 
impelia a acreditar. Mas ser que ns, na Alemanha, to modernos, to sofisticados, 
tnhamos sido mais espertos?
  Uma escolta de carros do Exrcito alemo desfilou ruidosa  mente - carros de 
servio, camies, motorizadas, Vinham na nossa
  direco. Na retaguarda de cada um dos camies avistei metralhadoras, canos 
apontados, pilhas de caixas de munies.
  A escolta levantou uma nuvem de poeira, uma nuvem venenosa e asfixiante. A estrada 
estava seca, e e terra apresentava-se
coberta de uma poeira amarelada. Quando e poeira se levantou
e nos ocultou, obrigando os guardas SS a tossirem e cuspirem,
puxei Helena por um brao e obriguei-a a sair da estrada. Rolmos
pelo declive e fomos parar a uma vala de irrigao. Esperei uns
momentos. Passou uma segunda escolta. De novo a coluna em
marcha se viu envolta numa nuvem de terra poeirenta. Aproveitei-me do facto, agarrei 
Helena por um brao e corremos, sempre
agachados at um bosquedo de carvalhos. A erva era alta e espessa
e ajudou-nos a esconder. No demormos a ficar longe da coluna,
que aumentara, dando a sensao de se alargar at Kiev.
  Descansmos junto de uma rocha. Helena enroscou-se nos
meus braos e chorou silenciosamente. Beijei-lhe as lgrimas,
o nariz, a boca. Garanti-lhe que no amos morrer, que no deixaria
que nos matassem.
  Tratava-se de uma disparatada vanglria, mas apenas me restava a alternativa de lhe 
mentir ou, pelo menos, projectar um
futuro esperanoso.
  Depressa deixou de chorar. Era to pequena, to corajosa,
uma parte to importante de mim... Interroguei-me, frequentemente, como uma jovem to 
nova e frgil conseguia ter um carcter

to forte, afectuoso e cheio de desejo. Tinha um passado humilde.
A filha de um lojista. Sionistas patticos, vulgares judeus de Praga.
Contudo, havia nela - como, no sei - um amor e uma profundidade de sentimentos que 
em muitos aspectos me recorda Anna,
a minha irm falecida.
  - Um dia casarei contigo - prometi.
  - No brinques comigo, Rudi.
  - Falo a srio. Mas agora pe-te de P, mida. Antes do
casamento ainda temos de voltar  nossa vida de esconderijo.

O DIRIO DE ERIK DORF


Kiev
Setembro, 1941
  E surpreendente como os judeus obedeceram s nossas ordens
  de fazer uma mala, trazer comida para um dia, reunirem-se em
determinadas esquinas da rua e prepararem-se para o transporte
para campos de trabalho.
  Na companhia do coronel Blobel e dos seus ajudantes, fomos
hoje, ao comeo do dia, a Babi Yar, a fim de verificar como decorre a operao. J se 
passou, evidentemente, a palavra por toda
a cidade de Kiev de que foram os Judeus os culpados das exploses
na cidade. O Exrcito Vermelho sente-se, como  bvio, satisfeito
com esta histria. E a populao civil ucraniana parece encantada.
Brigadas inteiras alistam-se como voluntrios nas SS.
  Observmos com binculos a ravina que se estendia l em
baixo, o local designado por <<Babi Yar>.
  - Do outro lado, fica o Cemitrio dos Judeus - riu.
- Mesmo a calhar, no acha, Dorf?
  - Penso que sim. Claro que os relatrios se devem referir
a tudo isto como uma reintegrao.
  - Foi precisamente o que lhes disseram, no que acreditaram.
Campos de trabalho. Para sua proteco. Os rabis e outros dos
seus chefes convenceram-nos a obedecer.
  -  surpreendente a maneira como colaboram - comentei.
  - So sub-humanos. Descendentes de um outro ramo da raa
humana. Himmler est a prov-lo dia a dia. Sabe que o nosso amado
Reich fhrer colecciona crnios de judeus e leva horas a medi-los
comparando-os com crnios de arianos?
  - Curioso!
  Enquanto falvamos, avistmos para l da ravina arenosa uma
enorme quantidade de judeus, que se apresentavam com a maior
ordem.
  - Deus do cu! - exclamou Blabel. - Espervamos seis
  mil, ou coisa assim, e apareceram-nos trinta mil.
  Era fantstico.
  - Talvez tenham conscincia de que, seja qual for o destino
  que lhes preparemos, se trata de uma expiao - retorquiu Blobel
  com um esgar. - Kiev ainda est a arder com essas malditas exploses dos Judeus.
  Fiz uma pala com as mos e avistei milhares de pessoas
  andando de um lado para o outro ou formando tranquilamente
  fileiras, depois de descarregadas dos camies. Tratava-se literal  mente de um 
lago, um mar interior de judeus. Dera-se incio ao
  acto de se despirem. Era estranho: nas reas fronteiras, perto da
  ravina, os corpos fundiam-se num grande balo de carne cor-de-rosa
  ,

  enquanto l atrs os judeus apresentavam um tom de pele de um
  castanho-escuro, sendo os rostos, plidos, a nica coisa a deixar
  transparecer qualquer semelhana com a raa humana.
  Procurei envolver-me numa couraa, numa armadura renitente
  a qualquer sentimento de piedade ou de compaixo que pudesse
viver no meu ntimo. J no constitui um grande esforo ter bem
presentes as palavras de Heydrich. Estes so os inimigos mortais
da Alemanha, seja qual for o ngulo de que se encarem.
  Interroguei Blobel quanto  imprensa estrangeira.
  - Afastada. Esto-lhes a mostrar os prejuzos causados pelos
  bombardeamentos e incndios em Kiev.
  - ptimo. E os Ucranianos?
  - Foram avisados de que se mantivessem de parte,  excepo dos que nos ajudam, 
embora pouco se importem com o que
fazemos aos Judeus.
  Mandaram avanar o primeiro grupo de judeus nus. Obrigaram-nos a ajoelharem-se na 
ravina. Um dos homens ergueu as
mos acima da cabea, desconheo se em orao se em splica.
Estava-se a utilizar aqui uma nova tcnica, talvez para poupar munies. Abatiam os 
judeus, individualmente, com um tiro, dirigido
 nuca. Os homens das SS, armados de pistolas, foram muito simplesmente avanando ao 
longo da linha e procedendo  tarefa.
  - Nada de tiroteios em massa 2 - quis saber.
  - Estou a fazer uma experincia. Voltaremos s metralhadoras se este processo 
demorar demasiado.
  Bateu na bota com o chicote de equitao:
  - Est a tornar-se cansativo, Dorf. Vamos embora. Demorar vrios dias. Vou 
ordenar-lhes que mandem os judeus para
mais longe, a fim de evitar o pnico. Tambm quero experimentar
uma tctica de Ohlendorf, a que chama o mtodo da sardinha.
  - Da sardinha?
  - A primeira carrada de judeus deita-se no fundo da vala,
lado a lado. Bum! Bum! Mortos. O grupo a seguir deita-se em cima
deles, com as cabeas viradas para os ps dos mortos. Bum! Bum!
mortos tambm. E assim por diante, at a vala ficar cheia.
  Afastmo-nos da ravina. Os tiros tinham nessa altura acelerado, o mesmo acontecendo 
com os gemidos e os gritos. No entanto, o local mantinha-se curiosamente silencioso. 
Os guardas
conservavam-se na estrada mais prxima, onde os nossos carros
estavam  espera.
  Num desses bloqueamentos de estrada, um homem alto com
um sobretudo de civil, evidentemente um alemo, estava a mostrar
documentos a um cabo das SS a protestar que queria entrar na rea.
  - Tenho ordens especiais do marechal-de-campo Von Brauchitsch - dizia o homem, 
irritado. - Esto aqui as meus documentos e a carta escrita por ele.
  - Lamento muito, senhor, mas ningum tem ordem de ultrapassar este ponto.
  O civil ergueu os olhos com uma expresso de raiva e frustrao, e verifiquei 
tratar-se do meu tio Kurt:
  - Estou encarregado dos grupos de construo de estradas
nesta regio. A ravina deveria ser examinada hoje.
  - Lamento, senhor. rea de segurana.
  - O homem tem razo, tio Kurt. Esta zona est fechada
- interferi, levantando-me e dirigindo-me a Kurt.
  Kurt ergueu os olhos surpreendido, e, em seguida, sorriu.
Abramo-nos. Sentia-me verdadeiramente satisfeito por o ver.
Acaba-se por se sentir saudades da casa e da famlia. Vejo, provavelmente, Kurt uma 
vez por ano, mas  um parente bom e amigo
  e dava-se muito com o meu pobre pai.

  - Erik! - exclamou. - Ouvi dizer que estavas na Ucrnia.
  Falei com a Marta antes de partir, mas disse-me que no sabia
  exactamente onde estavas. Que bom ver-te!
  Apresentei-o a Blobel, que no pareceu impressionado. Con  tudo, convidou-me para 
mais tarde tomar uma bebida no seu gabinete, quando se fizesse a <<contagem>>. g
  - Contagem? - repetiu Kurt.
  - Oh! Um exerccio militar - esclareci.
  O automvel de servio de Blobel afastou-se.
  Kurt estava a admirar o meu uniforme.
  -Deus do cu! O mido do meu irmo Klaus. Vejam s.
  temids SStlNodo Reich. Nada mais nada menos que major nas
  consigo acreditar, Erik!
  - A guerra muda-nos.
  - No me pareces mudado. Continuas o mesmo jovenzinho
  simptico de dezoito anos.
  Posso afirmar com honestidade que nunca fui particularmente
  vaidoso, mas os comentrios do tio Kurt agradavam-me. Tanto
  melhor se conseguia conservar a aparncia exterior de um jovem
  inocente. O ao que se apoderou do meu temperamento  interno.
O homem que actualmente consegue assistir com firmeza a fuzilamentos em massa, 
consegue meter uma bala na cabea de uma
jovem, no denota modificaes fsicas. A minha mulher no se
aperceber de quaisquer cicatrizes, nem sentir qualquer parcela
da minha dureza ntima.
  Mas mudei muito. Kurt no conseguir, porm, aperceber-se.
Sou um soldado, um guerreiro das linhas da frente da marcha de
conquista da Alemanha. Tenho, no entanto, a sorte (o que no
acontece a bbados como o Blobel ou aos sicofnticos Nebes) de
conservar a aparncia de um jovem oficial inteligente, de intenes
pacficas, compassivo e justo. 
  Cavaquemos, assim, sobre a campanha da Rssia, a aco do
Exrcito e a expectativa de que, dado toda a Europa se encontrar
virtualmente sob o nosso domnio, a Inglaterra pediria a paz. Correm boatos de que 
uma ampla faco do Governo britnico favorece
a destruio do bolchevismo e a celebrao de um acordo anglo-alemo.
  De regresso a Kiev, ofereci uma boleia a Kurt, no meu automvel. Depois de termos 
conversado um pouco mais sobre Marta,
os meus filhos e o trabalho de Kurt para o Exrcito, perguntou-me:
  - O que se estava a passar neste stio chamado Babi Yar?
  Fiz uma pausa momentnea. Poderia contar-lhe algo do que
se estava a passar, sem mentir.
  - Execues - respondi.
  - Ah! Da vossa responsabilidade, ento. A segurana atrs
das linhas de batalha. Quem foram... as vtimas?
  - Oh! Uma mistura. A escria do costume. Espies, sabotadores, gente implicada nos 
bombardeamentos e incndios de Kiev.
Criminosos vulgares. Comerciantes do mercado negro.
  - Judeus?
  - Sim. Alguns.
  - Alguns ?
  - No mantemos um registo. Quem quer que nos oponha
resistncia est arrumado.
  - H vrias semanas que estou na Ucrnia - retorquiu
Kurt, coando o queixo -, e esses judeus parecem-me os menos
capazes de resistir. Vi-os actuar sempre como se nos quisessem
obsequiar.
  -  uma gente astuciosa, tio. De facto, estamos a reintegrar

muitos deles, mas afastando-os do resto da populao.
  - Reintegrar?
  - Sim. Uma medida de higiene, por assim dizer. Para que
a guerra possa continuar.
  - Claro - concordou, fitando-me com um brilho novo no
olhar. - Foste, outrora, um dos jovens mais tmidos que conheci.
E agora, quem te vir a dar ordens! A dirigir programas de reintegrao! Modificando a 
face da Europa!
  - Est a supor-me com um poder excessivo, tio. Limito-me
a obedecer a ordens.
  - No  o que todos fazemos? - riu Kurt.
  Nesta altura o meu carro foi bloqueado por mais uma infindvel e ondulante coluna 
de judeus. Estavam a responder cada vez
  mais s nossas ordens de reunio em Babi Yar. Maviam-se lenta  mente. Na fila da 
frente seguiam homens de barbas, provavelmente
  rabis ou professores, entoando cnticos e revirando os olhos
  para o cu.
  - Meu Deus! - exclamou Kurt. - Mais ainda. Mais alguns
  das vossos sabotadores. Todos encaminhados ara essa ravina.
  - E outros locais.
  - Ah! - exclamou Kurt, no parecendo l muito convencido.
  - Para serem reintegrados?
  - Sim, alguns. Vai-se proceder a uma triagem, a um deter  minado processo de 
seleco. Os criminosos sero abatidos a tiro.
  O nosso carro conseguiu abrir uma passagem por entre a massa
  de judeus. Davam a sensao de desprenderem um odor e sujidade,
  medo, fezes.
  - Uma crueldade! - observou Kurt.
  - Qualquer guerra o .
  - Mas. .. tantos civis? , de facto, necessrio. . . ?
  Ofereci-lhe um cigarro e fummos. No me apetecia falar
  sobre Babi Yar nem sobre qualquer outro aspecto da nossa misso.
  - Fale-me mais sobre a Marta, tio Kurt - pedi. - Mal consigo esperar a altura de 
chegar a Berlim para a ver a ela e s
  crianas. Acredite-me que, sem elas para me inspirarem, no sei se
conseguiria continuar.
  No pronunciou palavra, mas fitou-me com um olhar triste
profundo, interrogativo. ,
  Por momentos, senti-me desconcertado. Era como se o meu
pai me estivesse a observar. O olhar assemelhava-se ao que ele me
deitava sempre que mentia ou cometia qualquer falta. Fui sempre
uma criana to obediente e cumpridora, que tais ocasies eram
raras. O ,que piorava grandemente a situao, pois, frente ao meu
pai, sentia no s culpabilidade por ter roubado um lpis ou chumbado num exame mas 
tambm tristeza. Sabia-o atingido ela falncia da padaria e a sade deficiente e 
tornava-se-me doloroso
aumentar-lhe os sofrimentos com os meus pecadilhos.
  Os olhos de Kurt estavam e reavivar naquele momento todas
essas minhas recordaes da meninice. Estava a receber uma reprmenda. Mas porqu? 
Era provvel que Kurt suspeitasse de muitos
dos meus deveres. No se tornava possvel esconder provas. Contudo, que direito tinha 
de me censurar, caso soubesse proceder a um
entendimento correcto dos factos?
  No estou a cometer qualquer pecado. Estou a ser obediente,
seguindo as regras, as leis e o destino da nao ditados pelos nossos
chefes. Um destes dias terei de explicar tudo isto a Kurt. No entanto, no desejo 
voltar a encontr-lo. Para no ser abrigado
a justificar-lhe os meus actos. Para no ver reflectida a expresso

triste do meu pai no rosto do irmo.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Os guardas no nos perseguiram pelos bosques. Escondemo-nos durante algumas horas 
na floresta, em seguida passmos a vau
um rio de guas baixas, sempre  escuta do som de camies ou de
gente em marcha.
  Finalmente, nesse dia quente e seco - em 29 de Setembro
de 1941-, subimos a uma montanha e contemplmos uma ampla
ravina, a Babi Yar, a que o homem do camio se referira.
  Estavam a abater centenas de judeus a tiro.
  Senti-me contente por nos encontrarmos a uma distncia que
no nos permitia ver-lhes os rostos ou ouvir as vozes. Os tiros de
pistola e de espingarda (posteriormente, passaram a utilizar-se metralhadoras) 
produziam um som idntico ao de uma pistola de fulminantes. As vtimas caam sem 
rudo, quase como que em cmara
lenta, na terra arenosa.
  - So tantos, Rudi! - chorava Helena. - As mulheres
os bebs...
  ,
  Apertei-a fortemente de encontro a mim, sem saber para onde
iramos, nem como conseguramos evitar as patrulhas das SS. As
  cidades significavam condenao e morte. A nossa nica esperana
  residia em continuarmos fugidos atravs dos campos, Decerto,
  alguns judeus teriam escapado. Parte da populao nativa teria
  piedade de ns.
  - Quero morrer com eles - chorava.
  - No, no, com mil raios! - opus-me. - Ficars comigo.
  No morreremos de p, nus e envergonhados. Mataremos alguns
  ao morrermos.
  -No aguento mais! No aguento mais! -comeou a gritar.
  Atra-a a mim e tapei-lhe a boca com a mo. Teria de aprender
  a no gritar, a no nos pr a vida em perigo. Teria igualmente
de desejar a vingana, de tomar conscincia de que a nica sada
que nos restava era fugir, escondermo-nos e tentar resistir. Deveria
ainda dizer-lhe coises piores. Que deveramos estar preparados para
enfrentar a morte, mas de uma forma audaz e corajosa. Estava farto
das pessoas que se punham placidamente em linha, arranjando desculpas para si mesmas, 
obedecendo a ordens e caminhando para
a morte.
  O tiroteio prolongou-se por todo o dia. Filas de judeus eram
obrigadas a marchar para a rea situada por detrs da ravina.
A terra escurecia com o sangue dos judeus. Os nazis compreenderam algo que o mundo 
levou muito tempo a aprender. Quanto
maior o crime, menos as pessoas acreditam nele. No entanto,
assisti em pessoa aos acontecimentos. Nunca mais voltaria a ser
o mesmo; to-pouco Helena.

O DIRIO DE ERIK DORF

Berlim
Outubro, 1941


  Hoje, Heydrich e eu examinmos as fotografias oficiais da
operao em Babi Yar.
  Informei-o de que, embora Blobel constitua um problema,
acabar por se sair bem. Encarregmo-nos exactamente de trinta
e trs mil setecentos e setenta e um judeus em dois dias. E continuamos a actuar. Da 
forma como os judeus nos esto a ajudar,
podemos ocupar-nos de perto de cem mil antes da concluso do
programa de Babi Yar.
  - Os corpos? - quis saber Heydrich.
  - Blobel veio cobri-los de terra, servindo-se de bulldozers
e tractores. Calcula que ser necessria uma vala com cerca de
cem metros de comprimento e dois metros e meio de profundidade.
  Discutimos o resultado dos restantes Einsatzgruppen quanto
 nossa misso. H vrios graus de eficincia. Ohlendorf, o nosso
distinto perito de jurisprudncia, economista, advogado, o nosso
<<intelectual domstico>>, est a revelar-se particularmente ardiloso.
O seu grupo, designado por <<Grupo D>>, encarregado da Crimeia,
est em vias de despachar os noventa mil judeus que lhe competem.
Referi que me agradavam muito mais os mtodos frios e eficientes
de Ohlendorf do que o comportamento explosivo do bbado do
Blobel, mas Heydrich no se mostrou interessado.
  No ecr passaram mais fotografias da operao de Babi Yar.
As fotografias das mulheres nuas e seminuas pareciam demorar
sempre um pouco mais. Heydrich inclina-se para a frente na cadeira
e estuda-as, com o que d a impresso de ser mais do que interesse
profissional.  um caso muito frequente nestas passagens de filmes
e de fotografias. No  s o chefe que se excita ao ver judias nuas,
prestes a morrerem. Escapa-me qualquer explicao. Heydrich tem uma vida familiar 
feliz e equilibrada, uma mulher encantadora
  ,
  filhos. Diz-se que, no incio da carreira, foi expulso da Marinha
  por comprometer a mulher de um oficial, mas no se pode situar
  o facto no mbito da depravao sexual. Contudo, sinto-me forado
  a interrogar-me se poder haver qualquer relao entre o tipo de
  homens que atramos  nossa causa - a todos os nveis - e as
  complexas necessidades sexuais da psique humana.
  Heydrich acabou por comentar que Ohlendorf era uma pessoa
  espantosa.
  - De incio Ohlendorf teve alguns problemas - declarei.
  - . curioso, mas o certo  que os colonos alemes da Crimeia
e mesmo alguns dos nossos aliados hngaros levantaram protestos.
  - A srio? - retorquiu, observando uma judia bem provida,
de seios abundantes e ancas largas. L estranho como dentro de
segundos estaria morta.
  - Sim. Afirmaram que os judeus que viviam entre eles
  estavam inocentes, e, como  bvio, Ohlendorf desistiu temporariamente.  bastante 
estranho. Sempre que a populao local ou uma
  unidade aliada protesta, damos a sensao de recuar, como se
  (detesto pr isso em ;palavras) nos envergonhssemos da misso
que cumprimos.
  - Todas essas falhas devem ser comunicadas. O nosso mandato  claro - observou 
Heydrich.
  Informei-o de como Ohlendorf, apesar da sua tenacidade no
cerco e reintegrao dos Judeus, poupara de facto a vida de alguns
fazendeiros judeus na Bessarbia por motivos de ordem econmica.
  - Oh! Estou a par de tudo isso - retorquiu Heydrich.
- Himmler visitou a Crimeia pouco depois, e os fazendeiros judeus
de Ohlendorf ,foram includos na ordem. No resta nem um.

III


A SOLUO

FINAL



O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim
25 de Dezembro, 1941

   Natal maravilhoso!
  Que bom estar de volta a Berlim para celebrar com
  a famlia o mais sagrado dos dias do ano. Depois de uma
ltima viagem  frente oriental - um tanto encurtada pela tenaz
defesa de Moscovo pelo Exrcito Vermelho, que deteve, temporariamente, o nosso avano 
-, recebi licena para regressar a casa.
  Sinto-me exausto. A minha viagem pela Rssia esgotou-me.
Foi, no entanto, compensadora. O trabalho dos Einsatzgruppen
excedeu todas as expectativas. Heydrich est satisfeito, mas sente
a necessidade de um programa mais vasto. Mesmo assim, foram
eliminados trinta e dois mil judeus em Vilna, vinte e sete mil
em Riga, dez mil em Simferopol, e assim por diante.
  A nica nota triste  a de que os Estados Unidos entraram
na guerra, a seguir ao ataque japons no Havai. Ningum se
preocupa, no entanto, com o facto. A Amrica fica longe, muito
longe mesmo. Segundo as informaes dos nossos servios secretos,
no tm a mnima preparao bliaa e Roosevelt, sob a influncia
dos Judeus, cometeu um erro. A opinio pblica dos Estados Unidos
obrig-lo- a retroceder. Alm disso, os Americanos podem perfeitamente destitu-lo, 
caso se mantenha neste curso insensato. Consta
que nos Estadas Unidos h uma grande onda de simpatia pela
Alemanha; e aco de Roosevelt pode ser impedida.

  Esta noite, porm, nenhuma destas questes polticas ou militares nos preocupava. 
Encontrvamo-nos reunidos em volta da nossa mais recente aquisio, um soberbo piano 
Bechstein enquanto
  Marta tocava e entovamos cnticos de Natal. ,
  Peter, Iaura, Marta, o tio Kurt e eu formmos um coro feliz
  e cantmos Tannenbaum, The Holly and the Ivy e Bethlehem.
  Foi uma ocasio maravilhosa, encantadora e plena de afecto.
  Quanto nos amamos e respeitamos mutuamente!
  -Podemos abrir os presentes, pap?-perguntou Laura,
  que  uma criana bonita, loura, de feies finas e, como a me
  ,
  de rosto oval.
  - Sim. Os presentes! - ajudou Peter que j tem idade
  ,
  bastante para pertencer  Juventude Hitleriana e usa orgulhosa  mente o uniforme. 
(Estava um pouco aborrecido comigo por ter
  escolhido passar a vspera de Natal com um vulgar feto desportivo
  em vez do meu uniforme.)
  - Depois de cantarmos, filhos - respondeu Marta. - Conhecem as regras: cantar, 
levantar a mesa, arrumar a cozinha, e s
  depois os presentes. Primeiro a obrigao e depois a devoo.
  - Tal como no Exrcito - acrescentou Kurt. - O vosso pai
  cumpriu o dever na frente e agora foi recompensado com umas
  frias prolongadas.
  - Exacto - concordei. - Tal como a mam recebeu este
presente, este piano maravilhoso, pela coragem que teve enquanto
estive fora. q

  Kurt, que sempre foi um apreciador do que  bom e de qualidade, passou a mo pela 
superfcie de mogno do Bechstein:
  -  magnfico. Dizem que o som destes Bechstein melhora
com o correr do tempo.
  Marta tocou alguns acordes, esmerando-se nos sons. - Nem
queria acreditar quando os homens das mudanas chegaram. No
conseguia crer nos meus olhos.
  - E foi de graa! - irrompeu Peter.
  - Sim? - interessou-se Kurt.
  - Estava parado, sem que ningum o tocasse, naquela clnica
de Groningstrasse, numa sala do andar de cima - expliquei.
- O mdico que est a dirigir o consultrio sabe do meu interesse
por msica e ofereceu-mo.
  - Ofereceu? - surpreendeu-se Kurt.
  - No interesse da unidade do partido. Fui til ao conseguir
que esse bom mdico tomasse conta da clnica.
  - Penso que precisa de uma afinao - observou Marta,
franzindo o sobrolho.
  - Afinar um piano no  problema. O problema  consegui-lo - gracejou Kurt.
  O meu tio parecia ter criado uma obsesso pelo piano e continuou a fazer perguntas 
a seu respeito.  bastante ingnuo relativamente ao processo como o partido compensa 
os funcionrios
eficientes, os oficiais das altas hierarquias. Peter voltou a interferir
subitamente - deve ter escutado uma conversa entre mim e Marta
- e esclareceu que o piano havia pertencido ao mdico judeu que
vivia por cima da clnica.
  Kurt estava prestes a fazer nova pergunta, quando Marta
bateu as palmas e declarou:
  - Intervalo! E altura de abrir os presentes.
  As crianas voaram at junto da rvore de Natal e comearam
a abrir caixas, rasgando papel e espalhando cordis ;pelo cho.
Peter tinha sido contemplado com um casal de ratos brancos,
dentro de uma enorme gaiola de madeira, um presente que pedira,
dado interessar-se imenso por biologia. Laura recebeu alguns presentes especiais que 
eu descobrira na Rssia - uma boneca de
trapos ucraniana e uma boneca Petrushka, uma srie de figurinhas
de madeira, cada uma delas mais pequena do que a outra,
encaixando-se at formarem uma nica. Ambos ficaram encantados.
  Para Marta comprei um magnfico vestido de seda, enfeitado
com laos, por intermdio do agente especial de compras das SS,
que se encarrega deste tipo de coisas.
  - Oh, Erik! Que maravilha! - exclamou, pondo-o sobre os
ombros.  de um azul plido, quase da cor dos seus olhos. - Onde
o arranjaste? No h lojas em Berlim que tenham qualquer coisa
parecida.
  - No vais acreditar - respondi, beijando-a no rosto -, mas
fazem este tipo de coisas elegantes nos campos.
  - Nos campos? - perguntou.
  - Sim. Nos centros de deteno. Uma espcie de terapia
  para infractores. Muitos deles so operrios especializados, e seria
  uma vergonha desperdiar-lhe o talento.
  Peter estava a brincar com os ratos. Tinha um em cada mo.
  - Vou chamar-lhes Sieg f ried e otan - declarou.
  - No estou de acordo - retorqui. - O dono da loja
garantiu-me que um  fmea.
  - Macho e fmea? - admirou-se Peter. - E vo ter filhos?
  - Exacto - disse Marta. - E v se mantns a tua famlia
de ratos limpa e dentro da gaiola.

  - As minhas bonecas no podem ter filhos. No  justo - choramingou Laura.
  Passei a mo pelo cabelo sedoso de Laura!
  - O Peter  um rapaz e mais velho do que tu, Laura, e tanto
a me como eu queremos que aprenda estas coisas.
  - isso mesmo, minha querida-concordou Marta.
  - O milagre da vida. A beleza de todas as coisas vivas. Temos de
a respeitar, at mesmo num rato, pois so criaturas de Deus.
  Kurt encheu o cachimbo e mirou-nos, a uma certa distncia,
atravs de uma nuvem de fumo. Estava um tanto deslocado na sua
qualidade de solteiro.
  - Mas que noo maravilhosa, Marta - comentou Kurt.
- O milagre da vida. Que coisa encantadora para se ensinar s
crianas!
  -Bebs!-exclamou Peter.-Estou ansioso por ver.
- Ps um dos ratos  frente do rosto de Laura, espicaando-a.
- Se forem doentes, talvez te d um. Ou provavelmente matarei
os que forem doentes.
  - Manda-o calar, mam - choramingou Laura.
  Peter comeou a persegui-la  volta da sala e tive de intervir
  ,
agarrando o meu filho pelo brao e recomendando-lhe que deveria
ser melhor e mais generoso para a irm.
  - As crianas esto to cansadas, Erik! - observou Marta.
- Porque no cantamos o Silent Night? E depois podem ir para
a cama. Tu, eu e o Kurt ouviremos seguidamente a missa do galo
pela rdio.

  - Est a ver como o casamento com um administrador
eficiente tornou a Marta igualmente eficaz? - comentei, virando-me para Kurt.
  - Talvez seja precisamente o contrrio, Erik - retorquiu -,
e parte do eficiente esprito de Marta tenha passado para ti.
  Voltmos a reunir-nos  volta do piano. Comemos a cantar.
Porm, depois de alguns acordes, Marta deteve-se.
  -  estranho - disse. - Est a fazer um som estranho nos
graves. Como se os martelos ou as cordas estivessem partidas.
Alguma coisa abafa o som.
  Kurt e eu levantmos a tampa de mogno at ao ponto mximo.
O meu tio espreitou para o interior do piano, de onde tirou qualquer coisa, 
aparentemente pedaos de carto.
  - Fotografias - esclareceu Kurt, limpando-as do p. - Eram
trs fotografias, emolduradas no tipo de carto forte utilizado pelos
fotgrafos profissionais.
  - Oh, fotografias! - exclamou Peter. - Vamos v-las.
  - Estavam a prender as cordas - disse Marta. - Deitem-nas fora.
  Kurt e eu examinmos as velhas fotografias.
  - Quem so, pap? - perguntou Laura.
  - As pessoas a quem pertencia o piano, estpida - respondeu Peter.
  Examinei as fotografias durante uns momentos. Uma era do
Dr. Josef Weiss e de uma mulher que devia ser sua esposa, uma
senhora de traos finos, elegante e sorridente. Estavam com roupas
de Vero. Atrs via-se um lago, possivelmente o oceano. Havia
tambm a fotografia de um jovem casal, obviamente uma fotografia de casamento: um 
jovem magro parecido com o mdico
e uma mulher loura com um rosto nitidamente ariano. A terceira
fotografia, mais pequena e aparentemente feita por um amador,
mostrava uma rapariguinha de doze anos, de tranas, abraando um
rapaz de feies irregulares com cerca de dezasseis anos. O jovem
tinha uma camisola de futebolista e era bem constitudo.

  - Parece, realmente, o doutor Weiss - observei.
  - E a famlia dele - acrescentou Kurt.
  - Tenho medo. L como se estivessem fantasmas dentro do
  piano - declarou Laura, deitando a lngua de fora para as Ioto  grafias. - 
Fantasmas!
  - Onde esto agora, Erik? - quis saber Kurt.
  - Oh! O Wess foi deportado h uns anos - respondi.
-No era m pessoa e, segundo parece, consideravam-no
bastante competente. Estava, no entanto, aqui ilegalmente - como
polaco -, infringindo assim a lei.
  - E o resto da famlia? - insistiu o meu tio.
  - No fao a mnima ideia. H anos que deixaram Berlim.
  - No acabmos de cantar o Silent Night - interrompeu
Marta, tirando um acorde forte. Em seguida, pediu as fotografias.
  Por momentos, pensei que tambm desejasse examin-las.
Entregou-as, porm, a Peter.
  - Queima-as, Peter - ordenou. - Na lareira. Juntamente
com os papis dos embrulhos.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Nesse Inverno, a minha me adoeceu. Soube por intermdio
  de Eva e de outros sobreviventes que no tinha qualquer mal
  especfico. Comeou, no entanto, a enfraquecer, como acontecia
a muita gente no gueto, devido  deficiente alimentao e  falta
de medicamentos.
  Segundo as informaes que recolhi, a dedicao entre os
meus pais manteve-se inaltervel. A minha me queixava-se muito
pouco, mas viu-se gradualmente forada a protelar o ensino:
as lies de msica e de literatura que dava de graa s crianas
do gueto. 
  Um dia, na altura em que decorria uma reunio de alguns
dos membros-chave do Conselho no apartamento contguo ao quarto
dos meus pais, Eva ouviu o meu pai a tomar o pulso da minha me e a auscult-la com o 
estetoscpio. Como para todos os doentes,
mostrava-se delicado, respeitoso, cheio de esperana.
  - O que ouves no meu gasto corao? - perguntou-lhe.
  - Mozart - respondeu o meu pai.
  - Continuas com as graas de sempre - riu.
  - Ns, os que j praticamos h muito, temos um reportrio
muito limitado. Continuo a desenhar coelhos nas receitas para
distrair a criana a quem tem de se dar uma injeco.
  Falaram no regresso dela para a escola. Se no lhe fosse
possvel voltar, muitas das crianas fugiriam, para mendigar, roubar
e fazer contrabando.
  A conversa dos midos da escola fazia-os recordar a mim
  ,
Karl e Anna. A minha me conservava fotografias nossas penduradas por cima da cama. 
Algumas vezes, o meu pai no achava benfico que se recordasse, constantemente, da 
famlia perdida.
  - Mas do-me esperana, Josef - protestava.
  E ele entrava no seu jogo. Argumentava que toda a gente
<<til> sobrevivia.

  - Sou um mdico e arranjo-me. O Karl  um artista e utilizam-no. E o Rudi...
  - O Rudi no ter problemas, Josef. Canfio inteiramente
nas suas passibilidades.
  Eva interrompeu-os para comunicar que o tio Moses acabara
de regressar ao gueto, na companhia de um homem de Vilna que
trazia informaes importantes.
  Nessa altura, a minha me estava a falar com o meu pai
a respeito de algum dinheiro que cosera no velho casaco trazido
de Berlim. Tratava-se de uma espcie de fundo de emergncia,
sabe-se l para que fim. No entanto, a minha me - consciente
das terrveis condies em que se vivia no hospital na ala das
crianas - decidira que o meu pai se servisse daquele dinheiro
para comprar alimentos para as crianas mais pequenas e doentes.
  Ele fez um aceno de concordncia. A minha me pegou na
tesoura e comeou a descoser o forro.
  - Algum que pretende escapar-se para o nosso gueto? - perguntou o meu pai a Eva.
  -Um mensageiro chamado Kovel. Traz informaes de
  grande importncia para ns.
  - Ah! Uma conferncia de alto nvel. - Beijou a minha me
  e acompanhou Eva Lubin ao aposento contguo.
  Kovel era um indivduo barbudo, com ar de fome e uma
  expresso de medo reflectida no olhar. Contudo, tinha gestos
  precisos e, depois de estar sentado, inclinado para a frente e esfregando os olhos 
enquanto bebia uma chvena de ch quente, contou
  a sua histria ao grupo,
  - No acreditem em nada do que os Alemes vos disserem
  a respeito dos campos de trabalho ou guetos especiais - avisou
  Kovel. .

  dizem. _Claro que damos sempre o devido desconto ao que nos
 anunciou. Foi o Dr. Kohn, o eterno conciliador, quem se pro  Kovel ergueu os olhos, 
abrangendo todos os que se encontravam no aposento frio e a abarrotar:
  - Tencionam assassinar todos os judeus da Europa.
  - Impossvel! - exclamou Kohn.
  - Decerto est a referir-se a represlias em larga escala - interferiu o meu pai, 
um homem sensvel, embora incapaz de acreditar no que era, afinal, a verdade.
  - Nada de represlias, mas aniquilao - declarou Kovel.
  - Fazem teno de matar todos os judeus. Porque  que nenhum
  de vocs entende as minhas palavras?
  Eva recorda-se do silncio que se gerou. Zalman, Anelevitz
e ela - gente humilde e trabalhadora - davam a sensao de
apreenderem melhor os acontecimentos do que os cultos, os profissionais. H meses que 
Anelevitz tentava p-los ao corrente do
destino que os esperava.
  - Dantes, havia oitenta mil judeus no gueto de Vilna - prosseguiu Kovel. - Hoje, 
existem menos de vinte mil.
  O meu tio Moses foi o primeiro a reagir. - Sessenta mil... ?
  - Abatidos a tiro pelas SS.
  - Mas que disparate enorme! - exclamou o Dr. Kohn
levantando as mos ao cu. - Ningum, nem sequer os Alemes,
consegue pr sessenta mil ,pessoas em marcha e abat-las a tiro.
A logstica, as medidas necessrias... impossvel...
  - Tambm me custa a acreditar - observou o meu pai.
  - Como  que fizeram, Kovel? - perguntou Anelevitz,
sentando-se ao lado do homem de Vilna.

  - Em primeiro lugar, as SS convocaram os judeus para trabalhar e obrigaram-nos a 
abrir valas aproximadamente a trinta
quilmetros da cidade. Em seguida, a polcia lituana formou um
cordo em redor da cidade. Ningum tinha permisso de entrada
ou de sada. Os que tentavam resistir eram abatidos a tiro. Foravam as pessoas, 
servindo-se de casse-ttes e de chicotes. Usam uma
tcnica: os judeus so obrigados a despir-se, a esperar, levam-nos
em grupos at junto das valas e abatem-nos, quer com um tiro
na nuca, ou fogo macio de metralhadoras. No h excepes.
Sempre que se verificam atrasos, o Conselho Judaico tem de elaborar listas. Depois, 
eles prprios so assassinados.
  - Ah.. . Vilna. . . talvez seja uma excepo... um caso especial... sabe. .. - 
pronunciou num tom hesitante, humedecendo os
lbios.
  - No - contrariou Kovel. - Esto a varrer gueto aps
gueto do mapa. Riga, Kovno, Lodz.
  - Sei que so cruis e nos odeiam - disse o meu pai,
sacudindo a cabea. - Contudo, o Exrcito alemo.. . o tradicional
conceito de honra... devem levantar objeces.
  -Objeces? -repetiu Kovel com um riso amargo.
- Olham para o lado ou apoiam as malditas SS.
  O silncio regressou.
  Kovel descreveu outras chacinas: Dvinsk, Rowno, guetos
espalhados por toda a Polnia e Rssia.
  - Abram os olhos - aconselhou. - Em V ar s  v i a existe
a maior concentrao de judeus da Europa. A vossa vez chegar.
  - Somos perto de meio milho - afirmou o Dr. Kohn.
-No conseguiro abrir valas que cheguem nem arranjar as munies necessrias.
  - Descobriro maneira - interrompeu o tio Moses.
  - Diz-nos o que devemos fazer - pediu Anelevitz olhando
  para Kovel. '
  - Comecem por isto - retorquiu Kovel, tirando uma folha
  amachucada do casaco. - Mandem-na como aviso a toda a gente
  daqui. Leia, para que todos escutem.
  Eva Lubin pegou na folha e leu a proclamao de Vilna
  ,
  com o seu tom de voz juvenil:
  <No caminhemos para a morte como carneiros para o mata  douro. Apelo para vocs, 
jovens judeus. No acreditem nos que
  vos querem mal. O plano de Hitler consiste em aniquilar todos os
  judeus. Somos os primeiros. Somos, na realidade, fracos e estamos
  ss, mas e nica resposta que vale a pena dar ao inimigo  a
  resistncia. Mais vale morrer a lutar, irmos, do que viver  merc
  do carcereiro. Defendamo-nos at  morte. Gueto de Vilna, 1 de
Janeiro de 1942.>>
  Durante algum tempo ningum falou.
  - Mas de que vale isso? - acabou o Dr. Kohn por inquirir. - Disse que, fosse com 
fosse, acabaro por ser mortos.
  - Acabaro? - retorquiu o tio Moses. - Acabaremos, Kohn.
  - Apenas as mos contra tanques e artilharia? - argumentou
Kohn.
  - Tm armas? -perguntou Kovel, virando-se para Anelevitz.
  - Ainda no. Mas estamos a ensinar a Juventude Sionista
a obedecer a ordens, a manejar vassouras como se fossem armas
  ,
a organizarem-se em unidades militares.
  - Primeiro seremos soldados e depois arranjaremos armas - declarou Eva.
  - Isso j  mais de judeu - concordou o tio Moses. - No

temos uma s arma, mas somos soldados.
  -H hiptese de subornar os Alemes-retorquiu
o Dr. Kohn, sacudindo a cabea. - Tenho a certeza. Atribuem
valor ao gueto de Varsvia. Sabem que a guerra acabou e que os
Americanos entraram nela. Esto a perder as possesses em frica.
Os Russos aguentaro Moscovo...
  - E, enquanto tudo isso acontece, estaremos mortos - rematou Kovel.
  -Precisam das nossas fbricas e oficinas-prosseguiu
Kohn. - Uniformes. Artigos de couro. Ns, judeus, somos artistas
especializados.
  - Parece que no consigo fazer-vos entender que o assassnio
dos Judeus  fulcral para o plano deles. Do menos importncia
 perda de um territrio aqui e ali, a uma invaso, a uma guerra
de duas frentes do que ao morticnio dos Judeus.  o seu principal
objectivo.
  - Oh, que estupidez! - exclamou Kohn. - Nem Hitler
 louco e esse ponto.
  O debate prolongou-se durante algum tempo. Kohn foi destitudo por votao. O meu 
pai e o meu tio tomaram posio ao
lado da Resistncia.
  A minha me tinha estado  escuta, no ,pequeno quarto
contguo. No final do debate, entrou com um ar nobre e elegante,
trazendo o seu velho vestido e desculpando-se pelo cabelo desalinhado. Entregou ao 
meu pai o dinheiro que cosera no casaco.
  - Ah! - exclamou o meu pai. - Para as crianas. . .
  - No, Josef. Para comprar ermas.

  Em Janeiro de 1942, Muller cumpriu, finalmente, e palavra
dada. Fez com que Karl fosse transferido para o estdio dos artistas
em Buchenwald, um local de trabalho favorecido, na medida em
que estava instalado numa casa aquecida e os artistas formavam
um grupo bastante privilegiado.
  Os privilgios eram-lhes concedidos devido  vaidade das SS,
que gostavam de ver os seus retratos pintados e, ainda mais, as suas
pressupostas rvores de famlia - intrincados diagramas genealgicos - resplandecendo 
de cores maravilhosas.
  No estdio, Karl travara amizade com um artista de Karlsruhe
chamado Otto Felsher. Felsher tinha sido um retratista de renome
l fora e, assim, usufrua um pouco do favoritismo dos guardas,
embora, tal como acontecera a Karl, tambm ele tivesse sido
espancado e quase morresse de fome, antes de decidirem aproveitar-se dos seus 
talentos.
  Na realidade, se bem que na altura fossem mais bem tratados, Karl e Felsher 
detestavam o trabalho que lhes tinha sido atribudo.
  -E como vai andando a rvore da famlia Muller, Weiss? - perguntava Felsher.
  - Mentiras sobre mentiras. Obrigam-nos a prostituir-nos.
  -  como sobrevivemos.
  Karl contemplou a rvore de famlia intrincada e multicolorida que estava a 
desenhar para Muller.
  - O sacana obriga-me a pintar os brases de Carlos Magno
e de Frederico, o Grande.
  - Tm cimes porque a nossa ascendncia remonta e Abrao.
  - E verdade. Apesar de no nos ter servido de nada.
  O sargento Muller vinha examinar diariamente o trabalho
em execuo:
  - Maravilhoso, Weiss, maravilhoso. No se esquea dos dois
cruzados.

  - Aqui os tem - retorquiu o meu irmo.
  - Talvez quando tudo isto acabar ainda acabemos por ser
amigos, Weiss - disse Muller com os olhos a brilharem. - Quem
sabe? Agora que a Amrica entrou na guerra, posso precisar de
algum judeu que fale bem de mim.
  - No conte comigo, Muller.
  O homem das SS tirou uma carta de dentro do casaco.
- Depois de tudo o que fiz por si? A sua mulher esteve c, ontem.
Aqui tem a carta mensal da bela Inga.
  - No a quero.
  - Claro que quer, Weiss.
  - Obrigou-a a pagar o preo costumado, no  verdade?
- Vinha sem selos. Claro que teve de pagar - disse Muller,
encolhendo os ombros. -Mas no lhe faz diferena.
  - Afaste-se de mim. No quero voltar a ouvir falar dela.
Diga-lhe que no quero que haja mais cartas, nem dela nem de mim.
  Muller ps-lhe a carta debaixo do nariz e, em seguida, meteu-lha no bolso do fato 
s riscas.
  - No vir c mais vezes, por isso no interessa. Voc e o
Felsher vo ser transferidos. Recebemos um pedido para dois artistas de alta 
qualidade.
  - Transferidos?
  - Oh, vocs tm fama. O estdio de Buchenwald  conhecido. Querem vocs e mais 
alguns dos nossos artistas especializados num novo campo da Checoslovquia: 
Theresienstadt, o gueto-paraso. Reservado para os judeus mais merecedores. Uma 
estncia
de frias.
  Muller ,piscou o olho e suspirou como se fosse aquele o final
de uma velha amizade.
  - Vou sentir a falta do papel de carteiro que tenho desempenhado para si, Weiss. 
Acho, porm, que terei de arranjar licenas
mais assduas at Berlim.
  Apesar da dieta horrvel e das condies desanimadoras, Karl
tornara-se um homem duro e resistente. A pouco e pouco, inserira-se
no seu carcter uma indiferena que em jovem no possua.
  Quando Muller se ia a afastar, o meu irmo fez meno de ir
atrs dele.
  - No faas isso, Weiss - aconselhou Felsher. - No vale
a pena.
  - O filho da me! Serviu-se da minha mulher como um
homem se serve de uma serra ou de um pincel...
  - Que v para o diabo!
  Karl amachucou a carta e deitou-a para o cho. Sentou-se,
em silncio,  mesa de desenho, olhando para a falsa rvore de
famlia. Felsher apanhou a carta do cho e entregou-lha.
  - Escuta, mido. Tudo deixou de ser como dantes - disse
o homem mais velho. - V. L-a. S tolerante.
  Karl fez um aceno de concordncia. Tinha lgrimas nos olhos.
Abriu a carta (pela qual Inga pagara o costumado preo a Muller)
e leu-a.
  Meu amado Karl, meu marido muito querido:
  Sinto tanto a tua falta! Cada vez mais, de dia para dia.
  Pelo menos, agora podemos comunicar, o que  bom, mas me
  leva a desejar-te ainda mais. No podemos perder a esperana.
  J fui a vrios departamentos governativos, mas dizem que
o teu caso no pode ser reaberto. Arranjei um trabalho um
pouco melhor como secretria numa pequena fbrica de
implementos agrcolas.  curioso. H vrios anos que estamos

em guerra e, aparentemente, as fbricas privadas e corporaes
no f oram afectadas. Os nossos salrios so elevados; comida
no f alta;  excepo dos homens que combatem na f rente
  ,
a populao civiL vive bastante bem. As pessoas do a sensao
de um pouco perturbadas devido  entrada da Amrica na
guerra, mas h a esperana de que a Rrissia caia antes de lhe
poderem prestar auxilio; e a Inglaterra render-se-. O meu
patro sabe, incidentalmente, que tenho um marido na priso,
mas mostra-se disposto a esquecer o f acto - parece-me que
me incluram aLgures na lista dos <degradadores da raa> -,
na medida em que me considera a secretria mais trabalhadora
e menos reivindicativa que jamais teve. (No fiques
preocupado, querido.  gordo, velho e um devoto luterano.)
Desejaria ter mais noticias da tua famlia. Nem uma palavra
do Rudi. Desapareceu. H uma semana chegou milagrosamente
de Varsvia uma velha carta escrita pela tua me. Tudo d
a entender que esto os dois bem e a trabalhar. A tua me
dizia que a vida no  fcil mas que se suporta. Nunca devemos
perder a esperana, querido. Tive de fazer coisas para que
estas cartas te chegassem e espero que compreendas...

  Karl dobrou cuidadosamente a carta e voltou a met-la na
camisa.
  Ele e Felsher mantiveram-se silenciosos por algum tempo.
  - J ouvi falar dessa Theresienstadt, Weiss - observou
o indivduo mais velho. - Trata-se, pressupostamente, de um campo-modelo, uma 
verdadeira cidade para os judeus. Talvez permitam
mesmo que a tua mulher te v visitar. Para mim, que no tenho
famlia, tanto me faz um stio como outro.
  Karl fitou a carta genealgica que estivera a pintar para Muller,
com as ascendncias de Carlos Magno e dos Cruzados. Pegou num
pote de tinta vermelha e atirou-o de encontro  pintura. Em seguida,
apoiou a cabea em cima da mesa e comeou a chorar.

O DIRIO DE ERIK DORF

Berlim
Janeiro, 1942

  Algumas observaes introdutrias, antes de entrar no assunto
referente a este bocado, nomeadamente a Conferncia de Gross-Wannsee de 20 de 
Janeiro.
  H alguns meses, Heydrich deixou escapar vrias informaes
de grande importncia. Algures, no Vero de 1941, quando os
nossos Einsatzgruppen estavam a proceder  limpeza da Rssia,
o Reichs f irhrer Himmler mandou chamar ao gabinete um indivduo
de nome Rudolph Hoess, comandante de um campo relativamente
obscuro em Auschwitz, Polnia, e comunicou-lhe: <<O Fhrer deu
ordens para uma soluo final do problema judeu.>>
  Himmler voltou a acentuar este ponto, cerca de um ms depois,
num discurso feito a Blobel, Ohlendorf e outros (eu no estava
presente), em que lhes garantiu que no lhes cabia <<responsabilidade pessoal pela 
execuo da ordem e que a responsabilidade
era apenas do Fhrer>>.
  Menciono este discurso porque tenho experimentado uma
estranha sensao, pode chamar-se-lhe intuio, de que, se algo
correr mal - se (Deus nos livre disso) perdermos a guerra, a nossa

diplomacia no conseguir dividir os Aliados, eles continuarem
a lutar e estes campos forem descobertos e os corpos retirados -,
alguns historiadores tentaro culpabilizar-nos. Refiro-me,
com o emprego deste pronome, aos homens decididos e dedicados
das SS, aos Himmler, aos Heydrich e tambm aos Dorf.
  O Fhrer ser definido como <<mais outro ;poltico alemo,
ignorante dos horrores que se passavam.
  Curioso , porm, o facto de que, embora e inteligentemente,
nunca se utilize de palavras concretas como <<assassnio ou <<extermnio, o Fhrer 
vincou bem, tanto em discursos corno por escrito, o que deseja fazer aos Judeus. 
Tenho mesmo a sensao enlouquecedora de que a negao da Terra aos Judeus constitui 
o seu principal objectivo e transcende a subjugao dos Eslavos, a punio
da Frana, o domnio do Mundo pela Alemanha. Confesso ser um
conceito bastante insensato, mas e nfase colocada no nosso trabalho, os privilgios 
que obtemos e a facilidade com que Himmler
leva a sua avante, fez-me chegar e esta estranha concluso.
  Hitler no faz, decerto, ideia de todos os judeus que abatemos
a tiro ou enforcamos;  mesmo muito provvel que desconhea
as estatsticas exactas sobre a reduo dos guetos russos. No entanto,
ele sabe, sabe. Afirmou muitas vezes que nada acontece sem seu
conhecimento. Tenho, no entanto, a certeza de que, nos anos
vindouros, figuras mais apagadas surgiro como os principais
organizadores desta misso terrvel e alguns eruditos faro o possvel por o ilibar.
  Os colaboradores mais prximos de Hitler esto, igualmente,
a par dos acontecimentos. Algumas semanas antes da invaso da
Rssia, no ano passado, Goering escreveu a Heydrich e encarregou-o
de <<elaborar a soluo mais vantajosa possvel para o problema
dos Judeus>. No me parece que o pretendido fosse coloc-los
em herdades e aldeias. Goering deseja um relatrio completo sobre
<<um plano geral referente s medidas organizacionais, factuais
e materiais necessrias para a obteno da desejada soluo do problema judaico>>.
  (Mais um aparte: Durante anas, muitos judeus influentes
consideraram Goering na qualidade de seu possvel mediador,
um indivduo <<suave>> no aspecto de atitudes anti-semitas e capaz
de impedir Himmler e os outras racistas intransigentes de levarem
a cabo estas polticas. Como deviam ter ficado surpreendidos depois
de lerem os seus comunicados a Heydrich! )
  No existiu nunca, evidentemente, qualquer dvida, em quem
quer que fosse, do que uma <<soluo final> significa, embora raramente faamos 
referncia ao assunto. S os loucos, como Hans
Frank, andam para a a espalhar como aniquilaro os Judeus,
da mesma maneira que se fossem piolhos. No entanto, reduzimos
efectivamente as suas reas de responsabilidade na Polnia,
de modo que, agora, nada mais  do que uma figura, uma criao
das SS. Decidimos cumprir os desejos do Fhrer da maneira mais
calma e eficiente possvel.
  Seja como for, os acontecimentos acima descritos e outros
interessantes desenvolvimentos, tais como a construo de alguns
campos secretos em Chelmno e Belzec, na Polnia, onde estavam
a ser testados novos sistemas para resolver o problema judaico,
levaram  reunio de Gross-Wannsee, em 20 de Janeiro.
  Alm de Heydrich e de mim, havia treze homens presentes
na reunio, que se realizou em Gross-Wannsee, subrbio de Berlim,
na sede da RSHA - Departamento Principal de Segurana do

Reich -, organismo chefiado por Heydrich e que se ocupa directamente das questes dos 
Judeus.
  Quando os homens se reuniram e iniciaram o debate,
interessou-me no apenas o facto da presena das entidades principais da Polcia e 
das SS alems mas tambm a de cinco subsecretrios civis. Era bastante claro o ponto 
de vista de Heydrich.
Nenhum ramo do Governo alemo, civil, poltico ou militar,
ficaria s escuras relativamente aos nossos planos. (Ao observar
aqueles indivduos civis, interroguei-me sobre quais as desculpas
que estariam nesse momento a preparar nos seus crebros labirintuosos para o caso de, 
posteriormente, virem a ser feitas indagaes.)
  Eichmann e s t a v a presente. Agora, somos bons amigos.
As minhas estreitas relaes com alguns dos chefes dos Enzsatzgruppen - 
particularmente esse enfadonho Blobel e o malicioso
Artur Nebe - predispem-me, mais do que o suficiente, a procurar
o apoio de Eichmann, dado sempre o ter achado uma pessoa
racional, delicada e de esprito aberto.
  - Pairam novidades no ar, Dorf - comunicou-me, depois de
me ter perguntado por Marta e pelas crianas. - O caso de
Auschwitz.
  - J ouvi falar.
  - Estive l h pouco tempo. O Himmler concedeu luz verde
ao Hoess. Estou a tentar coordenar os horrios dos comboios
e coisas no gnero com o Hoess.
  - Porqu Auschwitz?
  - Oh! Est muito bem situado, tem uma ptima via frrea
e todas as hipteses de ;proporcionar o maior isolamento. Rodeada
por montes de judeus. A Polnia constitui o nosso problema fulcral.
Todos estes novos locais (Chelmno, Belzec, Sobibor) ficaro situados
na Polnia. O Fhrer no quer que o solo sagrado da Alemanha
fique contaminado com sangue judeu, sabe? - sussurrou, voltando-se na minha direco.
  - Compreensvel.
  Fiquei surpreendido com a frieza da minha reaco a esta
informao. Dado as SS, inclusive a RSHA, serem o ninho venenoso
de competidores que so, Himmler rodeia frequentemente a pessoa
de Heydrich, ou mantm-no nas trevas, e, embora eu soubesse
da existncia destes novos campos, no tinha certezas quanto ao
que por l se passava. A minha rea principal de responsabilidade
continua a ser a campanha russa.
  Hans Frank viu-me entrar na sala de conferncias e agarrou-me
pelo brao, desviando-me de Eichmann:
  - Novos campos. J ouvi falar nisso. No faa essa cara, Dorf.
Tente cheirar um pouco de gs, e prov-lo.
  Afastei-lhe a mo e ouvi-o murmurar para um dos ajudantes:
  - mas que reunio! Heydrich, um semijudeu, e Dorf,
um berlinense duvidoso.
  A conferncia ;prosseguiu.
  Heydrich frisou aos que se encontravam Presentes - em
particular os civis, que incluam entidades importantes, como os
subsecretrios dos Negcios Estrangeiros e do Ministrio do
Interior - que ele, Reinhard Heydrich, era o instrumento escolhido
pelo Fhrer para <<a soluo final do problema dos Judeus>>.
  - Em todas as zonas? - perguntou algum.
  - Todas.
  - Significa... portanto, na Alemanha e em todas as regies
conquistadas?
  A resposta de Heydrich foi a de que todos os judeus da

Europa, que avaliava atingirem os onze milhes - estava a incluir os judeus ingleses 
e irlandeses - se encontrariam sob a nossa
jurisdio e lhes caberiam o mesmo destino.
  Nunca definiu com muitas palavras qual era esta <<soluo
final>>, embora nem um nico homem presente na reunio deixasse
de o interpretar correctamente. Sabamos.
  - A emigrao tem falhado - continuou o meu patro.
- Ningum quer esses judeus, nem na Amrica, nem na Inglaterra,
nem seja onde for. Alm disso, a logstica de os afastar (particularmente os judeus 
da Europa Oriental) das suas aldeias e cidades
decadentes  demasiada para ns ou quaisquer outros. Proceder-se-,
assim, a uma evacuao organizada dos judeus para leste, principalmente para a 
Polnia.
  Heydrich mostrou, num mapa, como todos os judeus
europeus - franceses, holandeses, ingleses e italianos - seriam
enviados para <leste.
  - E o que se segue? - quis saber Hans Frank. - Depois
de os ter despejado sobre mim?
  Heydrich ignoxou o comentrio:
  - Os judeus formaro unidades de trabalho. O enfraquecimento natural, devido a 
doenas, fome, imposio de trabalhos
forados, para os quais os Judeus so inadequados, levar grande
parte deles. Haver, evidentemente, uma elevada percentagem de
judeus sobreviventes, os tenazes e fortes.
  - E o que lhes acontece? - inquiriu Eichmann.
  - Recebero o tratamento devido.
  As pessoas sorriram e mexeram-se nos lugares. Duas das entidades civis,  
semelhana de alunos bem-comportados apanhados
a fumar com os rufies da aldeia, soltaram risadas e acotovelaram-se.
  - Ser que  possvel expandir-se mais sobre a questo,
general? - interferiu o Gauleiter Meyer.
  - Bom. Antes do mais, convm ficar bem esclarecido que
estes judeus sobreviventes representaro uma ameaa directa para
e Alemanha. Podem reconstruir a vida judaica. A seleco natural
torn-los- mais fortes. Por isso... tero de ser tratados devidamente.
  - Com os diabos! - explodiu Frank. - Neste momento,
h mais de trs milhes de judeus na Polnia. Glutes, parasitas,
cheios de doena, deixando um rasto de merda por todo o pas.
Posso afirmar-vos, como j o fiz diante dos meus chefes de diviso,
que no conseguiremos abater a tiro ou envenenar trs milhes
de judeus, mas descobriremos qualquer processo de os exterminar.
  --me ,permitido recordar ao governador-general que seja
cuidadoso com a linguagem? - interferi.
  - Com os diabos! - repetiu Frank, dando um murro na
mesa. - Esto a falar de aniquilao. Sinto-me farto dessas fodidas
palavras de cdigo, esses substitutos da realidade.
  Heydrich fitou-o friamente, e eu, no lugar de Frank, teria
receado esse olhar de gelo.
  Eichmann, sempre diplomata, tentou desviar as atenes
daquele ponto. Perguntou se os Einsatzgruppen deveriam ser
expandidos, ao que Heydrich respondeu afirmativamente. Eichmann
tambm quis saber se haveria novos mtodos a considerar.
  - Pensa-se na utilizao de gs - respondeu Heydrich.
  Um indivduo civil de elevada hierarquia-esqueci-me
quem - pareceu surpreendido. Heydrich informou-o de que se
estava a proceder a testes laboratoriais. Novo movimento e coar
de narizes na sala. Os homens fitaram o tecto imponente.
  O Dr. Luther, que representava os Negcios Estrangeiros,
assinalou que, h alguns anos, o clero protestara quando os <inteis>

foram submetidos a mortes piedosas por meio de gs. Fiz um
comentrio  parte de que o facto no nos deveria deter. Luther
virou-se na minha direco e citou protestos do Vaticano e das
Igrejas protestantes, referindo-se  forma como o Fhrer recuara.
  - E da? - interferiu Heydrich.
  O outro civil tambm se mostrava perturbado.
  - Pode voltar a acontecer. O tiroteio em massa de pessoas
numa guerra  uma coisa: h sempre desculpas que os homens
razoveis, inclusive os dos clero, aceitaro. Mas o gs! Aplicado
a mulheres, crianas, velhos! No podemos permitir que a Igreja
se vire de novo contra ns. Este maldito assunto est a ultrapassar
limites, Heydrich.
  - Acalme-se - pediu Heydrich. -  com os Judeus que
lidaremos.
  Luther estava furioso.
  - Sim! Com os que controlam os bancos, a imprensa,
as aces da Bolsa, o aparelho comunista na Rssia! Que andam
a conspirar aos ouvidos de Roosevelt!
  - Acredite na minha palavra, doutor - retorquiu Heydrich,
inclinando-se para a frente. - Ningum erguer um dedo para
proteger os Judeus.
  Eichmann fez um aceno de concordncia.
  Parecia uma boa altura para apoiar o meu chefe:
  - Alm disso, pisaremos um terreno firme e legal. Executaremos (independentemente 
dos meios) inimigos do Estado, espies,
terroristas. Este tipo de actos  aceitvel em guerra.
  Aps ter sido reduzido ao silncio neste ponto, Luther levantou
outros de somenos importncia. Em alguns pases, especialmente
Noruega e Dinamarca, duvidava-se de que a populao civil
cooperasse no programa. Os Italianos tambm no se mostram
muito dispostos a colaborar. Encolhem os ombros, apresentam
desculpas. Mussolini no se aplicou a fundo. E at mesmo Franco
- que , evidentemente, neutro - tem estado a esconder judeus
e a permitir que se introduzam furtivamente em Espanha. Nos locais
onde as SS tm encontrado uma forte resistncia por parte da
populao local crist, perdem subitamente fora quanto ao tratamento da questo 
judaica. Luther declarou, a aplacar, que a longo
prazo no se verificaro evidentemente reais dificuldades nos Balcs
e na Europa de Leste, onde os sentimentos contra os judeus so
bastante vincados.
  Alguns dos restantes civis mostravam-se, obviamente, perturbados; mantiveram=se, 
porm, silenciosos. Segundo parece, ningum tinha mais nada a acrescentar. 
Finalmente, Frank acabou por
explodir, declarando que a teoria de Heydrich quanto a fazer <<trabalhar>> os judeus 
at carem era puro disparate. A maior parte
dos judeus da Polnia estavam to esfomeados e doentes que seriam incapazes de algo 
produtivo.
  -  esse o motivo por que se esto a construir novos campos - esclareceu Eichmann 
tranquilamente.
  - Sim. E sei para qu! - berrou Frank.
  Continua o mesmo fraco com quem me avistei em Varsvia,
h um ano e meio. Por um lado, mantm-se preso  beleza da lei,
 abstracta noo de justia. Por outro, est decidido a provar que
 to duro como qualquer de ns.
  - Lembre-se do que o Fhrer disse um dia a um grupo de
advogados e sentir-se- melhor - aconselhou Heydrich com um
sorriso.
  - No me lembro - retorquiu Frank entre dentes.

  - Dorf! - apelou Heydrich, voltando-se na minha direco.
  Conhecia a citao: <<Eu estou aqui com as minhas baionetas
e vocs, desse lado, com a vossa lei. Veremos quem prevalece.>>
  Foi um bom comentrio para finalizar a reunio em Gross-Wannsee.

  Mais tarde, alguns seleccionados dentre ns sentmo-nos no
gabinete privado de Heydrich, a observar o crepitar das chamas
numa lareira enorme, a beber conhaque francs e a fumar.
  Eichmann, Heydrich e eu entomos canes antigas, propusemos brindes, primeiro no 
cho, depois em cima de cadeiras, em
seguida na mesa, subindo cada vez mais alto de copos na mo.
Heydrich declarou tratar-se de uma velha tradio da Alemanha
do Norte.
  O chefe dormitava junto da lareira, enquanto Eichmann e eu
discutamos as decises tomadas nesse dia.
  - Grave, verdadeiramente grave tudo isto! - observou
Eichmann. - O mundo no entende, de facto, os nossos objectivos.
  - Talvez no queiram - comentei.
  - Oh! Fizemos um soberbo trabalho de camuflagem. Ningum nos acredita e muitos no 
querem acreditar. Nem sequer os
Judeus.
  - Como amigo de h muito, peo-lhe que me responda a uma
pergunta, Eichmann - disse, inclinando-me para a frente. - Alguma vez teve segundos 
pensamentos? Alguma vez?
  - Claro que no - nem sequer hesitou. - Estamos a obedecer  vontade do Fhrer. 
Somos soldados. Os soldados obedecem.
  -Mas a no comparncia do Fhrer nestas reunies...
a forma como d as ordens a Heydrich e e H?r??mler do a sensao de, bom, contornar 
o assunto...
  - Isso no quer dizer nada. Repetiu o mesmo vezes sem
conto. Em 1922, declarou que enforcaria todos os judeus de Munique e continuaria, em 
seguida, nas restantes cidades. Lembre-se,
Dorf, de que a nossa nica lei, a nossa nica constituio  a vontade do nosso 
Fhrer.
  Tinha, evidentemente, razo.
  - Suponho que tem conhecimento deste novo programa.
  - Os pormenores no lhe interessam - retorquiu Eichmann,
bebendo o resto do conhaque. - Dirige uma guerra de duas frentes. Quer, no entanto, 
ver o trabalho executado. E aprovar. Sabe
o que afirmou h anos: <<Nada acontece no meu movimento sem
o meu conhecimento e aprovao.>>
  Tenho bastante admirao por Eichmann. Possui um esprito
de ideias claras, embora relativamente destreinado, e um sentido
de organizao adequado a um bom gestor administrativo. Repetiu-me, frequentemente, 
que no acalenta qualquer espcie de averso relativamente aos Judeus. De um ponto de 
vista histrico,
Eichmann at os acha fascinantes - os fundadores das grandes religies do Mundo, 
eminentes na cincia, na arte, em todas as formas de erudio. Voltou a vangloriar-se 
dos seus tempos na
Palestina como agente, da sua familiaridade com o hebraico. (<<Uma
lngua difcil, Dorf. Um sistema gramatical perfeitamente alucinante.>>)
  Com o encanto que lhe  peculiar, Eichmann mudou seguidamente o assunto para a 
minha mulher e filhos, de quem se lembrava quando nos servira de anfitrio naquele 
dia maravilhoso, em
Viena. Afirmou que a famlia tambm sobrevivia, apesar dos aborrecidos racionamentos 
e dos ocasionais actos de sabotagem.
  Sentia-me alegre e realizado.
  - No tenho dvidas, Eichmann - declarei - de que  pelas

nossas maravilhosas famlias, as nossa mulheres e filhos, que desempenhamos estas 
rduas tarefas. Do-nos coragem e determinao.
  Concordou:
  - Devemos algo  futura gerao de alemes. As decises
que hoje tommos, por terrveis que possam parecer, so uma
necessidade absoluta para preservar a pureza da nossa raa, a sobrevivncia da 
civilizao ocidental.
  As geraes posteriores talvez no tenham a fora ou a vontade para terminar a 
tarefa. Ou a oportunidade. Penso na minha
casa, na minha famlia, e sei que estamos a proceder como  justo.
  Continumos a beber em silncio no gabinete, enquanto Heydrich dormia, depois de um 
dia longo e fatigante.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  A mesma vagabundagem. Depois da nossa fuga de Babi Yar,
tinham-nos contado que havia bandos de guerrilheiros espalhados
pelas florestas da Ucrnia. Queramos juntar-nos a um.
  De Babi Yar pouco ouvimos falar. Os fazendeiros ucranianos
- nem todos eram to brutais e cobardes como os seus compatriotas que aderiram ao 
extermnio da ravina - encolhiam os ombros
quando os interrogvamos a esse respeito.
  No era, porm, um segredo. Uma velha fazendeira, a quem
apenas restavam as gengivas, informou Helena de que cento e quarenta carros cheios de 
roupa tinham sido distribudos pelos cristos pobres de Kiev e dos arredores.
  - Roupa dos judeus - no cessava de murmurar. - Dos
judeus.
  Numa manh fria, Helena comeou a tremer. Estava a dormir
nos meus braos, na cabana em runas abandonada por um fazendeiro que partira sabe-se 
l para onde, talvez incorporado no Exrcito Vermelho, talvez feito prisioneiro. 
Estava frio e sentia a humidade. Tinha roubado uns cobertores e dormamos juntos,
cada um tentando absorver o calor do corpo do outro.
  - Tenho frio - disse, ao mesmo tempo que os dentes ihe
batiam como se fossem castanholas.
  - Chega-te mais a mim.
  - No servir de nada, Rudi. Nunca mais aquecerei.
  Esfreguei-lhe as mos e os pulsos, mas no a consegui alegrar nem aquecer.
   - No consigo fugir mais - chorava. - Tenho frio e fome.
  - Achas que devamos ter ficado em Praga?
  - No sei... no sei... Pelo menos poderamos arranjar
comida. Tinha o meu apartamento, amigos...
  - Todos os teus amigos esto em campos de concentrao.
  - Sou um fardo para ti - retorquiu. - Choro de mais.
  Olhei para os nossos utenslios primitivos, que colocara em
cima da mesa: uma tigela, um prato e colheres de lato. Depois,
peguei na tigela e atirei-a para a lareira.
  - Com mil raios! Com mil raios!
  - Te nada serve, Rudi - chorou, e agora ainda mais desesperadamente, sentando-se na 
cama.
  Agarrei-a e ergui-a do colcho de palha.
  - No. No. Falaste-me dessa ptria sionista que tu e os
teus pais querem construir na Palestina, em qualquer deserto

rodeado pelos rabes. Achas que o conseguirs ficando para a
sentada e a chorar? Cedendo a algum que te ameaa? Aquele indivduo de patilhas que 
falou sabre isso... como se chamava?
  Fi-la rir com a minha ignorncia.
  - Oh, Rudi. s doido de todo. Chamava-se Herzl.
  - Bom. Esse seu sonho no ter o mnimo significado se os
Judeus no aprenderem a lutar. Achas que conseguiro essa terra
sem matar gente? Ou sem que uma poro de judeus sejam
mortos 2
  - Desculpa, mas no sou capaz de pensar quando tenho
frio - replicou, ao mesmo tempo que um arrepio lhe percorria
todo o corpo. - No consigo preocupar-me com Herzl, estando
gelada.
Fora da cabana, escavei na terra gelada e descobri alguns nabos
  que no tinham sido colhidos no Outono anterior. Estavam gelados
  e meio apodrecidos, mas talvez conseguisse cortar algumas partes
  aproveitveis. Um pequeno gato de plo arruivado seguiu-me no
  regresso a casa.
  sente Fecha os olhos - disse a Helena. - Trago-te um pre  Obedeceu. Pus-lhe o 
gatinho no colo.
  - Um siams persa ucraniano de raa pura. Para ti.
  - Oh, Rudi! .. . Est to fraco e esfomeado como ns.
  - Aprende qualquer coisa com ele.  um gato. Sobrevive.
 - Dei-lhe um pedao de nabo. - Tenta comer. Tem muitas
 vitaminas.
  Engasgou-se e comeou a vomitar.
  - Imagina que  um apetitoso pequeno-almoo. Po quente.
 Roubado.  E caf fresco. Creme e acar?
  Consegui faz-la rir. Fingiu-se zangada comigo e atirou-me
o nabo.
  Comecei a murmurar enquanto mastigava o meu.
  - C estamos ns. Uma famlia berlinense da mais fina flor.
A mam, o p g
Helena. pa e o at<o. Mas nunca viveremos em Berlim,
  - Nem em Praga. Iremos para Eretz Israel.
  Veio pr-se por trs de mim, abraando-me.
estejas. Pouco importa - retorquiu. - Serei feliz onde quer que
  - E eu tambm.
  - E os nossos filhas.
  - Nunca acreditaro nas histrias que lhes contarmos - continuei, acariciando o 
gato. - Fugir de Praga, para a Hungria e ara
e Rssia! p
   Ser bom que acreditem! Ser bom que acreditem em cada
palavra
  Apertei-a de encontro a mim.
  - J estou a ver o meu ;filho Helena Um "d

, mido traquinas
  com os teus olhos e o teu horrvel sotaque checo, a troar de
  mim: <<Ests cheio de molho, pap! >>
  Voltou a rir, mas apenas para dissimular a tristeza que sentia. Pobre e frgil 
jovem. Tnhamos fugido porque a incitara.
  Muitas vezes, tinha pressentimentos. A sua vida em Praga fora
  bastante agradvel at  chegada dos Alemes. Custara-lhe fugir.
  Pesava-me a culpabilidade de a ter convencido. Porm, tinha a certeza que era 
aquela a nica sada.

  Observei-a a acariciar o animal. Uma jovem mida e vulnervel, com o rosto oval, 
olhos de expresso intensa e cabelo castanho-escuro. Acometeu-me uma raiva ntima ao 
pensar na maneira
como os nazis assassinavam pessoas como Helena, sem hesitao ou
remorso. Quem, em nome de Deus, criara tais monstros?
  Naquele momento, pareceu-me que o ,perigo que pairava sobre
as nossas cabeas, os horrores que vramos em Babi Yar e noutros
stios ainda tornavam mais imperioso que nos amssemos, que
nunca nos ofendssemos, que fssemos sempre fiis e bons um
para o outro. Helena teve essa mesma percepo. Era o que lhe
via espelhado nos olhos, o que lhe sentia nos suspiros e nas pequenas exclamaes, na 
relutncia de se afastar de mim, quando fazamos amor em celeiros, casas abandonadas 
e campos.
  O gato saltou de cima da mesa, miou, espreguiou-se e dirigiu-se at junto da porta 
aberta da cabana, como que atrado por
qualquer coisa.
  Ouvi rudos l fora. Passos leves, um roar de corpos pela
folhagem. A vida de vagabundagem intensificara-me o sentido do
ouvido. Guerrilheiros? Mas de que tipo? Tnhamos sido repelidos
por um bando de guerrilheiros ucranianos. Judeus, no, tinham-nos respondido. E 
acrescentaram que a sorte estava do nosso lado,
por no nos abaterem e tiro mesmo ali.
  Algum deu um ,pontap na porta, escancarando-a e ficando
 espera.
  Tirei a faca do cinto e recuei at  parede da cabana, fazendo
sinal a Helena para que se pusesse atrs de mim.
  -Quem est a?-perguntou uma voz de homem.
  No entanto, aguardou, sem transpor e ombreira.
  - Mete-te debaixo da cama - sussurrei a Helena.
  - No vale a pena, Rudi. . . Chegou a hora de desistir.
  - Saiam - voltou a ouvir-se a voz. - Com as mos na ca  bea. Somos cinquenta e 
estamos armados.
  O homem que falara entrou. Estava vestido com roupa de
  Inverno, de pano cru, a que propriamente no se podia chamar
  um uniforme militar, mas com pretenses a imit-lo. Usava um
  barrete de peie, um velho casaco do Exrcito Vermelho e botas
  de feltro. Transportava duas cartucheiras de munies. apontou
  uma espingarda do Exrcito Vermelho na minha direco.
  - No serve de nada, Rudi - choramingou Helena. - Pousa
  a faca.
  - Ela tem razo. Atira-a para o cho. Saiam. Os dois. Ponham as mos na nuca.
  Obedecemos. Ps-se de lado, para nos dar passagem. Pensei
em saltar-lhe para cima, mas havia outros l fora, pelo menos dois,
segundo me era dado avistar, um homem e uma mulher, vestidos
com uma coleco praticamente semelhante de farrapos, roupa velha, botas de feltro. 
Contudo, curiosamente estavam desarmados.
  O homem da espingarda dirigiu-se e Helena em russo. Dava
  a sensao de se encontrar na casa dos cinquenta e tinha o cabelo
grisalho e o rosto com rugas.
  Os trs observavam-nos naquele jardim abandonado pelo
fazendeiro.
  - Uma maldita espingarda! - comentei para Helena. - Devia t-lo .atacado e 
desarmado.
  - Quer tentar agora? - inquiriu.
  - No. Mas talvez o faa mais tarde. Onde esto os seus
cinquenta guerrilheiros armados?
  - Chegaro, quando precisar deles.
  Fez-se um momento de silncio, enquanto nos estudvamos
mutuamente, e, nesse momento, apercebemo-nos de que os cinco

ramos judeus!
  - Quem so? - perguntou o homem mais idoso. - No
mintam. - Prefere que fale yiddish? - acrescentou para Helena.
  - Somos judeus - respondeu. - Fugitivos. Ele  um judeu
  alemo e eu sou de Praga.
  A mulher nova abriu o colarinho da tnica e mostrou uma
estrela de Iavid que trazia pendurada ao pescoo.
  - Shalom - pronunciou num tom de voz calmo.
  - Shalorvc! - correspondeu -Ielena.
  Tornara-me to desconfiado que mesmo assim hesitei em avanar na direco deles. 
Contudo, Helena no teve um momento de
hesitao. Caiu nos braos da mulher, chorando de alegria. O homem de mais idade 
deixou pender a espingarda e estendeu a mo.
Apertei-a e tambm nos abramos. O homem mais novo apertou-me com fora e beijou-me 
sem o mnimo de vergonha.
  - No consigo acreditar. Judeus com ermas! - exclamei.
  - Muito poucas armas - riu a mulher nova. - Chamava-se
  Nadya. Era muito morena e tinha olhos profundos e inteligentes.
- Esses cinquenta guerrilheiros armados fazem parte da imaginao do Tio Sasha.
  O homem mais idoso era o Tio Sasha. Enquanto atravessvamos os bosques, 
informou-nos que era o comandante da brigada
de guerrilheiros na regio de Zhitomir. Todas as pessoas da brigada eram judeus. Os 
guerrilheiros ucranianos tinham as suas prprias unidades e no permitiam que os 
judeus lhes aderissem.
  Contei-lhe como eu e Helena havamos sido repelidos por um
desses bandos.
  O jovem - chamava-se Yuri - fez um aceno de concordncia. - Teve sorte em no o 
terem morto. No conseguimos entender. Os Alemes esto a escraviz-los, a matar-lhes 
a juventude,
queimam-lhes as casas, roubam-lhes as colheitas e seria de pensar
que fizessem da sua uma causa comum com os judeus da Ucrnia.
Mas no  assim. Ainda arranjam tempo .para nos odiarem e rejeitarem. Uma pessoa fica 
desesperada.
  - Que vo para o diabo! - exclamou o Tio Sasha. Fez
uma pausa antes de entrarmos numa espessa zona bosqueada rodeada de rvores enormes, 
uma espcie de floresta semicultivada,
provavelmente um pomar abandonado. - Cautela, agora. Ponham-se em fila. Voc, o 
alemo, siga-me. Tem todo o aspecto de no
se importar de entrar numa luta.
  - Sentir-me-ia melhor com uma arma.
  - Planeamos arranjar algumas muito em breve. Vamos.
  Avanmos pela floresta hmida e fria. Olhei para Helena
f ,
  r cima do ombro. Estava a sorrir. Finalmente, um lampejo de
esperana.

  Algures, em Maro de 1942, o meu irmo Karl e o seu amigo
  artista Otto Felsher foram enviados com um carregamento de judeus de Buchenwald, 
para o novo campo de Theresienstadt.
  O campo ficava a cerca de cinquenta quilmetros de Praga
  e tinha sido, na poca da imperatriz Maria Teresa, uma cidade de
  guarnio militar e posteriormente uma vulgar aldeia. Contudo, os
  Checos tinham sido evacuados, as casas fechadas e isoladas, e agora
  estava reduzido a uma priso, mas de um tipo muito particular.
  Tratava-se, na realidade, de um campo mmostrurio>>, uma
falsa fachada, para enganar o mundo exterior. Se bem que os judeus
ali passassem fome, fossem meramente conservados algum tempo,

antes de transportados para a morte, os Alemes fizeram constar
que era um <cgueto-paraso>>, um <<lar>>, um <<campo especial>> pare
<<Vips>, judeus heris da Primeira Guerra Mundial e judeus educados e nobres da 
Alemanha e da Checoslovquia.
  Enquanto procedia a pesquisas para a elaborao desta histria fiquei a saber que o 
rabi Leo Baeck, de Berlim, principal eminncia eclesistica judaica, esteve preso 
neste local. O mesmo aconteceu a vrios generais judeus. E a um que estivera no 
quadro
administrativo das I. G. Farben.
  Vrias centenas de pessoas, vindas de Buchenwald, ao descerem dos comboios, foram 
obrigadas, quais rebanhos, a marchar
pela rua principal do campo. (Visitei-o depois da guerra e no consegui deixar de 
ficar impressionado - pelo menos do exterior pela aparncia. Edifcios de estilo 
barroco, portas pesadas, ruas
limpas. Contudo, era tudo uma fraude.)
  O comandante deu as boas-vindas aos novos visitantes. Era
um coronel das SS, um austraco, e vincou, repetidamente, que se tratava de uma 
cidade que lhes fora concedida pelo Fhrer, uma
  cidade para os Judeus e que lhes competia mant-la em ordem
  e limpa, obedecer s leis, cooperar com as autoridades. Theresien  stadt serviria 
para desmentir todas as aldrabices que as pessoas
andavam a espalhar sobre as coisas terrveis que a Alemanha estava
a fazer contra os Judeus.
  Acrescentou que se desobedecessem s suas ordens, se mentissem, fizessem 
contrabando, roubassem, sujassem a cidade, como
era hbito dos Judeus, teriam o destino dos criminosos vulgares.
E chamou-lhes a ateno para uma forca para l de um porto
lateral, perto de uma pequena fortaleza interior, de onde pendiam
os corpos de trs jovens.
  O grupo foi, seguidamente, disperso e informado de que os
seus prprios chefes da comunidade os distribuiriam pelos alojamentos e procederiam  
diviso de tarefas.
  Uma atraente mulher de meia-idade chamada Maria Kalova,
que sobreviveu ao holocausto e atravs da qual consegui muitas
informaes sobre os anos que Karl passou em Theresienstadt, aproximou-se do meu 
irmo e de Felsher.
  - Weiss? Karl Weiss? - perguntou.
  - Sim - respondeu a rir e voltando-se para Felsher. - No
consigo acreditar. Uma comisso de boas-vindas a um preso. Tambm esperavam o meu 
amigo Felsher?
  - A resposta  afirmativa. A palavra passa. Sou Maria Kalova. Trabalho no estdio 
de arte. Vocs os dois foram designados
para l. A verdade  que um dos oficiais das SS ouviu falar do
vosso trabalho e requisitou-vos.
  - Mais dessas malditas rvores genealgicas! - protestou
Felsher com uma expresso de desagrado. - A provar que todos
estes ladres e mentirosos descendem na totalidade de Frederico
Barba Ruiva.
  - devem estar agradecidos - retorquiu. - No estamos em
nenhum hotel, mas conseguimos sobreviver.
  Encaminhou-os atravs do campo. Com grande espanto de
Karl, havia uma praa principal e uma srie de lojas. Lojas num
campo de concentrao! E um banco, um teatro, um caf.
  Interrogou Maria Kalova a esse respeito.
  - So tudo mentiras, meras fachadas. Estamos na aldeia de
Potemkim. O banco processa a circulao de moeda sem valor.
A padaria nunca teve po. Na loja de artigos de couro, pode-se

comprar de volta a prpria bagagem. Com sorte, temos uma chvena de caf quente uma 
vez por semana.
  - De que se trata, afinal? - quis saber Karl. - Uma brincadeira?
  - Muito mais do que uma brincadeira para os nazis - respondeu Maria. - Quando forem 
para os aquartelamentos, iro encontr-los cheios de velhos e moribundos. Mal nos 
aguentamos
com a comida que nos do. Os castigos so severos ante a mnima
infraco. Vem aquele fortezinho ali?  a Kleine Festung. O local
  onde os carcereiros das SS exercem a sua misso. Praticamente s
  difere de Buchenwald no aspecto exterior.
  - No entendo - observou Felsher.
  - Theresienstadt  o passaporte deles para a respeitabilidade
- esclareceu Maria. - Periodicamente, a Cruz Vermelha Internacional ou alguns neutros 
(por exemplo, os Suecos) pedem inspeco
a um campo de concentrao. So trazidos aqui. Mostram-lhes
  , , p , j p
D que se queixam estes judeus las e pedem-lhes aprovao.
bela cidade.
  Fhrer concedeu-lhes esta
  -E engolem as mentiras Os inspectores acreditam neles?
- Karl tinha a sensao de estar a enlouquecer.
  - Talvez queiram acreditar - respondeu F 1 h

e ser.

  O estdio dos artistas em Theresienstadt era amplo, arejado
e cheio de luz. Karl apercebeu-se, imediatamente, de que as pessoas
ali empregadas constituam uma lite e recebiam as boas graas dos
principais das SS.
  Depressa veio a saber porqu. Tudo fazia parte do esquema
nazi de apresentao do campo como uma cidade-modelo, no intuito
de desviar o mundo dos factos reais da vida nos outros campos
- os Auschwitz, os Treblinka -, que, brevemente, entrariam em
vigor como as grandes fbricas da morte.
  Na parede viam-se cartazes coloridos com legendas como:
  POUPEM COMIDA! A LIMPEZA ACIMA DE TUDO E 
  eterna O TRABALHO D A LIBERDADE! O trabalho artstico
  era espantoso. Assim teria de ser forosamente: alguns dos mais
  qualificados artistas checos e alemes estavam presos em Theresien  stadt, bem como 
muitos msicos, inclusive vrios maestros, compositores e executantes.
  Vrios homens estavam ocupados com cinzis, a pintarem
  cenas do que se poderia chamar <<uma vida de gueto feliz em Theresienstadt>>. Karl, 
que tinha visto crianas nas ruas de Buchenwald
  ,
e mesmo em Theresienstadt, lutando por cdeas de po, estremeceu.
  Um indivduo de aparncia dura desceu do cavalete e veio
apresentar-se a Karl e a Felsher. Chamava-se Emil Frey e era director do estdio. 
Fora um artista de renome e professor de pintura
em Praga.
  - Presumo que se sentem felizes por terem sado de Buchenwald - comentou.
  - Tudo isto me parece uma melhoria - retorquiu Karl.
  - Somos gente de sorte - disse Frey. - Se voc, Weiss
  ,
  e voc tambm, Felsher, no se meterem em embrulhadas,  possvel que tambm 
sobrevivam.
  - J houve casos de fuga? - quis saber Karl.
  - No estamos numa priso vulgar - respondeu Frey. - Est duplamente guardada: 
muros, arame farpado, ces, SS, polcia

checa. Os nazis nem por sonhos desejam que o mundo venha a saber
que mentem quanto a Theresienstadt e sobre todos os campos.
  Enquanto Emil Frey falava, Karl comeou a observar os diversos cavaletes e os 
desenhos, estudando os trabalhos em progresso
e as pinturas acabadas e idealizadas. Tratava-se de tributos  feminilidade alem, o 
Fhrer em armadura, desenhos atraentes da <<vida
no campo>>: sesses de msica, de teatro, campos de recreio.
  Maria e Frey mantiveram-se silenciosos, enquanto Karl dava
a sua volta ao estdio. Felsher seguiu a peugada de Karl, sacudindo
a cabea.
  Parou junto do cavalete de Frey e fitou-o intensamente.
  -Estas pinturas so uma coleco de mentiras.
  Frey mais uma vez se manteve silencioso.
  - Fica de vigia s janelas - pediu, voltando-se para Maria.
- Temos de iniciar a educao dos nossos dois aprendizes.
  Assim que Maria se colocou junto de uma ampla janela, Frey
retirou uma tbua do cavalete, de onde extrau um rolo de desenhos. Desdobrou-os, 
segurando-os pelos cantos. - Aqui, somos um
grupo bastante eclctico - observou a Karl e a Felsher. - O que
vem exposto constitui um estilo com um toque de romantismo,
mas tambm nos ocupamos de realismo, comentrios sociais, se
preferem o termo.
  O primeiro desenho era um esboo  pena - de gelar, aterrorizador, intitulado 
Condenados. Trs corpos pendentes da forca.
Hvmens das SS contemplavam, ironicamente, o espectculo. O segundo chamava-se A 
ltima Viagem - um desenho a lpis de um
vago carregado de caixes, cada um deles marcado com uma estrela
de David.
  - So seus? - interessou-se Karl.
  - De todos ns.
  - O comandante! - avisou Maria, que se conservava junto
da janela. -E um grupo de inspeco.
  Frey enrolou os desenhos e voltou a coloc-los no espao oco
do cavalete.
  Segundos mais tarde, entrou o comandante das SS, um austraco chamado Rahm, 
acompanhado de dois civis. Os civis, tanto
quanto Maria se recorda, eram da Cruz Vermelha Internacional provavelmente, suos.
  - E como passam hoje os meus artistas? - perguntou Rahm
num tom jovial.
  Todos se puseram em sentido. Frey respondeu em nome de
todos. - Bastante bem, senhor comandante. Todos ocupados.
  Rahm fitou os convidados.
  - Estes cavalheiros pertencem  Cruz Vermelha. Ouviram
alar no nosso amplo programa de arte, nos nossos pintores criativos e quiseram 
visitar o estdio.  um atelier ptimo, no acham,
senhores  Dificilmente comparvel a uma cmara de tortura, como a imprensa judaica 
continua a insistir na Amrica. Mostre esses
retratos de crianas aos nossos visitantes, Frey.
  Karl e Felsher ficaram a observar, enquanto Frey expunha
alguns retratos a pastel. As crianas pareciam anjos e no os midos
esfomeados, sujos e desejosos de po que Karl tinha visto l fora.
  - Encantadores! - exclamou um dos suos. - Verdadeiramente encantadores!

  Helena e eu estvamos no que os guerrilheiros russos, em
especial os judeus, chamavam <<um campo de famlia>>. Comunidades inteiras tinham 
fugido para as florestas: os velhos, os jovens,
as crianas e os que eram chefes por natureza, como no caso do

Tio Sasha.
  Viviam numa verdadeira comunidade - partilhando, conservando a unidade familiar o 
mais intacta possvel, tratando dos
doentes e dos velhos e tentando organizar um certo tipo de resistncia contra os 
Alemes.
  O grupo do Tio Sasha era um das mais famosos. Os seus
membros oravam entre as cem e as cento e cinquenta pessoas.
Viviam em cabanas temporrias, tendas, qualquer tipo de habitao
que pudesse ser rapidamente construda e desfeita. Estavam sempre em movimento, para 
se manterem fora do alcance tanto dos
Alemes como dos bandos de guerrilheiros cristos, que matariam
judeus errantes sem hesitarem. (Helena e eu framos felizes no
nosso encontro.)
  A atmosfera no campo de famlia sempre me parecera fantasista, envolta em nvoa. As 
pessoas falavam em voz muito baixa,
se  que o faziam. Nem sombra das conversas ruidosas, sussurros
e debates to caractersticos das comunidades judaicas. Estas pessoas haviam 
testemunhado crimes terrveis contra a famlia e os
amigos; no tinham tempo para discutir entre elas nem para trivialidades.
  Apenas algumas das crianas davam a sensao de terem escapado a esta alterao de 
temperamento. Jogavam  bola, brincavam
entre si, corriam em redor das fogueiras e das cabanas com a despreocupao que 
caracteriza os jovens.
  Helena e eu travmos amizade com o jovem casal Yuri e Nadya, que estavam com o Tio 
Sasha no dia em que nos encontraram.
Donos de uma loja de fotografia numa aldeia ucraniana, haviam
assistido  morte de todos os parentes. Depois de se terem recusado
(tal como ns) a responder a uma chamada de apresentao para
um <<campo de trabalho>>, escaparam-se para as florestas.
  Uma noite, enquanto comamos a nossa simples refeio de
aveia e batatas (comida comprada com grande ris o a fazendeiros
ucranianos, que, em qualquer momento, nos podiam denunciar),
observmos alguns homens que rezavam por trs das cabanas. Um
dos guerrilheiros era um rabi chamado Samuel, um homem novo
de rosto comprido e uma expresso triste.
  Reparei que o Tio Sahsa no se lhes juntava. Mantinha-se sentado com alguns dos 
seus homens, estudando um mapa garatujado
da regio, a planear qualquer tipo de incurso. Estvamos, presentemente, de posse de 
trs espingardas, todas roubadas a polcias
locais, mas, para podermos atacar os Alemes, precisvamos de bastantes mais.
  - Quem ? - perguntei.
  - Sasha? - retorquiu Yuri. -  mdico.
  - Ests a brincar. Onde tem o consultrio? - Senti-me
assaltado peia recordao do meu pai: a casa em Groningstrasse,
a sala de espera, o cheiro a ter, quando o meu pai desinfectava
as mos. E a maneira como tomava o pulso, to suavemente, ou
ligava os meus tornozelos torcidos com uma percia semelhante
 de qualquer treinador especializado. E os passos arrastados pelas
escadas, alm da voz sempre calma e ponderada.
  - Ainda consegue extrair um apndice. E com uma faca de
cozinha. Desde que estamos aqui j assistiu a dois partos.
  - E o rabi?
  - Samuel Mishkin. Da mesma aldeia que Sasha. Quer lutar
ao nosso lado, quando estivermos preparados.
  -  essa a minha ideia de um rabi - repliquei. - Talvez
ainda um dia me consiga atrair de novo  sinagoga. - Eu e o Karl
no amos l desde que passmos a bar-mitzvah'd.
  Mais homens se juntaram  orao da noite, pronunciada pelo

rabi. Inclinavam e sacudiam a cabea. Tinham os olhos fechados.
Cobriam as cabeas com xailes e davam a sensao de perdidos
num mundo diferente.
  Um dos midos errou um pontap e a bola foi cair no meio
dos que rezavam.
  - Afasta-te daqui - ordenou o rabi, pegando-lhe e atirando-a
para longe. - Isto  um shul.
  - No parece nada - comentou a criana.
  - Encarrego-me de ti mais tarde - respondeu o rabi. -- Onde os Judeus se renem 
para rezar,  a casa de Deus. Agora,
vai-te embora.
  Helena e eu desatmos a rir.
  - Tal como quando era criana - observei. - Estavam sempre a ralhar-me por jogar  
bola ao sbado.
  O campo - enevoado e hmido - fez-me recordar novamente a minha casa.
  - Como vieram parar aqui? - perguntei a Yuri.
  - A nossa maioria veio de Koretz com o Tio Sasha. Foi ele
o nosso chefe. Os Alemes mataram-lhe a mulher e duas filhas
a tiro. Assassinaram mais de dois mil judeus numa tarde. Obrigaram-nos a cavar as 
suas prprias sepulturas, despiram-nos e abateram-nos. Uma bala na nuca. Os meus pais 
foram mortos. Os meus
irmos. A maior parte da famlia de Nadya. Um dos doentes do
Tio Sasha era ucraniano, um advogado, um bom tipo, que nos
avisou antecipadamente. Escondeu um grupo dos nossos na adega,
at acabar a rusga. Em seguida, deixou-nos escapar. Chamava-se
Lakov e, se viver um dia ainda procurarei que as pessoas se lembrem dele.
  Nadya pegou-lhe na palavra e continuou a histria:
  - Outros judeus vieram juntar-se-nos. De Berdichev, Zhitomir. Todos os guetos 
estavam a ser destrudos. Os Alemes incumbiram-se de exterminar os Judeus.
  - Mas porqu? Porqu? - perguntou Helena.
  - No precisam de motivos - respondi. - Qualquer desculpa lhes serve, porque tm 
armas e ns no.
  Yuri descruzou as pernas e atirou um arbusto para a fogueira.
  - Este  o nosso quinto campo. Temos de nos manter em movimento. Sabem que andamos 
por a e, de vez em quando, as SS
  mandam patrulhar as florestas. No querem um nico judeu vivo
  na Rssia.
  - Quando pensam resistir? - inquiri.
  - Assim que tivermos armas suficientes - respondeu.
  - No  nada fcil - retorquiu ITadya, sacudindo a cabea.
  - O Tio Sasha afirma que no podemos abandonar os velhcs
  as crianas, os doentes. Esse o motivo por que chama e isto um
  campo de famlia. Segundo diz, temos de sobreviver como uma
  comunidade, uma yishuv.
  Fitei o chefe dos guerrilheiros. Naquele momento, estava sentado, sozinho, a fumar 
um desses fracos cigarros russos, contemplando as chamas. Tinha um rosto de traos 
duros e vincados, mas
  por baixo notava-se suavidade e compaixo. De novo, recordei
  o meu pai.
  - Porque no reza com os outros? - quis saber.
  - Rasgou o xaile das oraes depois de lhe assassinarem
a famlia - esclareceu Nadya. - Diz a todos que vm at aqui
que se acabou a aceitao da morte, o caminhar tranquilo para
a morte. Seja como for, morreremos e portanto, devemos morrer
a lutar.
  - Mas vocs no passam de um punhado de pessoas - retorquiu Helena.
nada fizeram. Foram mortos milhares, dezenas de milhares que

  - Sejam tolerantes - pediu Nadya. - As pessoas estavam
completamente subjugadas. Nunca acreditaram que uma coisa destas pudesse acontecer. E 
quem tinha armas, quem sabia como organizar uma resistncia? Antes de darem por isso, 
j estavam presos

  b
postos em fila e assassinados. p '
  O Tio Sasha levantou-se do seu lugar perto do fogo e encaminhou-se na nossa 
direco. Dava continuamente a sensao de estar
cansado, de empreender todos os esforos em mais um dia de vagabundagem e em manter a 
<<famlia> unida. g
  - Podes fazer a guarda do dia, Weiss - disse-me. - Sabes
  disparar?
  Apontei para e espingarda de modelo antigo que empurrava
  na minha direco:
  - E essa coisa dispara mesmo?
  - Se no disparar, pode ser utilizada como basto.
  - Isso j  comigo.
  - D-me toda a ideia de j teres participado em algumas
lutas - sorriu.
  -  verdade. E quase sempre sa vencedor.
  Comemos a caminhar at ao extremo do campo, onde estavam apostadas as sentinelas, 
vinte e quatro horas por dia. Contemplou-me pelo canto do olho:
  - Por que ests a sorrir?
  - Estava a pensar.. . o meu pai  mdico.
  - Onde?
  - Exerceu clnica em Berlim durante muitos anos. Depois,
oi deportado. Da ltima vez que ouvi falar dele, vivia em Varsvia. - Fizemos uma 
pausa. Helena estava perto. - Curioso! Chegou a querer que eu frequentasse a Escola 
Mdica.
  - No conseguias suportar ver sangue? - riu o Tio Sasha.
  - No. S que sempre fui cbula.
  Senti um afecto que me impelia para ele, algo muito importante que me faltara desde 
o dia em que o meu pai foi deportado,
desde que fugi da Alemanha.
  - Posso ficar ao lado dele? - quis saber Helena.
  - Acho que sim - respondeu o Tio Sasha.
  Um mido com cerca de catorze anos e transportando outra
daquelas velhas espingardas, aproximou-se.
  - O Vanya indica o que h a fazer. Olhos bem abertos.
E nada de conversas. So soldados.
  Comemos a seguir Vanya ao longo dos bosques. Senti um
impulso que me levou a voltar-me e a falar ao Tio Sasha:
  - Aquele Samuel, o rabi - comecei.
  - O que h com ele?
  - Poder fazer um casamento?
  - Porque no? E podes at ficar-lhe a dever. J fez vrios
casamentos aqui. Contudo, poupa o romantismo para quando no
estiveres de guarda.
  Helena beijou-me. Tremia um pouco. Demos as mos. Pus
a espingarda ao ombro.

  O rabi Mishkin casou-nos dois dias depois. As mulheres arranjaram uma coroa para o 
cabelo de Helena, servindo-se de folhas
  de rvore, e ainda um vu feito de um velho xaile enfeitado, que
  uma delas trouxera da aldeia.
  Um dos guerrilheiros era violinista e tocou melodias estranhas e antigas, danando 
 nossa volta ora alegre, ora arrancando

  choros s cordas do instrumento. A minha me decerto se teria
  comovido com a sua execuo.
  Ficmos sob um plio- a palavra yiddish  chupa, segundo
vim a saber, suportando tambm muitos comentrios trocistas sobre
a minha <<juventude>> - e fomos considerados como marido e mulher pelo rabi 
guerrilheiro.
  - Mas que judeu! O yarmulka nem sequer lhe assenta bem
na cabea - troou o Tio Sasha, quando a cerimnia estava prestes
a iniciar-se. - Usa-a como se fosse um bon de escuteiro.
  Felizmente, e cerimnia durou pouco. Como deferncia
   minha ignorncia, grande parte do servio foi conduzido em
yiddish, bastante parecido com o alemo, e de forma a que me
permitisse compreender. H anos que ,perdera os poucos conhecimentos de hebraico que 
eu e Karl estudramos em cheder. Aquelas
vogais estranhas e os verbos inconcebveis tinham-me arrasado
o crebro, sem hiptese de concorrncia com desafios de futebol
corridas de bicicletas e competies.
  ,
  Comportei-me, porm, de uma forma respeitosa e sentia-me
feliz. Quando Helena e eu trocmos alianas - anis de cobre
  ,
feitos por um joalheiro que pertencia ao grupo de Sasha - e a
beijei ao de leve, senti-me parte de uma velha tradio. Enquanto
o rabi recitava as palavras apropriadas ao ofcio religioso assaltou-me um estranho 
pensamento: <<Se desejam to desesperadamente

dar cabo de ns,  porque somos vlidos e importantes para
o Mundo. . . >>
  - Vem ao encontro da noiva, amado - entoava o rabi.
- Saudemos a princesa do Sab...
  Nada entendi da leitura da Bblia, a no ser o que mais tarde
Sasha me traduziu: <Na desgraa chamei ,pelo Senhor, e Ele acorreu
em meu auxlio. . . >>
  Por fim, disseram-me que esmagasse com a bota um capo
que colocaram no cho. (Deveria ter sido usado um capo de vinho
apropriado; mas no havia nenhum no campo.)
  Obedeci e estilhaei o vidro.
  As pessoas aplaudiram, gritaram e o violinista tocou uma
melodia alegre.
  - Beija a noiva! Beija a noiva! - soava o coro de vozes.
  - Desconfio que j se beijaram bastantes vezes - comentou
o tio Sasha com uma piscadela de olho na nossa direco.
  Helena e eu beijmo-nos. Tinha os olhos rasos de lgrimas.
  - Que a vossa vida seja abenoada com felicidade, realizao
e filhos - desejou o rabi. - E acima de tudo um amor imorredouro
mtuo e pelo Senhor, nosso Deus. Segundo a f de Abrao, Isaac
e Jacob, considero-vos marido e mulher.
  - Agora, s um homem com novas responsabilidades, Rudi - exclamou Sasha com uma 
cotovelada. - Casa, seguro. Tens de
poupar dinheiro.
  Rimos. Dinheiro! Vivamos como fantasmas vagabundos, em
pior situao do que os ciganos. Talvez o facto sirva de explicao
 minha perfeita adaptao ao kibbutz. Durante aqueles anos de
nmada, aprendi quo pouco se necessita para sobreviver.
  As pessoas comearam a danar, dando o brao, formando
rodas, pulando e saltando. Sasha abraou-me.
  - Resistiremos a esses sacanas que nos querem matar - disse. - E em breve teremos a 
nossa vingana. Tu, Helena e os

outros jovens, de novo vivero em paz, juro.
  Nadya pegou no brao de Helena.
  - Lamentamos no haver ganso assado para a festa do casamento, nem sequer um 
arenque.
  - No faz mal - retorquiu Helena. - Sentimo-nos felizes.
  Sentia-me um pouco embaraado - nunca me agradou ser
o centro das atenes, excepto num campo de futebol - quando
deram os braos e formaram uma roda  nossa volta.
  Dez minutos depois acabava a celebrao do casamento.
  Avram, uma das sentinelas, entrou a correr no campo. Um
fazendeiro ucraniano, que nos tratara decentemente e negociara
com o Tio Sasha, avistara patrulhas nazis na estrada.
  - Desfaam o campo - ordenou Sasha. - As tendas deitadas
abaixo e as fogueiras apagadas. Vamos partir outra vez.
  Helena e eu juntmos as nossas magras posses - a tigela e o
prato de lato, a faca e o garfo e os nossos cobertores. - No foi
l muito uma lua-de-mel - disse-lhe.
  - Deves-me uma, Rudi.
  - E muito mais do que isso - respondi, tomando-a nos
braos.
  Yuri agarrou-nos e ordenou-nos que ajudssemos a desmontar
as tendas e a arrum-las.
  Assim terminou o meu dia de casamento. Em breve estvamos
em marcha, ao longo da noite, embrenhando-nos nas florestas.




O DIRIO DE ERIK DORF



Minsk
Fevereiro, 1942

  Desde o incio deste maldito incidente que Heydrich e eu
tivemos receios. (No me refiro  operao em geral; falo desse
incidente especfico que implicou o Reichsfhrer Himmler.)
  Tenho duas verses de como tudo aconteceu.
  Uma  a de que Himmler pediu ao coronel Artur Nebe
  ,
o comandante do Einsatzgruppe B - o grupo de aco responHOLOCAtTSTO

svel pela regio de Moscovo -, que preparasse uma <<liquidao>>
modelo, a fim dele prprio saber como a tarefa era cumprida.
  A outra  a de que a ideia partiu de Nebe. A fim de tentar
cair nas boas graas do superior.
  Seja como for, nem Heydrich nem eu gostmos da ideia.
Discutimo-la sotto voc, enquanto atravessvamos um campo gelado,
fora da cidade russa de Minsk. Dado no passar de uma <<demonstrao>>, os homens de 
Nebe tinham reunido cerca de uma centena
de judeus, todos homens  excepo de dois.
  - Nebe  um idiota - sussurrou-me Heydrich. - Conheo
melhor do que ele o nosso venerado Reichs fhrer. Tem montes
de teorias e  bom a medir os crebros judeus, mas no gosta de
ver sangue.
  - To-pouco eu, senhor - retorquiu.
  - Mas habituou-se - observou o chefe.

  No lhe dei resposta, mas presumo que sim. Perante o amplo
objectivo, a necessidade de tempo de guerra, quanto a isolar e diminuir a influncia 
judia, devemos ter coragem para enfrentar misses
de gravidade.
  Os cerca de cem judeus foram reunidos  beira de uma profunda vala. Estavam nus. 
Nebe explicou a Himmler que os seus
homens j tinham abatido a tiro quarenta e cinco mil judeus na
regio de Minsk.
  O coronel Paul Blobel, que caminhava ao meu lado, murmurou:
  - Que grande coisa! Ns livrmo-nos de trinta e trs mil
em dois dias, em Babi Yar.
  O grupo deteve-se a uns vinte metros do local onde se encontravam os judeus e 
deu-se um facto curioso. Os olhos de Himmler
pousaram num judeu jovem, bastante alto e bem constitudo,
de olhos azuis e cabelo louro.
  Com grande surpresa nossa, o Reichs fhrer avanou at junto
do jovem e perguntou-lhe se era judeu, recusando-se a acreditar
que um indivduo com um tipo to semelhante ao nrdico
o pudesse ser.
  - Sim. Sou judeu - respondeu o homem.
  - E os teus pais so ambos judeus 2
Heydrich e eu trocmos olhares de crtica e desiluso.
- Sim.
- Tens antepassados que no fossem judeus?
- No.
- Nesse caso, no te posso ajudar.
- Pelo menos          no negou a descendncia - sussurrou-me
Heydrch.- Foi necessrio bastante coragem.
Interroguei-me sobre se, inconscientemente, Heydrich estaria
a pensar nos boatos que corriam sobre o seu prprio sangue judeu.
- Quando estiver preparado,  Reichs fhrer - disse Nebe.
- Sim... sim...
Os soldados abriram fogo com as espingardas e os judeus
caram aos montes, na vala. - Observmos Himmler. Tremia, suava
e torcia as mos. Inacreditvel. Este homem que passa ordens,
diariamente, para execuo em massa de milhes e no conseguia
suportar ver uma centena deles mortos!
Por qualquer estranha coincidncia, as duas mulheres do grupo
no estavam mortas, mas apenas feridas. Estendiam os braos,
implorando piedade.
- Matem-nas! - gritou Himmler.- No as torturem dessa
maneira! Mate-as, sargento! Mate-as!
As mulheres foram, imediatamente, mortas com dois tiros
na nuca.
Himmler cambaleou, como se estivesse prestes a desmaiar.
-  a primeira vez... Compreendem...- tinha a voz presa
na garganta.
- Maricas de          merda! - insultou Blobel.- Assassinamos
judeus s centenas de milhares e sente-se agoniado quando v um
punhado partir para o seu Deus judaico!
Nebe piorou a situao, comentando para o Reichsfuhrer que
era uma mera centena e que os bons soldados alemes que se viam
forados a abater milhares, diariamente, estavam a ser afectados
por esse motivo. Como  evidente, Obedeciam e sabiam qual era
O seu dever para com o Reich e Hitler, mas alguns destes homens
estariam <<acabados> para a vida.(Discordo, mas no me pronunciei;

 surpreendente como o conhaque, Os cigarros e os bens saqueados aos judeus mortos 
conseguem aguentar os nossos homens alistados - juntamente com a certeza de que 
enquanto estiverem a matar
judeus no sero abatidos a tiro pelo Exrcito Vermelho.)
  Himmler, comovido at ao mais fundo de si prprio, pronunciou um breve discurso 
para os soldados reunidos:
  -Nunca me senti mais orgulhoso dos soldados alemes - declarou o Reichs fhrer. 
Havia um forte cheiro a plvora no ar.
Um grupo de trabalho de judeus estava a deitar terra sobre as
cadveres.
  - Os homens apreciam o elogio, Reichs fhrer - retorquiu
Heydrich.
  Os olhos de Himmler apresentavam-se enevoados por detrs
das lunetas.
  - Podem ficar com a conscincia tranquila. Assumo toda
a responsabilidade pelos vossos actos ante Deus e o Fhrer. Devemos retirar uma lio 
da natureza. Luta-se em todos os lados.
O homem primitivo aprendeu que um percevejo era mau e um
cavalo bom. Podem argumentar que os percevejos, os ratos e os
Judeus tm direito  vida, e provavelmente concordarei. Contudo,
um homem tem o direito de se defender dos vermes.
  A voz tornou-se menos audvel. Na privacidade deste dirio
vejo-me forado a apontar que o seu rosto macilento, o cabelo
escasso e o tom de voz efeminado dificilmente correspondiam ao
ideal do heri ariano. Reinhard Heydrich enquadra-se muitssimo
mais nesse tipo de figura. No admira que se detestem e desconfiem um do outro.
  Os olhos de Himmler percorreram-nos:

  - Heydrich, Nebe, Blobel. .. todos os meus fiis oficiais.
Este tiroteio no  a resposta. Devemos procurar processos mais
eficazes para levar a cabo esta misso.

  Mais tarde, Himmler foi levado a visitar uma instituio
  de loucos. Ordenou a Nebe que pusesse termo  vida dos internados, mas de uma 
maneira limpa e eficiente, servindo-se de algo
  mais <<humano>> do que os tiros. Nebe sugeriu dinamite.
  Ainda nessa tarde, voltei a encontrar o coronel Nebe e o
  coronel Blobel no quartel-general dos Einsatzgruppen, em Minsk.
  Heydrich mostrava-se preocupado com os acontecimentos do dia
  e esclareci que tanto ele como eu discordvamos de Nebe e o
  acusvamos de estar a conduzir a misso de uma maneira errada.
  Quando lhe falei no o tratei pela patente, e ele acusou o toque.
  - Sou o coronel Nebe, major Dorf.
  -Depois de toda a confuso de hoje, tem sorte em no ser
  sargento. Porque no afastou o Reichsfhrer daquela louca ideia
  de assistir a um tiroteio? E no tinha homens capazes de acabar
  com todos de uma vez?
  Tanto ele como Blobel foram apanhados de surpresa ante
  o meu assalto.
  - No me fale dessa maneira, Dorf. Com os diabos! - exclamou Nebe.
  - A sua operao foi um desastre! - retorqui.
  Blobel, com as botas assentes na secretria de Nebe e um
  copo de usqui na mo, deitou-me um olhar faiscante:
  - Cale-se, Dorf. Alguns de ns estamos fartos da sua maldita
interferncia.
  - Ah, sim? Bom. Para sua informao, Blobel, Heydrich
no ficou nada satisfeito com os resultados de Babi Yar. Informaram-nos que h tantos 
cadveres enterrados no local que a atmosfera est cheia de gases. Queremos que esses 
corpos sejam tirados

para fora e queimados. Queimados de maneira a que no fiquem
vestgios.
  - O qu? Todos esses corpos? Quem  voc para...
  Interrompi-o. Estes homens, l bem no fundo, so uns
cobardes :
  - Ponha o cu a mexer para a Ucrnia, Blobel, e faa o que
lhe digo.
  Nebe passeava, nervosamente, de um lado para o outro.
Atravs da janela, avistava os seus homens, ajudados por <voluntrios> lituanianos e 
conduzindo mais judeus para a vala.
  - No tem o direito de nos falar dessa maneira insultuosa,
major Dorf.
  - Claro que tem - retorquiu Blobel. -  a mascote de
Heydrich, o seu favorito. Voc e esse meio judeu acham que...
  -  mentira. E quem espalha tais mentiras ter de responder
por elas.
  - V para o inferno! - explodiu Blobel, ao mesmo tempo
que pegava na garrafa. - Estou a precisar de uma bebida.
  Levantaram-se. No fui convidado. No entanto, Nebe continuava a tentar 
apaziguar-me. Um homem fraco:
  -Oua, major. Julgo ter uma boa ideia do que se est
a passar na cabea de Himmler. Falei-lhe em dinamitar grande
quantidade de indesejveis. Contudo, h outros processos. Injeces. Gs. J se 
tentou noutros stios sabe
  - Que v para o diabo, Nebe - exclamou Blobel.
  Quando iam a sair, ouvi Blobel, que se dirigia ao companheiro
num tom de voz intencionalmente elevado:
  - Temos de tomar medidas contra aquele sacaninha!





Berlim
Maio, 1942


!   Encontro-me de novo em Berlim, exausto depois da viagem
    pelos territrios ocupados. Finalmente disponho da oportunidade
j   de ter Marta nos braos, de lhe beijar o rosto adorado, passar-lhe
'   a mo pelos cabelos, de juntarmos os corpos na mais terna das
    unies.
    Estou desejoso de ver as crianas. - O Peter anda a treinar-se
    na Jungvolk, a organizao preparatria para a Juventude Hitleriana. Afirma 
querer juntar-se s SS quando tiver idade, a uma
    unidade de combate como uma diviso Panzer. Disse-lhe que nessa
    altura j a guerra ter terminado h muito tempo, e com a Alemanha vitoriosa. A 
minha pequena Laura est a revelar-se uma

    ptima estudante. Os professores adoram-na:  muito bonita
    ,
    vivaz e obediente.
  O trabalho aumenta e o meu mbito de responsabilidade
aumenta de dia para dia. Heydrich diz que sofro da gula do trabalho. Consigo fazer 
mais num dia do que os seus outros ajudantes
numa semana. Chama-me o major <<especialista>>.
  Esta manh, 21 de Maio, discutimos mtodos de alternativa
no seu gabinete.

  H dois meses, o novo campo de Belzec comeou a utilizar
gs de monxido de carvo, mas os resultados no se revelam
satisfatrios. Heydrich deseja um relatrio completo. E, em Chelmno, perto de Lodz, 
experimenta-se um mtodo engenhoso: grandes
camies nos quais o gs expelido ;pelo tubo de escape  metido
e selado. Tambm existem dvidas quanto  eficcia deste mtodo.
  Divertimo-nos um bom bocado  custa de Blobel. Devo ter-lhe
pregado um susto de morte. Voltou a Babi Yar e mandou desenterrar grande quantidade 
de corpos, que reduziu a cinzas em piras
feitas com chulipas da via frrea regadas com gasolina.  surpreendente como nesta 
poca de racionamento de guerra e com as reivindicaes do Exrcito quanto  mnima 
gota de combustvel, Blobel
conseguiu arranjar o pretendido. No entanto, o Exrcito salta ante
as nossas ordens. E, possivelmente, no dei o devido valor a Blobel.
O seu mtodo de tratamento dos cadveres  notrio, a ponto de,
como Himmler decretou, <<as prprias cinzas desaparecem>>.

  Preparava-me para me ir embora, guando Heydrich me
chamou, estendendo-me uma folha de papel:
  - O que acha disto, Dorf?
  Li, e enquanto o fazia tive dificuldade em me controlar.
  - Em voz alta - ordenou Heydrich.
  - <<O major Erik Dorf, do seu pessoal, foi, no princpio
dos anos trinta, membro de um grupo de jovens comunistas na
Universidade de Berlim. O pai era membro do Partido Comunista
e suicidou-se devido a um escndalo que envolveu dinheiro.
E possvel que a famlia da me de Dorf tenha um judeu na ascendncia. Todas estas 
questes merecem ser investigadas.>>

  - Bom
  - No est assinado - observei.
  - Nunca esto. O que pensa disso, Erik?

  - Mentiras. Nas partes e no todo, como dizemos no tribunal.

  Pouco tempo, socialista. Nada de
O meu pai foi, durante muito essa fase. Oh, peo-lhe desculpa.
srio. Ele. e o irmo. Passaram

-H uma parcela de verdade. Suicidou-se, mas sem haver escndalo.
Foi atingido pela Depresso. A famlia da minha me est
imaculada.
  - Tem a certeza? respeito, em 1935.
  - Fez-se a habitual investigao a meu

  eneral! Porque  que, depois de sete anos de servios
Deus do cu, g p
dedicados, uma coisa como esta vem  superfcie.

  - Estou de acordo consigo. Infelizmente, Himmler tambm
recebeu uma destas comunicaes. Temo que queira outro relatrio a seu respeito. 
Registos de famlia e coisas no gnero.
  p positivas a meu respeito?
  - No lhe deu referncias
  - Sabe como ele  em questes de servio. Eu e Himmler
  tivemos as nossas rivalidades. Receio que esteja a servir de bode
  expiatrio. ?
  - Faz alum ideia de quem lanou este veneno

  - Posso
  pensar numa dzia de pessoas. Uma forma de me
  atacarem.
  - Mas o senhor  a segunda hierarquia no comando - retar  qui, tomado da maior 
surpresa. -Todos sabem que dirige as SS,
  a S e o programa de reintegrao dos Judeus.

  -  esse o motivo por que no tm confiana em mim.
  r verdade, Erk,  que sei muita coisa sobre todos eles, do princpio ao fundo da 
escadaria. Sei a escumalha e escria que muitos
  so. teis para ns, mas no o tipo qulecguase madosnsse quer.
  estirpe. Somos intelectuais, Erik. Inte

  Contudo, a maior parte deles no passa de uma maldita galeria
  de patifes. penduradas fotografias de alguns dos
  Na parede estavam
  nossos lderes, e Heydrich foi-os apontando com o dedo:

  - Goering, drogado e corrupto. Devia v-lo com a sua toga
  romana, perfumado, de unhas dos ,ps pintadas e rouge na cara.
  Rosenberg, uma amante judia. Goebbels, escndalos sobre escndalos. Himmler, algo 
de duvidoso por parte da mulher. E, seguidamente, chegamos a dignitrios como 
Streicher e Kaltenbrunner,
que no se encontram muito acima de vulgares criminosos. Esse
o motivo por que o Fhrer precisa de se ver rodeado de alguns
crebros, Erik. Pessoas como ns.
  - Espero nunca vir a fazer parte da sua galeria de patifes - comentei.
  Voltou at junto da secretria, sorriu e dobrou o papel que
continha as falsas acusaes.
  - Porque havia de fazer? Partindo do princpio - acrescentou, enquanto eu tremia 
interiormente - que, como diz, esta carta
 uma srie de mentiras...

  Sinto-me perturbado. No s pela campanha de infmias que
foi lanada contra mim como pelas revelaes de Heydrich sobre
os nossos lderes.
  O que haver de verdade em tudo isso? E que percentagem
ser para me assustar, para me mostrar at que ponto vo os seus
poderes? No consigo solucionar este assunto. Digo a mim mesmo
que todos os homens importantes tm as suas falhas. Nos crculos
das SS, por exemplo, acredita-se firmemente que Roosevelt  um
sifltico. Da estar preso a uma cadeira de rodas. O mundo sabe
que Churchill  um bbado.
  Contudo, acho estranho que Heydrich fale to livremente
e de uma maneira to trocista dos nossos chefes. Detm poder
de vida e morte sobre milhes de pessoas.
  Haver uma vaga e fraca possibilidade de que exista algo
de errado em alguns dos nossos lderes, no tipo de guerras que
levam a cabo, no governo que criaram? No entanto, temos merecido o apoio de todas as 
camadas da vida alem - igreja, indstria,
corporaes, sindicatos, educadores! O povo alemo, herdeiro de
Goethe e de Beethoven, no veneraria criminosos como sendo os
seus profetas e reis. Heydrich exagerou, provavelmente, com
o objectivo de me assustar um pouco. Ou seria em aco a parte
judia que existe nele?

Chelmno, Polnia
Junho, 1942


  Hoje, 17 da Junho, andei com o coronel Artur Nebe atrs
de um desses camies de experincias. No me esquecerei. Fiquei
to profundamente perturbado que me esqueci da inquietao
devida  campanha de infmias contra mim.
  Nebe e eu seguimos num automvel de servio com motorista,
ao longo de uma estrada suja e secundria. A alguma distncia,
 nossa frente, um camio enorme esforava-se por conseguir
o objectivo pretendido. Era um veculo de um verde-acastanhado,
totalmente fechado, sem janelas, e com o indicativo AUTOCARRO
DE GUETO.
  - Est em funcionamento - esclareceu Nebe. - Leva perto
de quarenta. Carga demasiada.
  - Quanto tempo demora o processo?

  - Oh, depende. De dez a vinte minutos. Mais tempo,
quando o camio vai pesado como este. A presso de gs pode
ser irregular e algumas vezes leva muito tempo a morrerem.
  - E  este o seu mtodo mais eficiente?
  - Estamos a tentar, Dorf. Estamos a tentar.

  Parece-me uma forma temporria de solucionar o problema.
Camionetas e camies por toda a Polnia e Rssia percorrendo
ruidosamente as estradas? Em vez de permitir que o monxido
  de carbone se escape para a atmosfera, pode ser circulado num
  espao limitado e utilizado para <<reintegrar>> os Judeus. Ha instalaes que 
utilizam permanentemente o monxido de carbono dos
  motores diesel em vrios campos, mas tambm este processo se
  encontra numa fase mais ou menos experimental. Por exemplo,
  quase todos os judeus de Lublin, receberam, no campo de Belzec,
  este tratamento especial com gases de tubos de escape. Outros centras do gnero 
encontram-se, presentemente, prontos para iniciar
  a operao: Treblinka, Auschwitz, Sobibor. Contudo, at agora, ainda no 
descobrimos um mtodo perfeito que associe rapidez,
eficincia, disponibilidade e, se  que posso ser cndido, uma certa
dose de humanidade a fim de acabar rapidamente com o sofrimento.
  - O modelo destes camies ter de ser alterado - declarei.
  - No foram concebidos para este tipo de misso - retorquiu Nebe.
  O camio continuava a avanar e quase parou, quando o motorista meteu nova mudana.
  - Como  por dentro? - quis saber.
  - Arran'nam e agatanham as paredes. De vez em quando.
ouvem-se os murros que do.
  Pus o ouvido  escuta.
  - Agora, no. O rudo do motor do camio no deixa.
  Decorridos mais cinco minutas, pela estrada suja - o motorista tinha agora hiptese 
de avanar com mais facilidade, pois o piso
era um pouco mais regular -, o camio virou para um campo e,
em seguida, meteu por um arvoredo. Um odor conhecido chegou-me
s narinas: corpos em decomposio. As moscas rondavam-nos.
  -Nada mau-observou Nebe, consultando o relgio.
- Meia hora desde o campo de Chelmno. Decerto j morreram
todos.
  -No  essa a nossa pretenso-declarei, sacudindo
a cabea. - Andaremos a desgastar os motores de camies por
toda a Polnia. Demasiado dispendioso e complicado.
  - Sim. Precisamos de mtodos novos - concordou Nebe.

- O coronel Blobe?, o coronel Ohlendorf e eu discutimos frequentemente o assunto.
  - Precisam? E que mais discutem nesses encontros?
  - Muitas coisas.
  - Algumas vezes elaboram cartas annimas a Himmler e a
Heydrich sobre alguns dos vossos colegas?
  - No sei a que se est a referir, major.
  - No?
  Recusou-se a acabar o dilogo. Em vez disso, fez-me sinal
de que o seguisse at junto do camio, onde o motorista e outro
homem das SS, ajudados por alguns trabalhadores polacos, estavam a retirar corpos nus 
da retaguarda do camio. Cobrimos as rostos
com lenos. O cheiro a fezes e sangue era insuportvel. Os corpos
ofereciam um espectculo grotesco, formando uma massa acastanhada e vermelha, olhos 
salientes, bocas torcidas, como se tivessem
morrido em agonia.
  Observei subitamente que o sargento arrancava um pequeno
corpo a um cadver. Em seguida, puxou e fez o mesmo a outro.
Eram crianas, provavelmente, de seis ou sete anos de idade.
Uma delas era um mido com a cabea rapada e semelhante aos
que vira entre os judeus ortodoxos de Leste. Ainda estavam vivos,
gemendo e rastejando.
  O sargento abateu rapidamente cada um deles com um tiro
na nuca.
  Aproximou-se do coronel Nebe e fez a continncia.
  - Todos mortos, senhor. Excepto as duas crianas - comunicou. - Algumas vezes, as 
mes protegem os filhos.
  Regressmos ao automvel de servio.
  - Muito, muito mal feito! - observei.
  - Sim. Fica-se emocionado, mesmo sabendo tratar-se de
judeus. Alguns dos homens desmaiam.
  Olhei desprezivamente para Nebe. Ordenara o extermnio de
centenas de milhares. No tinha a menor dvida de que as suas
eram as mais verdadeiras lgrimas de crocodilo alguma vez derramadas por algum. Duro 
e frio, numa imitao dos meus superiores, suprimi qualquer sentimento de compaixo. 
Tem-se-me
tornado relativamente fcil suprimir a humanidade relativamente
queles de quem estamos a libertar o Mundo. A fora de vontade
consegue milagres.
  - No era isso o que pretendia dizer - afirmei. - Apenas
que  totalmente ineficiente e um desperdcio.

A HISTRIA DE RUDI WEISS

  Em Theresienstadt, Karl encontrava-se, agora, integrado no
crculo de artistas que trabalhavam secretamente, com grande risco
pessoal e das famlias, com o objectivo de deixarem atrs deles
uma imagem verdadeira do campo.
  Aderiu energicamente e com todas as suas qualidades artsticas ao grupo de Frey, 
Felsher e dos outros artistas. Deixou de ter
notcias de Inga e fingia no se importar.
  Maria Kalova, uma das artistas, recorda-se de lhe ter
surpreendido uma expresso de raiva quando outro <<grupo de
inspeco> visitou o campo e concordou que, de facto, os judeus
no tinham razo de queixa.
  - Mais um grupo de inspeco da Cruz Vermelha - observou
Maria.
  - Enganaram o mundo - riu Karl amargamente. - Ou
ento, as pessoas nem se interessam. Surpreende-me que ningum

faa perguntas quanto ao direito que lhes cabe de nos meterem
em prises. Parece aceitar-se a noo de que est certo prenderem
os Judeus e tratarem-nos como ces desde que no os matem.
  Frey avanou at junto da janela do estdio.
  - No estou assim to certo de que no nos matem. E no
me refiro a estas mortes causadas pela doena e pela morte, nem
aos enforcamentos de represlia.
  - O que queres dizer com isso? - inquiriu Karl.
  - Assassnio sistemtico. Vastos grupos de pessoas. Um elemento da polcia checa 
falou-me em comboios enviados para
a Polnia... histrias sobre novos campos.
  Regressaram aos cavaletes.
  Karl estava a trabalhar num cartaz enorme. Rostos felizes.
Pessoas a trabalharem. Lia-se: TRABALHA, OBEDECE, AGRADECE. Pousou subitamente o 
pincel e escondeu o rosto entre
as mos.
  - No te censuro - disse Maria, tentando confort-lo.
- Todos nos sentimos assim de vez em quando.
  - Porque se assenhorearam do poder desta maneira? No
haver ningum capaz de lhes dizer no? - Ergueu os olhos.
- Alguma vez te falei do meu irmo mais novo, do Rudi?
  - No. S dos teus pais e da tua irmzinha - hesitou.
- E de Inga.
  - Aquele Rudi! Fugiu. Mais corajoso do que qualquer
de ns. Agora est morto, ou talvez tenha liquidado alguns deles.
Quatro anos mais novo do que eu, mas costumava defender-me
nas lutas de rua. Penso muito nele.
  - Fico com a sensao de que tinhas uma famlia maravilhosa. Gostava de os ter 
conhecido.
  - No os voltarei e ver. Nem a Inga, diabos a levem.
No desejo v-la mais.
  Pegou-lhe na mo. Era uma mulher na casa dos quarenta,
ainda com interesse, e um corao generoso. O marido tinha sido
um lder da comunidade judaica de Bratislava. Tinham-no levado
e abatido a tiro no primeiro dia da ocupao alem. (Reside actualmente em Ramat Gan, 
perto de Telavive, e  directora de uma
escola de erte; tornmo-nos amigos.)
  - No deves conden-la, Karl, simplesmente por ser uma
alem, uma crist.
  - O motivo  outro. Levava~me cartas quando estive em
Buchenwald e recebia as minhas. Havia esse tal sargento das SS,
que ela tinha conhecido antes da guerra, um amigo de famlia.
Servia-nos de correio.
  - No  crime nenhum.
  - Fazia-lhe um preo pelos seus servios. Ela prestou-se.
  - Foi por ti, Karl. Para poder ter notcias tuas, escrever-te.
  Pelo que me contas, no tinha outro motivo.
  Karl suspirou e inclinou-se para trs.
  - O diabo, no meio disto tudo, Maria,  que foi sempre
  mais forte do que eu. Alis, queria que o fosse. E, depois...
  ceder quele sacana do Muller...
  - No s to fraco como pensas = interrompeu-o Maria
Kalova. - s um artista de talento.
  - Um borra-tintas! Um vendilho! Fui uma decepo para
os meus pais, especialmente para o pap. Eu e o Rudi. Nunca
correspondemos s expectativas que deps em ns.
  - Tenho a certeza de que vos amou muito. Tal como a Inga
  ainda te ama.

  - Devia ter dito que no a Muller.
  - No deves odi-la por isso. Quando a voltares e ver,
  e sei que voltars, deves dizer-lhe que est perdoada.
  No havia hiptese de confortar Karl:
  - Ouviste o que disse o Frey. Todos morreremos. No haver
  encontros felizes.
  - A esperana nunca morre.
  Karl levantou o cartaz que estava a acabar. Por baixo estava
um esboo a carvo, um dos desenhos secretos que os artistas
criavam no momento, histrias pictricas das terrveis condies
dos campos, da desumanidade animalesca dos alemes.
  Intitulava-se Rostos dos Guetos e resumia-se a um aglomerado
de crianas esfomeadas e de olhos cavados, estendendo os pratos
e pedindo mais comida.  um desenho fantasmagrico e aterrorizador. Vi-os em 
Theresienstadt, quando visitei o campo depois da
guerra.
  - Tem cuidado, Weiss - avisou Frey.
  - Deixa que me apanhem.
  - No s s tu que ests em causa: h muitos de ns envolvidas - retorquiu. - 
Quando te nos juntaste, mostraste-te de
acordo em conservar esse trabalho escondido e faz-lo apenas
durante a noite.
  Fitou os rostos que desenhara. Maria jura que se recorda
de o ouvir perguntar sem se dirigir especialmente a ningum:
<Rudi... onde ests, irmo?>>

  Em Julho de 1942, dispnhamos de armas suficientes para
comear incurses contra o nosso inimigo. Ou melhor, os nossos
inimigos. Grande parte da Ucrnia estava patrulhada pela milcia local. Usavam 
uniformes idnticos aos das SS, com um emblema
especial, e iniciaram energicamente o assassnio e tortura dos Judeus,
e de quem mais que os nazis achassem consistir uma ameaa para
o seu domnio da Unio Sovitica.
  Numa noite de uma humidade pegajosa, agachei-me numa
mata junto  berma da estrada que levava  cidade mais prxima,
em companhia do Tio Sasha, Yuri e mais quatro do nosso bando.
Tnhamos os rostos enegrecidos e cada um de ns estava de posse
de uma espingarda de modelo antigo.
  - Assustado? - perguntou Sasha.
  - Sim - respondi. - Nunca o estive tanto em toda a minha
vida.
  - No te deixes apanhar. Recordas-te do que te disse?
  - Torturar-me-o, obrigar-me-o a revelar o vosso esconderijo.
  - Tens razo. Mata-te, se tiveres de o fazer.
  No queria que me apanhassem; no desejava suicidar-me; e,
apesar de toda a minha fanfarronice perante Helena, a minha
insistncia de que lhes queria dar a devida conta, sentia-me
aterrorizado, interrogando-me se conseguiria matar algum. Vivia
o dio dentro de mim, um dio enorme. Descobri, porm, que
possua muito menos coragem do que a que imaginara. Naqueles
momentos de espera, verifiquei que, afinal, desprezava muito
menos aqueles judeus que vira submeterem-se pacificamente,
seguindo ordens sem protesto, de p e em silncio, junto das valas.
  - Quanto falta? - quis saber.
  - Chiu! - ordenou-me, levando um dedo aos lbios. -Estou
a ouvi-los.
  Tambm os ouvimos. Botas pisando a estrada. Um homem
a cantar. Vozes.

  - Alemes? - perguntei.
  - Milcia ucraniana - respondeu Sasha.
  - Servem-nos?
  - Queremos as armas, as balas e as botas deles, rapaz.
  Alm disso, assassinaram judeus desde que os primeiros alemes chegaram a este 
local. Sabes que os filhos da me tm um exrcito
inteiro - um exrcito - a lutarem pelos nazis?
  Senti que as mos que apertavam a coronha e o gatilho da
arma me tremiam. Dispnhamos` de to poucas munies que nem
sequer praticar ao alvo nas era possvel. Treinvamos disparando
armas vazias contra alvos de papel. E estava esfomeado. Comamos
muito pouco no campo de famlia.
  Vinham seis homens com o uniforme das SS a descerem
a estrada. Era bvio que no esperavam qualquer perigo, pois
avanavam em formao unida, um deles a cantar enquanto os
outros conversavam. Traziam as armas pendentes do ombro.
Aparentemente, um estava embriagado e era amparado por um
companheiro.
  - Fogo! - ordenou Sasha.
  Precisei de um instante para reagir. No me parecia justo.
Estvamos a mat-los da mesma maneira que matavam os Judeus.
Demasiados jogos de futebol, noes de bom desportista e ideais
de estudante, segundo a opinio de Sasha, depois de tudo passado.
  Fizemos fogo com as espingardas. Trs caram imediatamente
por terra. Um gritou e comeou a saltar sobre um p. Outro procurou abrigo e comeou 
a disparar uma metralhadora, na direco
dos arbustos onde estvamos escondidos. O ltimo desatou a fugir.
  Yuri rastejou. Ele e Sasha iniciaram um crculo para apanhar
o homem que disparava a Schmeisser. Sasha gritou na minha
direco:
  - Apanha o que vai a fugir!
  Avistei-o a ziguezaguear pela estrada, de volta  cidade.
Corria desajeitadamente, dobrado pelo peso da arma e a mochila.
As balas desenhavam clares amarelados na noite. Por sorte,
o homem da metralhadora - e que devia ser o chefe da brigada dava toda a ateno aos 
atacantes. Poderia ter-me derrubado com
um tiro no instante em que corri atrs do fugitivo.
  Tinba a certeza de que o conseguiria apanhar. Quando estava
a um metro dele - respirava dificilmente e ofegava - bati-lhe nas
costas com a coronha da espingarda. Caiu e comeou a gemer.
Puxei-o pelos ps e olhei-o. Um mido. Dezasseis anos, talvez.
Tinha um rosto corado e de lua-cheia, uma expresso estpida
e cabelo comprido da cor do trigo. Arrastei-o at junto do matagal.
O tiroteio findara. Todos os outros ucranianos estavam mortos.
Yuri e os restantes despojavam os corpos de armas, cintos de munies, botas e tudo o 
mais que achavam til.
  Desarmei o meu preso e empurrei-o na direco de Sasha.
Caiu e estendeu a mo para as minhas botas. Soluava, pronunciando frases em 
ucraniano, mas no entendi uma s palavra.
  - Leva-o para os arbustos e mata-o - ordenou Sasha.
  - Mato. . . ?
  - J te disse que sim.
  - Porqu? E um mido. No o podemos mandar de volta?
  Sasha tirou-me a espingarda.
  - Se no s capaz, eu prprio o farei. Esse cabro de merda
matou judeus como se fossem moscas. Se ficar com vida, regressar
 aldeia e voltar acompanhado das SS. Mata-o.
  Tinha razo. Estvamos numa guerra de morte. Arrastei

o jovem para os bosques, empurrei-o  minha frente e murmurei
qualquer coisa relativamente a amarr-lo. Em seguida, ergui a espingarda  altura do 
crnio e estourei-lhe os miolos.
  Tremiam-me as mos e comecei a chorar.
  Quando sa do matagal, Sasha no me prestou ateno. Gritava ordens para o grupo, 
dizendo-lhes que se apressassem.
  - Basta. Basta. No queremos as roupas interiores. S botas,
cintas e armas. Vamos embora.
  Fugimos da estrada para os bosques, mantendo-nos afastados.
Avanmos rapidamente. O campo ficava, pelo menos, a duas horas
de caminho.

  Avancei sozinho, pelo bosque escuro, cambaleando, aos tropees, sem perder de 
vista Yuri, que seguia  minha frente.
Nunca tinha morto quem quer que fosse. Claro que me vangloriara
e repetira a Helena vezes sem conto quanto desejava vingar-me.
Contudo, o espectculo dos olhos aterrorizados daquele jovem
estpido, o saber que estava morto, que no voltaria a ver o nascer
do Sol nem o rosto de uma rapariga, nem voltaria a nadar num
  lago de guas lmpidas - tudo isto me sobressaltava e me levava
  a interrogar se, na realidade, seria o vingador sedento de sangue
  que me imaginara.
  Fiquei a saber algo a meu respeito. Matar era algo indigno
  e depravado. No me habituaria a faz-lo. Matava-se para sobreviver,
  para manter a vida dos que se amava. Nada havia de bom ligado
   eliminao da vida dos outros. Aquele jovem ucraniano tinha pais,
  uma famlia, esperanas. A semelhana de milhes de ns, que,
  agora, morramos sem qualquer razo.
  Consolei-me. Eles eram assassinos conhecidos, bandidos pagos
  e impiedosos, na sua caa e morticnio dos Judeus. Deveria sentir
  uma sensao de triunfo e entusiasma dentro de mim. Contudo
  ,
no era um guerreiro como o rei David, exultando com o aniquilamento de milhares de 
pessoas. Sentia-me infeliz, com frio e vazio.
Pior ainda, pois comecei a interrogar-me se valeria a pena resistir,
se existia algo de positivo no <<campo de famlia>> de Sasha, na sua
determinada obstinao de invadir, atacar, matar. No entanto,
decidi-me pela afirmativa. Todos estvamos marcados com o estigma
da morte pelos nazis, e a morte que Sasha escolhera era prefervel
 que haviam planeado para todos os judeus a Europa.
  De volta ao campo, atirei-me exausto para a pequena cama
que partilhava com Helena e outro casal e fiquei a olhar as tbuas
do tecto.
  - Era um mido. No teria mais de dezasseis anos - voltei
a dizer.
  - No fales mais no assunto, Rudi.
  - O Yuri afirma que ele era do gnero dos que matam judeus
a troco d
  e um pedao de po.
  - Por favor. Por favor, Rudi. . . Pea-te que pares com isso.
  - Nunca matei ningum antes.
  - Tiveste de a fazer.
  - Na nuca. Estnirei-lhe os miolos. Olha, ainda tenho sangue
na tnica.
  Helena pegou num trapo molhado e comeou a esfregar
a mancha escura.
- Ter-te-ia morto. Matou centenas doutros.
  - Sim. Deveria sentir-me feliz. Danar de alegria. No entanto,

no somos como os outras. No conseguimos faz-lo e ficar felizes.
Provavelmente, depois de matarem judeus embriagam-se, danam
e fornicam.
  Mantivemo-nos alguns momentos sem falar. L fora, ouvia
Sasha, incansvel, excitado, a fazer o inventrio do resultado da
nossa incurso. O primeiro prmio coubera s metralhadoras.
Agora, j estvamos em situao de perseguir mais alguns alemes.
  - Meu querido, meu querido! - exclamava Helena. - Porque nos obrigam a viver desta 
maneira?
  - No compreendo. To-pouco aos meus pais, e, provavelmente, agora esto mortos. 
Talvez Sasha tenha a resposta. 'Talvez
seja ele o nico que compreenda. Matar ou ser morto.
  - Apenas queremos viver, Rudi. Tu prprio o disseste.
  - No basta. Para onde iremos? Quem nos querer?
  - Oh, Rudi. . . para a Palestina. Eretz Israel. Senhor e senhora
Weiss.
- Eu? A apanhar laranjas?
- Obrigar-te-ei, sou a tua mulher. Beija-me.
  g
  - Sim, s realmente.
  Abramo-nos. Beijou-me uma e outra vez, nos olhos, nariz,
ouvidos e  sco o.
  - Pomares de laranjas e cedros. Aldeias de camponeses.
E o mar azul.
  - Quase te acredito. No totalmente, mas quase.
  - Tens de me acreditar.
  Sentei-me na cama. De momento, fizera-me esquecer o jovem
que tinha morto. Fora da cabana soavam risos: judeus com armas.
Desejei ser parte deles.  curioso como todas as minhas dvidas
e receios duraram to pouco.
  - Salvaste-me a vida em Praga - retorqui. - Devo-te uma
viagem a essa grande ptria sionista de que passas a vida a falar.
  - No se trata de uma viagem, mas da nossa vida. Um stio
onde no nos possam prender, nem espancar, nem matar. To-pouco
insultar-nos.
  Fitei-lhe os olhos escuros e ligeiramente rasgados:
  - Minha pequenina e morena mulherzinha checoslovaca.
Recordas-te da primeira vez que fizemos amor em Praga? Naquele
apartamento frio?
  - No me atrapalhes, Rudi. Fazes-me sentir como. . . como
uma mulher da rua.
  - Foi maravilhoso. A melhor coisa que me aconteceu na vida.
  - Para mim tambm, Rudi.
  - De cada vez que estamos juntos, quase me sinto enlouquecer. Duas pessoas unidas 
assim. No meramente as corpos, Helena,
mas como se fssemos dois num s, no sei... Como se Deus,
a natureza, ou algo decidissem que assim fosse. A semelhana do
nascer de uma flor.
  - Eu sei, meu querido - replicou. -  por isso que nunca
morreremos. Nunca morreremos.




O DIRIO DE ERIK DORF


Berlim

Junho, 1942

  Heydrich morreu hoje. 4 de Junho de 1942.
  O meu patro, heri e dolo. O homem mais inteligente que
alguma vez conheci. Sinto-me desfeito, inconsolvel.
  H seis dias, quando percorria Praga, terroristas checas
atiraram-lhe uma bomba para debaixo do automvel.
  Ofereci-me, imediatamente, para ir de avio e estar ao seu
lado naquela hora, mas Himmler dissuadiu-me. O gabinete no
podia deixar de funcionar. Heydrich foi atingido na espinha e teve
uma morte extremamente dolorosa. Corre o boato de que, no leito
de morte, expressou um profundo acto de contrio pelas aces
cometidas.
  Himmler no perdeu tempo a punir os culpados. Mais de mil
e trezentas pessoas foram executadas em Praga e em Brno para
vingar a morte do nosso lder derrubado. E uma aldeia chamada
Lidice foi arrasada, tendo sido todos os habitantes mortos ou
metidos na priso. Goebbels (que nunca tinha sido ntimo do meu
falecido superior) mandou abater a tiro, em Berlim, cento e cinquenta e dois refns 
judeus. A partir de agora, o programa de
reintegrao dos Judeus ser conhecido como <Qzerao Reinhard>,
em sua memria.
  Senti-me to afectado por este acontecimento que durante
alguns dias no fui capaz de escrever as minhas memrias. Ainda
no nomearam o sucessor de Heydrich (qual o sapato para a sua
medida?), e com os inimigos que arranjei em vrios departamentos,
sempre protegido pelo apoio de Heydrch, estou agora preocupado
com o meu futuro.
  No dia em que atacaram Heydrich - 29 de Maio -, Marta
e eu discutimos. O ambiente em casa tem estado tenso.  dedicada,
afectuosa... mas sempre me considerou com falta de ambio.
E devo confessar que os meus apetites sexuais e as atenes para
com ela diminuram. Talvez um psiclogo fosse capaz de explicar
o facto. Contudo, tenho visto tantos corpos nus - corpos feios,
sujos, condenados, de judeus -, vivos naquele momento e mortos
e ensanguentados no minuto seguinte, que, estranhamente, me sinto
revoltado com o prprio pensamento do corpo, seja de quem for.
Ser que a vida  mais importante no plano abstracto, nos nossos
espritos e mentes? No estariam todos os venerveis santos
e eremitas, que ignoraram o corpo, muito perto de qualquer grande
verdade?
  E assim, naquela quente noite de Vero, antes de receber
a notcia, estava sentado na cama, a fumar, incapaz de dormir,
pensando naqueles cadveres empilhados, na maneira como os
judeus caam uns por cima dos outras em Minsk, Babi Yar...
centena de lugares.
  - Erik! Passa-se alguma coisa de errado -perguntou Marta,
acordando.
  - No, querida. Desculpa se te incomodei.
  - Nunca mais dormiste bem desde aquela ltima viagem que
fizeste ao Leste.
  - Tudo est a correr normalmente comigo. Apenas me sinto
um pouco cansado. Tu, minha querida,  que andas a descurar
a sade, por causa das crianas.
  - Estou bem - garantiu, apoiando a cabea no meu peito.
Um brao rodeou-me as ancas. Tive uma sensao de repulsa,
mas no me mexi.

  - No o deves esconder, Marta. Desde aquele dia no consultrio do mdico (j l vo 
uns sete anos) que sei da tua doena.
Nunca lhe deste importncia e admiro-te por isso. s mais corajosa
do que o teu marido com o seu uniforme preto e a Luger.
  - Como  possvel afirmares uma coisa dessas? Depois de
todas as misses perigosas que desempenhaste, de todas as coisas
importante que fizeste para Heydrich?
  Afastei-lhe o brao, sentei-me na beira da cama e acendi outro
cigarro.
  - Terno que a guerra esteja perdida, Marta. Talvez tenha
ficado perdida no dia em que os Americanos decidiram entrar.
A sua indstria e exrcitos acabaro connosco. Abastecero os
nossos, que no tero ,piedade de ns.
  - No. No acredito.
  -Tenho ouvido os grandes. J andam a falar de acordas:
lanar o Ocidente contra os Soviticos. No entanto, no resultar.
  - Vamos sair vitoriosos.
  - Continua a pensar assim, se te sentes melhor, querida.
No entanto, vejo perfeitamente o que est para acontecer.
  - No deves falar dessa maneira, Erik.
   uma mulher de ao.
  - Escuta-me, Marta - disse-lhe, apagando n cigarro e voltando-me na sua direco. 
Porm, logo em seguida calei-me.
  H uma semana, vira alguns dos homens de Nebe a empurrarem uma jovem judia para 
dentro de um camio de gs. Era loura,
de pele clara, mais bonita que a minha mulher. Recusara despir-se.
Tinham-lhe arrancado a roupa do corpo, depois do que lhe haviam
dado pontaps nas ndegas, como se fosse um animal, e obrigado
a entrar no carro da morte, a som de casse-tte. Durante segundos,
vi o rosto desta mulher em vez do da minha.

  - Escuta-me - continuei. - Um dia, as pessoa s podem
contar mentiras terrveis a nosso respeito. Sobre o que fizemos
na Polnia, na Rssia. Mentiras, tudo mentiras.
  - No as ouvirei.
  - Tentaro forar-te a que o faas. Quando o fizerem,
deves dizer s crianas que fui sempre um bom e honesto servidor
do Reich, que me limito a obedecer a ordens como um soldado
de combate... ordens do topo.
  - No deixarei que mintam a teu respeito.
  Nebe... Ohlendorf... Eichmann... Blobel. Os rostos desfilaram,  minha frente, 
envoltos em nvoa. Seguros de si. Sem desculpas, nem dvidas. Recebiam ordens e 
cumpriam-nas. Algum
perguntou, e brincar, ao coronel Biberstein, o nosso antigo capelo,
se alguma vez pronunciara oraes pelos judeus prestes a serem
abatidos a tiro e ele respondeu, com um olhar jovial: No se
atiram prolas a porcos.>>
  Desejava falar-lhe dos meus camaradas, mas s consegui
pronunciar algumas frases, sem nexo, a propsito das fanfarronices
de Hans Frank, quanto a encarregar-se da morte de milhes, e de
Hoess, que cumpria devotamente ordens constituindo essa fbrica
de execuo em Auschwitz.
  - Tambm deves cumprir o teu dever.  assim que se vai
subindo a escada.
  - Sim, claro. O Hoess. Um indivduo incrvel! Passou oito
  anos na cadeia, por assassnio. No interesse do partido, evidente  mente. Foi 
educado por judeus. Adora a mulher, os filhos,  naturalista, gosta de animais. A 
imagem do alemo ideal. E, no entanto,
  o que est e fazer agora...

  - Pra. No quero ouvir falar deles. s melhor que todos.
  s uma pessoa educada, requintada, inteligente. Mesmo melhor
  do que os que se encontram no topo!

  De sbito, comecei a tremer e pedi-lhe que se agarrasse.
  Ficmos abraados na cama, durante uns minutos. Parecia sexualmente excitada, mas 
no me sentia cap de responder.
  - Oh, Erik! Meu querido! Ests a tremer.
  - Abraa-me, Marta.
  - Nunca deves duvidar de ti. Nunca ponhas em dvida o que
ests a fazer. 
  O que sabe ela do meu trabalho? Algumas das nossas mulheres
esto a par de tudo. A de Hoess vive mesmo em Auschwitz.
Outras mantm-se no papel de Hausfrau' ignorante-igreja,
cozinha, filhos - e no fazem perguntas.
  Nesse momento tocou o telefone. Era do gabinete de Heydrich,
com a notcia de que fora gravemente ferido num atentado de morte
e se encontrava internado num hospital de Praga. Necessitavam
da minha presena imediata na sede.
  Esperava que Marta chorasse ou gritasse, mas em vez disso
agarrou-me pelos ombros e pediu:
  - Mostra-te agressivo e corajoso.  a tua oportunidade.
  Nada disse, enquanto me vestia. Recusava-me a acreditar que
Heydrich morresse. No aquele homem imaginativo e dinmico!
  - Podes suceder-lhe - exclamou Marta.

  Hitler chama <<uma batalha perdida>>  morte de Heydrich.
Contudo, h suspeitas de que no ntimo o Reichsfhrer Himmler
se sente aliviado. Foi Himmler quem pronunciou a elegia no funeral,
e no se poupou a elogios. Chamou-lhe nobre, digno, um mestre,
um educador. Seguiu o caixo, logo atrs da viva de Heydrich,
levando-lhe os filhos pela mo. Pressupostamente, Himmler confessou mais tarde a 
algum que se <<sentiu um pouco deslocado
com dois mestios pela mo>> - uma referncia aos boatos do
sangue judeu de Heydrich.
  E, agora, no tenho protector nem patro. Em muitos crculos
pensava-se que, quando a guerra acabasse e na altura em que Hitler
estivesse pronto para se retirar, Heydrich teria sido o seu sucessor
lgico - to superior, a nvel criativo e de imaginao, era ele em
comparao com os outros. Presentemente, tudo isso recebeu ponto
final. E temo que para a Alemanha seja igualmente um ponto final.

' Hausfrau: dona de casa. (N. da T.)

A HISTRIA DE RLTDI WEISS


  A Organizao de Luta Judia ia-se formando a pouco e pouco
em Varsvia.
  O meu tio Moses encontrava-se agora profundamente implicado. Era um dos mais 
velhos, no incio dos cinquenta, sem se
mostrar muito audacioso, possuidor de um tipo de humor calmo,
mas apostando tudo juntamente com os mais novos, os sionistas
e os activistas polticos: O meu pai, que no se abria muito com
a minha me, tambm fornecia o seu apoio aos lutadores da
Resistncia.
  Em pginas anteriores desta narrativa j mencionei um rapaz
chamado Aaron Feldman, um estudante da minha me na escola

do gueto. Este mido, com cerca de treze anos, pequeno e destemido, tinha sido um 
contrabandista dos melhores e tambm agora
aderia  Resistncia. O seu conhecimento das tneis, passagens
e buracos no muro, bem como dos horrios e temperamentos de
vrios guardas - polcia do gueto, polcia polaca e das SS -,
provou-se de uma extrema utilidade.
  A Resistncia precisava de armas acima de tudo. E, portanto,
estabeleceu-se contacto com grupos polacos da Resistncia que
lutavam do outro lado do muro, com vista a obter a sua ajuda.
  O tio Moses ofereceu-se como voluntrio para acompanhar
o jovem Feldman ao lado <<ariano>>, a fim de comprar as primeiras
armas, depois de j ter estabelecido contactos por mensagens.
(Se se fosse apanhado fora do muro, a punio consistia em morte
imediata por um peloto de fuzilamento.)
  Moses levou um pacote de medicamentos - a sua desculpa
seria a de andar, numa misso de caridade, a distribuir produtos
farmacuticos a amigos gravemente doentes. No seria o suficiente
para o salvar, mas era melhor uma desculpa do que nenhuma.
  O meu pai tentou dissuadi-lo:
  - s velho de mais para isso.
  - Velho de mais para quase tudo - retorquiu Moses.
- Se falhar, a nica perda ser para a farmcia.
  - Partam - ordenou Zalrzan.
  E Moses perdeu-se na noite, acompanhado do mido.
  Subiram escadas, andaram por telhados, desceram escadas,
esconderam-se atrs de caixotes do lixo, A certa altura, pararam,
enquanto a carroa diria da morte passava - uma espcie de
tarimba carregada com uma dzia de cadveres esquelticos.
A comida estava a faltar. As pessoas tratavam de si prprias.
Quem as poderia culpar? Os Alemes haviam aprisionado meio
milho de pessoas na zona de Varsvia, destinada a vinte e cinco mil.
Viviam cerca de dez num quarto, apanhavam tifo e clera uns
dos outros, e aguardavam a morte.
  Aaron sabia exactamente como evitar um polcia que fazia
a ronda, qual o esconderijo seguinte - um celeiro, uma cabana
abandonada ou um monte de lixo - a utilizar.
  Por fim, pediu a Moses que o ajudasse a remover uma enorme
pedra do pavimento de um caminho lateral e, em seguida, uma outra.
Dificilmente havia espao para se introduzirem. Voltaram a colocar
as pedras no mesmo stio. Moses riscou um fsforo e verificou que
estavam num tnel. Prosseguiram cerca de dez minutos, e Moses
apercebeu-se de que passavam por debaixo do infame muro, para
o distrito cristo da Polnia. Uma vez, o mido deu a sensao
de se ter perdido, pareceu confuso, e IIoses (segundo contou
posteriormente a Eva) teve a impresso de que iam sufocar no tnel
ou vagabundear, ao acaso, at morrerem de fome. No entanto,
Aaron parou subitamente e apontou para uma tampa de metal
ferrujenta.
  - Para cima - disse o mido. - Levanta-se. Empurre.
  Ambos fizeram fora contra a tampa metlica, que se ergueu
lentamente no alto do tnel. Moses no teve dvidas de que
o mido se servira frequentemente desta passagem.
  Com um rudo que aterrorizou o meu tio, a tampa foi posta
de lado e os dois saram para uma rua empedrada. Estavam fora
das paredes do gueto.
  - O outro lado! - exclamou Moses. - Presumo que j aqui
estiveste muitas vezes.
  Contudo, o rapaz nem o ouvia. Com um sexto sentido, que

tambm possuo devido aos muitos anos de fuga, puxou pela manga
de Moses e arrastou-o para a entrada de um edifcio. Esconderam-se, ao abrigo das 
trevas. Um segundo mais tarde, um carro-patrulha
das SS passou lentamente, enquanto os soldados inundavam de luz
ombreiras, passeios, lojas. Em seguida, afastou-se.
  - Como sabias que vinham a? - perguntou Moses.
  - Sinto-lhes o cheiro.
  O meu tio no sabia se tomar ou no a srio a frase de Aaron.
  Mais becos, ruas, passagens sombrias e esconderijos. E, por
fim, um edifcio de apartamentos. Aaron levou-o para a entrada,
desceram um lance de escadas e ;pararam diante de uma porta
da cave.
  Bateu quatro vezes.
  A porta abriu-se e um jovem polaco, de que o meu tio se
recordava como activista em grupos patriticas, franqueou-lhes
a passagem. Chamava-se Anton, Havia um outro homem, mais
velho, no quarto e cujo nome Eva no se consegue lembrar.
  - Voc  o Anton - disse o tio Moses.
  - Exacto. No quero saber quem . Mas a ele conheo-retorquiu, indicando o mido de 
orelhas grandes e vestido com
um casaco grande de mais. - Tenho-o visto por aqui.
  - Sim. Ele conhece bem estas bandas - concordou Moses.
- Bom. Aqui est o dinheiro - acrescentou, entregando a Anton
um volumoso sobrescrito.
  Anton contou o dinheiro. Em seguida, recebeu uma caixa de
madeira das mos do companheiro e colocou-a em cima da mesa.
  Moses ergueu a tampa. L dentro estava um nico revlver,
uma arma de fogo de aparncia antiga.
  - Disseram-me que tinha uma dzia - retorquiu o meu tio.
  - Uma arma. O mximo que nos  possvel.
  - Dei-lhe o dinheiro de doze.
  - Ficamos a dever-lhe as restantes - replicou Anton.
  - No  justo. Devolva-me o resto do dinheiro. Tnhamos
um contrato.
  - Continuamos a t-lo. Se no quiser a arma, deixe-a.
A minha palavra  vlida. Quando tivermos mais armas,
receb-las-o.
  Moses sabia que no lhe restava alternativa. Ergueu os braos,
desesperado:
  - Porque no nos ajudam mais? Temos um inimigo comum.
Os Alemes no fizeram segredo dos planos que fazem a vosso
respeito. Sero seus escravos. Esto apenas um ,n acima dos Judeus.
Sei que nunca gostaram muito de ns. Mas nas actuais circunstncias. . .
  Anton no pronunciou palavra.
  Aaron puxou pela manga de Moses como a comunicar-lhe:
  - Daqui no levaremos mais nada. Vamos embora.
  - Ajudar-vos-emos a lutar contra os Alemes - implorou
Moses. - Se nos unirmos, seremos capazes de os repelir, de ajudar
os Aliados.
  Anton deitou-lhe um olhar quase de piedade.
  - Mas os Judeus no lutam - observou o polaco. - Sabe
bem que  verdade. Sabem como ganhar dinheiro, dirigir negcios,
rezam muito. No entanto, no lutam.
  - A partir de agora, lutaremos - garantiu Aaron. - Vero.
  O polaco fez-lhe uma festa na cabea - o primeiro indcio
de humanidade que Moses lhe observava.
  O polaco mais velho pronunciou-se:
  - Vo-se embora. Os dois. Quanto mais tempo ficarem,

mais riscos corremos.
  Voltaram ao gueto por onde tinham vindo, em constante
perigo de vida. Contudo, Aaron conhecia os caminhos secretos
e chegaram  sede do seu movimento com aquela simples arma.

  Alguns dias mais tarde, Mordechai Anelevitz reuniu um grupo
de membros da Resistncia no seu quartel-general secreto. Os mais
importantes que se encontravam presentes eram os jovens sionistas:
rapazes e raparigas prximos dos vinte.
  Os mais velhas - o tio Moses, o meu pai, Zalman, Eva - ficaram sentados junto da 
parede a observar. O prprio Anelevitz
era um sionista devoto e fora, durante muitos anos, lder de um
grupo chamado Hashomer Hatzair. Contudo, agora no se
interessava pela poltica de ningum. Queria treinar soldados,
combatentes.
  Com uma nica arma.
  Ps-se em frente dos jovens e mostrou-lhe o funcionamento
da erma. Gatilho. Cano. Cmara.
  - Quem quer ser o primeiro? - perguntou, voltando-se para
os rapazes e as raparigas.
  Um rapaz avanou. No tinha mais de dezasseis anos.
  - Podia ser o Rudi - recorda-se Eva de ter ouvido o meu
pai dizer.
  Na parede havia um recorte de papel de um soldado alemo
- capacete redondo, tnica e uma enorme cruz sustica.
  Anelevitz rodou o rapaz na direco do alvo e meteu-lhe
o revlver na mo:
  - Olha ao longo do cano. Deves centrar a vista entre o V
e apontar essa mira para o alvo.
  O rapaz estendeu o brao.
  -Respira fundo e agarra-o bem-ordenou Anelevitz.
- Depois, no puxes o gatilho com fora, mas lentamente, como se
no soubesses quando ir disparar.
  O rapaz seguiu as instrues. Toos o observavam. Puxou
o gatilho e, evidentemente, s se ouviu o estalido. No dispunham
de um nico cartucho de munies.
  Contudo, todos aplaudiram e riram.
  O tio Moses comentou para o meu pai:
  - Aqui tens um exrcito judeu. Uma arma sem balas e uma
srie de opinies.
  - E um comeo - retorquiu o meu pai.
O DIRIO DE ERIK DORF

Auschwitz
Outubro, 1942

  Desde a morte de Heydrich, encontro-me praticamente numa
situao suspeita. Himmler, com receio de arranjar outro rival,
no nomeou um sucessor, e est a tentar dirigir tudo sem ajuda
- os transportes, os campos de trabalho, as novas instalaes.
  Hoje estive em Auschwitz, a antiga cidade polaca de Osweicim.
Ser a principal arena para a soluo final. Fica ,perto de uma juno
de linhas frreas, numa estao importante. Est rodeada de florestas. H muitos 
guetos judeus nas proximidades. E em volta
todo um complexo de fbricas de armamento blico - I.G. Farben,
Siemens e outras.
  Rudolf Hoess, o comandante, escutava atentamente, enquanto
Himmler desenrolava um enorme mapa diagrmico e lhe explicava

o que pretendia.
  - Auschwitz ser duplicada em tamanho. E estes novos
sistemas imediatamente expandidos.
  Os sistemas so engenhosos - uma zona de espera, amplas
divises de mosaicos para a execuo do acto, mecanismos transportadores dos corpos 
para as fornalhas. J se encontram, como
 bvio, em funcionamento, se bem que em pequena escala.
  - De onde vir a mo-de-obra? - inquiriu Hoess.
  - Receber mais mo-de-obra do que a que ter capacidade
de dirigir. H que instituir um processo de seleco. Os judeus
que aparentarem capacidade de trabalho podem ser poupados
e colocados na limpeza, na manuteno dos sanitrios, etc.
Os inteis, os velhos, os doentes, os aleijados e as crianas podem
ser enviados directamente da estao de caminho de ferro para
a fbrica de despiolhagem.
  Trata-se de outro dos nossos eufemismos. Despiolhamento
significa uma coisa totalmente diversa.
  - Terei de entrar em discusso com as I.G. Farben, a nvel
de operariado - declarou Hoess.
  - Obedecero a ordens dadas. Este trabalho tem prioridade
sabre qualquer processo de manufactura.
  - Mesmo o de material blico? - retorquiu.
  - Sim. Eichmann utiliza-se regularmente de comboios do
Exrcito para transportes e o Exrcito no levanta objeces.
  - Estamos a seguir um destino elevado, Hoess - declarou
o Reichsfhrer. - Algo que a Providncia, Deus ou a Histria
nos destinou. Informaram-me de que a sua famlia desejava que
tivesse seguido a carreira eclesistica; portanto, dever entender isto.
  - No o desapontarei. Desde a infncia, Reichs fhrer, que me
ensinaram a obedecer.
  Falaram da morte de Heydrich, da trgica perda para o partido. Todos concordaram 
que uma aperao eficaz e produtiva de
uma Auschwitz alargada, juntamente com os centros de Chelmno,
Belzeko, Treblinka e Sobibor, seriam monumentos  altura daquele
grande homem.
  Himmler ergueu subitamente os olhos do enorme mapa
e dos diagramas pousados em cima da mesa. O nariz tremia-lhe
como o de um coelho e as lunetas, tipo professor, escorregaram-lhe.
  - Este cheiro que vem das chamins! - exclamou. - Veja
se consegue tomar algumas medidas, Hoess. Apesar da nobreza da
nossa misso, no a queremos divulgada.  apenas para nosso
conhecimento.
  Senti-me tentado a rir. Como era possvel exterminar onze
milhes de p e s s o a s - como Hitler e Himmler ordenara-me manter o facto em 
segredo?

A HISTRIA DE RUDI 'WEISS

  Inga perdeu novamente o rasto a Karl. Sabia que estava em
  Theresienstadt, o chamado <<gueto-paraso, em Praga, mas no
tinha hiptese de contactar com ele.
  Quando esteve em Berlim, recusou-se a comunicar com Muller
  ou a v-lo. Muller vangloriava-se de que fora essencial em conseguir
  o envio de Karl para a Checoslovquia, para o que designava como
  uma <<estncia de frias>> para judeus; no entanto, no tinha de
momento possibilidades de lhe fazer chegar correio s mos.
  Inga no mais daria o corpo a Muller, um indivduo que detestava.
  Nas suas visitas a Berlim ia, porm, invariavelmente a casa

dela, implorava-lhe, fazia-lhe juras de amor, e sempre que se lhe
tentava furtar seguia-a at  rua.
  Um dia, quando ia a entrar na Catedral de Santa Hedviges
- no era uma crist praticante mas sentia necessidade de falar
com o padre Lichtenberg -, Muller abordou-a.
  - Disse-lhe para no vir atrs de mim - acusou.
  - Apenas tento ajudar. As oraes no servem de nada.
  Odiava-o. Inga era, no entanto, uma mulher decidida e cheia
de recursos:
  - O que poder servir? Conseguir arrancar o Karl ao outro
campo?
  - No. No lhe quero mentir - respondeu, pegando-lhe na
mo. - Amo-a. Tenho direito ao seu amor.
  - Largue-me.
  - Pode divorciar-se dele.  um inimigo do Reich. Nada valer
quando o soltarem de Theresienstadt, se  que isso alguma vez
vir a acontecer.  uma crist, uma ariana e pode ver-se livre dele
agora. Escute-me bem. Desde aquelas vezes na caserna... que no
consigo deixar de pensar em si. Amo-a.
  - Afaste-se de mim - ordenou, esforando-se por se libertar. - No volte a 
aproximar-se de mim.
  - Costumava implorar-me que lhe levasse as suas cartas.
Chegou a minha vez de implorar.
  - Odeio-o - retorquiu Inga. - Odeio-vos a todos. So incapazes de amor. Apenas 
conhecem a brutalidade e como infligir dor.
Tm prazer nisso. E o pior  que nos deixmos vencer sem lutar.
Uma nao inteira, a minha nao, com o prazer de ferir pessoas,
de espalhar a dor e a morte. Sou to diablica como voc, Muller.
  - Nada disso. Estamos em guerra. Claro que  uma crueldade. As pessoas sofrem. Nada 
tinha contra o Karl. pessoalmente,
nada tenho contra as Judeus.
  - Deixe-me em paz. V-se embora.
  Entrou na catedral. Muller observou-a nas no a seguiu.
Ficou  espera.
  Como atrs mencionei, Inga no era uma praticante regular.
Tal como Karl, no ;professava qualquer tipo de religio. Contudo,
recordara-se dos sermes que o padre Lichtenberg pronunciara
h dois anos e interrogou-se sobre se e poderia ajudar.
  Foi encontrar l dentro o velho sacristo, de que se recordava
de h anos atrs. Acendia velas. Estava escuro.
  - Que deseja, senhora? - perguntou.
  - O padre Lichtenberg est?
  - Oh, no. O padre partiu.
  - Partiu?
  - Sim. Levaram-no.
  - Levaram-no?
  - Gestapo - sussurrou. - Avisaram-no que deixasse de falar
dos Judeus. No era da sua conta. Revistaram-lhe o quarto e descobriram sermes que 
tencionava pronunciar sobre os Judeus,
nos quais dizia que no os deviam fazer sofrer.
  - Para onde o levaram?
  - Um local chamado Dachau.
  - Oh, meu Deus! Aquele bom homem!
  O sacristo virou costas, como se o assunto estive esse encerrado, continuando a 
acender velas e a falar num sussurro:
  - Eu prprio o avisei, mas insistia que algum tinha de se
referir ao assunto. Mas porqu ele? Outros padres e pastores foram mais espertos. 
Conservaram a boca fechada. At ouvi dizer que,

  em Brema, esto a inaugurar igrejas dedicadas ao Fhrer. E no
   segredo que todos rezamos pata que o Exrcito derrote os bolche  vistas. Sendo 
assim, porque no esquecer esta questo dos Judeus?
  Inga deteve-se em frente do altar, ajoelhou-se e benzeu-se.
  Diante dela, e de cada lado, estavam penduradas duas fotografias:
  uma do padre Bernard Lichtenberg e outra do papa Pio XII.
  Muller ainda no se fora embora.
  - Posso acompanh-la a casa? - perguntou. - Talvez depois
  de ter rezado se sinta mais compreensiva em relao a mim.
  Segundo Inga me contou mais tarde, a ideia surgiu-lhe, subitamente, com a 
velocidade de um raio. Tal como o corajoso padre
pudera sofrer o destino dos Judeus, tambm ela seria capaz.
  - Pode fazer mais do que acompanhar-me a casa - respondeu.
  - ptimo. Se  isto o que a Igreja faz pelos crentes, talvez
um dia me venha a converter.
  - No queria dizer o que est a pensar.
  - Sabe perfeitamente o que sinto por si, minha querida
Inga. Estou disposto a fazer o que quiser.
  - Denuncie-me - pediu parando. - Entregue-me  Gestapo.
Tem mil argumentos: difamao do Fhrer, ajuda aos Judeus,
divulgao de mentiras quanto aos esforos blicos.
  - Ser metida na priso.
  -  isso o que desejo. Quero que me mandem para Theresienstadt. Sei que existe l 
uma seco para presos cristos e que
nem todos so judeus.
  Muller deteve-se, como se lhe tivessem batido com um tijolo
na cabea. No conseguia entender a profunda impresso que lhe
causara o destino do padre Lichtenberg. A ideia surgira-lhe praticamente de imediato. 
Alguns cristos teriam de fazer frente,
de demonstrar que apoiavam os Judeus. Pensou naquele padre
generoso, grisalho e inteligente, metido num campo de concentrao, apenas por vier a 
sua f tal como a via, por pronunciar
palavras caritativas. Faria o mesmo.
Sem Karl, a sua vida tornara-se insuportvel. Agora estava
realmente s. No tinha hiptese de comunicao com a famlia.
Tornara-se um ser mecanizado e indiferente - casa, emprego,
compras, dormir. Uma vida sem amor - mesmo num acampamento
prisional - seria prefervel  vida que levava naquele momento.
  - Lichtenberg era um velho insensato - observou Muller.
- Est a agir da mesma maneira disparatada. Aviso-a, Inga, de que
o melhor desses campos, como  o caso de Theresienstadt, no  um
jardim florido. Tambm l adoecem e morrem de fome. Ficar com
um estigma pior do que se fosse judia.
  - No me importo. J tomei a minha deciso.
  - Est disposta a abdicar da sua liberdade por Karl Weiss?
  - Estou.
  Muller ainda tentou agarr-la pela cintura uma vez mais,
mas, ao ver-se repelido, desistiu. No pronunciou palavra. Limitou-se a olh-la e a 
fazer um aceno de concordncia.




O DIRIO DE ERIK DORF


Hamburgo
Janeiro, 1943

  Recebo ordens do meu novo chefe, Ernest Kaltenbrunner,
que foi nomeado para o lugar de Heydrich. Mandaram-me para aqui
numa misso da mais alta importncia.
  Hoess est a construir Auschwitz a toda a pressa, transformando-a no maior centro 
do gnero em todo o Mundo. No me
refiro aos habituais aquartelamentos, fbricas, oficinas e cozinhas.
Refiro-me aos centros de tratamento especial. (Poderia dar-lhe
o seu verdadeiro nome: fbricas para assassnio em massa.)
  Alm das antigas cmaras ,provisrias e de capacidade limitada,
Hoess mandou construir dois anexos enormes, dispondo de ante
cmaras, de cmaras de gs propriamente ditas e os crematrios
para a fase final. A famosa empresa de construes Topf, especializada no fabrico de 
foges, est encarregada da instalao dos crematrios. As mais importantes empresas 
privadas e firmas de projectos esto a auxiliar Hoess neste seu trabalho, e, posso 
acrescentar,
  com lucros elevados.
  Tenho visto diagramas e planos. O mais impressionante  e
  cmara subterrnea, ou Leichenkeller, equipada com elevador
  elctrico para transportar os cadveres para a fornalha.
  Hoess denota a maior preocupao em manter os curiosos
  - polacos, gente local, pessoas estranhas ao servio - afastados
  destas unidades. Por esse motivo, mandou erguer uma bonita
  <<sebe ajardinada>>, de rvores enormes, em seu redor.
  Continua, porm, e existir uma barreira muito concreta
quanto ao desenvolvimento da soluo final.
  Diz respeito ao agente actuante. O monxido de carvo est
a provar-se ineficaz. Demora tempo demasiado. Os corpos ficam
muito mutilados, dificultando o rapar das cabeas e a extraco
do ouro.
  Enviaram-me, assim,  firma hamburguesa Tesch 8z Stabenow,
a fim de procurar algo mais eficaz. Tem-se procedido a experincias,
numa base limitada, por intermdio de um agente chamado Zyklon B, composto, na maior 
parte, de cianeto de hidrognio, que
 um produto de utilizao simples.
  O senhor Bruno Tesch levou-me ao seu pequeno laboratrio,
explicando, ao entrarmos, que a sua firma  em grande parte retalhista e 
distribuidora e que um amplo cartel, chamado Degesh
e constitudo por vrias empresas privadas,  de facto o fabricante
do material, tendo desenvolvido a sua utilizao na fumigao em
grande escala contra ratos, piolhos e outros parasitas.
  Avanmos, ao longo de cadinhos, retortas e queimadores
Bunsen, por entre qumicos de bata branca. Tesch informou-me
de que o Zyklon B tem uma base de cido prssico. Ergueu uma
lata do tamanho de uma embalagem de tomate, explicando que
tinha de se conservar selada, no s devido ao seu carcter letal
mas porque se vaporizava mal entrava em contacto com a atmosfera.
  Perguntei-lhe, num tom categrico, se j tinham feito testes
com humanos. Tesch no deu uma resposta concreta, observando
que eu deveria saber. Ele no passava de um industrial. Insisti,
servindo-me das informaes recolhidas no Departamento de
Higiene das SS. No era verdade que tinham morrido pessoas,
numa agonia terrvel, durante os testes? De novo, negou qualquer
conhecimento a esse respeito. Apenas podia recomendar o ,produto
como seguro, rpido, letal e utilizvel sem maquinaria, tal como
um motor diesel na produo de monxido de carvo.
  Perguntei-lhe o que o levava a mencionar o monxido de
carvo e respondeu que ouvira boatos. Nada de positivo, assegurou;

apenas boatos. Agitei e lata algumas vezes. Parecia-me to inofensiva como uma 
embalagem de leo de amendoim.
  Em seguida, fiz-lhe uma encomenda. Os documentos de embarque deveriam especificar 
que se destinava <<apenas a desinfeco>>.
A carga deveria seguir para o nosso <<Departamento de Higiene>>,
em Berlim. Compreendeu.
  Parou junto de uma mesa com um tampo de pedra cinzenta
e mostrou-me um prato Petri coberto com uma campnula de vidro.
Estava interessado em ver como actuava? Respondi afirmativamente. Mas no haveria 
perigo? No, respondeu Tesch. Era apenas
um cristal que se dissolveria na atmosfera. Alm disso, tinha aberto
a janela.
  Tesch ergueu a campnula. Do gro pequeno e azul desprenderam-se vapores cinzentos, 
que encheram o ar de um cheiro intenso
e acre. Levei um leno ao nariz.



  Berlim
  Janeiro, 1943
  Haje, Hoess veio ao nosso quartel-general queixar-se de que
no era justo afastarem-no da misso depois de todo o trabalho
com que o sobrecarregramos. No entanto, mostrou-se satisfeito
com o meu relatrio sobre o Zyklo B.
  Mostrou-me fotografias do interior de uma cmara tpica
-cabeas de chuveiro (falsas), torneiras, canos, paredes de
mosaicos. L fora, indicativos como CASA DE BANHO - DESPIOLHAGEM.
  Explicou as diferenas entre as quatro cmaras, as duas subterrneas, com toda a 
complicada maquinaria, e as duas cmaras
superiores. Havia aberturas no telhado, ou de lado, por onde se
introduziriam os tubos de cianeto.
  Sugeri-lhe que talvez fosse boa ideia colocar um pequeno
postigo em cada uma das cmaras. Caso contrrio, como saber
o que se estava a passar? Concordou.
  Elaborara planos para os seus enormes motores diesei no
local e, de facto, j estavam a <<remodelar-se> milhares com o sistema do monxido de 
carbono. Comuniquei-lhe que j no seriam
necessrios. Eram pouco prticos e ineficazes e descobrramos um
processo melhor.
  Hoess, sempre obediente, fez um aceno de concordncia.
  - Acho conveniente mandar. vir um carregamento. Auschwitz, Sobibor, Chelmno, 
Maidanek, Treblinka no demoraro
a entrar em plena actividade.
  Tomei nota. Um fornecimento abundante constituiria um
problema. Tesch informou-me de que o Zyklon B tinha uma durabilidade - mesmo quando 
enlatado - de apenas trs meses.
 inconcebvel armazenar material intil. Tornar-se-, assim,
necessrio um fornecimento ininterrupto do agente, um sistema
que permita aos centros estarem munidos de gs utilizvel.
  Enquanto tentava resolver mentalmente este problema
- talvez a soluo residisse num depsito de abastecimento central
no Departamento de Higiene das SS - Ernst Keltenbrunner entrou
no meu gabinete.
   um homem corpulento, com cerca de um metro e oitenta
de altura, um rosto cheio de cicatrizes, no devido a um duelo
ou combate mas a um acidente de automvel. Ignoro o que levou
Himmler a design-lo como sucessor de um indivduo intelectual
e criativo como era Heydrich. Kaltenbrunner foi, de facto, advogado, mas falta-lhe 
requinte e subtileza.  um homem que receio.

- Dorf. Hoess - cumprimentou, olhando para as fotografias
que Hoess trouxera.
  - O major Hoess e eu temos estado a rever os problemas
de tratamento especial, general - esclareci.
  - Tratamento especial! - riu Kaltenbrunner. - Deus do cu
  ,
Dorf! Quando aceitei o cargo, avisaram-me de que tinha um mestre
de retrica no meu pessoal. Est a referir-se aos centros de aniquilamento, no?
  - Evidentemente, senhor.
  - No se importa de nos deixar ss uns momentos, Hoess? - pediu.
  Hoess fez a saudao, pegou nas fotografias e nos diagramas
e saiu.
  Kaltenbrunner trouxera um objecto bastante curioso para
o meu gabinete. Dificilmente se poderia definir como o tipo de
pessoa sensvel, mas, pela aparncia, tratava-se de uma ;pasta com
desenhos.
  Sorriu-me - o sorriso de um urso polar, de um tubaro.
  - J se deve ter apercebido de que sou bem diferente daquele
mestio tocador de violino para quem trabalhou.
  Respondi-lhe que estava a ser injusto para com a memria
de Heydrich.
  - Oh, que se foda! Est morto. Jesus! E todas aquelas baboseiras que pronunciou  
hora da morte. Perdo pelo que fizera
aos Judeus. Tambm ele era judeu.
  - Estava em coma. Foi atingido na espinha. Delirava.
  - No se incomode a defend-lo. Preocupe-se consigo.
  Qual a verdade sobre Heydrich? Foi um enigma muito maior
do que alguma vez saberei. Ser verdade, como alguns afirmam,
que viveu apenas para <<matar o judeu que nele existia>>? Quem
conhece a verdade? J no interessa. Estamos afundados em sangue
at aos joelhos. Qualquer hesitao, qualquer falha, daro a entender - como as 
pressupostas declaraes de Heydrich no leito de
morte - de que duvidamos da justia da nossa misso.
  Kaltenbrunner aterroriza-me tanto quanto preciso dele! Fao
parte da causa, da grande campanha para transformar a Europa,
  da <<santa cruzada>>. A lisonja levou-me lange no caso de Heydrich.
  Tentei utilizar o mesmo processo com este gigante horrvel.
  - Porque havia de me preocupar? A misso est a ser cumprida, graas ao maravilhoso 
esforo que desenvolveu. Os guetos
esto a diminuir. Os novos campos preparados para comearem
a funcionar em larga escala.
  - Deixe-se de tagarelices - retorquiu, erguendo o dedo,
do taznanho de uma salsicha, na minha direco. - Est na lista
negra, Dorf. Consultei as cartas do seu processo. O seu pai pode
ter sido um <<vermelho>>.
  - Fizeram investigaes e fiquei limpo.
  - Blobel, Nebe e alguns dos outros queixam-se de si. Muito
esquemtico. Informador.
  No pronunciei palavra. De que serve lutar contra mentirosos? Tambm eles esto com 
problemas. Os Einsatzgruppen
andam a ser substitudos por um programa mais completo e rrido.
  Kaltenbrunner deixou pender o assunto. Em seguida, abriu
a pasta pousada em cima da secretria e, com as mos enormes
  ,
espalhou cinco desenhos a carvo e lpis no tampo.
  - O que se h-de fazer disto, com os diabos? - explodiu.

  Examinei os desenhos. Eram obviamente originais. No estavam assinados. E tinham 
sido feitos por profissionais, homens
com talento.
  Tinham ttulos e tratava-se, obviamente, de representaes
da vida dentro dos nossos campos. O estilo era atemorizante,
satrico, assemelhando-se ao de George Grosz na fase mais deprimente, imagens cheias 
de amargura e de raiva, distores da condio humana.
  Enquanto estudava cada trabalho, lia os ttulos. A Espera
do Fim. Velhos. E este? Castigo de Rotina. Era o desenho de uma
forca, com quatro judeus pendurados da trave principal. Os guardas
das SS, representados como criaturas gordas e simiescas, observavam o espectculo com 
esgares.
  Havia um chamado A Raa Superior. Mais humanides
  ,
de aspecto repelente. Um outro, Crianas do Gueto midos de olhos onde pairavam a 
fome e o medo. E um intitulado Chamada. Um mar
bastante aterrorizador de pessoas que se mantinham de p, como
que cobertas por uma nuvem enorme, enquanto guardas das SS
passavam revista.
  - Um dos nossos agentes descobriu-os em Praga - declarou
Kaltenbrunner. - S nos faltava que a Cruz Vermelha visse essa
sujeira.
  Entendia perfeitamente a sua preocupao. Vendemos ao
mundo, com grande dispndio e esforo, a imagem de Theresienstadt como um belo local, 
uma estncia de frias para judeus.
Recentemente, um dos nossas melhores realizadores de documentrios rodou um filme 
intitulado O Fhrer D Uirca Cidade aos
Judeus. Era soberbo: mulheres judias felizes e sorridentes nas lojas
de modas, orquestras judias, uma padaria de onde praticamente
se podia sentir o aroma a po fresco, competies desportivas,
tudo isto enquadrado num cenrio maravilhoso. Destina-se a convencer os poucos judeus 
que restam na Alemanha - refns ricos
  ,
<<Vips>>, veteranos de guerra condecorados - a oferecerem-se,
voluntariamente, para Theresienstadt. E o mais importante ainda
consiste em ser uma comprovao para os que tm vindo a protestar em relao ao nosso 
pressuposto mau tratamento dos judeus.
  Contudo, este tipo de propaganda de horror, estes malditos
desenhos podem destruir todos os nossos esforos nesse sentido,
caso sejam postos em circulao.
  - Quero que v  Checoslovquia, Dorf, e se ponha em
contacto com Eichmann - disse Kaltenbrunner. - Os dois sero
capazes, sem dvida, de descobrir quem desenhou esta merda.
  - Garanto-lhe que descobrirei, senhor.
  - Ser melhor para si. - A sua figura, semelhante  de um
ogre, dobrava-se sobre a secretria, examinando irritadamente os
desenhos. - Se estes filhos da me desenharam cinco,  muito
provvel que tenham feito cinquenta. Talvez tencionem assar
clandestinamente esta coisa e dar cabo do nosso trabalho.
  - Posso levar estes comigo? - perguntei.
  -- Pode. E descubra quem os desenhou, Dorf. Caso contrrio,
voltarei a debruar-me sobre o seu processo.

  Saudei-o, tentando dissimular o medo que sentia.
  Quando sa, comeou a censurar Hoess por no actuar com
a rapidez necessria em Auschwitz.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Karl era actualmente membro de corpo e alma da <<cabala
dos artistas em Theresienstadt. 

  Todas as noites, depois de corridas as persianas, ele, Felsher
Frey e alguns outros trabalhavam na produo de um terrvel
registo, a lpis, carvo e aguarelas, de como era a vida naquele
buraco pestilento. Sabiam do filme mentiroso que os nazis tinham
feito; enfrentariam tais mentiras com a sua arte. (A maioria das
pessoas que apareciam nesse filme, O Fhrer D Uma Cidade 
aos Judeus, foram provavelmente mortas com gs em Auschwitz

  Frey era o cabecilha do grupo. Uma noite, quando estavam
a trabalhar, Frey comeou a passar revista a uma das pastas.
Notou qualquer coisa fora do lugar n pssada pa Felsher.

  - Aqueles desenhos que fizemos na sema de Karl. . .
  das crianas. E o intitulado A Raa Superior? No consigo encontr-las.
  Felsher olhou em volta, nervosamente. Sabia que, se os desenhos fossem descobertos 
pelas SS, os resultados poderiam ser
desastrosos.
  - Eu. . . eu venci-os - respondeu.
  Os outros deixaram de trabalhar e fitaram-no.

  - Vendeste-os? - repetiu Frey.
  - Si... sim. Um dos polcias checos quis s E  tipo
  decente e gosta de ns. S vendi cinco.

  Frey sentia-se preocupado.
  - Concordmos que esses desenhos deveriam ficar escondidos no campo, Felsher. Se os 
nazis os apanham,  o nosso fim.
Alm disso, alguns eram meus e outros do Weiss.
  Pobre Felsher! Maria Kalova recorda-se de que estava prestes a chorar.
  - Escuta, Frey. Precisava de cigarros e de um boio de doce.
No o farei mais. Dividirei os cigarros.
  - Quero que os cigarros vo para o diabo! - explodiu Frey.
  Maria avanou. - Puseste-nos num perigo enorme - acusou.
  - Que mal faz? - interferiu Karl. - Entregamo-nos a este
jogo com a ideia de que os nossos desenhos iro modificar a situao. No te sintas 
culpado, Felsher.
  No entanto, Frey estava preocupado.
  - Rezo para que a Gestapo no lhes ponha as mos. Rezem
todos.
  Felsher estava assustado e no parava de murmurar:
  -  um crime desejar-se um mao de cigarros?
  Voltaram aos cavaletes e aos pincis.
  - Pobre tipo! - exclamou Karl. - Algumas vezes pergunto
a mim mesmo se todo este trabalho secreto valer a pena.
  - Eu tambm! - suspirou Maria.
  Maria estava a fazer um desenho intitulado transporte para
Leste. Mais e mais velhos, doentes, os chamados <<improdutivos>>
estavam a ser enviados para um stio desconhecido, algures na
Polnia. Casas de repouso, diziam-lhes; lugares onde receberiam
maior assistncia mdica. O esboo revelava uma fila de judeus
curvados e derrotados, todos marcados com a estrela amarela,
a subirem para um comboio.

  - O que  isto? - perguntou Karl. - Porque os mandam
embora?
  - No tenho a certeza - respondeu Maria com os olhos fixos
no desenho que esboava. - Mas correm histrias. . . claro que
ningum acredita nelas.
  Ouviram-se passos do lado de fora. Normalmente, os guardas
e a polcia do gueto no vinham ao estdio durante a noite. Partiam do princpio de 
que os artistas amavam tanto o seu trabalho
que trabalhavam fora de horas.
  Todos comearam a esconder os trabalhos: nas mesas, nas
gavetas. ,
  - Vai ver quem , Weiss - aisse Frey.

  Karl dirigiu-se  porta, abriu-a e viu-se frente a frente com
a mulher, Inga.
  - Inga...
  - Karl. Meu querido!
  No se abraaram logo, tal a surpresa de Karl. Trazia uma
mala. Tinha o cabelo escondido par um cachecol. Acabara de chegar com um pequeno 
grupo de cristos <<inimigos do Estado>>.
Havia uma seco especial de Theresienstadt reservada para os
no judeus; entre estes presos encontravam-se inmeros padres
checos, que tinham protestado contra medidas nazis.

  Deteve-se, por momentos, iluminada pela luz escassa, fitando
  o rosto magro. Teve de iniciar o primeiro gesto de amor. Aproximou-se dele e 
abraou-o. Beijaram-se. Contudo, ele comportava-se como um autmato, um robot, mal 
correspondendo. Quase
parecia com medo.
  - Como. . . como vieste ter aqui?
  - Vir para um campo, no  problema. Decidi que no podia
deixar que estivesses sem mim. Se no te conseguisse libertar,
viria ter contigo.
  Tentou falar, mas sentia a boca seca.
  - Oh, meu querido. Como ests plido e magro. Tens o ca  belo grisalho. Mas ests 
elegante como sempre.
  Embaraado, Karl levou-a at ao estdio principal.

  - Estou bem, como podes ver. Tenho um trabalho fc.
  Amigos.
  Apresentou-lhe os outros:
  - Frey, Felsher, Maria Kalova.
  Maria avanou e abraou Inga.
  - Karl tem falado muito de si. Nunca a esqueceu.

  - Tenho muito prazer em vos conhecer - sorriu Inga.
  - No sei o que sabe sobre este lugar - declarou Frey, tentando mostrar-se alegre. 
- Contudo, para quem se mantenha
ocupado,  melhor do que os outros campos. E todos nos mantemos muito ocupados aqui.
  -  verdade - concordou Felsher. - Ainda continuamos
vivos.
  Frey deu a chave do quarto de arrumaes a Karl. Havia l
um div onde algumas vezes a polcia do gueto passava pelas brasas quando estava de 
servio:
  - Vai para ali - disse. - Devem ter muito que dizer um
ao outro.
  - Talvez ainda reste um pouco de ch - acrescentou Maria.

- Vo passar uns momentos felizes.
  Assim que entraram na pequena diviso escura, Inga abraou-o e beijou-o 
apaixonadamente. Desejava-o com todas as foras.
Era como se desejasse apagar a mancha do estigma de Muller com
o seu amor por Karl. De incio, ele resistiu - no tanto resistir
mas ficar frio e distante. Em seguida, quando ela lhe comeou
a explorar a boca com a lngua, de rosto muito prximo do dele
e as mos percorrendo-lhe as costas magras, correspondeu.
  - Oh, Inga! Minha querida! - soluava. - Nunca pensei
voltar a ver-te. Queimam todas as nossas esperanas. Obrigam-nos
a odiar a vida e a ns prprios...
  - Disse-te que no desesperasses, Karl.
  - Sim. Recordo-mo das cartas que mandaste para Buchenwald. Sempre cheias de 
esperana e de palavras bondosas. - Afastou-se dela e fitou a parede. - E recordo-me 
de quem mas levava.
  - Muller contou-te - retorquiu.
  - Vangloriou-se.
  - Calculei. No poderia deixar de o fazer.
  - Porqu. . . Inga? - perguntou Karl, voltando-se e deixando que as lgrimas lhe 
corressem pelo rosto.
  - Para contactar contigo. Para no nos afastarmos.
  -Escolheste uma estranha forma. Quando penso naquele
  porco, naquele animal, contigo... juntos...- contigo, Inga...
  - Tens de me acreditar, Karl. Tentei evitar. Nunca senti
amor Por ele. Odiava-o. Sentia-me uma prostituta quando estava
com ele. Agora, ainda o odeio mais.
  - Cus. Preferia no ter tido notcias tuas.
  - A srio?
  - Outros tiveram coragem suficiente para ficarem ss, sem
cartas nem famlia. E sobreviveram. O velho Felsher no tem
vivalma neste mundo. O marido de Maria Kalova foi morto a tiro
pela Gestapo no dia em que ocuparam a cidade.
  - Sentia que no eras como os outros. Que precisavas do
meu amor, ainda que por meio de cartas.
  - Queres dizer que sou mais fraco do que os outros. Sim,
h algo de verdade nisso. O pobre Karl, o artista frgil que no
seria capaz de sobreviver sem uma palavra da mulher.
  - Devemos remeter tudo isso para o passado, Karl - disse,
beijando-o ao de leve nos lbios. - Recordas-te de quando costumavas chamar-me a tua 
Saskia? A mulher de Rembrandt? Aproveitaremos o tempo. E conquistaremos a liberdade. 
Sei que ser
assim.
  - No. Daro cabo de ns, muito antes de se renderem.
Corre o boato de que um desses malditos exrcitos alemes foi
totalmente capturado em Estalinegrado. No entanto, lutaro at
ao final. E quando comearem realmente a perder lanaro todas
as culpas sobre ns e livrar-se-o da nossa presena indesejvel.
  - No cederemos. Enquanto eu estiver aqui, no!
  - E o que recebes em troca? Um artista de terceira categoria. Tenho um pedao de 
pedra no lugar do corao. Pensas que
estes campos tornam as pessoas melhores? No. Os artistas daqui
so uma excepo. Vivemos uma espcie de... camaradagem. Contudo, a maioria dos 
presos estariam dispostos a matar-se uns aos
outros por um pedao de po. Quase o fiz... h muito tempo.
  Inga sentou-se na beira do div, fazendo-lhe sinal para que
se sentasse ao seu lado. Karl seguiu-a, com uma criana obediente.
  - Recorda-te de quando o teu pai partiu para a Polnia
- disse Inga. - De como beijou a tua me e Pediu aos filhos que

tivessem coragem e, em seguida, lhe acentuou que se lembrasse
do latim - Amor vincit omnia. O amor vence tudo.

  - No h amor no mundo que consiga levar a melhor sabre
as armas, os bastes e as prises deles. E, pior do que tudo,
sabre a da esperteza maquiavlica.
  - Sei a que sofreste, Karl. Sei tudo. Mas estamos novamente
juntos. Posso ajudar-te.
  Ergueu-se do div e escondeu a cabea no regao dela.
  - No devias ter vindo. Deixa-me aproveitar o melhor do
que me resta. Tu e esse filho da me do Muller...
  - Imploro-te que no fales mais dele. Por favor, Karl. Afirmaste que os campos 
retiram o que h de melhor nas pessoas.
Matam por um bocado de po. Eu e tu seremos diferentes.
  - Diferentes corno, quando tu. ..
  Estava prestes a iniciar as acusaes sobre Muller, ms deteve-se. Sentada no div 
estreito, de costas direitas, as mos cruzadas no regao, tinha a mesma beleza e 
calma do dia em que
a conhecera na escola, no papel de uma secretria bonita e eficiente.
Karl travara uma batalha interminvel com as meus pais para casar
com ela. Pela primeira vez na vida, mostrara determinao
e recusara dobrar-se  vontade da minha me (Anna e eu tnhamo-lo
encorajado. Garantimos-lhe que o apoiaramos at ao final.)
  Naquele momento, recordou-se de como tivera de lutar pelo
amor dela. E do bem que recebera. Tinham feito visitas incansveis
aos museus, sem perder uma nica estreia artstica, e tirado cursos,
quando tinham disponibilidades econmicas. Haviam chegado
a falar numa viagem a Itlia. O bem mais valioso de Karl era um
livro sobre arte renascentista que Inga lhe oferecera no dia dos
seus vinte e dois anos. Talvez se deixasse inundar por todas estas
recordaes.
  O pecado (se  que assim se lhe poderia chamar) que cometera
com Muller tinha de ser encarado como um esforo para chegar
junto dele, para lhe dar o apoio das suas cartas, dar-lhe a saber
que no o esquecia. Comeava a entender agora com mais clareza.
  - Sei que um dia nos libertaro, Karl - disse. - Sofreste
mais do que eu. Quero partilhar o teu sofrimento. Quero ter fome
e frio e ser desprezada. Partilharemos os maus momentos, como
partilhmos tanto dos bons. Recordas-te de quando passmos aquelas frias em Viena? E 
de que no te conseguia convencer a deixares as salas cheias de Rembrandts?
  Ele sorria. O reavivar de recordaes suavizava os sentimentos que o haviam 
acometido a seu respeito. Tinham partilhado
muita coisa. Tinham experimentado muitas vezes aquela comunho
e elevao espiritual frente a uma grande obra. Uma vez, em
Amesterdo, segundo Karl me contou, ele e Inga sentarem-se a pensar e a observar, em 
silncio e de mos dadas, na presena da
Guarda da Noite.
  - s o meu marido e amo-te - declarou. - Vem sentar-te
junto de mim. Nunca te deixarei.
  Karl caiu de joelhos em frente dela e escondeu a cabea no
regao da mulher. Envoltos pela escurido, voltaram a ser marido
e mulher.

  Contudo, tal como Karl sabia e Frey tinha receado, a vida
em Theresienstadt era uma enorme mentira. Inga foi remetida para
os aquartelamentos das mulheres crists. Karl permaneceu nas instalaes de sempre, a 
abarrotar, com quatro pessoas em cada

tarimba estreita e vrias centenas num bloco destinado a acolher
quarenta.
  Um dia verificou-se um movimento desusado nas ruas.
  Frey olhou atravs da larga janela e avistou uma brigada das
SS, de espingardas aperradas, correndo em fileira dupla pelas ruas.
Dirigia-se para o estdio.
  A porta abriu-se de rompante, e os SS entraram no compartimento. Todos receberam 
ordem de se encostar  parede. Ningum
se atrevia a falar.
  Maria recorda=se que vrios dos artistas olharam para Felsher
coma que a dizer-lhe: <<Deitaste-nos a perder; descobriram os
desenhos.>>
  Destruram mesas, arrancaram placas de madeira, derrubaram
cavaletes. Rebuscaram o quarto de arrumaes de uma ponta
 outra, e as gavetas onde Frey guardava as tintas, os pincis
e outras instrumentos foram atirados ao cho e revolvidas.
  Um soldado revistou o cavalete de Karl, passando a pente fino
todas as pastas, e deitou todos os cartazes ao cho. O sargento
manteve-se no meio do compartimento, batendo com o cano da
espingarda no cho e gritando:
  - Descubram-nos, descubrammos, com os diabas!
  O que os SS no podiam saber era que todos os desenhos
incriminadores haviam sido feitos desaparecer no dia anterior. Estavam a salvo e 
protegidos. Continuavam no campo, mas escondidos
noutro stio.



O DIRIO DE ERIK DORF


Theresienstadt
Abril, 1943

  Com grande surpresa minha, Eichmann mostrou-se bastante
indiferente quanto ao assunto das desenhos da <<propaganda de
horror>>. Sei, no entanto, porqu. Caiu nas boas graas de Kaltenbrunner, devido ao 
seu sistema de transporte - Auschivitz vai de
vento em popa - e se vierem a surgir incriminaes quanto ao
assunto dos desenhos secretos,  sobre mim que o machado desabar. No h segredos 
que esconder de Eichmann; sabe que me
atriburam a responsabilidade de descobrir os artistas culpados
e as restantes obras de arte.
  Rahm, o comandante de Theresienstadt, estava presente na
altura em que examinmos os desenhos, que trouxera de Berlim.
  - Tem alguma ideia de quem os fez? - perguntou-lhe
Eichmann.
  - Podia ter sido uma dzia deles. Apaparicamos esses filhos
da me, damos-lhes privilgios e vejam como nos pagam. Apetecia-me enforcar a maralha 
inteira.
  - Acalme-se, major - pediu Eichmann.
  Examinou, seguidamente, os desenhos com olhos de entendido. Eichmann possui essa 
maravilhosa virtude da objectividade.
No meio da condenao de milhares que ordena diariamente, ainda
consegue apreciar uma paisagem e uma bela pea de cermica.
  Rahm e eu interrogmo-nos sobre o porqu de erlim estar
to enraivecida por causa de cinco desenhos. E Eichmann dava
igualmente a sensao de pouco perturbado.

  - De facto, estes no so maus - pronunciou-se. - Fazem
lembrar e fase decadente de George Grosz, mas quem quer que os
desenhou tem talento.
  - Berlim exige a identidade de todos os artistas implicados
- esclareci. - E pretendem todos os trabalhos secretos: pinturas,
desenhos, o que quer que seja. E tambm os conspiradores que os
passaram para o lado de fora. No podemos permitir que o mundo
os veja. Theresienstadt no pode ficar caluniada por estes infames
desenhos.
  - Tanta confuso por causa de umas pinturas horrorosas - pronunciou-se Rahm, 
sacudindo a cabea de touro.
  - Temos de manter os Judeus calmos e crentes - retorqui.
- H que avanar com a soluo final de uma maneira rpida
e ordenada. Tm-se verificado revoltas de pouca monta nos campos
de leste.
  - Tragamnos - ordenou Eichmann, batendo com o pingalim no tampo da secretria.
  Rahm deixou-nos ss.
  - Parece-me que est um pouco sob presso, major - retorquiu Eichmann, piscando-me 
o olho.
  - Presso?
  - Que conhece do Antigo Testamento? <<Ento surgiu um
novo rei no Egipto que no conhecia Jas.>> Kaltenbrunner  o seu
novo rei, Herr Dorf?
  Sabia o que queria dizer, mas mantive-me em silncio. A minha carreira fora 
fulgurante enquanto Heydrich vivera. E agora...
  - Tem, no entanto, razo quanto aos no impedimentos ao
plano de reintegrao - prosseguiu Eichmann. - Faz ideia das
presses sob que me encontro? Estamos a liquidar o ltimo dos
guetos polacos. Varsvia  o ltimo degrau que resta. Todos os
judeus que restam em Viena, Luxemburgo, Praga e Macednia
esto a seguir directamente para Treblinka, ao encontro do seu
Deus judeu. Estamos a oferecer ao Fhrer e sua Europa liberta de
judeus, Dorf.
  - Cabe-lhe o maior crdito, Eichmann.
  Rahm e um cabo SS regressaram acompanhados de trs presos. Tinham um aspecto 
apagado. Contrariamente aos internados
dos outros campos, que usavam os fatos de riscas, estes indivduos
apresentavam-se com roupas de civil - camisas de trabalho e calas,
marcadas, evidentemente,  frente e atrs com a estrela amarelae davam a sensao de 
terem um pouco mais de sade do que
o preso comum. Eram todos artistas e encontravam-se sob suspeita.
  Eichmann apresentou-se e identificou-me na sua presena. Falava de uma maneira 
delicada, mas autoritria.
  - Em troca, quero saber, se fizerem favor, os vossos nomes,
naturalidade e restantes dados pertinentes.
  - Otto Felsher, Karlsruhe - informou o mais baixo e o mais
velho do trio.
  - Emil Frey, Praga,
  - Esse filho da puta alto  o cabecilha - retorquiu Rahm.
- Uma hora com ele, e descobriremos a verdade.
  - Karl Weiss, Berlim.
  Era alto e magro, de costas curvadas e com um rosto de
expresso triste, embora atraente. Um homem moreno e pensativo.
  - Bom. Agora, peo o favor de cada um se aproximar - pediu Eichmann - e me indicar 
qual  o responsvel por estes desenhos de horror.
  - Para a frente! - ordenou Rahm, dando um empurro
a Frey.

  Os trs homens avanaram at junto da enorme secretria.
(O gabinete est muito bem decorado e mobilado; o mobilirio
veio de algumas das melhores casas de judeus de Praga.)
  Dispus os desenhos em cima da secretria - A Espera do
Fim, A Raa Superior, Crianas do Gueto e os restantes.
  - Ento? - insistiu Eichmann.
  Com grande surpresa minha, Frey, o indivduo que fora
arusndo de cabecilha, apontou para dois dos desenhos.
  - Estes so meus - respondeu.
  - Meu - seguiu-se Felsher.
  - Fiz estes - declarou Weiss, indicando os restantes dois.
  - ptimo! - exclamou Eichmann. - Assim, chegaremos a
qualquer concluso. Sentem-se. Todos.
  Os homens obedeceram. Eichmann ofereceu-lhes cigarros
e contemplou-os com um sorriso. Estavam, obviamente, mortos de
medo - sabiam o que se passava na Kleine Festung - e pareciam
mais do que predispostos a cooperar.
  - Agora, vamos ao assunto - prosseguiu Eichmann. - O
major Dorf veio directamente de Berlim para descobrir quantos
mais destes horrveis desenhos existem, onde se encontram escondidos e quais os 
vossos contactos no exterior, que vos ajudam
a pass-los para fora do campo. Decerto existem mais do que estes
cinco, e a vossa inteno , indubitavelmente, a de inundar o Mundo
com eles e contar mentiras a nosso respeito. Frey?
  - No h mais desenhos.
  - Wess?
  Este indivduo, que me parecia vagamente familiar, baixou
a cabea:
  - No h mais. Foram os nicos que fizemos. - Apercebi-me de imediato que estava 
cheio de medo; seria o homem indicado para nos fornecer informaes.
  - Felsher? - continuou Eichmann.
  - Eles... Eles...
  - Continue, por favor - insisti. - Conte-nos.
  - So... so os nicos desenhos feitos dessa maneira.
O comandante conhece o nosso trabalho. Cartazes, retratos.
  Rahm deu com as costas da mo no rosto de Felsher.
  - Judeu aldrabo e manhoso. Fala.
  - No. . . no h outros.
  Eichtnanaz fez sinal a Rahrn para que no lhe voltasse e bater
e,  semelhana de um professor, comeou a andar de um lado
para o outro  frente dos trs. Parou diante de Weiss e perguntou:
  - Tu. . . Qual  a funo da arte?
  Oh! Como estava a gostar do desempenho daquele papel: o de
homem de cultura, crtico, coleccionador.
  - A funo da arte? - repetiu Weiss. - Berenson afirmou
que a funo da arte era incentivar a vida.
  - Soberbo! - aplaudiu Eichmann com uma expresso que
lhe iluminou o rosto. - Incentivar a vida! - Apontou os desenhos: - Chamam a isto 
incentivar a vida? A esta porcaria, esta
sujeira? Como conseguiram deturpar a realidade desta maneira
e atrever-se a chamar-lhe arte?
  - E a verdade! - declarou Weiss num tom de voz suave
e convincente, que me fez recordar, de sbito, o mdico judeu que
conhecera h anos atrs. No entanto, Weiss  um nome vulgar;
h milhares em Berlim.
  - Nessa caso explique-me porque  que a Cruz Vermelha
inspeccionou este campo a dzia de vezes e nunca descobriu tais
condies.

  - Foram enganados - retorquiu Weiss.
  Rahm atingiu-o em pleno rosto. Um fio de sangue comeou
a escorrer do nariz do indivduo.
  - Seja razovel, Weiss - aconselhei, levantando-me. - Sou
berlinense como voc. E ns, os Berlinenses, somos pessoas prticas. No ser 
castigado. Vocs aqui gozam de privilgios. Limite-se
a indicar-nos os vossos contactos no exterior. Como tencionam
passar este material para fora.
  - No temos contactos.
  - Nessa caso diga-nos onde tm os outros desenhos escondidos.
  - No h mais.
  - Conceda-me uma hora com estes filhos da me e saberemos - sussurrou Rahm a 
Eichmann. - Com o devido respeito,
coronel, permita-me que lhe diga que no apreciam as suas preleces sobre arte.
  - Weiss, vocs os dois? Esto interessados em mudar de
opinio? - inquiri.
  Mantiveram-se em silncio. Frey, o indivduo alto, olhou firmemente para os outros 
dois.
  Tentei uma nova tctica:
  - Weiss. O comandante informou-me de que tem uma bela
  mulher ariana que chegou aqui recentemente.
  Ficou muito tenso e empalideceu.
  - Tenho a certeza de que ela gostaria que contasse a verdade - disse.
  - Estou a falar verdade.
  - Felsher? - perguntei, com a certeza de que constitua
  o elo fraco da corrente.
  - Eu. . . eu. . .
  Com grande surpresa minha, o meu conterrneo berlinense
  ,
  Weiss, agarrou-lhe o brao:
  - Nada h a dizer!
  - Deixa-o falar! - gritou Rahm.
  - No. . . no  nada - decidiu-se Felser.
  Sussurrei a Eichmann a sugesto de me deixar falar com
  Weiss. Apesar das suas tentativas corajosas,  possvel, atravs do
dilogo, convencer muitos dos judeus a concordar e a submeter-se
- provavelmente uma parte da sua herana do debate talmdico.
  Levei Weiss para um canto do gabinete.
  - Ser que no nos conhecemos? - perguntei.
  - Duvido.
  - Escute, Weiss. Esquea esses austracos e checos. Falemos
de berlinense para berlinense.
  - Os Berlinenses puseram-me quatro anos na priso. Os Berlinenses enviaram os meus 
pais para Varsvia.
  - Bom. Talvez se possam corrigir erros. Diga-nos onde esto
os desenhos, e  possvel que consiga fazer alguma coisa por si.
  - Liberdade?
  - Posso dar uma palavra. Caso contrrio, ser entregue
 gente do Rahm. A sua mulher nem querer olhar para si quando
tiverem acabado.
  Por momentos, o velho medo do gueto ensombrou-lhe o rosto
- o receio da dor e da humilhao, que aperfeiomos e transformmos numa poltica 
nacional. (Heydrich, o meu mentor, apercebeu-se disto: o modernismo absoluto, a 
utilizao da tecnologia,
a recusa de absteno ante o emprego de todos os meios para
manter o controle, domar vontades, forar confisses.)
  Deu, no entanto, a sensao de retomar coragem e declarou,

to obstinadamente como j o fizera:
  - No existem mais desenhos.
  Sacudi a cabea e voltei at junto de Eichmann, naquele momento sentado  
secretria.
  - Intil - esclareci.
  Eichmann deu ordem a Rahm para que os levassem. Obrigaram-nos a marchar. Felsher, o 
mais velho, chorava em silncio.
  - Est to plido como eles - observou-me Eichmann.
  - Sim?
  - No fique preocupado. Os guardas de Rahm conseguiro
a informao. Pode regressar a Berlim transformado num heri,
com uma coleco de ar te do gueto debaixo do brao.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Em Abril de 1943, Karl e dois outros artistas foram interrogados por Eichmann e 
mais algumas entidades superiores das SS.
Nenhum deles se mostrou disposto a falar. O meu irmo, que fugia
das rixas nas ruas e se afastava a sete ps dos midos que o insultavam, estava a 
desafiar estes sdicos assassinos.
  Inga recorda-se de que Karl e mais dois indivduos, Emil Frey
e Otto Felsher, saram em fila do gabinete do comandante, foram
metidos num camio e levados para a Kleine Festung - as barracas de isolamento e 
punio.
  Ela, Maria Kalova e mais algumas mulheres agarraram-se s
traseiras do camio e tentaram puxar os homens para fora. Foram espancadas pelos 
kapos. Um cabo das SS disparou-lhes tiros por
cima da cabea.
  Inga gritou que ele nada fizera, que o deviam soltar, mas
o camio ps-se em marcha. Krl sorriu-lhe e fez-lhe um gesto <<de
polegar voltado para cima. Contudo, todos esperavam o pior.
Poucas pessoas conseguiram sair da Kleine Fetung com vida. Um
clrigo hussita, um checo suspeito de contactos com a Resistncia,
tinha sido ali torturado at  morte semanas antes.
  Os trs homens foram metidos em celas separadas mas contguas. Tinham portas de 
ferro com buracos para e comida, uma
janela alta e estreita e paredes espessas e de pedra.
  Podiam falar uns com os outros.
  - O que nos faro? - choramingou Felsher.
  - Tencionam espancar-nos, creio - respondeu Frey. - Recorda-te do acordo que 
fizemos, Felsher.
  - Foi.. . foi tudo culpa minha. No tinha o direito de vender
os desenhos.
  - Podes redimir-te, agora - retorquiu Karl. - Basta manteres a boca fechada.
  - Mas no consigo suportar a dor, Weiss.
  - Nem eu - disse Karl. - No entanto, acabaremos por
aprender.
  - J tenho mais de sessenta - lamentou-se Frey. - Sofro
dos rins e nunca tive tendncia para heri.
  Mais tarde, Inga contou-me que Karl se apercebeu de que
a sua surpreendente coragem resultava da necessidade de animar
Felsher; caso no tivesse ali Felsher para dar foras e encorajar,
teria possivelmente cedido.

  - No nos mataro - declarou Frey.
  - Sim, e alm disso garantiram-me que, passado um bocado,
se deixa de sentir a dor - acrescentou Karl.
  Felsher no parava de soluar.
  Karl abanou a portinhola de ferro para lhe chamar a ateno.
- J alguma vez estiveste em Itlia, Felsher?
  - No.
  - E tu, Frey?
  - No, Weiss, mas h anos que tenho esse sonho.
  - Bom. Vamos fazer uma combinao. Quando tudo isto
acabar, faremos uma viagem os trs. Veneza, Florena, Roma, Siena.
Sempre desejei ver o David de Miguel ngelo. Nada de uma fotografia ou uma cpia, mas 
a esttua enorme e resplandecente em
toda a sua real beleza.
  - Est combinado, Weiss! - garantiu Frey, entrando no
jogo. - Os trs e as nossas mulheres. Itlia! Sim, uma viagem
de artistas. No podemos esquecer Arezzo. Eu prprio me sinto
um Piero della Francesca.  a mais importante figura renascentista, Weiss.
  O meu irmo riu. Felsher deixara de soluar.
  - Bom. O certo  que tenho um fraco por Pinturicchio - confessou Karl.
  - Bah! - retorquiu Frey. - Um retratista. E sem a classe
de Piero.

  Felsher foi o primeiro a ser espancado.
  Os guardas colocaram-no contra a parede, de costas para eles
e bateram-lhe lenta e metodicamente com bastes de borracha,
comeando pela nuca e passando, em seguida, s costas, ndegas,
pernas e ps.
  Gritou, como  bvio, e tanto o meu irmo como Frey no
deixavam de lhe repetir que no dissesse nada.
  - Que vo para o diabo! - gritava Karl. - Cedemos tempo
demasiado. Manda-os para o raio que os parta, Felsher!
  Os gritos foram diminuindo a pouco e pouco. Devia ter
desmaiado.
  Karl foi o seguinte.
  Os dois homens das SS entraram na cela:
  - Ento, judeu? Decidido a voltar ao gabinete do comandante
e a dar  lngua? Viste o que fizemos ao velho?
  - E mais fcil do que ser espancado - acrescentou o outro.
  - Nada tenho a confessar-vos.
  Repetiram o castigo com Karl. Mandaram-no despir, encostaram-no de frente para a 
parede, como se fosse tirar uma radiografia:
com o peito e o queixo encostados  pedra, as pernas bem para
trs e os braos nas ancas.
  Espancaram-no durante um quarto de hora, aplicando-lhe
pancadas rpidas na cabea, costas, rins, pernas, genitais e ps.
Tambm gritou. Frey berrava-lhe que se mantivesse em silncio
e que no se rendesse. E nada confessou a respeito dos desenhos.
Havia vrias centenas de pinturas e de desenhos - o que os nazis
designavam por <propaganda de horror>> - escondidas pelo campo.
Os artistas estavam determinados a no deixar que os encontrassem.
  Frey tambm gritava, tentando que os seus gritos superassem
os de Karl. - Florena! - gritava. - Escuta-me, Weiss! Veneza,
Perugia! Passaremos um dia inteiro na Galeria Uffizzi. Um dia
na Bargello.
  Karl acabou por desmaiar e cair no cho. O rosto estava
reduzido a uma massa ensanguentada e o corpo cheio de ndoas
negras.

  - Falas? - perguntou um guarda.
  - No.
  - Falars para a prxima. Ponham-no de p.
  Voltaram a espanc-lo; desmaiou outra vez.
  Em seguida, aplicaram idntico castigo a Emil Frey, e tambm
este se recusou a divulgar qualquer informao sobre os desenhos.
  Quando os guardas regressaram  cela de Felsher, com a suposio de que um segundo 
espancamento lhe soltaria a lngua,
foram encontr-lo morto.
  Segundo parece, seguiu-se uma pausa, enquanto os homens
das SS foram ao gabinete de Rahm comunicar a morte de Felsher.
  Inga e as outras mulheres que esperavam do lado de fora
do gabinete, repelidas pelos kapos, gritaram aos homens das SS
que no espancassem mais os homens. Ningum se apercebeu
imediatamente de que Felsher tinha sido espancado at  morte.
  - Agora falaro - comunicou um dos guardas, com um esgar
para Inga. - Ou falam ou vo para Auschwitz.
  Na Kleine Festung, Karl e Frey, ensopados de sangue,
to cheios de ndoas negras que nem se conseguiam mexer,
aperceberam-se do regresso dos guardas.
  - No nos mataro - sussurrou Frey. - A ideia desses
desenhos consegue p-los loucos. Querem encontr-los seja como
for. Os filhos da me tm um receio anormal de que os descubram.
No mais ntimo dos seus seres corruptos, Weiss, sabem que so
diablicos e que, algum dia, recebero o castigo devido. Portanto,
tero de nos conservar vivos.
  - No consigo aguentar - murmurou Karl.
  - Tambm no tenho a certeza. Faremos uma competio,
Weiss. Quem conseguir aguentar mais tempo... fica com direito
a um passeio grtis de gndola, em Veneza.
  Assim, os espancamentos sucederam-se. Os guardas voltavam
de hora a hora. No fim do dia, Karl e Frey tinham perdido
a conscincia e no passavam de pedaos de carne inanimados,
deformados, corpos gritantes de dor e rostos distorcidos como
grgulas. Contudo, as bocas no se tinham aberto.
  Enquanto tudo isto se passava, Inga e Maria Kalova dedicavam-se a entender o ltimo 
dos desenhos. Tinham=nos enrolado
em papel  prova de gua e metido em recipientes de metal.
Em seguida, haviam-nos escondido numa dzia de stios - no
pomar, nos canteiros, numa vala abandonada. Inga estava certa
de que s os viriam a encontrar depois de acabada a guerra.
  Quando as mulheres lanaram terra sobre o ltimo dos trabalhos dos <<Artistas de 
Terezin>>, Inga comeou a chorar.
  - Ser que tudo isto significa alguma coisa, Maria? - lamentou-se. - Valer a pena 
que sofram por estes desenhos?
Porque no os entregamos muito simplesmente s SS?
  - Karl acredita neles, Inga. So as verdades, que o mundo
ter de conhecer.
  - Acho que tens razo. Contudo, confesso-te que me apetecia
ir a correr ao gabinete do comandante e dizer-lhe: <<Aqui tem
o que quer. Devolva-me o meu marido. >>
  - Sei que tanto ele como o Frey preferem que seja assim.
  - Espero que sim. Espero bem que sim.
  Frey e o meu irmo foram espancados durante quatro dias.
  No ltimo dia, Karl disse em voz rouca a Frey, por entre
os lbios rachados:
  - Quebraram-me as mos. Todos os dedos. Partiram-me
os ossos.

  - A mim tambm - respondeu Frey.
  - No poderemos voltar a pintar.
  -Depressa acabaro com isto. Sabem que no falaremos.
Esquecero esses malditos desenhos para passarem a ocupar-se
de outra coisa qualquer.
  - Ou matam-nos. As vezes, chego a desejar que o faam.
  - No, no, Weiss. Aguenta-te.
  - Frey, ests a ouvir-me? Era muito cobarde em mido.
Um cobarde durante toda a minha vida. Chorei no primeiro dia
em que a minha me me levou  escola. Talvez esteja agora
a compensar tudo isso.
  -  assim mesmo, Weiss.
  Voltaram a falar de Itlia, discutiram itinerrios e decidiram
que Ravena seria uma paragem obrigatria. E Frey tinha razo.
Por fim, desistiram de os espancar. No entanto, conservaram-nos
no isolamento e nunca mais os deixaram regressar ao estdio.

O DIRIO DE ERIK DORF

  Theresienstadt
  Abril, 1943

  Dou graas a Deus por ter terminado todo este maldito
  assunto do punhado de artistas judeus. Nenhum deles falar.
  Talvez estejam a dizer a verdade. Talvez no existam mais desenhos
  e talvez no mantenham contactos com o exterior.
  Seja como for, falhei.
  Eichmann no deixa de troar de mim porque tenho de
enfrentar o <<grande urso> - Kaltenbrunner - quando regressar
a Berlim. No  uma perspectiva que me agrade, e sabe-o: ter sido
vencido, ter falhado frente a trs malditos judeus.
  No entanto, ter outras coisas em mente, o que talvez me
salve a pele. Os novos campos esto a superar todas as expectativas.
Disseram-me que Hoess aperfeioou um s i s t e m a que permite
o tratamento simultneo de duas mil e quinhentas pessoas;
os corpos so queimados e as cinzas enterradas logo a seguir.
  A ofensiva mais recente contra a Rssia falhou. Os Aliados
esto de posse de todo o Norte de frica, invadiram a Siclia
e mostram-se interessados na invaso da Europa.
  Entretanto, obedecemos a ordens, cumprimos o dever para
com o Fhrer e a Ptria e continuamos com a soluo final.
  Acredito ou no verdadeiramente nela? Tenho de acreditar.
Agora, no posso parar, no posso ter segundos pensamentos,
nem me arrepender, ou to-pouco duvidar da nossa misso.
  Contudo, no estou satisfeito com esta viagem de regresso
a Berlim. At as minhas relaes com Marta esto a ser afectadas,
devido  tenso sob que me vejo forado a trabalhar.
  Mesmo assim, sinto-me sempre feliz por ver as crianas.
So boas, leais e sempre alegres. Como desejava poder dizer-lhes
que estamos a ganhar a guerra.

A HISTRIA DE RUDI 'WEISS


  ou agora recuar na narrativa at  descrio do destino
V dos meus pais em Varsvia e relatar o seu envolvimento
  na deportao em massa dos Judeus daquela cidade (bem
como de todos os polacos) para os campos de morte.

  No Vero de 1942, foram passadas as primeiras ordens do
comandante das SS, Hoefle, para o Judenrat. Diariamente teriam
de ser enviados seis mil judeus nos transportes com destino a leste.
  O meu pai, o tio Moses e o doutor Kohn encontravam-se
entre as entidades notificadas para esta aco.
  - Mas o que dizemos a esta gente - perguntou o meu pai.
  - A verdade - respondeu Hoefle. - Vo para um campo
de famlia na Rssia. Um campo de trabalho. Ar puro. Comida
melhor. Os pais e os filhos ficaro juntos.  melhor do que
a permanncia nesta pocilga em que deixaram que Varsvia se
transformasse.
  - Provavelmente as pessoas resistiro - observou o meu
tio Moses.
  -Vocs at hoje ainda nunca resistiram-contraps
Hoefle. - No sabem o que  lutar. E tm conscincia de que,
desde o assassnio de Heydrich, no podemos ser to generosos
nem compreensivos como ramos.
  O meu pai fez alguns clculos:
  - Mas,  mdia de seis mil pessoas por dia, o gueto ficar
vazio.
  - Que disparate! - retorquiu Hoefle. - Queremos acabar
com os excessos, facilitar-vos a vida.
  - Como se proceder  seleco? - perguntou o doutor
Kohn.
  - Esse trabalho  da minha competncia e no da vossa.
Contudo, quero seis mil, e com uma contagem exacta por cabea,
uma lista com todos os nomes. Se as pessoas no aparecerem,
sero apanhadas, ao acaso, nas ruas - sorriu. -  at muito
possvel que se comece com alguns de vocs.
  E, assim, os comboios comearam a partir de Varsvia.
Surpreendente a rapidez com que o gueto se esvaziava. No espao
de um ms, cento e oitenta mil pessoas foram enviadas para <<leste>>.
Contudo, a vida no se tornara mais fcil. Os alemes tinham posto
termo a todo o comrcio com o exterior; faltava comida e aumentaram as mortes por 
doena e fome.
  Numa noite de Setembro, o tio Moses esperava escondido
numa casa de ferramentas, junto da linha frrea.
  Um comboio que regressava de <leste>> rangeu e parou.
Zalman, o sindicalista, saiu de sob um vago de mercadorias,
rastejou ao longo dos carris e foi ter com Moses.
  - O que h? - quis saber Moses.
  Zalman levou uns momentos a retomar a respirao. - Esses
comboios no vo para a Rssia.
  -Para onde, ento
  - Um local chamado Treblinka. Fica a trs horas daqui.
Verifiquei os nmeros dos vages. Os comboios que partiram ontem
esto de volta hoje.
  - Treblinka? Um campo de trabalho?
  - Uma fbrica de morte - retorquiu Zalman, sacudindo
a cabea. - Os cristos polacos so enviados para um campo de
trabalho. Os judeus vo para esse edifcio enorme. As SS dizem-lhes que  para a 
desinfeco.
  - Deus do cu! O que suspeitvamos!
  - Trabuletas falsas por todo o lado, como se fossem registar
os judeus para o trabalho depois da desinfeco; fabricantes de
chapus, torneiros, ferreiros. Informam-nos de que, depois do
banho, lhes distribuiro tarefas. Contudo, nunca chegam a sair.
Entram e so mortos com gs.

  - Viste... viste isso?
  - Foi um kapo quem me informou - respondeu Zalman.
- No sabia quem eu era. Despe-os, manda-os esperar e f-los
entrar como se fossem rebanhos. Mulheres, crianas e velhos,
todos. Todos os do gueto de Varsvia acabaro ali.
  - Tu, Anelevitz e Eva tm razo desde o incio - disse
Moses, pegando-lhe no brao. - Sabiam. Entenderam.
  - Vem - disse Zalman, ajeitando o bon. - Temos de
contar  Resistncia.

  Algum tempo depois, discutiram o relato de Zalman no
quartel-general de Anelevitz, na Rua Lessano. Poucos dos que
pertenciam  Organizao de Luta Judia - Kovel, Zalman, Eva,
Lowy e todos os jovens - haviam acreditado nas mentiras dos nazis.
No entanto, o grosso dos habitantes do gueto, dada a sua infinita
capacidade de auto-iluso, a esperana nunca morta de que <<as
coisas melhorariam>>, continuava a acreditar nos <<campos de famlia> e na 
<<reintegrao>.
  Escutavam as emisses em andas curtas da BBC, com a esperana de qualquer aluso a 
que o mundo conhecia o seu destino
e o tornaria pblico.
  O locutor referia-se a vitrias no Norte de frica, na frente
libanesa, e a cento e quarenta surtidas pelos avies dos Aliados,
que sobrevoaram o canal.
  <<Chegam-nos informaes da Resistncia polaca de que os
nazis cometem atrocidades contra polacos civis, particularmente
sobre padres, professores e quem quer que possa formar um escol>.
dizia o locutor da BBC. <<A morte a tiro de civis polacos  uma
ocorrncia diria por pequenas infraces.>>
  Era, evidentemente, verdade. Mas nem uma s palavra se
pronunciara a respeito do destino dos judeus da Polnia.
  - H semanas que esto informados sobre Treblinka - disse
o tio Moses. - E nem uma s palavra. Desde Julho que andam
a liquidar o gueto de Varsvia e... nada. O que se passa de errado
  com a BBC?
  - Sabe, agora, porque somos sionistas - retorquiu Anelevitz. - Fazemo-lo por ns, 
porque ningum mais o far.
  - Talvez no acreditem nos relatrios - sugeriu o meu pai.
  - Ou se recusem a acreditar - acrescentou Eva.
  - Passmos a palavra por intermdio dos Suecos - declarou
Zalman. - Os judeus da Polnia esto a ser sistematicamente
destrudos. <<Transmitam a notcia pela rdio! >>, implormos.
Sabem qual a resposta que nos deram? <<Nem todos os nossos
radiogramas se prestam a transmisso.>> O que quer dizer isto,
com mil raios?
  - Quer dizer que se decidiram a no acreditar - respondeu
  Anelevitz, desligando o rdio. - Ou que pensam que estamos
  a mentir. O crime  to monstruoso que no acreditam.  com isso
mesmo que contam os Alemes.
  - S existe uma resposta possvel - disse Kovel com um
aceno de cabea. - Mais armas. O gueto est a ficar reduzido
de dia para dia. Se algumas centenas dos nossos lutarem, significar
alguma coisa.
  Decidiu-se que o meu tio Moses e o jovem Aaron fariam
outra viagem, vrias se necessrio, para l do muro, a fim de
tentarem conseguir o auxlio da Resistncia polaca.
  O meu pai - a minha me, segundo Eva se recorda, tambm
estava presente nesta reunio - teve a ideia de abrir uma clnica

na estao de caminho de ferro, a Umschlagplatz. Tentaria arrancar
pessoas aos transportes, gente dos mais novos e mais fortes,
que pudessem ser teis  Resistncia e aderir  luta.
  - Talvez ajude - concordou Zalman sombriamente. - Contudo, as armas so a nica 
resposta.

  Algum deu sinal. Estava a fazer-se uma rusga.
  Vrios dos combatentes da Resistncia subiram para um quarto
de cima e, atravs das frestas de uma janela pregada com tbuas
  ,
avistaram guardas das SS que faziam seguir em marcha as pessoas
com destino a Treblinka. Nessa altura, dois jovens tentaram fugir;

um ainda lutou com o guarda das SS, antes de ser abatido a tiro.
O outro foi arrastado para um edifcio e igualmente morto a tiro.
  - At que enfim que no se submetem to pacificamente - pronunciou-se Anelevitz.
  -Mas porque no lutam todos? -interferiu Zalman.
- ns somos centenas de milhares para um punhado de guardas.
Seja como far, morreremos.
  - Oh, Josef! - exclamou a minha me, levando a mo
 boca. - O rapaz com a mala.  um dos meus estudantes.
Tem treze anos.
  - No s obrigada a olhar, Berta - retorquiu o meu pai.
  - Porque no? - perguntou Kovel, sem querer ser cruel.
  E, assim, seguiram em fila, rumo ao destino fatal, seis mil
judeus por dia, do gueto de Varsvia para os campos de morte.
Apenas resistiam de vez em quando, esporadicamente, com actos
de desafio. Na maioria, partiam tranquilamente, dizendo de si
para si que os aguardava um <<local melhor>,

  A tentativa do meu pai quanto a instalar uma clnica perto
da estao de caminho de ferro, para salvar um punhado de judeus
das cmaras de gs, pode ser encarada, em retrospectiva, como uma
medida insensata e trivial para se contrapor ao crime monstruoso.
  A minha mulher, Tamar, uma realista, uma verdadeira sabra,
denota tendncia para troar das minhas narrativas a esse respeito.
  - Nada de importante! - afirma. - O mundo j recebeu,
por parte dos Judeus, gestos de simbolismo que cheguem. Apenas
interessa a aco em massa. Poder. Fora. Poltica.
  Seja como for, durante as deportaes para Treblinka, e numa
manh de Vero, reabriu uma loja vazia situada prximo da estao
de caminho de ferro. As montras foram tapadas com cortinas
brancas. Por cima da porta estava pendurada uma tabuleta com
os dizeres: <<Departamento dos caminhos de Ferro. Hospital
do Gueto.>>
  Max Lowy e a mulher contaram-se entre as primeiras pessoas
que o meu pai salvou.
  Lowy era importante para a Resistncia - tratava-se de um
tipgrafo qualificado e crucial para a imprensa clandestina. Quando
  o meu pai o avistou, sentado desconsoladamente em cima da
  bagagem,  espera, juntamente com um grupo enorme de outros
  judeus, do comboio para <<leste>>, entrou em aco.
  O meu pai aproximou-se dos Lowy, vestido com uma bata
  branca, de estetoscpio pendurado ao pescoo e bloco-notas na mo.
  - O que est aqui a fazer, doutor? - perguntou o tipgrafo.
  - Deite a lngua de fora - ordenou o meu pai. - Deixe-me
  sentir-lhe o pulso. Est doente de mais para viajar. A sua mulher

  tambm. Entre na clnica.
  - O qu? As SS daro por isso.
  - No interessa. J sabe o que lhe vai acontecer se entrar
  nesse comboio. Vamos. Confie.
  - Mas...
  - Finja-se doente. Ponha a mo na cabea. Est a incubar tifo.
  - No precisa de me repetir - disse Lowy, entendendo
  a estratgia. - Anda, Chana.
  Foi desta maneira que o meu pai salvou uma famlia de trs,
alguns jovens fortes - soldados potenciais da organizao de
luta - e outros mais.
  No momento em que dirigia as ltimas pessoas na direco
da clnica, um kapo chamado Honigstein seguiu-o. L dentro
  ,
a minha me, vestida de enfermeira, obrigava as pessoas a deitarem-se em divs, 
metendo-lhes termmetros na boca. O tio Moses
encontrava-se  frente de um modesto dispensrio.
  O kapo entrou uns passos atrs do meu pai.
  - O que se passa aqui, com mil raios? - perguntou.
  - Aspirina para estes dois - pediu o meu pai, ignorando-o.
- Aquele homem ali ao canto pode ter clera.  preciso isol-lo.
  - O que  isto? - insistiu Honigstein.
  - Clnica da estao de caminhos de ferro - respondeu
o meu pai sem sequer erguer os olhos. - Como garantia de que
os comboios no ficam infectados.
  - Se acharem este carregamento insuficiente, mete-se em
problemas, doutor Weiss. E eu tambm.
  - Temos autorizao. Saia da minha clnica. Recebemos
ordens para negar a entrada a pessoas que podem espalhar
o contgio nos comboios.
  O kapo foi-se embora, mas a minha me, que se colocara
junto da janela, viu-o a falar com um homem das SS.
  - Oh, meu Deus... est a contar-lhe! - exclamou.
  - Voc e a sua mulher, Lowy, saiam pela porta das traseiras - ordenou o meu pai.
  Moses deu aspirina com gua aos restantes. Os dois jovens
mantiveram-se deitados nos divs, fingindo-se doentes.
  O kapo voltou, acompanhado pelo homem das SS.
  - Diz que  uma clnica especial - comunicou o kapo.
  O homem das SS era uma <<ndoa>>, de expresso estpida,
e pareceu convencido. Olhou para as pessoas deitadas nos divs,
para a minha me, vestida de enfermeira, e para Moses, que andava
de um lado para o outro, movendo-se como uma ordenana
respeitadora.
  - Esta mulher tem tifo e  possvel que os filhos estejam
contagiados - explicou o meu pai. - Recebi ordens para no
permitir que pessoas infectadas entrem nos comboios.
  Deu um tom lgico s palavras. O homem das SS coava
o queixo, sem se decidir. Todos sabiam que, se o embuste fosse
descoberto, os meus pais e Moses seriam os prximos a partir
para Treblinka.
  - Enfermeira. Tape aquela mulher - ordenou o meu pai.
-  possvel que os filhos tenham de ir para o hospital. Ainda
temos sabo desinfectante? - perguntou, voltando-se para Moses.
  - Vou tentar arranjar.
  A farsa parecia estar a resultar. L fora, uma voz sada do
altifalante ordenava aos judeus que comeassem a entrar nos
comboios. Comunicavam s pessoas que se mantivessem juntas,

para lhes destinarem habitao em comum nos <<campos de famlia>>.
  Ansiosos por empurrarem a carga, o homem das SS e o kapo
foram-se embora. Todos ficaram momentaneamente aliviados.
  Os meus pais e o tio Moses ficaram a observar os judeus
de Varsvia a subirem para os comboios que os conduziriam
 morte.
  - E  assim que partem! - exclamou o meu pai. - Seis mil
hoje, seis mil amanh.
  - Josef... Achas que os cinco ou seis que salvmos significam
alguma coisa? - perguntou Moses.
  - Tenho de acreditar que sim - respondeu o meu pai.




O DIRIO DE ERIK DORF


Auschwitz
Maio, 1943

  De certo modo, estou a ser punido.
  O meu malogro em esmagar os conspiradores-artistas de
Theresienstadt em nada mudou a minha reputao junto de KaItenbrunner. Ficou furioso 
com a maneira como os artistas judeus nos
desafiaram. Contudo, de momento, tem problemas mais importantes. A aniquilao dos 
Judeus, de facto,  um assunto premente,
agora que os Russos tomarem a ofensiva.
  Sendo um indivduo falhado e paranico, no chega de modo
nenhum aos calcanhares de Heydrich, mas assumiu todos os postos
de chefia deste ltimo: o Departamento de Segurana, a Gestapo
e a RSHA, que se encontra profundamente implicada no problema
judeu.
  Kaltenbrunner pressente o receio que lhe tenho. Designou-me
para os centros de morte, na qualidade de uma espcie de reprter,
com a funo de o informar sabre o progresso de Maidanek,
Sobibor, Belzec e, principalmente, Auschwitz, que se est a transformar no fulcro dos 
nossos esforos.
  Hoess, o comandante, revelou-se um bom anfitrio para mim
e para um tal professor Pfannenstiel, perito em higiene da Universidade de Marburg. O 
comandante explicou que cada um dos
vrios campos que existem em Auschwitz no s se encontra
cercado por arame farpado como cada bloco, dentro do campo,
numa rea com cerca de quatro mil presos, est igualmente rodeado
de arame farpado por todos os lados. O arame farpado exterior
forma uma sebe dupla, a que se segue uma zona ecimentada
patrulhada por ces e guardas armados.
  - Himmler receia um ataque areo dos Aliados - informou-nos Hoess. - Teme que 
alguns deles consigam escapar.
  Interroguei-o sobre alguns relatrios respeitantes a sadismo
deliberado por parte dos guardas. (Infelizmente, as nossas fileiras
mais baixas nem sempre contam com o tipo mais exemplar do
soldado alemo.) Hoess confessou que o famoso sargento Moll,
cuja misso consiste em introduzir os cristais de Zyklon B na
cmara, fez uma vez <<tiro ao alvo>> contra um grupo de mulheres
judias. Escreveu-se em relatrio que as mulheres estavam nuas,
eram bastante bonitas e nem todas morreram imediatamente.
Foi repreendido.

  Uma guarda chamada Irma Grese, indubitavelmente uma
paranica qualquer, celebrizou-se por abrir os seios de mulheres
judias  chicotada. Em seguida, estas mulheres eram operadas,
sem anestesia, por um mdico, enquanto Irma Grese observava.
Hoess garantiu que examinaria o assunto, mas explicou que tais
actividades eram conhecidas por <<praticar desporto>>.
  Quanto s experincias mdicas, Hoess limitou-se a encolher
os ombros. Declarou receber ordens superiores para permitir que
continuassem. O meu velho amigo Artur Nebe forneceu ciganos
para experincias <<aquticas>>, em que os obrigavam a beber gua
salgada, depois do que morriam nume agonia insuportvel.
  Estava a par do processo de seleco e no me dispus a fazer
observaes. Os judeus chegam de toda a Europa em carruagens
sujas e a abarrotar. Junto dos carris faz-se uma triagem. Os considerados aptos para 
trabalhar so enviados para os aquartelamentos;
os idosos, doentes, crianas, mes com bebs e agitadores potenciais
so mandados imediatamente para uma das quatro instalaes
de Hoess.
  Nesta encantadora manh de Maio, estive com Pfannenstiel
no telhado de uma das cmaras. De um lado, numa espcie de
coreto, uma orquestra de mulheres prisioneiras, fardadas de azul,
tocava rias de Die Fledermaus.
  No topo do edifcio cultivou-se um relvado e sebes. A alguma
distncia ficam as famosas plantaes de rvores de que j me
tinham falado e onde obrigam os judeus a ficar  espera de vez.
  Hoess e Pfannenstiel iniciaram uma discusso tcnica de problemas de 
disponibilidade. Discutiram as fornalhas relacionadas
com os novos e mais amplos crematrios, onde os corpos so
queimados logo, contrariamente ao sistema, fora de portas, das
unidades mais antigas, onde os corpos tm de ser arrastados para
o exterior pelos Sonderkommandos - brigadas especiais constitudas por presos judeus 
que, por seu turno, so eventualmente
gaseados - e queimados ao ar livre.
  - A gordura humana  um importante combustvel - dizia
Hoess. - Servimo-nos de conchas para a extrair e fazer novas
fogueiras. Nos foges, como  bvio, tudo se consome imediatamente.
  As chamins atrs de ns estavam em funcionamento e tive
de cobrir o rosto. O cheiro era bastante acentuado. Os habitantes
polacos sentiam-no a quilmetros de distncia. Segundo parece,
a nossa tecnologia ainda no descobriu maneira de eliminar o odor
a carne queimada.
  Assisti  aproximao das primeiras filas de judeus. Obrigavam-nos a correr desde e 
rea das barracas at  pequena floresta.
As mulheres tentavam esconder os seios e a regio pbica. Vi que
uma das mulheres, ainda em cuecas, implorava a um guarda que
a deixasse conserv-las. Ele esbofeteou-a enraivecido e, em seguida,
arrancou-lhas rasgando-as de alto abaixo.
  Chegou~me o som de vozes.
  - No se preocupem - dizia um guarda em polaco. - E apenas uma operao de 
desinfeco. Assim que estiverem c fora
e libertos dos piolhos, sero distribudos pelos diversos trabalhos.
  Detive-me, por momentos, a olhar uma mulher que segurava
uma criana ao colo. Dois velhos apoiando-se mutuamente. Uma
bela jovem de olhos profundos. Subitamente, comeou e gritar
para um guarda:
  -Tenho vinte e dois nos! Tenho vinte e dois anos!
Ele silenciou-a com uma pancada, dada com o basto de borracha.
Interroguei-me sobre o motivo par que uma mulher to bonita

no fora escolhida para o bordel do campo. No  segredo que
existe tal instituio - vrias, de facto, tanto para os oficiais como
para os homens recrutados. No entanto, as mulheres so polacas
e russas na sua grande maioria. Himmler  rigoroso quanto
 <<corrupo da raa>> e presumo que, sendo assim, nem uma Vnus
judia seria poupada.
  Pfannenstiel afastou-se para estudar a porta e espreitar pelo
ralo - a cmara no estava em funcionamento - e Hoess puxou-me para o lado:
  - Ento o Kaltenbrunner livrou-se de si?
  - No  verdade.
  - Dizem-me que ele quer que voc fique farto. Sei que no
tem um estmago muito forte. Demasiado trabalho de secretria
em Berlim.
  - Ainda aguenta bastante, Hoess.
  - Sim. Estou de acordo. Foi voc que nos ajudou a conseguir
o Zyklon B.
  O professor regressou e Hoess conduziu-nos at  ampla
cmara. Apontou para as cabeas dos duches, os tubos, as torneiras,
as paredes de mosaicos.
  - Quando esto todas em funcionamento, conseguimos tratar
de doze mil por dia - esclareceu.
  Pfannenstiel mostrou-se impressionado:
  - Incrvel. Informaram-me de que, em Treblinka, apenas
conseguiam aplicar o processo a uns oitenta mil por ano.
  - Esse horroroso monxido de carbone! - retorquiu Hoess.
-No prestava. Era lento. Por vezes, havia motins. Os Judeus
suspeitavam do que lhes estava reservado e revoltavam-se. Aqui,
operamos rapidamente e so enganados at ao fim.
  - Ou querem ser enganados - observei.
  - Que interessa, desde que o trabalho seja executado com
rapidez e eficincia?
  Mostrou-nas o mecanismo de transporte, os fornos com os
jactos de gs a arder no interior. Notava-se um cheiro enjoativo,
a carne carbonizada.
  - Temos quarenta e seis fornos iguais - prosseguiu Hoess
- alm das valas, onde os corpos so queimados no exterior.
Como v, trata-se de uma operao em grande.
  - Quantos comporta este? - perguntei.
  - Cheio, aproximadamente dois mil e quinhentos - respondeu Hoess, depois de pensar 
um pouco. - Sem contar com
as crianas. Conseguimos enfi-las facilmente. Ver. Isto ,
se desejar ver.
  - De onde so estas pessoas? - perguntei, no caminho de
regresso  cmara. Reparei nas goteiras ao longo da parede, que,
segundo presumi, se destinariam ao escoamento do sangue e outros
fludos e a uma maior capacidade de limpeza. Havia uma enorme
ventoinha elctrica num dos cantos, que, de acordo com as explicaes de Hoess, se 
destinava a eliminar o gs quando uma operao terminava. Os Sonderkommandos tinham 
de entrar apressadamente, e servir-se de ganchos, com que arrastavam os mortos pelo
queixo, carregando-os mecanismo de transporte.
  - Saram directamente dos comboios para aqui - explicou
Hoess. - So do transporte da manh. Vieram de toda a Europa:
Frana, Holanda, Polnia, Alemanha. O Fhrer est a ver o seu
desejo satisfeito.
  - E os que so poupados? - quis saber.
  - Acabaro, eventualmente, por cair. Depois de lhes terem
sido distribudos trabalhos no campo, so um bocado mais difceis

de enganar. Nessa altura j sabem, mas mesmo assim vo. A vida
nas casernas no  um paraso e, assim, julgo at que se sentem
um tanto aliviados.
  -  por ali que se lanam os cristais - indicou Hoess,
apontando para uma abertura no telhado. - Um sistema melhor
do que o dos velhos diesel.
  Hoess comeou a queixar-se dos problemas de armazenamento
do Zyklon B. Deteriora-se e organizou-se um sistema especial de
distribuio, a fim de velar pela manuteno do abastecimento.
Ouvi falar na companhia designada para manufacturar, vender
e embarcar o produto e sente-se um tanto picado. Sabe que se esto
a verificar lucros elevados no que se refere ao Zyklon B e acha
que deveria ter a sua parte. Os grandes do partido, os industriais
endinheirados esto a receber lucros com a venda do gs, enquanto
ele e outros como ele levam a cabo o trabalho que d origem
 procura.
  -Estamos quase prontos - informou Hoess.
  Levou-me a mim e ao professor para um ponto alto, de onde
podamos avistar os judeus a serem conduzidos como rebanhos,
desde as rvores at  porta de ao aberta da cmara grande.
Nas nossas costas prosseguia a msica - melodiosa e alegre,
como se estivssemos a passar urna manh de Primavera no parque.
  -So to surpreendentemente pacficos...-observou
Pfannenstiel. -  quase um rito religioso. No sou um telogo,
sabem, mas tenho discutido este assunto com homens da Igreja
e eles so da opinio de que, de certa maneira, as Judeus esto
a ser sacrificados para que a Europa possa ser salva do bolchevismo. Quer dizer... 
que se sentem... bom, como Cristo, santificados... por se submeterem a este 
sofrimento.
  - Que disparate! - contraps Hoess, fitando-o. - Sou um
cristo de verdade, com mulheres e filhos cristos, e o que est
para a a dizer  pura estupidez. So vermes. Corrompem tudo.
Recebo as minhas ordens e obedeo-lhes, sem que a teologia seja
chamada para o caso.
  Prosseguiu com a explicao de como os Sonderkommandos
extraem dentes de ouro, alhos de vidro, prteses e rapam o cabelo
das mulheres, antes de carregarem os corpos nos mecanismos de
transporte. Trabalham rapidamente, para que tudo esteja pronto
para o carregamento seguinte. Doze mil por dia  um milagre
e Hoess merece os parabns por o conseguir.
  L em baixo, um sargento empurrava um grupo de mais
idosos e hesitantes:
  - Andem. Andem depressa. Cinco minutos e todos estaro
 c fora limpos e lavadas. Depois, tero uma cama quente, caf
 e bolos. Mexam-se.
   Com grande surpresa minha e quando a cmara dava a sensao de estar a abarrotar, 
os guardas comearam a passar crianas
pequenas e lamuriosas por cima das cabeas e dos braos dos que
j l se encontravam. Tudo decorria como se quisessem aproveitar
a mnima partcula de cada metro cbico.
  -  importante que entrem todos - explicou Hoess. - No
queremos que alguns voltem para o campo e contem histrias
capazes de perturbar os outros.
  A porta de ao fechou-se. As paredes eram muito espessas
e tornava-se quase impossvel escutar sons que viessem do interior
da cmara. A msica aumentara.
  No topo da cmara, havia uma espcie de cogumelos de formato estranho, semelhantes 
a maquinetas, e um sargento das SS

estava, nesse momento, a retirar a tampa. Reparei numa ambulncia
do Exrcito alemo estacionada l em baixo. Um soldado que
transportava uma lata - uma embalagem semelhante  que ainda
h pouco tempo tinha visto em Hamburgo - subiu pelo lado
da cmara. Atirou-a ao homem que estava junto do <<cogumelo>>.
  Hoess fez um aceno de cabea ao homem. Vim, mais tarde,
a saber que se tratava do famoso sargento Moll.
  Moll arrancou a tampa da lata e afastou-a do rosto. Em
seguida, esvaziou os cristais azulados pelo <<tronco>> do <<cogumelo>>,
ao mesmo tempo que dizia:
  - OK. Dem-lhes alguma coisa que mastigar.
  Aguardmos uns momentos - Pfannenstiel, Hoess e eu.
  Seguiu-se um sussurrar, um rudo semelhante ao levantar
de vento e que deu a sensao de se gerar da cmara. Haess deixou-nos, para ir 
observar a cena atravs do ralo. Convidou-nos a que
o acompanhssemos. Pfannenstiel j vira o que se passava no
interior. Dei uma desculpa qualquer.
  - Leva cerca de doze minutos - elucidou o professor.
- Arranham, esgatanham e tentam chegar  porta, mas debalde.
Os corpos apresentam-se, frequentemente, cheios de sangue e de
fezes. Sugiro~lhe que no olhe quando abrirem a porta, major Dorf.
Torna-se necessrio um certo tempo de habituao.
  Ajoelhou-se e encostou o ouvido ao telhado da cmara.
  - Fantstico. Absolutamente espantoso - comeou com um
sorriso. - Assemelha-se aos lamentos que se ouvem numa sinagoga.




Berlim
Maio, 1943


  Fiz um esforo para conquistar as boas graas de Kaltenbrunner: arranjei-lhe uma 
sesso de slides referentes a algumas
das operaes em Auschwitz.
  Pareceu satisfeito com as fotografias que projectara no seu
gabinete, outrora pertencente a Heydrich. Falei-lhe do excelente
sistema de gesto de Hoess - distribuindo os saudveis ,pelas
empresas Farben, Krupp e Siemens, onde trabalhavam at morrer,
e despachando os inteis para as cmaras.
  A certa altura, Kaltenbrunner citou Himmler, depois de olhar
para uma fotografia de corpos amontoados  porta da cmara,
a qual fazia lembrar uma cena do Inferno de Dante.
  - O boss afirmou que o que as pessoas designam por anti-semitismo no passa de 
desinfeco. Eliminar piolhos no  uma
questo de ideologia, mas de higiene.
  So inmeros os motivos que nos levam a matar judeus.
Para Himmler  tudo <<desinfeco>>, para Heydrich era um instrumento poltico a 
vrios nveis e para o Fhrer a concretizao
final do seu ponto de vista. Que assim seja. Obedeo. Invadem-me
o crebro imagens de crianas nuas a serem passadas por cima
da cabea dos pais, para o interior das cmaras. Contudo, nada digo
a Kaltenbrunner. Que h a comentar, depois de se ter aceite
a necessidade do programa?
  Quando o ltimo dispositivo passou pelo ecr, o rosto
hediondo de Kaltenbrunner abria-se num sorriso que me era
dirigido.

  - Prestou a sua habitual dedicao ao novo trabalho de que
foi encarregado, Dorf - observou.
  - Agradeo-lhe, general.
  - Agora, pode sair.
  - Fazia teno de lhe falar deste novo trabalho - retorqui,
depois de uma pausa. - Obriga-me e estar sempre em viagem:
Polnia, Rssia. Esperava que me concedessem um trabalho fixo
em Berlim. Para lhe poupar esforos.
  - No, no, Dorf. Quero-o na Polnia. Quero-o prximo
dos campos. Recebi relatrios de que os judeus esto a infringir
normas e a revoltarem-se.
  Voltei a hesitar. Temia-o.
  - O problema  o da minha mulher, general. Detesto
abord-lo.
  - Ah! Um pouco de adultrio, enquanto o <<menino> est
ausente?
  - Nada disso, general. A senhora Dorf  doente. H anos
que sofre do corao. Estas minhas ausncias prolongadas esto
a revelar-se negativas. Racionamentos de comida, os bombardeamentos.. .
  - Interne-a no nosso hospital. D-lhe umas frias. Nada queremos que falte s 
mulheres dos oficiais das SS.
  -  muita bondade da sua parte, senhor. Contudo, ela necessita da minha presena 
aqui.
  Kaltenbrunner fez rodar a cadeira e ergueu-se. Perecia uma
torre surgida diante de mim:
  - Voc surpreende-me, Dorf. Os nossos exrcitos esto a ser
dizimados em Estalinegrado. Toda a frente russa avana. Os Aliados
vo a caminho de Itlia. E vem queixar-se da sua mulher doente.
  Apelei uma vez mais, e de novo Kaltenbrunner me repeliu.
Fez referncia aos rumores que corriam a meu respeito - as minhas
pressupostas convices de esquerda, inimigos que arranjara. Tentei
defender-me, mas j no precisava de mim. Por momentos senti-me
no papel de Hamlet, comparando o pai falecido a Cludio - como
Hiperion a um stiro. A comparao era a mesma entre o meu
chefe desaparecido e este selvagem bruto e de cabea quadrada.
  Esta noite o clima entre mim e Marta resumia-se a algo mais
do que a habitual tenso. Desde a morte de Heydrich (j l vai
um ano) que pressentiu em mim um receio, uma incerteza, uma
perda das garantias que usufru enquanto ele foi vivo.
  Comecei a beber um bocado. No sou alcolico, mas,  noite,
alguns clices de conhaque ajudam a descontrair-me. Esta noite,
Laura estava a dormir. Peter encontrava-se num campo de treino.
(Diz-se por a que os midos de quinze anos sero organizados
em batalhes de resistncia caso os Russos alguma vez consigam
quebrar as nossas barreiras de defesa da Alemanha.)
  Marta abriu inesperadamente uma pasta castanha e comeou
a ler em voz alta. Apercebi-me imediatamente de que tinha em seu
poder cpias das cartas que eu escrevera aos comandantes de campo.
No ,fiz qualquer gesto para a deter. Continuei a beber e a ouvir.
  Expressava-se num tom de voz trocista e sublinhado a escrnio:
- <Todos os cadveres enterrados em Babi Yar devem ser retirados para fora e 
queimados. No deve restar qualquer vestgio.
O seu trabalho, Blobel, foi desorganizado e descurou vrias zonas.
Trata-se de uma misso prioritria.
  - No tinhas o direito de as ler.
  - Gosto do tom - continuou. - A Hoess: <<No me agrada
o sistema de remoo dos restos queimados, para que o moinho
os reduza a cinzas. No podemos utilizar uma fornalha que destrua

tudo? E durante quanto tempo conseguir o rio Sola absorver estas
toneladas e toneladas de cinzas? >>
  - Pra.
  - Ou ento esta - prosseguiu Marta, indiferente ao meu
reparo. - <<H que exercer um melhor controle sobre os programas
de experincias mdicas. Compreendo. o particular fascnio do
Reichs fhrer pelos gmeos, nas informam-me de que os mdicos
se esto a servir de gmeos no judeus.  uma m poltica. Gostaria
igualmente de receber relatrios sobre experincias de esterilizao
por injeco, bem como relativamente ao programa de esterilizar
judeus pelos raios X. Para qu tanto alarido quanto a um programa
de esterilizao, se agora todos sabemos qual o seu destino
eventual? 
  Pousou a pasta com um rudo seco.
,
  - No eram coisas para leres, querida - observei, cansado.
  - Oh! H muito tempo que andava desconfiada. Toda essa
" conversa sobre a execuo de sabotadores e de espies, de controle
  de doena para l das linhas do inimigo.
  Estava demasiado fatigado, mental e fisicamente, para conversar com ela.
  - E agora sentes nojo de mim! - observei.
  - No. Pretendo ajudar-te.
  No fazia ideia do que quereria dizer. Juntei as cpias das
cartas e voltei a met-las na pasta, anotando mentalmente que,
de futuro, no deveria guardar este tipo de documentos em casa.
  -- O que te disse hoje Kaltenbrunner? - quis saber.
  - Regresso  Polnia amanh.
  - No conseguiste impor-te, Erik? Depois de tudo o que
  g
fizeste por eles?
  Servi-me de mais um conhaque:
  - O local deixou de interessar: Polnia, Rssia, Berlim.
As paredes no tardaro a desmoronar-se.
  Sentou-se ao meu lado, no sof. Devido  generosidade de
Eichmann, adquirimos uma coleco de mobilirio maravilhosa,
retirada dos seus armazns de Praga. Condizem na perfeio com
o velho Bechstein.
  -Interessa, sim-contraps Marta.-Kaltenbrunner
decerto tem conscincia desse... desse ar de derrota que mostras
quando falas. No admira que a tua carreira tenha chegado ao fim.
Tens sorte em que Heydrich te tenha promovido antes de morrer.
Essas cartas... o tom que utilizas... do a entender que pareces
revoltado com o teu trabalho, envergonhado dos teus actos.
  -Talvez seja verdade, por vezes.
  Ergueu o tom de voz.
  - No  possvel. Tens de continuar! Se tu... se ns pararmos neste momento, o 
mundo pensar que somos culpados. Mas se
prosseguirmos e explicarmos os nossos actos, conseguiremos vencer!
  Dei um salto do sof, entornando conhaque no tapete turco.
  - Deus do cu, Marta! Como te interpretei mal! A minha

frgil Marta! - comecei a rir. - E cheguei a pensar que estavas
furiosa comigo por estar afundado at ao pescoo no sangue dessas
crianas judias!
  - No digas essas coisas. No.
  -E apenas te irrita que no seja mais orgulhoso e mais
dinmico no exerccio da minha tarefa.
  - Deves ser! - gritava-me. - Faz o que te ordenam at

ao fim. Isso convencer as pessoas de que ests a agir justamente.
Obedece. Obedece, como Hoess e Eichmann. De cada vez que te
mostrares hesitante ou puseres algo em dvida, como essas experincias, estars a 
ajudar a cavar a tua prpria sepultura.
  Voltei a soltar uma gargalhada e afundei-me no sof.
  - E no te rias de mim!
  - No me rio. Sinto-me divertido com a minha estupidez.
Claro que devo cumprir a minha misso com mais energia e dinamismo.
  Ficou a olhar-me durante uns momentos. Em seguida, apagou
a luz de cima. A nica iluminao na sala provinha de um bonito
candeeiro cloisonn, uma gentileza de Eichmann. Marta ajoelhou-se
na minha frente e rodeou-me a cintura com os braos.
  - Por vezes, Erik. . . sinto receio de que sejamos punidos - disse, num tom de voz 
fantasmagrico.
  - Castigados?
  - Todos ns.
  - Tu nada fizeste. Tenho sido um bom saldado. Un bon
soldat, como diria Eichma:nn.
  - Essas cartas. Os fornos. As piras. As experincias. Um rio
transbordante de cinzas. - Ergueu os olhos na minha direco.
Estavam secos e os lbios no tinham cor. - Esse o motivo por
que todos devem morrer. Para que ningum saiba. Para que no
reste ningum que possa contar. Para que ningum conte mentiras
a vosso respeito. Entendes?
  Fitei-a e apertei-a. Mas os nossos corpos estavam frios e com
uma incapacidade mtua de transmitirem calor.

A HISTRIA DE RUDI WEISS

' Durante toda a segunda metade do ano de 1942, o gueto
' foi-se esvaziando de judeus - enviados para Treblinka, Auschwtz,
  outros campos de morte. E as pessoas continuavam a cumprir
  o destino, silenciosamente, com escassos actos de resistncia.
  O doutor Kohn, o membro mais cooperante do Judenrat,
  suicidara-se com uma plula de cianeto. F-lo depois de Hoefle,
  o comandante das SS, ter aumentado o nmero dirio de seis mil
  para sete mil.
  At ao momento, ainda no houvera hiptese de estruturao
  de qualquer resistncia contra os Alemes. No havia, muito simplesmente, armas 
suficientes nem to-pouco munies.
  No entanto, o meu pai prosseguia com aquela pequena iluso
  na clnica da estao de caminho de ferro, salvando agora uma
  dzia de pessoas, meia dzia depois, convencendo as autoridades
  de que o seu <<departamento>> hospitalar estava autorizado.
  Um dia, ele e a minha me, olharam atravs da montra
  rapada com cortinas. Os nazis utilizavam uma nova tctica. Ofereciam s pessoas uma 
fatia de po e um boio de marmelada,
  como engodo para entrarem nos comboios. Mantinham-se confusas, fatigadas, 
apatetadas, apertando com fora aqueles bens pre  ciosos, sem perder a esperana at 
ao final.
  Nesse dia, Zalman recebera ordens de embarque. O meu tio
  Moses arrancou-o ousadamente  multido, explicando a um kapo
  que o homem estava muito doente, e encaminhou-o para a clnica.
  - V ao lavatrio - ordenou o meu pai. - Vomite. Meta
  os dedos na garganta.
  - Esto a observar-nos - retorquiu Zalman, preocupado.
  - O Hoefle est l fora.
  - Deixe-os por minha conta - tranquilizou-o o meu pai.

  Moses, que estava de vigia  janela, verificou que Hoefle
e um tipo chamado Karp, o chefe da polcia do gueto, se aproximavam.
  - Vm a - anunciou Moses.
  - Sai pela porta das traseiras, Berta - ordenou o meu pai.
- Vai para a escola.  melhor esconderes-te com algum. Acompanha-a, Zalman.
  Saiam os dois. Hoefle e Karp entraram praticamente nessa
altura. Este ltimo era um instrumento dos nazis, um judeu convertido, que criara 
dio em todos os habitantes do gueto.
  - Todos de p! - rugiu Karp.
  - Estas pessoas esto doentes - protestou o meu pai.
  - Cale-se, Weiss. De p, em frente do major Hoefle.
  A meia dzia de pessoas que se encontrava na diviso ps-se
de p.
  - O que se passa aqui, com os diabos? - perguntou
Hoefle.
  Ele e os oficiais raramente punham ps no gueto. Apoiavam-se nas patentes 
inferiores - sargentos, milcia ucraniana e polcia
do gueto.
  - Esta clnica pertence ao hospital, senhor - elucidou
o meu pai.
  - Estas pessoas no tm aspecto de doentes - retorquiu
Karp. - Onde est a autorizao escrita para tudo isto?
  - Existe - argumentou o meu pai, que se esforava por
no perder o controle. - No tenho culpa que o vosso pessoal no
seja eficiente.
  O chefe da polcia do gueto e o oficial das SS passaram
revista  clnica, inspeccionando os remdios da pequena mesa de
dispensrio do tio Moses e espreitando por baixo das camas.
  - Que diabo de aldrabice dirige aqui, Weiss? - inquiriu Karp.
  - Sou o doutor Weiss, Karp.
  Hoefle sorriu ante o comentrio: um judeu contra outro
judeu.
  Karp parou junto de um div, ande uma mulher nova estava
deitada. Era prima de Eva Lubin, uma mulher que se declarara
disposta a lutar na Resistncia.
  - O que tem? - perguntou-lhe Hoefle.
  - Febre.
  Hoefle - um assassino monstruoso, um antigo oficial dos
Einsatzgruppen - colocou-lhe a mo ao de leve na testa. Olhou
para Karp, no pronunciou palavra e saram os dois.
  O meu pai e o tio Moses viram-nos afastarem-se. Agora,
sabiam que os aguardava o pior. Contudo, estavam decididos
a manter a farsa. Talvez se desse qualquer milagre. O meu pai
voltou a tentar convencer Karp de que seria um erro deixar que
doentes fossem transportados no comboio. No entanto, Karp
recusou-se a receber o meu pai no gabinete.

  Hoefle no levou tempo a desfechar a seta.
  Veio a saber-se posteriormente - atravs de um informador
da fora policial de Karp - que a clnica seria incendiada e todos
os que de qualquer maneira com ela estavam relacionados tinham
como destino um lugar no prximo carregamento.
  O primeiro golpe abateu-se sobre a minha me.
  Estava a ensinar as crianas a cantar canes populares judias,
rias brejeiras (uma transformao de realce naquela nobre senhora,
to orgulhosa do seu Mozart e Beethoven), quando Karp e um
ajudante entraram na sala de aula.
  A minha me tinha uma presena de tal maneira digna

e calma que se mostrou submisso, quase a pedir desculpa.
  - Desculpe-me, senhora Weiss, mas tem de me acompanhar
- disse.
  - Podemos ensaiar a cano mais uma vez?  para a festa
das crianas.
  - Receio que no seja possvel.
  - Posso ver o doutor Weiss?
  - O seu marido estar na estao.
  Apercebeu-se imediatamente do que estava prestes para acontecer. Calmamente (como 
me veio a contar um dos estudantes),
pegou no casaco, no bloco de apontamentos e despediu-se das
crianas.
  - Vai voltar, professora? - perguntou Aaron Feldman.
  - Claro. Encarregas-te da aula na minha ausncia, Sarah?
  A aluna, que fazia parte do grupo das mais velhas, fez um
aceno de concordncia e avanou at  frente da aula.
  - Se no vier durante algum tempo, no devem pr de
parte as lies - aconselhou a minha me. - Sero melhores se
receberem educao, conhecerem Shakespeare e o teorema de Pitgoras. Adeus, midos.
  Despediram-se dela. Tinham visto pessoas partir para a estao de caminho de ferro 
milhares de vezes; estavam informados
sobre os transportes.
  Na estao, estavam a reuni, a registar e a agrupar o habitual
grupo de sete mil. A minha me olhou para a pequena clnica
e viu que a tinham destrudo. Fitou Karp.
  - Obedeo a ordens, senhora Weiss.
  Lowy e a mulher tambm estavam includos naquele carregamento. O meu pai tinha-os 
salvo uma vez. No entanto, o tipgrafo havia sido apanhado durante a caa mais 
recente s vitimas.
A senhora Lowy soluava sem se conseguir controlar.

  - Acaba com isso - ordenou Lowy. - Que mal pode acontecer? Deves sentir-te contente 
por sairmos desta pocilga.
  O meu pai no demorou a aparecer, carregado com duas
malas. Obteve permisso para levar alguns dos remdios. Tinha
o chapu de feltro coado com que visitara os seus doentes em
Berm e o mesmo sobretudo escuro.
  Ele e a minha me abraaram-se.
  Lowy e a mulher cumprimentaram-no.
  -  uma pena, doutor. Depois de todos os seus esforos.
Acho que estamos destinados a andar sempre juntos.
  -  mesmo - concordou o meu pai. - De novo companheiros, Lowy.
  As pessoas daquele grupo faziam parte de uma seco heterognea do gueto - pobres, 
esfomeados, judeus da classe mdia
  e at mesmo aristocratas, como os meus pais.
  - Sabes, Berta? Quase me sinto como se o Lowy fosse um
velho colega de escola - disse o meu pai, tentando fazer esprito.

  A Umschlagplatz era um local sombrio e deprimente - um
campo com cerca de trinta por cinquenta metros. A toda a volta
erguia-se um alto muro de tijolos e as traseiras de um edifcio
abandonado. Os escolhidos para o transporte eram encaminhados
como rebanhos atravs de uma sebe de arame. L dentro, sentavam-se em cima das malas 
e dos sacos, trocando alimentos, tentando cozinhar, fazendo os ltimos esforos para 
se escaparem.
  Os meus pais permaneceram a doze horas, juntamente com
os Lowy e centenas de outros, antes de chegarem os comboios.

Foram horas de pavor. A dada altura, dois jovens tentaram fugir.
Escaparam-se para o edifcio abandonado e tentaram passar do
telhado do mesmo para o prdio contguo. Os guardas das SS
abateram-nos a tiro. As pessoas de mais idade comearam a gemer;
crianas choravam. No havia sanitrios. As pessoas ;faziam as necessidades pelos 
cantos do ptio.
  - Quem me dera que se despachassem! - exclamou Lowy.
- O campo de famlia tem de ser melhor do que isto.
  - Sim. Acho que estvamos a precisar de uma mudana.
No achas, Josef? - redarguiu a minha me.
  E, no entanto, o meu tio Moses contara-lhes a verdade sobre
os transportes: iam a caminho da morte. Mesmo assim, tentavam
fazer esprito, tornar mais suportvel o destino que os aguardava. Em breve se 
verificou um desdobramento dos guardas-polcias do gueto, SS. O facto significava que 
o comboio estava
prestes a chegar.
  - A Resistncia perde assim o seu principal impressor - observou o meu pai a Lowy. 
- Como iro arranjar-se?
  - Andei a treinar a Eva. Se se mantiver no ofcio dar uma
boa profissional.
  O meu pai fez um aceno afirmativo de cabea. A Resistncia.
Deixaria de fazer parte do movimento.
  - E o meu irmo? - perguntou a Lowy.
  - Escondido com o Zalman. No ser fcil. Os alemes esto
a passar a pente fino blocos inteiros. Quem quer que apanhem
escandido,  morto no local.
  O comboio apareceu por volta das cinco da tarde. O altifalante
voltou a emitir ordens - as pessoas deveriam seguir em fila para
os vages, ench-los e cumprir as regras de higiene. Havia um nico
balde em cada vago para esse fim.
  Dirigiram-se, pois, para o comboio. A minha me e o meu
pai avanaram de brao dado. Uma mulher, com uma criana ao
colo, implorou medicamentos ao meu pai. Ele respondeu que lhe
daria assistncia, assim que estivessem dentro do comboio.
  Karp, uma das pessoas mais odiadas de toda a Varsvia, aproximou-se dos meus pais.
  - Lamento, doutor Weiss.
  - Retire a minha mulher do transporte, Karp - apelou
o meu pai pela ltima vez. -  uma professora, uma intrprete.
Fala melhor alemo do que os seus superiores. Faa um pedido
a seu favor.
  - No h hiptese, doutor.
  No fundo da multido em movimento, um jovem perdera
a razo, e lutava para fugir atravs do porto de ferro. Foi derrubado, 
metodicamente, com bastes at cair no cho.
  - No consegues ver-te livre de mim com essa facilidade,
Josef - retorquiu a minha me.
  - Oh! Apenas me estava a despedir do nosso amigo, o chefe
Karp - sorriu.
  - No me culpe - pediu Karp. - Um destes dias tambm
me vo cair em cima.
  - Se no formos ns a faz-lo primeiro - retorquiu Lowy.
  Subiram para as plataformas de acesso aos vages de gado.
As pessoas correram para os lugares que ficavam perto das aberturas. A respirao e 
as movimentos seriam algo difcil. A mulher
de Lowy teve um ataque de histerismo.
  - Deixa de balir para a - ralhou Lowy. - O que esperavas? O Expresso de Paris? 

  - No consigo. Tenho medo.
  - Temos todos, senhora Lowy - retorquiu o meu pai.
-Mas h que enfrentar os factos corajosamente.
  Soaram mais tiros na Umschlagplatz. Tinham morto o jovem
enlouquecido.
  Os meus pais entraram na carruagem de gado. O meu pai
conseguiu um lugar e pousou a mala, reservando o espao
para dois.
  - Reservas de primeira classe - disse. - Tenho de falar com
o chefe, devido a estas condies deplorveis de viagem.
  - Enquanto nos tivermos um ao outro, Josef, no conseguiro destruir-nos - disse a 
minha me, pegando-lhe no brao.
  - Tens toda a razo, minha querida.
  No sabiam, mas o comboio em que se encontravam seguia
com destino a Auschwitz e no a Treblinka. Este ltimo campo,
mais primitivo e de menor capacidade, encontrava-se a abarrotar
de gente.

  Em Janeiro de 1943, o nosso grupo de guerrilha, sob a chefia
do Tio Sasha, fizera incurses sobre os colaboradores ucranianos
por trs vezes. Arranjmos armas e munies e matmos algumas
dzias deles. Chegara a altura de atacar os alemes.
  Numa vspera de Ano Novo, em que caa neve, reunimo-nos
num bosque nas cercanias da cidade de Bechak, onde acabara de
chegar uma guarnio das SS. Samuel, o rabi que nos casara, celebrou uma breve 
cerimnia religiosa, enquanto a neve branca
e silenciosa caa, cobrindo-nos os chapus de pele e os pesados
casacos. A maioria de ns calava botas roubadas aos ucranianos.
Todos estvamos magros e esfomeados. No Inverno, tornava-se
difcil obter comida e vamo-nos forados a nunca parar muito
tempo no mesmo local.
  - Escuta, Israel, o Senhor Nosso Deus, o Senhor,  um s
- entoava Samuel num tom de voz suave.
  Tinha-me esquecido de como se rezava. Bar-naitzvah e os feriados resumiam a 
extenso da minha prtica religiosa. Assistamos
(quando o fazamos) ao servio religioso numa sinagoga reformada,
onde grande parte se dizia em alemo. Reparei que o 'I'io Sasha
no participava nas oraes.
  Ele e eu ficmos de lado, protegendo as nossas espingardas,
 espera.
  - E tu, Weiss? Uma orao ou duas?
  - No sei rezar.
  - Eu sei, mas no rezo. Desde que e minha famlia foi
assassinada. - Ergueu os olhos na direco do cu invernoso.
A neve descia em nuvens de flocos, quase como se nos acariciasse.
- D-nos qualquer citao que ajude os Judeus a entrarem em
luta, rabi.
  Samuel findou as preces, sorriu para o Tio Sasha e disse:
  - E David disse aos seus homens: <<Dem a cada um a sua
espada. Amm. >>
  No grupo ramos sete - todos homens. Algumas vezes, as
mulheres acompanhavam-nos nas incurses. Contudo, o Tio Sasha
tinha decidido que, contra uma guarnio alem, apenas os homens
deveriam lutar. O rabi deixou-nos e regressou ao campo.
  No demormos a avistar as luzes da cidade de Bechak. Dava
a sensao de se encontrar muito distante, num outro planeta.
O grupo parou. Tornei-me, subitamente, o alvo das atenes.
Tiraram-me o barrete de pele e enfiei um capacete alemo na

cabea. Retirei a tnica larga que vestia. Por baixo, tinha um
capote do Exrcito alemo, cintos e munies. Transportava uma
espingarda Marser.
  - At a mim me enganavas - declarou Sasha, fitando-me.
  - Quase me engano a mim.
  - Pronto? Comea a andar. Seguiremos uns cem metros
atrs de ti, um grupo  direita, outro  esquerda.
  - No me esquecerei.
  - No te esqueas de outra coisa ainda - aconselhou Sasha.
- No hesites a matar.
  Avancei sozinho, atento ao caminho, enterrando os ps na
neve. Cheio de frio e assustado, pensei no meu irmo - segundo
parecia, condenado a apodrecer, eternamente, na priso. Em Anna,
morta em circunstncias que me enchiam de suspeitas. Nos meus
  pais, que viviam no inferno de Varsvia. (Desconhecia que tinham
  sido enviados para Auschwitz e tambm o seu destino.) E nos
   meus avs, mortos pelas suas prprias mos, incapazes de enfrentarem o terror.
  No demorei a chegar  cidade. Era bonita, assemelhando-se
  a uma pintura no meio da neve. Um co ladrou-me. As ruas estavam vazias. Em todas 
as localidades ocupadas, observava-se rigorosamente o recolher obrigatrio.
j;;, J antes havamos explorado a cidade. Yuri, disfarado de
  caldeireiro, andara a vaguear por aquelas bandas h uma semana.
  Os alemes tinham estabelecido o quartel-general na Cmara da
  cidade. Tratava-se de uma unidade das SS, enviada provavelmente
  para apanhar quaisquer judeus fugitivos. Tinham um apetite de
  morte insacivel. No estvamos certos do seu nmero - talvez
  uma companhia, talvez apenas um peloto. Fosse como fosse, as
  casernas dos homens recrutados situavam-se no extremo da cidade,
  num velho moinho. Os oficiais encontravam-se, porm, alojados
  no edifcio da Cmara.
  Entrei por uma rua lateral. As minhas botas esmagavam
  a neve. Havia duas sentinelas de guarda do lado de fora da Cmara.
  O edifcio estava amplamente iluminado. Ouvia cnticos vindos
  do interior. Claro! Uma festa de Ano Novo. Os alemes estavam
  acompanhados de putas russas e ucranianas e das namoradas.
  As sentinelas cruzaram-se em frente do edifcio. Seguida  mente, uma delas 
afastou-se e desapareceu da nossa vista. Apressei-me a sair da rua lateral e avancei 
at junto do soldado.
  - Que raio de maneira de um homem passar o Ano Novo
  - disse.
  - Eh! .. . Quem  voc? - perguntou.
  - Estafeta do batalho. O maldito telefone est novamente
  avariado. Trago um recado para o capito.
  Tinha-me aproximado com tanto -vontade, que nem sequer
  me perguntou pelo passe. Era muito novo e baixo. E eu tinha
  o aspecto e a pronncia de um soldado alemo.
  - Que capito? - quis saber.
  - Como diabo hei-de saber? Espere. Tenho aqui.
  Tirei um papel do bolso do casaco e entreguei-lho. A sentinela avanou at ficar 
debaixo da luz que se escapava do edifcio
da Cmara e piscou os olhos. Aproximei-me por trs.
  - Parece estar escrito capito Van Kalt.  isso?
  - No h nenhum capito com esse nome. Mas que diabo. ..
  Rodeei-lhe o pescoo com uma tira de couro, enfiei-lhe o joelho nas costas e 
derrubei-o. Toda a raiva que fervera dentro de
mim durante aqueles anos, envolveu-me os braos e as mos.

Debateu-se um pouco e, em seguida, parou. Dei mais alguns apertes com a tira de 
couro, a fim de me certificar. Depois, tirei-lhe
a espingarda. Arrastei o corpo para o lado dos degraus de pedra
e encostei-me  parede do prdio.
  Segundos depois, a outra sentinela virou a esquina. No perdi
tempo com diverses. Em vez disso, dei um salto do stio onde
me encontrava e esmaguei-lhe a cabea com o cano da espingarda.
O capacete voou-lhe e, antes de poder gritar, bati-lhe novamente.
Os miolos estouraram.
  O tio Sasha e os outros saram a correr da sombra.
  - Yuri e os teus homens, pela porta das traseiras - ordenou Sasha. - Os restantes, 
pela frente. Continuem a disparar, mas
por amor de Deus no se firam uns aos outros.
  Entrmos de rompante pela sala principal sem um aviso nem
uma palavra.
  Havia uma dzia de oficiais alemes e um nmero igual de
mulheres. Um jovem tenente tocava piano.
  Todas davam a sensao de cansados e satisfeitos. No era
uma festa de Ano Novo muito animada. E ns no contribumos
para a animar.
  O Tio Sasha disparou as primeiras rajadas e matou trs homens junto da porta. Yuri 
fez pontaria ao homem sentado ao piano,
que caiu ruidosamente sobre as teclas. As mulheres gritaram.
Alguns - homens e mulheres - atiraram-se ao cho. Um capito
ergueu-se, de mos levantadas.
  - A sala das armas - ordenou o Tio Sasha, agarrando-o
pela gola.
  - Est bem. Mas no nos matem.
  - Rpido. Fica de guarda aos outros, Yuri. Os restantes
venham comigo.
  O capito - que ficara ligeiramente ferido num brao - deu
a volta  fechadura do depsito das armas. Enfeitmo-nos com
metralhadoras, espingardas e pistolas. Cada um de ns levou o mximo de munies 
possvel. Havia uma mala de primeiros socorros,
em que tambm pegmos.
  - Sabes manej-la, Weiss? - perguntou-me Sasha, apontando para uma metralhadora 
ligeira.
  - Tentarei - apanhei-a, pu-la ao ombro e segui-os at ao
salo.
  L dentro, Yuri comeara a ligar as mos dos alemes que
restavam. Contudo, Sasha estava cheio de pressa.
  - H uma maneira mais rpida! - declarou.
  Conduziu-nos atravs da porta. Em seguida, ordenou que atirssemos granadas para o 
quartel-general. Obedecemos. As exploses iluminaram' toda a povoao. Sabamos que 
os soldados das
casernas no demorariam a seguir-nos o rasto.
  Comemos a correr.
  Senti a bala de raspo no ombro. As minhas costas ficaram
quentes e hmidas. Levantei-me, mas tive de deixar cair a metralhadora. Yuri e outro 
homem ajudaram-me. Quando chegmos ao
campo, j eu havia perdido os sentidos.

  S me recordo do Tio Sasha a cortar-me o tecido. Estava deitado de lado. O 
desinfectante tapava-me o nariz e queimava-me
as costas.
  Em seguida, ouvi um rudo de tesouras e a dor no ombro
tornou-se insuportvel. Rugi. E acima dos uivos, ouvia Helena,
que gritava:

  - Parem! Parem! Esto a mago-lo!
  Correu para o outro lado do div e comeou a beijar-me, sem
deixar, porm, de gritar.
  - Quieta! - imps-se a voz do Tio Sasha acima dos gritos
dela. - Afasta-te ou ponho-te l fora, sejas tu mulher dele ou no.
  - Acabaro por o matar com essas malditas e estpidas
incurses - bramiu Helena.
  - Como te sentes, Weiss? - perguntou.
  - Cheio de dores.
  - Quase extra a bala. No podemos poupar a morfina com
estas coisas. Aguenta-te. Ficars bem.
  O rudo da tesoura e dos instrumentos cirrgicos de Sasha
eram praticamente to incomodativos como a dor. At ao momento
em que comeou a entrar mais fundo, tocando nos nervos. O desinfectante, um poderoso 
ingrediente do Exrcito Vermelho, ajudou.
O meu esprito estava to absorvido pelo odor acre que rangi os
dentes e gemi, decidido a no gritar.
  Um dia em que o meu pai examinou as ndoas negras com
que ficara depois de um duro encontro de futebol, concluiu que
eu tinha um elevado poder de resistncia  dor; podia aguentar
muito.
  -  vulgar entre os atletas - observara o meu pai com um
sorriso. <<E entre os menos inteligentes e sensveis>>, estivera prestes a 
acrescentar. No entanto, estou certo de que no tinha segundas intenes. S que 
esperava que fosse o duro da famlia, e dispus-me ao papel. Tal como agora, em que, 
tomado de uma coragem
machista, no queria gritar, berrar ou queixar-me em frente da
minha mulher.
  Helena chorava, sentada na beira do div, e beijou-me a nuca.
  - J tive dores piores - tagarelei. - Piores... ...parti o tornozelo... Estive sem 
jogar um ano.
  - Sai do caminho, com mil raios - berrou-lhe Sasha.
  - No.
  - Nesse caso, leva~ mais tempo e vai ser maior o sofrimento dele.
  Yuri, que se mantinha de parte, observando o sangue que
tingia os lenis, tentava acalmar todos.
  - Valeu a pena. Um homem ferido. E que arsenal: espingardas, metralhadoras, 
munies. Devemos ter morto uns oito
deles.
  - Estou-me nas tintas para o vosso arsenal! - explodiu
Helena, dando um salto do div.
  - Ah! Com os diabos! Continua a sangrar - exclamou
Sasha. - Passa-me um desses rolos de ligaduras.
  Continuou a cuidar de mim durante outro quarto de hora.
Helena recusou-se a sair do meu lado, fazendo-me festas na cabea
e beijando-me. Finalmente, Sasha ergueu no ar a bala deformada.
Ligou-me as costas.
  - C est ela, Weiss! - exclamou. - De uma Mauser. Algo
para mostrares aos netos.
  - Manda dar-lhe um banho de ouro! - riu Yuri.
  Helena arrancou-a da mo do tio Sasha e atirou-a contra
a parede.
  - Galem-se! Calem-se! Odeio-vos a todos. No posso suportar as vossas piadas, como 
se isto fosse um jogo. Claro que  um
jogo, mas um jogo que nunca venceremos. Ele est praticamente
a sangrar de morte e vocs brincam sobre a bala que quase o matou.
Estou farta deste campo e da forma como pensam que esto a conseguir qualquer coisa. 
Matam um alemo aqui, um ucraniano ali...

e de que serve? Um dia todos morreremos... um Inverno mais
matar-nos- a todos...
  A voz morreu-lhe num soluo sufocado. Caiu de joelhos
e comeou a bater de encontro aos barrotes gelados da cabana, no
parando de gritar que estvamos todos condenados e que o melhor
seria rendermo-nos aos Alemes.
  - No quero mais. . . no quero mais. . . - continuava a soluar. - Mais no.. . 
mais no. . .
  O Tio Sasha pegou na mala de primeiros socorros e fez um
sinal de cabea a Yuri, como se lhe dissesse: << um assunto de
marido e mulher.>>
  Dirigiram-se  porta. Voltei-me com esforo, apoiando-me no
cotovelo.
  - Foi quase to bom como o meu pai - elogiei. - Ningum
ligava to bem como ele.
  - Lamento no o ter conhecido - sorriu-me Sasha. - Talvez seja possvel, um dia. 
Verei se temos alguma coisa para te pr
a dormir. Podes ter de te arranjar com o resto do conhaque.
  Saram. Helena acocorou-se a um canto, limpando as lgrimas.
  - Vem c - pedi.
  Levantou-se, aproximou-se do div e sentou-se novamente ao
meu lado. Era bonita, mesmo vestida com a roupa grossa de
Inverno e as botas de feltro. Cortara o cabelo. H anos que o rosto
no recebia vestgio de maquilhagem. E, no entanto, resplandecia,
qual uma mulher para se olhar, desejar, amar.
  - Oh, Rudi... Podias ter morrido. E para qu?
  - Para lhes mostrar que no somos cobardes - peguei-lhe
na mo -, que no podem limitar-se a matar-nos sem mais nada.
  - Mas sabemos que esto a matar milhes. E h to poucos
que lutam... to poucos que escapam...
  - Mais um motivo para os combatermos.
  No pronuncimos palavra durante uns momentos. Apoiou
a cabea no meu peito e acariciei-lhe o cabelo curto, beijando-lhe
a orelha. Cada movimento causava-me uma cor que se propagava
pelo ombro e por todo o brao, mas aparentemente o sangue
parara.
  - Repete-me quanto me amas - disse-lhe.
  - Mais do que nunca. - Em seguida, recomeou e chorar.
- Mas viro atrs de ns. Sabero onde estamos. Algum contar,
algum ser torturado. Depois seremos todos...
  - Disseste um dia que nunca morreramos.
  - J no acredito nisso - retorquiu a minha mulher.
  - Viveremos, vers. Conhecers os meus pais, Karl, Inga.
E todos te amaro tanto como eu. Troaro por haver uma chana famlia, mas no 
passar de brincadeira.
  Acabou por me sorrir e passou-me a mo pela testa, numa
carcia. Nessa altura, tinha medo de morrer e ela tambm. Amvamo-nos muito. O 
inimigo pugnaria pela morte do nosso amor.
Contudo, no nos atrevamos a revelar um ao outro o medo que
nos minava. Era errado da minha parte falar da minha famlia e de
encontros felizes. Tornava mais difcil mantermos a iluso.
  - Tenho um pedido a fazer-te, Rudi - acabou por dizer,
ergvendo os olhos.
  - O que quiseres.
  - Da prxima vez que sares ,para lutar com Sasha e os outros, tambm quero ir.
  - Oh! Isso no.
  - Algumas das mulheres vo. A Nadya vai.

  - A minha mulher, no.
  - Mas tem de ser. Quero estar contigo o tempo todo.
  Os olhos denotavam um brilho triste e sombrio. H quatro
anos que estvamos juntos, o que representava uma vida. Tnhamos sofrido muito, visto 
horrores, sobrevivido e aprendido a ser
apaixonados, ternos e compreensivos. E, acima de tudo, a lermos
o pensamento de cada um. No podamos ocultar nada um ao
outro, nada. Sabia o que pretendia dizer. Havia muitas hipteses
de que os nazis nos viessem a apanhar. Eles e os aliados locais
estavam decididos a aniquilar-nos. Corriam rumores de que um
batalho das Waffen SS tinha sido mandado para aquela zona, a fim
de nos descobrir e esmagar.
  Um dia, a nossa sorte esgotar-se-ia. Helena estava a dizer-me
- tinha a certeza, lia-lhe no rosto - que queria morrer comigo.
  - Falarei com Sasha sobre esse assunto - prometi.
  Sasha regressou com o conhaque. Passou a mo pela cabea
de Helena.
  - Acabou a hora da visita. O doente tem de dormir.

  Por motivos que ainda no compreendo, o meu irmo Karl
conseguiu viver alguns meses no isolamento da Kleine Festung.
  Segundo a forma curiosa e imprevisvel como funcionava
a burocracia nazi, tanto ele como Frey eram espancados de vez
em quando, e Frey acabou por morrer, umas semanas depois.
No entanto, Karl manteve-se vivo - dificilmente - numa cela
escura. Estava virtualmente transformado num esqueleto, o olhar
desacostumado da luz e a voz reduzida a um grunhido. E as mos,
as mos de um artista, eram dois pedaos de carne e osso deformado.

  Um dia, o guarda veio uma vez mais abrir-lhe a cela.
  - Vamos, Weiss.
  - No me espanque mais - implorou. - Desta vez morrerei.
  - No haver mais espancamentos. Tem mais sorte do que
os seus amigos Frey e Felsher.
  - Mataram-nos.
  - No quiseram falar.
  - Tambm no falarei.
  - E quem se importa com isso - retorquiu o guarda com
um encolher de ombros. - Vo mand-lo para Auschwitz. Um
local maravilhoso, melhor do que aqui. Um campo de famlia. Tratam melhor os Judeus 
do que os Alemes so tratados em Berlim.
  Seguiu-se um verdadeiro negcio de loucos. Karl foi levado
em passo de marcha at ao gabinete do comandante Rahm e obrigado a assinar uma 
<<confisso> de determinados crimes contra
o Reich. Rahm declarou que, quando a guerra terminasse, ele, Karl
Weiss, artista de Berlim, judeu, teria de ser julgado por <<graves
crimes contra o povo alemo>>. Karl assinou. Que lhe interessava?
J fazia parte do nmero dos mortos em p - o que os presos de
longa data designam por <<muulmano>>.
  Informaram-no, em seguida, que dispunha de meia hora para
ver a mulher, antes de ser colocado no comboio para <<leste>>.
O campo de Theresienstadt estava agora a ser esvaziado. Todos
os dias partiam comboios com destino  Polnia. Tratava-se, evidentemente, de 
Auschwitz, e garantiam a toda a gente ser um
<<campo de famlia>>, onde todos se reuniriam - pais, filhos,
avs - e poderiam contar com trabalho lucrativo, boa comida
e uma casa decente para viverem.
  Quando Karl cambaleou at ao estdio pela ltima vez, Inga

deixou escapar um grito. O uniforme de listas pendia no corpo
magro. Tinha barba, olheiras fundas e as costas dobradas como as
de um velho aleijado. Aparecia-lhe continuamente saliva aos cantos da boca.
  Abraou-o com fora. Maria Kalova e alguns dos artistas que
no tinham sido implicados na conjura avanaram ao seu encontro.
  - Oh! Puseram-te em liberdade, Karl! - exclamou Inga.
Com a ajuda de Maria levou-o at uma cadeira e preparou-lhe
ch. Quando lhe estenderam a malga de metal, tentou esconder
as mos.
  - Oh, meu querido Karl! - chorou. - O que ,te fizeram. . .
as tuas mos.
  Os outros tiveram vergonha de olhar. Afastaram-se. Maria
dirigiu-se ao cavalete. Os SS mantinham-nos ocupados a trabalharem em cartazes 
<moralistas>>, avisos de comportamento e promessas dos maravilhosos dias futuros.
  - Continuo vivo - pronunciou Karl num tom de voz perdido
e distante. - Nunca lhes contei. Os desenhos esto em segurana?
  - Esto - sussurrou. - Maria e eu escondemo-los,
  - No voltarei a pintar - redarguiu, depois de um aceno
de compreenso. - Certificaram-se de que seria assim.
  Inga agarrou-lhe naquelas mos partidas e comeou a beij-las.
  - No as podes curar.  o mesmo de quando a minha me
me costumava beijar as ndoas negras, em criana. No resultava. - Olhou para as 
mos. - Dizem que uma pessoa acaba por
se habituar, mas nunca se consegue.
  - No fales nisso - pediu, ajoelhando-se e ocultando o rosto
entre as mos dele.
  - Na Kleine Festung, para no enlouquecermos quando nos
espancavam, Frey, Felsher e eu gritvamos sem parar que iramos
a Itlia. Florena, Veneza. Frey tambm insistia quanto a Arezzo.
  - Faremos essa viagem, Karl querido. Prometo-te.
  Estremeceu, inclinou-se para e frente e apoiou a cabea no
cabelo louro da mulher.
  - Nunca veremos a Itlia, como marido e mulher. Os meus
breves momentos de coragem terminaram. - Sentou-se. - Vo-me
mandar para Auschwitz. Acabaram o que tinham a fazer comigo.
Acho que nem consideram que valha a pena matarem-me, como
assassinaram Frey e Felsher.
  - No partirs - garantiu. - Se te mandarem, irei tambm.
  Karl sacudiu a cabea negativamente.

  Maria Kalova deixou a mesa de trabalho e aproximou-se.
Olhou-os durante uns momentos e disse:
  - No podes, Inga. Deves contar ao Karl.
  - Contar-me. . . ?
  - Pelo menos aqui, em Theresienstadt, tens uma oportunidade, Inga - prosseguiu 
Maria. - Podes trabalhar, poupar-te-o,
mas...
  - De que esto a f alar? - quis saber Karl.
  Inga fitou-o:
  - Karl. O teu filho est dentro de mim.
  - Filho. . . ?
  - O nosso.
  Recomeou a tremer, empurrou a chvena de ch para longe
e abraou-a. Os braos estavam magrssimos:
  - No. No o deves ter.
  - Tenciono t-lo. Esse o motivo por que a Maria diz que
devo ficar aqui. Nasceram crianas neste campo. Pelo menos h

uma clinica e olharo por mim.
  - Vi as crianas nascidas aqui - retorquiu. - Ficam amaldioadas para o resto da 
vida. O olhar denota.
  - No ser necessariamente como dizes.
  - As mulheres protegero a Inga, enquanto lhes for possvel - garantiu Maria, dando 
um passo em frente. - Trataremos
bem a criana.
  - No - negou-se o meu irmo. - Se me amas, acaba-lhe
com a vida, entes que abra os olhos neste local maldito.
  - No, no o farei. Quero a tua bno. Quero que santifiques a sua vida. Oh, Karl. 
Por vezes, chego a pensar que sou
mais judia do que tu, ou o Rudi...
  - No quero um filho meu nascido aqui.
  - Os rabis afirmam que cada vida glorifica o nome de Deus.
Por favor, Karl.
  - Nunca estiveram em Theresienstadt.
  - Ela tem razo, Karl - interferiu Maria. - Deves permitir
que o beb nasa.
  - De acordo - acabou por dizer, escondendo a cabea entre
as mos. - No importa.  uma criana que nunca chegarei
a conhecer.
  - Claro que conhecers. Prometo-te - redarguiu Inga.
  Um kapo apareceu e deteve-se na ombreira. Estava a arrebanhar as pessoas destinadas 
ao transporte. No pronunciou palavra.
  Karl olhou-o e ergueu-se lentamente.
  - Quando a criana tiver a idade devida, mostra-lhe os desenhos - sussurrou a Inga. 
- Para que compreenda.
  Beijaram-se pela ltima vez.
  - Adeus, minha mulher adorada - despediu-se. - Talvez
tudo corra bem. Talvez nos estejam a dizer a verdade. Sobrevivi
em Buchenvald e em Theresienstadt por saber pintar. Talvez
acontea uma vez mais. - Contemplou, em seguida, as mos deformadas e sorriu 
amargamente.
  Inga no se decidia a deix-lo partir e continuava a beij-lo.
  Finalmente, Maria teve de os separar, quando o kapo entrou
na diviso, batendo com o basto na perna.
  - Tens de o deixar partir, Inga - disse Maria.
  - Adeus, Karl. Adeus, meu amor.
  Ficaram a observar, enquanto o empurravam para uma fila
de gente confusa e assustada - os antigos presos privilegiados
do <<gueto-paraso>>-destinada ao campo de morte. Os guardas
deram-lhes ordem de marcha.

  Os meus pais estavam em Auschwitz. Contudo, o tio Moses,
actualmente membro activista da Organizao de Luta Judia,
escapara s rusgas. De uma populao de quase meio milho de
pessoas, no restavam mais de cinquenta mil judeus no gueto.
E os que ficaram para trs estavam doentes, apavorados e esfomeados.
  Em 9 de Janeiro, Himmler visitou o gueto, a fim de examinar
com os seus prprios olhos os dolorosos restos dos judeus da
Europa. Ordenou uma liquidao final e definitiva. Deveriam ser
enviados, at ao ltimo, para Treblinka ou Auschwitz.
  A Organizao de Luta Judia, que englobava cerca de seiscentos activistas, mas se 
encontrava apoiada talvez por cerca de outros mil <<marginais>>, decidiu opor-se 
quando se verificasse
a rusga seguinte. Os Alemes viam-se perante dificuldades cada
vez maiores relativamente a enganarem os Judeus. Todas as promessas de campos de 
famlia, o po e a marmelada eram, na altura,

sobejamente conhecidas como mentiras.
  Um dia, a meio de Fevereiro, o meu .tio Moses e Aaron
Feldman disfararam-se de vendedores ambulantes e empurraram
uma carroa para uma parte do gueto que tinha sido evacuada.
  Um polcia avisou-os de que o recolher obrigatrio seria dali
a dez minutos.
  - a~o, senhor - anuiu o tio Moses, levando a mo ao
chapu. - Estamos a levar a nossa mercadoria para casa. Tachos
e panelas, sabe? - Em seguida, inclinou-se para Aaron e sussurrou-lhe:
  - No te preocupes. Est subornado.
  Quando o crepsculo se abateu sobre a cidade invernosa
e deserta, o homem e o rapaz aproximaram-se do muro.
  Aaron saltou para a carroa e, com a ajuda de um pau com
um gancho e de uma corda, escalou o muro. Ajoelhou-se l em
cima e soltou um ligeiro assobio.
  Dois homens da Resistncia polaca - um era Anton - saram
a correr de uma porta. Atiraram um caixote de madeira a Aaron,
que, por seu turno, o deixou cair na carroa que tinha por baixo.
Repetiu-se o processo com um segundo caixote.
  Em seguida, Aaron escorregou de volta, pela corda. O tio
Moses colocou os caixotes por baixo do sujo oleado que cobria
a <<mercadoria>> e regressaram ao quartel-general da Resistncia.
  - Esto atrasados - observou o polcia do gueto.
  -As minhas desculpas-retorquiu o tio Moses, que,
ao passar por ele, o subornou pela segunda vez,
  Nestes meses finais do gueto, bairros inteiros tinham sido
esvaziados - os habitantes eliminados ou enviados a caminho
da morte. Era em apartamentos secretos destas zonas que na altura
viviam os chamados <<ilegais>>-os resistentes, os lutadores,
os decididos a no serem arrastados.
  O tio Moses e Aaron levaram os caixotes que tinham recebido
dos polacos para um apartamento do ltimo andar de um edifcio
aparentemente abandonado. Era um contributo insignificante.
Nenhuma seco da Resistncia, desde os vrios grupos sionistas,
aos bundistas ou grupos de esquerda, tinha conseguido influenciai
os polacos cristos. Alguma simpatia, claro. Mas pouco no aspecto
de fornecimento de armas.
  Eva Lubin e outros mais encontravam-se presentes quando
abriram os caixotes. Num havia cinco revlveres novos com as
respectivas munies. E tambm granadas.
  - Como iremos comear uma revolta com isto? - perguntou
Moses.
  um princpio - observou Eva. - Vamos carreg-los.
  Comearam a colocar balas nos revlveres.
  - Se conseguirmos matar alguns - prosseguiu - podemos
apoderar-nos de metralhadoras e espingardas, para aumentar o nosso
pequeno arsenal. Poderamos causar impresso.
  - No tenho a certeza do que possa acontecer - observou
Moses. - Corre o boato de que iro mandar as a f f ens SS e os
auxiliares lituanos. Para passarem todos os edifcios a pente fino.
E muito provvel que seja tarde de mais.
  Moses pegou em duas armas e f-las girar entre os dedos:
  - No sou um cowboy muito convincente. No fui predestinado para este tipo de 
aco. Aparentemente, os Judeus e as armas
no ligam bem.
  Ouviu-se um bater combinado na porta - duas breves pancadas, uma pausa e depois 
mais trs. Moses fez sinal a Aaron para
que destrancasse a porta.

  Zalman entrou, respirando ofegantemente e coberto de poeira.
Rastejara pelo cascalho, a fim de vir ter com eles.
  - As SS bloquearam a rua - comunicou Zalman.
  - A rusga? - perguntou Moses.
  - Sim. Von Sarmmern anunciou-a. H que fazer sair o ltimo
dos judeus.
  - Mas porqu aqui? - inquiriu o tio Moses. -  um bairro
deserto. Prossupostamente sem ningum.
  - Talvez te tenham seguido a ti e ao mido.

  - Embalem tudo - ordenou Moses, assumindo o comando.
  - Cada um que pegue numa arma. Granadas dentro dos bolsos.
  Escondam os caixotes. Sairemos pelo telhado.
  Enquanto obedeciam s ordens recebidas, ouviram l em baixo
  vozes de alemes, botas de encontro s portas e instrues gritadas.
  - Todos os judeus c para fora!
  - Os judeus c para fora!
  - Saiam ordenadamente. No vos faremos mal.
  Aaran saiu do compartimento e espreitou pelas escadas.
L em baixo, no rs-do-cho, avistou trs soldados ao pontap
com as portas. At essa altura ainda no tinham encontrado vivalma.
O edifcio,  excepo do apartamento onde se escondiam os combatentes, h muito que 
tinha sido abandonado.
  Aaron e os outros ouviam as vozes.
  - Mas o que andamos a procurar nesta espelunca, afinal?
  - Algum disse que se julga que os judeus roubaram armas.
  Moses ordenou a todos que ficassem no apartamento. Mandou
Eva, Zalman e Aaron para dentro dos roupeiros e para a diviso
contgua. Ele escondeu-se atrs da porta.
  Ouviam os alemes do lado de fora.
  - Entra. Ests sempre para a com gabarolices de merda.
  - Avana. So apenas esses judeus fodidos.
  - Julgas que tenho medo? Medo de Judeus?
  Botas, espingardas e corpos pesados embateram de encontro
 porta trancada. A fechadura rebentou e cedeu. Os alemes invadiram o apartamento.
  Moses saiu do esconderijo e abateu o primeiro homem que
tinha  frente, a cerca de um metro. Caiu, com o rosto transformado
num bolo ensanguentado.
  Antes que os outros dois pudessem levar a mo s espingardas,
foram atingidos por uma chuva de balas disparadas por Eva
e Zalman.
  Um, que estava menos ferido, arrastou o outro pelas escadas.
  Zalman retirou a metralhadora das mos do soldado morto.
Aaron correu para o .patamar e atirou uma granada atravs do
corrimo. Os soldados enroscaram-se sobre si mesmos, e rolaram
transformados em montes de carne, at ao cho.
  Os judeus fitaram-se surpreendidos.
  - Fugiram - observou Moses, admirado. - Fugiram, Deus
do cu! Finalmente consegui ver. Sangram, morrem e assustam-se
como ns!
  Aaron desceu as escadas a correr e arrancou as armas e os
cintos de munies aos outros dois soldados, depois do que voltou
a subir com a mesma rapidez.
  L em cima, Zalman tomara uma deciso:
  - Vamos sair todos. Voltaro em fora. Pelos telhados.
Eu irei primeiro.

  Naquela altura, completamente armados, fugiram pelo corredor e treparam a escada de 
salvao que levava ao telhado.
  Tinham rebentado lutas espordicas por toda a cidade. Anelevitz em pessoa chefiara 
um ataque contra um grupo de alemes
que escoltava judeus, a caminho da Umschlagplatz. Com cinco
granadas, cinco revlveres e alguns Cocktails Molotov, tinham
obtido uma vitria parcial e libertado alguns judeus.
  Mesmo assim, os Alemes conseguiram deportar seis mil
e quinhentos judeus durante essa batalha de Janeiro. Foi,
no entanto, um nmero muito inferior ao que tinham previsto.
  Por toda a cidade em runas comearam a surgir novos folhetos
impressos na tipografia de Lowy, com a finalidade de incitarem
os judeus ao combate.

  As foras de ocupao alems iniciaram a segunda fase
do extermnio!
  No caminhem para a morte sem lutar!
  Aguentem-se de p!
  Agarrem num machado, numa barra de f erro, numa faca,
- em qualquer coisa - e tranquem-se em casa!
  Desafiem-nos a tentarem desarmar-vos!
  Se se recusarem a lutar, morrero!
  Lutem. Mais e mais!
  Aps a troca de tiros no apartamento de Moses e de vrios
outros combates por toda a cidade, alguns dos combatentes da
Resistncia reuniram-se noutro apartamento. Tomaram conhecimento de que muitos dos 
camaradas estavam mortos. Os alemes
tinham sido combatidos na Fbrica de Toebbens, no centro da
cidade, mas com grandes baixas de judeus.
  O grupo de Moses reuniu-se com outros, neste segundo apartamento. Procedeu-se  
distribuio das metralhadoras e das espingardas que haviam conseguido apanhar no 
primeiro confronto.
  Aaron, de vigia  janela, avistou um camio com saldados
das SS que entrava na rua. A viatura esvaziou-se, mas desta vez
os alemes mostraram-se prudentes, avanando encostados ao
edifcio, e atentos ao fogo.
  Zalman fez uma demonstrao aos restantes de como funcionavam as metralhadoras.
  - No faam pontaria como se fosse uma espingarda - aconselhou. - Limitem-se a 
disparar.
  - Quero uma - declarou Aaron.
  - Espera at cresceres - respondeu Moses, fazendo-lhe uma
festa na cabea.
  Moses estava  janela. Observou os homens das SS a ocuparem
posies na rua. Deu um murro na palma da mo:
  - Deus do cu! Chegou a altura de os combatermos no nosso
terreno.
  Enquanto falava, quatro alemes entraram no edifcio.
  - Para o hall - ordenou Moses. - Disparem, quando vos
disser.
  Correram para o corredor, esconderam-se em armrios de
arrumaes, atrs das escadas - Moses, Zalman, Eva, Aaron
e outros.
  Desta vez os alemes nem uma porta conseguiram deitar
abaixo.
  Foram pelos ares, devido aos tiros e granadas vindos de cima,
e no conseguiram replicar. Recuaram aos tropees, ensanguentados e moribundos, at 
 rua, entraram nos camies e foram-se
embora.

-No consigo acreditar-exclamou        Zalman.-Vo-se
embora... embora...
- Morrem como todos os outros - retorquiu Moses.
No havia dvida. Nessa batalha de     Janeiro de 1943,
os alemes estavam a ceder terreno - por uns tempos. Nunca
esperavam que os judeus resistissem.
Mais tarde, quando os chefes da Resistncia se reuniram
no quartel-general da Rua Mila, chegaram-lhes notcias da coragem - frequentemente 
cortada cerce - dos judeus que estavam
a enfrentar a tentativa dos nazis de limparem o gueto.
Parece que a herona que iniciou a resistncia foi uma jovem
chamada Emlia Landau. Quando as foras das SS invadiram a loja
de carpintaria onde trabalhava, lanou a primeira granada, matando
alguns homens das SS. No entanto, foi morta no combate que
se seguiu.
No quartel-general do Kibbutz Dror, deu-se um outro combate. Aqui os alemes viram-se 
forados a recuar.
E em redor da prparia Umschlagplatz, Onde o meu pai fizera
a pattica tentativa de salvar punhados de pessoas condenadas,
travou-se uma srie de combates.

  Entretanto, do exterior do muro, iam chegando algumas
ajudas por parte de polacos simpatizantes. A maioria recusou-se
a prestar auxlio. Houve mesmo um grupo de polacos fascistas
que avisou os seus membros de que no apoiassem os Judeus,
porque o combate era uma farsa - os Judeus unir-se-iam aos
Alemes para esmagar a Resistncia polaca. (O fascismo no os
auxiliou; os Alemes tencionavam elimin-los tambm e escravizar
os sobreviventes.)
  Entre os abastecimentos enviados contavam-se minas, granadas, um morteiro e uma 
metralhadora.
  - Finalmente! - exclamou Zalman.
  - Sim - concordou o tio Moses amargamente. - Tudo pago.
A pronto.
  - H qualquer esperana de que lutem ao nosso lado? - quis
saber Eva.
  - pouco provvel-respondeu Anelevitz, sacudindo
a cabea negativamente. No querem derramar sangue polaco em
nosso benefcio. Agora, sabemo-lo. S ns nos poderemos salvar.
  - Salvar? - repetiu Moses.
  - Isso mesmo - retorquiu o jovem sionista. - Mesmo que
tal signifique a nossa morte.
  O meu tio ps a cabea de lado e olhou para a mina, metida
em papel de embrulho  prova de gua.
  - O que nos diz o Talmude quanto a montarmos minas? - perguntou. - Ningum riu.
  - Recordem-se deste dia, 21 de Janeiro de 1943 - observou
Anelevitz, apontando para o calendrio. - Estamos em guerra,
no gueto.

   chegada a Auschwitz, os meus pais foram poupados ao envio
imediato para as cmaras de gs.
  O processo de seleco foi levado a cabo na estao de caminho de ferro por um 
oficial das SS, impecavelmente fardado.
Os considerados incapazes de produzir foram imediatamente condenados  morte. Os meus 
pais, que se encontravam num estado
de sade relativamente aceitvel - tudo era uma questo de relatividade nos campos -, 
foram mandados com ordem de marcha

para as casernas.
  O meu pai recebeu, temporariamente, trabalho na enfermaria
do campo, um local que mais parecia um sinal de humor negro
dos Alemes. Deu o seu melhor para tratar os doentes e feridos.
Pouco importava. Ao menor indcio de fraqueza, de inutilidade
para os patres, as pessoas recebiam o estigma da viagem para
a zona de <despiolhagem>. Praticamente no havia remdios.
para os nazis convinha deixarem as pessoas morrer nas casernas.
Era um peso a menos para os quatro complexos de gs, os quarenta
e seis fornos.
  A minha me trabalhava numa das cozinhas com Chana Lowy.
  Embora, no campo, os homens e as mulheres estivessem
separados, o meu pai, na qualidade de mdico, conseguia escapar-se
de vez em quando e ir visit-la.
  Um dia apareceu com o aspecto de quem tinha grandes novidades. Uma das ordenanas 
mdicas, que prestara uns servios nas
casernas das SS, ouvira os alemes a falarem num tom de voz baixo
e sombrio. Dizia-se que um exrcito inteiro alemo se rendera
em Estalinegrado. No uma diviso, reparem, mas um exrcito.
  O meu pai tentou alegrar a minha me. Estava a coser,
sentada na beira do beliche que partilhava com a mulher de Lowy.
A vida nos campos era um pesadelo de sujidade, piolhos, fome,
gua intragvel, sopa de ossos e po bolorento. Ela que presidira
a jantares elegantes e tocara Mozart no Bechstein...
  Por cima do div, colocara retratos de Karl e Inga com os
fatos de casamento e outro de Anna comigo. Sei qual  a fotografia.
Estou vestido com uma camisola de futebolista, e a bola debaixo
do brao. Anna tinha acabado de me dar um pontap nas canelas,
porque troara dela. No , porm, coisa que se possa ver na
fotografia.
  - Se te apanharem aqui, castigam-te, Josef - disse a minha
me.
  - Est tudo em ordem. O Lowy falsificou-me um passe.
Alm disso, desculpar-me-ei com uma visita de mdico.
  - Tornaste-te muito ousado, Josef.
  - E como te sentes? - perguntou, beijando-a na face.
  - ptima. Corre o boato de que um grupo das que esto
nestas casernas e tm foras, inclusive eu e a senhora Lowy,
ser levado amanh para trabalhar na fbrica das IG Farben.
So boas notcias.
  - Talvez precisem de uma pianista de concertos.
  - Ou talvez me pudesses requisitar como enfermeira.
  Ambas conheciam as regras de Auschwitz: os que no tinham
trabalho nem aptides, no eram teis ao funcionamento do campo
nem ofereciam condies de produtividade s fbricas, as corporaes gigantes que 
mantinham vivo o Exrcito alemo, de pouco
tempo de vida dispunham.
  - Pelo menos no teu trabalho hospitalar, ests a salvo - observou.
  No a informou de que tinham chegado ordens para reduzir
a metade o pessoal da enfermaria. Prevaleceria a antiguidade; um
dos membros mais novos perderia provavelmente o seu cargo.
  - O Max disse que h trabalho de estrada - comunicou
Chana Lowy, inclinando-se da parte superior do beliche. - Um
engenheiro alemo anda  procura de pessoas para a construo
de estradas.
  Lowy trabalhava na lavandaria do campo, mas no se tratava
de um local seguro. Era mantida em funcionamento pelos mais
fracos e com menos probabilidades de sobrevivncia, e muitas vezes

no representava mais que uma paragem antes das cmaras fatais.
  - Trabalho de estrada? - interessou-se o meu pai. - Parece-me bom. Trabalho fora de 
portas.
  - Tu, Josef? - riu e minha me. E de novo se abraaram.
  Ouviram os passos de uma mulher kapo l fora, incitando os
presos a que se apressassem a entrar na caserna.
  - Tens de te ir embora, Josef.
  - Deram-nos um bilhete para o Inferno, Berta - retorquiu,
sem a largar -, mas devemos desafi-los. Insisto em que tentemos
viver, aguentarmo-nos. Penso muito nos rapazes e na Inga.
  - Tambm eu. No os consigo esquecer.
  - Algo me segreda que o Karl e o Rudi esto vivos. Se um
de ns morrer, o outro tem de os procurar. E am-los, ficar ao lado
deles. A famlia Weiss tem de reviver, Berta. Netos, um lar.
Entendes?
  - Claro que sim.
  - No apenas porque somos uma famlia e unidos uns aos
outros, mas porque somos judeus. Uma vez que desejaram to
intensamente destruir-nos, somos decerto um povo digno e de valor,
Talvez at tenhamos algo que ensinar ao Mundo. - Pestanejou
e sacudiu a cabea. -Deus do cu! Mais pareo um conferencista
um rabi.
  ,
  Verificou-se qualquer agitao na porta de acesso  caserna.
Uma mulher kapo entrou, arrastando uma jovem magra, que no
teria mais de dezassete anos. A certa altura, caiu redonda no cho,
e a kapo obrigou-a a pr-se de .p agarrando-a pelos cabelos.
  - Vocs. Est a quebrar as regras. Fora - ordenou e kapo,
fitando o meu pai.
  - Ia a sair. Uma visita de mdico. Sou o doutor Weiss.
  - No o quero ver novamente por estas bandas.

  q p
  O meu pai foi-se embora.
  A kapo empurrou a rapariga para o compartimento ftido
e a abarrotar. A rapariga soltava gemidos e comeou a gatinhar
pelo cho.
  - Arranjem-lhe um stio. Qualquer stio - ordenou a kapo.
-  doida.
  - O que lhe fez? - explodiu e minha me, erguendo-se do
div. - No. No lhe bata mais. Cuidarei dela.
  - No lhe fiz nada. J saiu assim do comboio. Estava bem
at mandarem os pais para a despiolhagem.
  - E porque no os pode ver?
  - Quem sabe? Talvez fosse uma desinfeco prolongada ou
os tivessem mandado para outra parte do campo.
  As mulheres presas mantinham-se silenciosas e tristes.
Conheciam o significado da <<desinfeco>>.
  - Vigiem-na, para que no cause distrbios - disse a Kapo,
depois do que se foi embora.
  A jovem era magra, muito bonita, com um cabelo negro
e comprido e uma pele morena. A minha me ajoelhou-se ao lado
dela e ps-lhe a mo nas costas:
  - Tudo corre bem, minha filha. Aqui no te faremos mal.
Tens fome?
  A jovem no falou, mas levantou-se e abraou a minha me.
Ao Peito do velho casaco, junto da estrela amarela, algum pregara
uma etiqueta: SOFIA ALATRI, MILO, ITLIA.

  Chana Lowy veio juntar-se  minha me e ambas ajudaram
a jovem a pr-se de p e a caminhar at um dos beliches de madeira.
  - Tens fome, minha filha? - perguntou a minha me.
  A senhora Lowy sugeriu que talvez encontrassem po na
caserna ao lado; uma das mulheres, uma antiga prostituta, era uma
negociante conhecida e, regra geral, tinha po extra.
  No entanto, a jovem no se decidia a falar. Escondeu a cabea
  no ombro da minha me e continuou a gemer.
  - Queres um pouco de gua? - insistiu a minha me. - Foi
  mesmo ao Ponto de lhe tentar falar em italiano. Devido ao seu
  treino musical, falava um italiano bastante bom.
  No entanto, Sofia Alatri dava a sensao de ser um caso
perdido. E, assim, a minha me decidiu que o afecto, o mero calor
de outro corpo humano, era tudo o que lhe podia oferecer.
 curioso como, ao escrever tudo isto atravs de informaes que
recebi de uma mulher que esteve em Auschwitz, nessa mesma
caserna, consigo ver a cena com tanta nitidez. A minha me tinha
o talento de imprimir encanto e dignidade a qualquer local.
Comportava-se de uma maneira elegante e delicada, e esperava
desta maneira modificar o Mundo.
  -  difcil recordarmo-nos de que somos algo mais do que
nomes numa etiqueta - observou a minha me. - Ou um nmero
azul tatuado no brao. Somos todos ,pessoas, sim, e continuamos
a s-lo, minha querida Sofia. Pessoas com nomes, lares e entes
queridos. No nos podem tirar isso.
  -Mas tiraram-contrariou Chana Lowy.-E, assim,
acabaro por dar cabo de ns. Nada de nomes ou o que quer
que seja. Para que nada sejamos.
  A minha me comeou a escovar o cabelo da jovem, e Sofia
deixou de gemer. Provavelmente, o resultado do toque de urna
mo humana, a percepo de afecto e de calor.
  -Pobre criana!-lamentou a minha me.-Fazes-me
pensar na minha filha Anna. Como  possvel existir tanta crueldade nas pessoas? Como 
 possvel que faam estas coisas
a inocentes?
  -  uma velha histria - retorquiu Chana Lowy. - Quando
nada mais h a fazer, restam os Judeus para atormentar.
Atravessmo-nos no caminho deles.  tudo.
  - Podes falar comigo - convidou a minha me, colocando
o brao em redor dos ombros de Sofia. - Sou tua amiga.
  A jovem cobriu o rosto. O mesmo silncio prevaleceu.
  A minha me tirou as fotografias .penduradas em cima do
beliche.
  - V. Os meus filhos. Jovens e bons como tu, minha querida.
  Sofia no pronunciou palavra. No entanto, contemplou,
  tristemente, as fotografias velhas e amachucadas.
  - O meu harl. E a Inga, a mulher dele. O da camisola
,
; s riscas  o Rudi. Tem agora vinte e quatro anos. Gostarias dele.
   muito simptico. E a Anna vem a seguir a ele. Seria... seria agora
  um pouco mais velha que tu.
  - Assustaram-na at mais no - observou a senhora Lowy.
  - Tenho tanto medo como ela, sabe, mas tento no o dar
  a entender.
  - No  motivo para se ter vergonha - comentou a minha
  me.
  - Bom, talvez tenhamos trabalho amanh. Quero dizer,
  trabalho a srio, nas fbricas, onde precisam de ns.

  Sofia comeou a tremer. A minha me tapou-lhe os ombros
  com um cobertor. A caserna apenas dispunha de um pequeno fogo,
  geralmente pouco quente.
  - Ests fria, Sofia. Vem sentar-te mais perto. Fala-me da
  tua famlia. Da tua me e do teu pai. Oh! Conheo bem os judeus
  italianos. So ptimas pessoas. Sefardins, eruditos. Fala-me de
  Milo.
  -Nada a fazer-redarguiu Chana Lowy, sacudindo
  a cabea. - Mataram-lhe o crebro. Talvez seja prefervel que no
  se recorde. Talvez as recordaes excessivas sejam o que h de
  errado com os Judeus.
  A minha me ergueu o queixo da jovem e fitou-a bem no
  fundo dos olhos.
  - To bonita. Como a minha Anna. Vem. Vou cantar ,para ti.
  Num tom de voz baixo e suave, a minha me cantou o Lorelei,
  embalando a jovem nos braos.
  Durante uns momentos o nico som nas casernas foi o canto
  da minha me. Algumas das mulheres juntaram-se e comearam
  a acompanhar num sussurro. Vrias choravam, recordando-se da
  vida que tiveram outrora - casas, famlia, refeies em conjunto,
  a ida dos filhos para a escola, casamentos, .todos os pedaos de felicidade que 
constituem uma vida agradvel.
  Em seguida, reinou o silncio.
  Duas kapos e um guarda das SS com uma pistola-metralhadora
  apareceram a entrada da porta.
  - Todos desta caserna l para fora - expressou-se a primeira kapo.
  - Porqu? - perguntou uma mulher. - J fomos  inspeco mdica.
  - Tem trabalho para ns? - inquiriu Chana Lowy,
  - Nada de perguntas - ordenou o homem das SS. - L
para fora.
  - No h nada a temer - garantiu a kapo.
  Contudo, todas sabiam. E as que no sabiam estavam a fingir.
A iluso acompanh-las-ia at ao final,
  -Despachem-se, senhoras-insistiu o homem das SS.
- Era um indivduo baixo e gordo, marcado pelas bexigas,
e - recordava-se uma das mulheres - dado como incapaz para
  prestar servio nas linhas da frente. - Formem duas filas l fora.
  Rpido.
  - Deve ser por causa dos empregos - insistia Chana Lowy.
  A minha me escovou o cabelo. Iria, at ao final, o mais
limpa e arranjada que conseguisse parecer.
  - Receio que no, senhora Lowy, Devemos fazer o que
nos dizem, e com dignidade.
  A jovem italiana no se quis levantar com as restantes presas.
A mulher kapo bateu-lhe com o basto.
  - Pare! - gritou a minha me. - No lhe toque.
  -  doida.
  - Ir comigo. No lhe bata.
  A minha me, Berta Weiss, de Berlim, pianista e dona
de casa, filha de um heri da Primeira Guerra Mundial, ergueu
seguidamente Sofia do beliche e apertou-a com fora. Beijou-a no
rosto.
  - Virs comigo, Sofia - disse.
  L fora, as mulheres mais idosas eram ajudadas pelas mais
novas. Sabiam: Dizem-me que a ocorrncia era vulgar. Sempre que
os carregamentos eram poucos, quando as cmaras e os fornos
de Hoess tinham quantidades reduzidas, casernas inteiras eram
esvaziadas, sem qualquer aviso. No havia desculpas que salvassem

quem quer que fosse; os privilgios no interessavam. Era uma
questo de cumprimento de tarefa, de preenchimento de vagas.
O objectivo cifrava-se em doze mil por dia, e tanto o Fhrer
como Himmler teriam os seus doze mil.
  Receberam ordem para marchar atravs da rea das casernas,
atravessaram um porto e dirigiram-se para as famosas fileiras
de rvores que Hoess tinha .plantado. A sua frente erguia-se
a cmara de cimento com o enorme telhado plano. Era Inverno.
Nessa noite, a famosa orquestra das mulheres no fazia serenata
s vtimas.
  Deram-lhes ordens para que se despissem, debaixo daquele
frio de gela. As roupas foram empilhadas metodicamente. Os valores retirados para 
ficarem em segurana>>. Foram avisadas de que
a fumigao e a despiolhagem levariam aproximadamente cinco
minutos. Os bens se~-lhes-iam devolvidos  sada.
  - Ficaro mais aptas para o trabalho - comunicaram-lhes os
homens das SS.
  E fitaram as mulheres nuas.
  - Ajudem-na.  louca - disse a mulher kapo, apontando
para Sofia, que voltara a cair no cho. A minha me e Chana
ajudaram-na a despir-se. Dava a sensao de infeliz e indefesa.
O Reich estava a eliminar os seus inimigos de morte.
  - Sentir-se-o melhor depois - garantiu um guarda.
  O despir das mulheres constitua, aparentemente, um acontecimento, uma diverso 
para muitos dos homens das SS. Reuniam-se
em grupos, com a boca rasgada num esgar, e acotovelavam-se.
Eram de uma bestialidade sem limites. Ainda ningum me conseguiu
explicar o facto.
  A minha me voltou-se para uma das mulheres kapos, uma
judia como ela e que, juntamente com os Sonderkommandos,
arrastaria mais tarde os corpos para o exterior e para os fornos,
e disse:
  - Sou Berta Weiss, de Berlim, e esta  Chana Lowy, minha
amiga. Por favor, contem aos nossos maridos o que aconteceu.
  A mulher fez um aceno de concordncia. Tambm as kapos
e os Sonderkommandos acabariam por ser enviados para as cmaras
na devida altura.
  Estava frio e humidade e aparentemente algumas das mulheres
davam a morte por bem-vinda. Ou preferiam acreditar at ao fim
que os alemes no estavam a mentir.
  - Dizem que  bom para os pulmes - observou uma
mulher de. idade  minha me.
  - Respirem fundo - ordenou o guarda. - Ergam as crianas
bem acima das cabeas, para que tambm possam respirar.  bom
para vocs. Nada de constipaes nem tosse.
  Chana Lowy comeou a chorar.
  - Coragem, Chana - acalmou a minha me, enquanto mantinha Sofia, de p, falando-lhe 
suavemente.
  - Sairo dentro de cinco minutos - afirmou o guarda.
  Uma jovem de cabelos ruivos escapou-se da fila de presas
que estavam a ser encaminhadas em passo de marcha para a porta
de metal aberta. Apanharam-na. Gritou, uivou, implorou, recusou-se a entrar na fila. 
Apareceu um oficial das SS. Ordenou que
a arrastassem para trs das rvores. Ouviram-se dois tiros. Os gritos
extinguiram-se.
  - Avancem. Avancem - gritavam os guardas. - So apenas
chuveiros.
  A minha me deteve-se na porta, virou a cabea na direco

do campo e disse:
  - Adeus, Josef. Amo-te.
  Os registos do campo revelam ter sido um dia de pouco
movimento. Apenas sete mil morreram com o gs. Os corpos foram
consumidos pelos fornos e as cinzas lanadas ao rio Sola, que corria
perto do campo.

  Por uma questo de sorte, o meu pai e Lowy no fizeram
parte dos escolhidos para as cmaras nesse mesmo dia.
  Lowy falara num trabalho de estrada, o que significava uma
boa oportunidade. Por uma coincidncia estranha, eu e o meu pai
foram deslocados dos seus cargos - onde as pessoas estavam a ser
escolhidas ao acaso para a morte - e designados para esse grupo
de trabalhos de estrada.
  O trabalho fora de portas significava, geralmente, uma rao
extra de comida. Tambm era raro os judeus aguentarem este tipo
de funo durante muito tempo. Os alemes desprezavam-nos relativamente a trabalhos 
forados. Davam preferncia aos presos de
guerra russos ou polacos.
  No entanto, no dia a seguir ao que a minha me foi assassinada - o meu pai no 
tivera conhecimento -, Lovy e o doutor Josef Weiss viram-se a derramar alcatro 
quente numa estrada
situada nos arredores das casernas. Era um trabalho vital, pois
estavam a construir uma nova ligao entre uma das fbricas fornecedoras de 
armamentos e um ponto extremo da via frrea.
Eichmann e os seus comboios de judeus tinham-se assenhoreado
a tal ponto das linhas frreas de sada e de entrada em Auschvitz
que o material de guerra para a frente era frequentemente posto
de lado ou se atrasava.
  Trabalhavam arduamente, mas tratava-se de algo duradoiro.
Alm disso, o indivduo encarregado de dirigir a obra, um engenheiro civil alemo 
chamado Kurt Dorf, conseguira uma certa
reputao entre os presos. Dizia-se que salvara centenas de judeus,
escolhendo-os para trabalhar, insistindo na sua produtividade e furtando-se s garras 
dos insaciveis subordinados de Hoesse.
  Dorf era um indivduo alto e bem parecido, de voz suave
e movimentos lentos. (J o conhecia nessa altura e soube, evidentemente, do 
testemunho que prestou em Nuremberga. Ele e eu
temos mantido uma correspondncia bastante assdua e, como se
ver no final desta narrativa, facilitou-me o acesso aos dirios de
Erik Dorf e outros documentos.)
  Naquele primeiro dia, os vapores do alcatro quente e o trabalho de estoirar as 
costas, entonteceram o meu pai. cambaleou.
  - Sente-se bem, doutor? - perguntou Lowy.
  - Claro, claro. Estou ptimo.
  - Talvez devesse ir ao hospital.
  - Est a brincar, no, Lowy? Foi a que estiveram prestes
a seleccionar-me para o tratamento especial. Graas a Deus que
este engenheiro me arrancou de l. Aprendi uma lio. Se se fizer
o trabalho de que precisam, sobrevive-se.
  - Provavelmente - comentou Lowy cepticamente.
  Observaram Kurt Dorf - alto, fumando cachimbo, vestido
 civil e examinando uma quantidade de projectos.
  - Esse tipo, o Dorf, no  igual aos outros - observou
Lowy.
  - Porque nos poupou a vida?
  - Claro. Acolheu talvez uns quinhentos de ns no seu trabalho. Ouvi dizer que os 
guardas das SS se queriam ver

livres dele.
  O meu pai dedicou toda a ateno ao trabalho com o alcatro
quente.
  - Estranho! Onde esto os outros como ele? Em 1933, apenas trinta e trs por cento 
dos alemes votaram a favor de Hitler.
O que aconteceu aos restantes dois teros?
  - Acabaram por o amar. Ou ento  porque os nazis apavoraram toda a gente. Priso, 
assassnio, tortura. Mostraram ao
Mundo os seus processos. Oua uma coisa: tive como companheiros de sindicato montes 
de tipos cristos. Amigos. Socialistas. Onde
esto? Juntaram-se  parada.
  O meu pai por pouco no desmaiou. Afastou-se da beira da
estrada e apoiou-se num dos joelhos. Os vapores estavam
a afect-lo.
  Kurt Dorf viu-o e saiu do barraco onde tinha o gabinete.
  - Est doente? - perguntou ao meu pai.
  -No, no. S um pouco cansado. Vou regressar ao trabalho.
  - Como se chama? - quis saber Kurt Dorf, detendo-o.
  - Weiss. Josef Weiss.
  - Doutor Weiss - frisou Lowy que estava por perto.
  - Mdico? - inquiriu o engenheiro.
  - Sim. Pratiquei clnica geral em Berlim. Tinha consultrio
prprio.
  Kurt Dorf observou o meu pai durante uns momentos. Chegara um pequeno camio com 
abastecimentos. Procedia-se  descarga.
  - Porque no trabalha no camio o resto do dia? No 
to duro.
  O meu pai fez um aceno de cabea e comeou a afastar-se.
Em seguida, voltou-se:
  - Estamos-lhe gratos. Sbemos o que est a fazer.
  Dorf sentiu-se embaraado. Um grupo de SS, chefiado por
um oficial, aparecera e estava  espera dele junto do barraco.
Voltou-se e dirigiu-se-lhes, levando os projectos debaixo do brao.




O DIRIO DE ERIK DORF


Auschwitz
Fevereiro, 1943

  Uma surpresa agradvel, hoje, em Auschwitz, durante a minha
inspeco semanal. Bom, agradvel, at certo ponto.
  Fui descobrir o meu tio Dorf a trabalhar num novo projecto de construo de 
estradas. Este local  to vasto e complexo,
e esto em curso tantos trabalhos em benefcio da guerra, que
 possvel desconhecer-se que um amigo ou um parente se encontram empregados aqui. 
Kurt esteve durante algum tempo na fbrica
de borracha artificial de Buna, a renovar projectos de edifcios,
e est actualmente ocupado com os trabalhos da estrada para as
IG Farben.
  Apertmos a mo, de incio um tanto friamente e, em seguida,
abramo-nos com bastante mais calor. Apetecia-me usufruir a privacidade do encontro 
e, assim, mandei embora os meus subordinados.
  - Com que ento o tio e sobrinho unidos? - comentou.
- Como passas, Erik?

  - Bastante bem. Vejamos: quando nos vimos pela ltima
vez No Natal, h dois anos, em Berlim. Certo?
  - Com Marta e as crianas. E a Silent Night, em redor
daquele piano maravilhoso. Sinto-me contente por te ver, Erik.
- Sorriu.
  - E eu estou encantado. Recorda-me de que tenho uma
famlia.
  Kurt convidou-me, em seguida, a entrar no seu pequeno gabinete, no barraco de 
madeira. Informou-me que tinha caf a srio
- e no de aveia - e que celebraramos aquele encontro com uma
chvena.
  Permanecemos em silncio uns momentos, sorvendo o caf
quente e olhando para l da ampla janela de vidros (o barraco
situava-se num ponto alto) a cidade em que Auschwitz se transformara. A distncia, 
erguia-se o fumo de quatro chamins.
  - As vossas estradas tm-nos ajudado muito - comentei.
- No s para o transporte de material blico, mas como preveno do contgio e 
simplificao dos processos de disponibilidade.
  - Ouo dizer que existe uma elevada percentagem de doena
neste campo - observou, deitando-me um olhar estranho.
  - Oh,  verdade. Os Judeus so um povo imundo.
  - Presumo que a infeco tambm se tenha propagado aos
que o chefiam?
  - A alguns.
  - No tanto do corpo como da mente. Da alma, talvez.
  Pressenti o rumo que a discusso iria tomar. Kurt sempre
tendera um pouco para moralista. Nunca tinha sido um membro
do partido e no compreendia os nossos objectivos, nem as nossas
polticas a longo prazo.
  - Tornou-se ainda mais indignado, tio. Fazemos tudo isto
por uma questo de necessidade.
  - No precisas de me mentir - retorquiu, levantando-se.
- Sou do teu sangue. Poupa as mentiras e enganos para os milhares e milhares de 
judeus inocentes que esto a assassinar neste local. Sim, bem como russos, polacos e 
quem quer que considerem
vosso inimigo.
  No respondi e cruzei ,as pernas.
  Afastou-se, subitamente agitado:
  - O que  que em nome de Deus vos leva a obrigarem-nos
a despir antes de morrerem? Por uma questo de decncia, no
lhes podem deixar um mnimo de dignidade antes de os assassinarem? J vi os vossos 
rsticos SS de tacha arreganhada para
as mulheres judias, essas pobrezinhas que se tentam tapar. S depois
de vir para aqui comecei a acreditar que existia Satans ou o verdadeiro mal no 
Mundo.
  - Levou muito tempo - redargui. - Esteve em Babi Yar.
  - Talvez quisesse acreditar nas vossas mentiras. Como tantos outros dos nossos 
compatriotas.
  - Est a defender criminosos, espies, sabotadores, tio.
Esses judeus propagam o contgio fsico e poltico. Estamos a proceder  limpeza da 
Europa, e eventualrnente do Mundo. H mais
pessoas a acreditarem em ns do que imagina. - Falei calma
e racionalmente, tentando vincar-lhe o compromisso que o dever
me impunha.
  Kurt fitou-me com aqueles olhos azuis, onde se lia uma expresso gelada; os mesmos 
olhos duros do meu pai sempre que me
apanhava a mentir.

  - Ouvi contar uma histria inacreditvel um dia destes - retorquiu. - Em Janeiro, 
os judeus do gueto de Varsvia revoltaram-se. Chegaram a matar soldados alemes e 
obrigaram as SS
a recuar. Pensa, Erik, nessa gente desarmada, desprezada e apavorada, tentando 
resistir aos senhores da Terra. Quase nos restaura
a confiana na Providncia Divina.
  - Quase. No totalmente.
  Tinha ouvido falar na rebelio de Varsvia, em Janeiro. Correm boatos de que os 
judeus continuam armados e se preparam
para resistir aos nossos esforos de desalojr os ltimos cinquenta
mil que aqui temos. No  grave. Acabaremos por vencer.
No entanto, senti que devia qualquer coisa ao irmo do meu pai.
Na sua qualidade de engenheiro e construtor de estradas, poderia ver-se envolvido em 
grandes complicaes se expressasse tais sentimentos.
  Observei o seu grupo de trabalho atravs da janela.
  - Contaram-me que tem estado a utilizar vrias centenas de
judeus como mo-de-obra. Raes reforadas, privilgios. H polacos disponveis.
  - E ento?
  - Os Judeus destinam-se a tratamento especial. Devem trabalhar at j no servirem 
para nada e, em seguida, ser marcados
para tratamento especial.
  - Chama as coisas pelo seu verdadeiro nome, Erik. Diz
a palavra. Assassnio.
  - Arranjar-lhe-ei alguns presos do Exrcito Vermelho - retorqui, ignorando o 
comentrio. - Costas rijas e cabea de burro.
Podem substituir esses seus judeus. Se deixarmos que os Judeus
vivam, ainda um dia acabaro por destruir a Alemanha.
  - Quero que deixes os meus trabalhadores em paz.
  - Est a favorecer inimigos do Reich,  isso? Os filhos desses judeus... os filhos 
que mandamos...
  Com grande surpresa, correu na minha direco e agarrou-me
pelo colarinho, quase me arrancando a insgnia. Nunca fui um indivduo de medir 
foras. Detesto violncia e lutas. O meu tio Kurt
 um homem alto e entroncado. Anos de vida ao ar livre tinham-no
fortalecido. Senti-lhe o impacto das mos. Sacudiu-me como se
fosse um boneco.
  - Devia estrangular-te com as minhas prprias mos, meu
filho da puta assassino. Como um favor ao meu falecido irmo.
Quantos mortos mais o satisfaro, major Dorf? Um milho? Dois
milhes? Quantos corpos mais queimar, antes de se sentir em
segurana? Com mil raios, Erik. Mostra-me um pouco mais de
humanidade, antes que tudo isto termine. Mostra-me que ainda
tens um pouco de decncia.
  - Tire as mos de cima de mim.
  Encostou-me  parede de madeira. No lhe ofereci resistncia. Estava, obviamente, 
armado, mas nem pensar em me servir do revlver. Alm disso, a raiva que revelava 
estava a ceder a um
certo desdm e nojo.
  Endireitei o uniforme, . tentando certificar-me se algum dos
meus homens fora testemunha daquela cena embaraosa, e procurei
dizer ao meu tio precisamente o que Marta, com a sua intuio
feminina, me dissera recentemente. Num tom persuasivo, observei-lhe que se agora 
deixssemos de matar judeus estaramos a admitir
a nossa culpabilidade. Quando existe a convico de se estar a agir
justamente, no  possvel parar, simplesmente porque a atitude
 desagradvel, ou os outros no a interpretam devidamente.  a
que reside a verdadeira cora em: fazer o que muitas vezes nos
  g q

enoja e aparentemente  brutal, mas necessrio com vista
objectivo imenso, um plano a longo prazo.
  - O que fazemos  um acto moral - afirmei. - Um

  q p
rativo histrico.
  De novo avanou para mim, e desta vez julguei-me realmente
perdido.
  No entanto, deteve-se e murmurou:
  - Compreendo, at bem de mais. Compreendo-vos a todos
na perfeio. Sai.
  A sua irritao e falta de lgica perturbaram-me. Contudo,
desde que faa o trabalho para Hoess, construa estradas e modernize fbricas,  til. 
Alm disso, oculta, segundo parece, as seus
pontos de vista traioeiros - excepto de mim.




A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Um dia depois do acontecimento, o meu pai soube que
a minha me fora assassinada com gs. A noite, depois de ele
e Lowy te~em terminado o trabalho na construo da estrada, conseguiram ir ao sector 
das mulheres, servindo-se dos passes falsos.

a um Encontraram o aquartelamento vazio. Uma mulher kapo, uma
  das que fizeram marchar a minha me a caminho da morte, informou-o de que todas as 
mulheres daquele bloco haviam sido envia  das para as cmaras de gs.
  Os homens perderam o controle e choraram. Pouco podiam
  dizer um ao outro. Faltavam-lhes palavras de consolo.
  Algum me contou que o meu pai entrou e ficou muito tempo
  sentado no beliche da minha me. Pegou na ala que lhe pertencera, tocou nos magros 
bens e retirou uma velha pasta de msica
  - pginas velhas e amarelecidas de que se servira na nossa casa
em Groningstarsse. Mozart, Beethoven Schubert, Vivaldi.
  - Diabos os carreguem! - chorava Lowy. - Porque  que
ningum diz no Porque  que os Aliados no bombardeiam as
linhas frreas, os fornos, as cmaras de gs
  O meu pai no lhe podia oferecer resposta nem conforto.
  Num domingo, 18 de Abril de 1943, a Organizao de Luta
Judia, onde o meu tio Moses, outrora um tmido farmacutico, era
actualmente um elemento-chave, teve conhecimento de que os alemes estavam a preparar 
um ataque macio sobre os judeus que
restavam. Comearia s duas da manh do dia seguinte.
  Anelevitz reuniu os subcomandantes. Foram distribudas
armas. Os pontos-chave do gueto colocados sob vigia. Seria uma
luta de morte. Os combatentes armados, de que o meu tio Moses
fazia parte, eram cerca de quinhentos.
  S no sabiam que Von Stroop, o general das SS, encarregado
de dirigir a operao, tinha sete mil homens prontos a destru-los:
IXaffen SS, exrcito normal, com incluso de artilharia, tanques
e avies, dois batalhes da polcia alem, polcia polaca, membros-chave da SD e um 
batalho de voluntrios ucranianos, letes
e lituanos.
  Os judeus armados foram enviados em pequenos grupos para

duas zonas principais do gueto - a rea central, prximo das ruas
Nalewki e Zemenhof, e a rea junto da fbrica, perto da Rua
Lesmo.
  O tio Moses e Zalman esperavam  janela do andar superior
de um apartamento. O compartimento encontrava-se s escuras e
por incrvel que parea, a famlia que l vivia preparava-se para
a Pscoa. Uma mulher estava a pr uma mesa com candelabros,
matzohs e haggadah.
  Ao destacamento de tio Moses pertenciam, alm de Zalman,
que se sentava ao lado dele na janela, Eva Lubin e Aaron. Aaron
dormia ao fundo do quarto, em cima de um caixote de munies.
Nas zonas que mencionei, estavam de guarda pequenos grupos
de judeus armados. As ruas apresentavam-se desertas.
  - Pscoa, Weiss - bocejou Zalman. -19 de Abril de 1943.
  - Receio que nem tu nem eu tenhamos seder - observou
o tio Moses.
  - Podamos ter assistido a um, na noite passada. Os SS convidaram-nos. No ouviste 
o camio que enviaram?
  - A srio? - retorquiu Moses. - Foi algum?
  -Nem sequer Elias, o Profeta.
  - Que pena! Teria ido, caso no me competisse esta misso.
Sabes, Zalman, quando era criana, nunca cheguei a fazer as quatro perguntas. Talvez, 
na noite passada, o general Von Strooti me
tivesse dado essa honra.
  - Talvez. Antes de te matar.
  Eva recorda-se de que o meu tio comeou, subitamente, a falar
do irmo e da cunhada, dos meus pais. Sendo solteiro, no tinha
mais famlia. Sentia-lhes a falta, desejava-os.
  - Bem precisvamos de um mdico agora - retorquiu
Zalman.
  - Para tratar dos feridos?
  Zalman fez um aceno de cabea afirmativo.
  - Na minha opinio, devero ser mortos quando no for possvel salv-los. 
Conhecemos a espcie de gente que enfrentamos.
  Falaram de novos boatos: um peloto de polcia judaica, que,
pressupostamente, participaria no ataque, tinha sido executado por
um peloto de fuzilamento; Himmler viera a Varsvia, para assistir
ao final do gueto.
  - Desejava que fssemos mais do que um punhado - disse
Moses.
  - Esta gente - respondeu Zalman com um tom de compreenso na voz - esta gente, o 
nosso povo, no foi treinado para disparar armas.
  - E eu fui?
  Os dois homens perscrutaram a rua s escuras. De muitos
edifcios pendiam bandeiras sionistas - a estrela azul e branca,
as barras azuis. Havia tambm bandeiras polacos e apelos aos Polacos para que 
aderissem  luta. At ao final, nunca morreu a esperana de que o fariam.
  - Amanh  o aniversrio de Hitler - prosseguiu Moses.
- As SS prometeram-nos como presente de anos. Varsvia ser
limpa, como celebrao do aniversrio do Fhrer.
  - Com velas no holo - comentou Eva.
  - Nunca pensei que me resignasse a morrer - suspirou Moses: Mas  o que acontece. 
Anelevitz ensinou-me muita coisa.
O Mundo saber que no marchmos ao encontro da morte. docilmente e com uma estpida 
aceitao.
  Acendeu-se uma luz no quarto do fundo.
  - Apague isso - ordenou Eva  mulher.
  - Estou a fazer a limpeza da Pscoa.

  - Limpe s escuras - respondeu Eva.
  - Pscoa - repetiu Zalman. - Continuam a cumprir. No
os critico, Weiss; apenas me deixam sem fala. Talvez precisssemos
de menos tradio, menos oraes e mais armas.
  Ao fundo do quarto, um homem de idade rezava - com
xaile, barrete e o livro de oraes aberto. Inclinava-se, vogando
num xtase sagrado.
  - S tolerante, Zalman. Foi esta a vida deles. Nada mais
conheceram e, durante muito tempo, serviu para os manter unidos.
Talvez nos conserve juntos quando este inferno acabar.
  Da rua, l em baixo, chegava-lhes o som de tambores e msica marcial. O porto do 
gueto fora escancarado e um destacamento da polcia do gueto avanou, desarmado, 
pelas ruas desertas. Atrs vinham os auxilia~as estrangeiros. Transportavam 
espingardas e pistolas-metralhadoras.
  Apareceu um carro blindado que parou no meio da praa.
O altifalante deixou escoar uma voz amistosa:
  Pscoa feliz aos nossos amigos judeus. Baixem as armas.
Saiam em paz. Vamos preparar-lhes um seder. Esqueam este combate insensato, pois 
esto a ser chefiados por traidores que apenas
desejam a vossa morte, enquanto eles se escapam.
  O tio Moses, que andara a praticar tiro ao alvo na cave,
ergueu a espingarda e fez o altifalante em estilhas. Ficou pendente
dos fios destroados.
  O carro fez marcha-atrs. Obedecendo a ordens gritadas pelos
SS; a polcia do gueto e os auxiliares formaram linhas de combate.
No se mostravam dispostos a ir-se embora.
  Os tambores soaram novamente. Continuaram a avanar pela
rua. Anelevitz e os restantes comandantes j haviam concordado
anteriormente em poupar munies para os alemes.
  - Primeiro a nossa polcia sem vergonha - disse Zalman.
  - Deixa-os passar - interferiu Moses.
  Eva arrastou-se at junto de uma outra janela e fez pontaria
com a arma. Aaron desceu do caixote de munies e avanou com
caixas de balas e mais armas.
  - Litunia, Letnia, Ucrnia - observou Moses. - Os velhos rostos familiares.
  - Aguentem o fogo - sussurrou Zalman.
  -Um dia destes, olharei um leto de frente e direi: <<Salvei-te
a vida no gueto de Varsvia, irmo.>>
  Continuaram a marchar, por inacreditvel que parea. A praa
estava agora ocupada por um batalho das affen SS. Colocaram
secretrias, telefones de campo, uma cozinha. Tratava-se de uma
importante operao militar.
  - Agora - gritou Zalman.
  Trovejaram rajadas de uma dzia de janelas em redor da
praa. Os alemes, que cantavam em voz alta, marchando elegantemente para a esquina 
das Ruas Nalewki e Gensia, viram os seus
intuitos frustrados. A formao desfez-se. Mortos e feridos foram
deixados na rua.
  Uma salva contnua de balas disparadas de stos, varandas
e janelas dos ltimos andares, como aquela onde se acocoravam
Moses, Zalman, Eva e Aaron, fez com que a coluna nazi se retirasse em grande 
confuso.
  Ouviam os oficiais alemes a gritarem l em baixo:
  - Onde esto eles, com os diabos?
  - Recuem.
  - Abriguem-se.
  O tio Moses voltou a apontar a arma e afirmou:

  - Afinal sempre existe um Deus no Paraso. J tinha comeado a pr as minhas 
dvidas.
  - Um homem j podia morrer feliz depois de ter visto um
espectculo destes-observou Zalman.-Vejam como esto
a recuar.
  -  a primeira vez na minha vida que sinto o sangue do
rei David a ferver-me nas veias - retorquiu Moses, enquanto recarregava as 
espingardas. - Acreditem-me que  melhor do que estar
a aviar receitas.
  - No te excedas, Weiss - aconselhou Zalman.
  Os alemes tentaram reagrupar-se vrias vezes, voltar atrs
para recuperarem os mortos e os feridos e, de cada uma das vezes,
foram detidos por uma muralha de fogo. Algumas vezes, grupos
de judeus armados com pistolas desciam  rua e lutavam com
os nazis, de edifcio para edifcio.
  Este primeiro encontro armado prolongou-a por cerca de
duas horas, das seis s oito da manh, e, embora parea inconcebvel, no se 
verificaram baixas entre os combatentes judeus.
Tinham apanhado os SS completamente desprevenidos.
  Von Stroop, o general alemo, que se recusou a entrar no
gueto e a rebaixar-se ao ponto de lutar contra judeus, declarou posteriormente no seu 
relatrio: <<A resistncia judia foi inesperada,
invulgarmente forte e uma surpresa enorme. Aquando da nossa
primeira penetrao no gueto, os judeus e os bandidos polacos,
de armas na mo, conseguiram repelir as nossas foras atacantes,
inclusive os Panzers. >>  tudo verdade  excepo da referncia aos
<<bandidos polacos>>, na medida em que todos os combatentes eram
judeus.
           No entanto, os nazis regressaram, evidentemente, e em grande
           fora - empurrando, como era habitual, Os lacaios ucranianos
           e blticos na sua frente -, mas abrigando-se atrs dos tanques, sem
           marcharem pelo meio da rua, pondo de lado os ares marciais e a
           pressuposio de que os judeus se renderiam ao avistarem um sol           
dado alemo.
           No apartamento,  luz do alvorecer, Moses e o seu grupo
           ouviam a famlia a ler o ofcio religioso da Pscoa.
           <Quando Moiss cresceu, encontrou um egpcio a matar um
i'         hebreu e matou o egpcio. Moiss fugiu da presena do fara e foi
           habitar na terra de Midian...>>
           Um rapazinho que estava  mesa, perguntou:
           - Porque  que esta noite  diferente das outras?
           Zalman e Moses no conseguiram reprimir um sorriso. Sim.
,;;;
           Era diferente. No se assemelhava a qualquer outra noite de Ps           
coa da histria do povo judeu.
           <<E est escrito>>, continuava o velho a ler em hebreu, num
           canto afastado do quarto,<<que erguemos a voz para o Senhor,
           O Deus dos nossos antepassados, e o Senhor ouviu-nos e deu-se
           conta do nosso sacrifcio, tormento e apreensso...>>
           Durante uns momentos, todos o ficaram a ouvir. Em seguida,
           Moses disse:
           - Juntemo=nos a ele.
           E todos recitaram juntos:
           <<E o Senhor arrancou-nos ao Egipto com 'mo poderosa
           ,
           O brao estendido, e propagou o terror, sinais e milagres.>>
,          Depressa a situao se tornou insustentvel. Os tanques e a

           artilharia entraram no gueto. Morteiros comearam a ser lanadas
           na direco dos andares mais altos e dos telhados, de onde pari"''
           tira o fogo.
':';'   Moses ordenou  famlia que pusesse termo ao seder. Deus
           compreenderia. Tinham de se ir embora dali. Um morteiro tinha
           explodido no telhado. A mulher pegou nos livros sagrados, no
           matzoh, nas pratos, nas taas de vinho. Os outros seguiram-na.
        Uma segunda bomba de morteiro explodiu contra um dos lados do edifcio. 
Zalman ficou ferido no brao esquerdo devido
a um bocado de pedra.
  - No nos podemos aguentar aqui - afirmou Moses. - Tm
uma fora muito superior  nossa. Agarrem nas armas e munies
e vamos para os tneis.
  Dez minutos mais tarde e na peugada de Aaron, que conhecia o caminho pelos tneis 
to bem como os ratos, foram dar
a outro apartamento.
  Este apartamento dava para as Ruas de Mila e de Zamenhofa e os edifcios em redor 
dispunham de excelentes posies
de tiro. Havia pelo menos uma metralhadora e uma srie de combatentes escondidos, 
armados com Cocktails Molotov, granadas
e espingardas automticas.
  Moses e o seu grupo tiveram o prazer de avistar o primeiro
tanque alemo, que entrara na bifurcao, transformado num
inferno pelos Cocktails Molotov. A tripulao foi queimada viva.
Dois outros tanques recuaram. Os alemes acoitaram-se atrs deles,
 espera e interrogando-se.
  - Esto a atacar de novo - declarou Moses.
  -  fogo cruzado - retorquiu Zalman, que continuava a disparar, servindo-se de um 
brao, enquanto Eva lhe ligava o outro.
  Algum desdobrou mais uma bandeira sionista e a pendurou
na janela.
  - ptimo - aplaudiu Moses. - Que esses filhos da me
a vejam bem e saibam quem somos.
  Estava a verificar-se mais uma retirada dos alemes.
  - Como te sentes, Zalman? - interessou-se Moses.
  - O brao est ptimo.
  - No me referia a isso, mas ao facto de veres esses filhos
da me a fugirem.
  - Isso  melhor do que tudo. J derrotmos os Filisteus.
  O combate prolongou-se por vinte dias. Von Stroop, farto
dos desaires dos subordinados, assumiu pessoalmente o comando
das operaes. A Resistncia manteve a posio na Praa Muranowski, durante dois 
dias, estando o meu tio e os amigos bem
metidos no meio. Foi para este local que Von Stroop trouxe primeiramente a artilharia 
antiarea, com o objectivo de aniquilar
todos os pontos de resistncia, edifcio e edifcio.
  Devo anotar que nesta batalha um grupo de seis polacos cristos, chefiados por um 
oficial chamado Iwanski, entrou no gueto
e aderiu  luta contra os alemes. Trouxeram novo abastecimento
de armas. Quatro deles morreram em combate, lado a lado com
os judeus. So o tipo de pessoas que precisam de uma meno
especial; qualquer tributo.
  Em 23 de Abril, os judeus continuavam a lutar, em abrigos
dispersos pela cidade. Himmler, furioso por o Mundo estar ao
corrente da resistncia dos judeus, enviou um telegrama irritado
a Von Stroop:
  <<As rusgas no gueto de Varsva devem ser efectuadas com
incansvel determinao e da forma mais impiedosa possvel.

Quanto mais duro o ataque, melhor. Os recentes acontecimentos
demonstram como esses judeus so, de facto, perigosos.>>
  No sou psiclogo, mas a minha mulher debruou-se bastante
sobre esta matria. Afirma que Himmler era no fundo um cobarde,
receoso dos fracos, com medo da humilhao e das crticas. Depois
de ordenar o assassnio de milhes de pessoas desarmadas e inocentes indefesos, 
tremia ante algumas centenas de judeus armados.
  No mesmo dia em que Himmler enviou a mensagem ao general, Anelevitz dirigiu um 
apelo aos contactos no sector <<ariano>>,
com uma ltima esperana de que se decidissem a entrar no
combate.
  <Os judeus do gueto esto finalmente a defender-se, e a sua
vingana assumiu uma feio positiva. Tenho testemunhado a soberba e herica batalha 
travada pelos insurrectos judeus... 
  O combate durante a noite foi a pouco e pouco tornando-se
regra geral. Os alemes hesitavam em avanar de dia. Em vez
disso, bombardeavam do ar, serviam-se da artilharia e provocavam
incndios enormes. Deu-se incio a um cerco sistemtico do gueto.
A Resistncia sabia ter os dias contados. Os alemes estavam empenhados numa campanha 
militar.
  Um dos aspectos mais revoltantes de todo o combate consistiu
no facto de civis polacos se postarem do lado de fora do porto do gueto, dando vivas 
e aplaudindo,  medida que homens e mulheres judeus, queimados pelas chamas, 
saltavam, para a morte,
dos edifcios.
  - Mais um! - gritavam.
  - E outro!
  Contudo, o corajoso Iwanski, o oficial do Exrcito polaco,
voltou uma vez mais, a fim de combater ao lado dos judeus.
O irmo foi morto e o filho ficou ferido gravemente. Poucos
o conheceram. Embora muitos polacos nos abandonassem, e rissem
enquanto morramos, havia pelo menos um Iwanski, capaz de um
pouco de honra.
  Em 8 de Maio, a Resistncia estava reduzida a uns quantos
abrigos, de onde se fazia fogo. Tinham-se explorado tneis com
fim a escapadas furtivas. Poucos restavam. Os alemes tinham
igualmente procedido  explorao das passagens subterrneas
e bloqueado a sada d muitas.
  No abrigo do nmero 18 da Rua Mila, Anelevitz contactou,
telefonicamente, com os seus comandantes. Pediu-lhes que aguentassem, que esperassem 
o auxlio vindo do exterior. Estavam em
curso novos apelos aos Polacos. A rendio era algo impensvel.
  ITa velha mquina de Max Lowy - h muito que Lowy tinha
sido deportado para Auschwitz com o meu pai - imprimiu-se um
ltimo apelo.
  Com as armas vazias de munies, Moses, Zalman e outros
encostavam-se s paredes hmidas do abrigo.
  - Quantos dias, Zalman?
  - Comemos em 19 de Abril. Estamos a 9 de Maio. Vinte
ias e ainda no nos venceram.
  - No demos o presente de aniversrio e Hitler.
  - Demos. Mas no o que queria.
  Anelevitz tirou das mos sujas de tinta de Eva Lubin a folha
de papel acabada de imprimir e comeou a ler:
  <<Milhares das nossas mulheres e crianas esto a ser queimadas vivas dentro elas 
casas. As pessoas, envoltas em chamas, saltam
como tochas das janelas. No entanto, prosseguimos a luta.  uma

luta ;por vs e pela nossa liberdade. Vingaremos Auschwitz, Treblinka, Belzec e 
Maidanek. Viva a liberdade. Morte para os ocupantes assassinos e criminosas. Acima a 
luta de vida ou de morte contra
o brbaro Alemo.>
  Um jovem combatente do gueto, vestido com um uniforme
capturado aos alemes, deu um passo em frente. Anelevitz entregou-lhe os panfletos:
  - V se consegues distribu-los. Boa sorte.
  - O ltimo papel - observou Eva, olhando tristemente para
a mquina de imprimir.

  Entretanto, as SS tinham feito o reconhecimento da rea.
Todas as sadas possveis, esgotos, adegas e buracos, estavam guardadas.
  O jovem, carregado com os panfletos, surgiu da porta de um
celeiro e foi abatido por dois homens das SS.

  L dentro do abrigo, os outros esperavam.
  - Nunca fui um homem de muita coragem - disse o tio
Moses.
  - Nem eu - acrescentou Zalman.
  - Tm coragem que baste - sorriu-lhes Eva.
  - Mas aprendi uma coisa - retorquiu Moses. - J que
todos temos de morrer, porque no morrer com dignidade?
  Enquanto falavam em voz baixa, aguardando, ouvindo rajadas
ocasionais da rua por cima das suas cabeas, Aaron regressou ofegante. Tinha guiado o 
jovem, vestido com o uniforme nazi, at
 sada.
  - Mataram-no a tiro - comunicou Aaron. - Sabem.
  Por cima das cabeas, escutavam vozes, o rudo de um camio
e ordens gritadas.
  Um cheiro acre e sufocante comeou, subitamente, a invadir
o tnel.
  - Qualquer gs - disse Moses. - Tapem os rostos. Com
panos molhados.
  Eva recorda-se das mes que apertavam muito os filhos de
encontro ao peito. O choro era enorme. Um velho comeou a rezar.
  o final - anunciou Anelevitz erguendo-se e falando
  calmamente.
  , - As plulas? - perguntou Zalman, .aproximando-se.
  - No chegam para todos.
  - Talvez alguns queiram sair, tentar a sorte l fora.
  - So livres de o fazerem - concordou Anelevitz com um
  aceno de cabea.
  As pessoas tossiam. Alm do mais, a artilharia disparava contra as paredes pesadas, 
por cima do abrigo. Todo o longo e estreito
  abrigo estremeceu. O fim estava prximo.
  - Eu chefio quem estiver disposto a sair - comunicou o tio
  Moses, avanando para um grupo de pessoas.
  - Eu tambm levarei alguns - acrescentou Eva Lubin.
  Aaron e outros escolheram Moses para os conduzir at um
  caminho de sada. Eva encarregar-se-ia de um velho esgoto fora
  de uso, que levava para o exterior dos muros.
  Moses abraou Zalman e Anelevtz. - Adeus, amigos.
  - Adeus, Weiss - despediu-se Zalman, apertando a mo do
meu tio. - A verdade  que nem nos chegmos a conhecer
muito bem.
  - Fica para a prxima, Zalman.
  - Claro.
  Algum comeou a entoar as canes do gueto. Em seguida,

cantaram o Hatikvah, o hino sionista.
  Uma coluna formou-se atrs de Moses, enquanto outra se alinhou atrs de Eva.
  - Tenho o nome exacto - declarou o meu tio -, mas receio
no vos poder conduzir  Terra Prometida. Mantenham-se numa
fila. A retaguarda fica por tua conta, Aaran. Avancemos com dignidade e coragem.
  Afastou-se numa direco e Eva na direco contrria.
  Os SS estavam  espera deles. Talvez tenham visto aquela
famosa fotografia - os judeus plidos e desarmados a sarem de
um buraco no cascalho, enquanto os soldadas observavam, de esgar
nos rastos e espingardas apontadas na sua direco.
  L em baixo, no abrigo, Anelevitz e muitos outros preferiram
suicidar-se, como os heris de Masada.
  - No vos faro mal - prometeu um tenente alemo.
- Sero apenas revistados e depois registados. Voltem-se para
a parede, de mos erguidas.
  Voltaram-se. Moses, Aaron, todos os seus amigos da Resistncia.
  - Dmos as mos e rezemos, meus filhos - disse o tio Moses. - Algum quer comear, 
por favor Estou um tanto destreinado.
  Deu uma das mos a Aaron Feldman e a outra e uma mulher
idosa. O velho de barbas que presidira ao seder h vinte dias, deu
incio ao Shema.
  Shema Israel Adonai Elohenu, Adonai Ehud...
  Continuaram a rezar, reafirmando a sua f, at as armas abrirem fogo. Morreram 
todos.
  O grupo de Eva Lubin teve mais sorte. Vaguearam durante
trinta horas pelos esgotos de Varsvia. Uma manh ouviram uma
exploso por cima da cabea, viram a luz do dia e surgiram nos
arredores da cidade.
  Tinha sido estabelecido contacto com um grupo de guerrilheiros judeus. Um camio 
esperava-os. O punhado de homens que
sobrevivera  rebelio do gueto de Varsvia foi levado para as florestas. Na cidade, 
a resistncia terminara.



O DIRIO DE ERIK DORF


Auschwitz
Agosto, 1943

  Cada vez fico mais tempo afastado de Berlim.
  Nunca vi to grande determinao nos nossos oficiais - particularmente em 
Kaltenbrunner e Eichmann - relativamente  misso cumprida. Porqu  a pergunta que 
fao a mim mesmo.
   apenas uma questo de tempo, antes de a guerra estar perdida.
  Mussolini foi preso no outro dia. A Siclia sofreu uma invaso.
  A nossa ltima ofensiva na Rssia falhou. Existe mesmo um relatrio arrepiante, 
segundo o qual uma fora bastante grande de
  guerrilhas do Exrcito Vermelho penetrou na frente dos Crpatos
  - uns oitocentos quilmetros para c das nossas linhas.
  Hoje estive em Auschwitz, a verificar junto de Hoess se
o abastecimento de Zyklon B  suficiente e se os transportes de
Eichmann andam  tabela.
  A carga sobre Auschwitz e outros campos de extermnio

- estranho, como me insensibilizei a ponto de utilizar esta palavra - ser mais 
pesada. Himmler, agora que Varsvia foi liquidada, ordenou a destruio imediata de 
todos os guetos polacos.
  O facto apenas significa uma coisa: mais trabalho para ns.
  Devo anotar aqui que alguns europeus no concordam com
  os nossos planos. Os Blgaros, por exemplo, um povo eslavo por
  quem no tenho um mnimo de considerao, desafiou-nos
  ,
  dispersou e escondeu os judeus. E os Italianos continuam a mostrar  -se difceis, 
recusando-se a cooperar, enviando judeus para conventos e mosteiros e para as 
provncias italianas. Perturba-me que,
quando as nossas unidades so desafiadas desta maneira, aquiesam
mais ou menos, voltando as atenes para outros assuntos.
  Seja como for, neste entardecer quente, jantei na messe dos
oficiais em Auschwitz. Eichmann e Hoess estavam presentes.
Mostravam-se, como habitualmente, frios e dedicados, cheios de
novos planos. O rio est a transbordar de cinzas. Agora, esto
a enterrar o produto dos fornos num local situado a alguma
distncia do campo.
  Pelo canto do olho, vi que o meu tio Kurt entrava na sala
de jantar. Evitou-me, escolheu um lugar afastado e sentou-se em
silncio, a puxar fumaas do cachimbo. Desde aquela cena no gabinete dele, em que se 
atrevera a pr-me violentamente as mos
em cima, no tnhamos trocado mais uma palavra.
  Estava a meio de uma carta que Marta me escrevera, quando
estremeci.
  - Alguma m notcia? - perguntou Eichmann.
  - Meu Deus ! - exclamei. - A nossa rua foi bombardeada.
  Eichmann comentou que os Ingleses e os Americanos eram
brbaros dos piores, sem qualquer respeito pela vida humana nem
pela cultura das cidades. Para Hoess, Churchill no passava de um
selvagem que descarregava planos de guerra sobre eivis inocentes.
  Na carta, Marta garantia-me que ela e as crianas estavam
a salvo, no abrigo, durante o ataque areo. O apartamento ficara
um tanto danificado. O nosso belo piano estava arranhado pelos
estilhaos das bombas.
  A carta de Marta trazia-me ainda mais novidades. O padre
Lichtenberg, o agitador que desprezara o meu conselho relativamente aos sermes sobre 
os Judeus, morreu em Dachau, em circunstncias desconhecidas. Sinto uma certa pena 
dele. No compreendeu,
muito simplesmente, a necessidade de acompanhar a mar, de aceitar
o inevitvel. Comuniquei a morte de Lichtenberg a Eichmann
e a Hoess. No se mostraram interessados. E porque haviam
de estar? Que importa mais uma morte - padre ou leigo, alemo
ou polaco? O importante consiste em libertar a Europa dos Judeus;
todos o sabemos; todos estamos a par da urgncia da nossa misso.
Esta campanha de extermnio  fulcral e vital para tudo o que
o Fhrer nos ensinou.  o mago, a alavanca, o ncleo do nosso
movimento. No se trata apenas de um meio ou de um fim,
mas de um meio e de um fim para uma Europa racialmente pura,
governada por aristocratas nrdicos.
  Eichmann pousou a faca e o garfo. Recusou-se a comer
a costeleta:
  -  horrvel o cheiro dessas chamins, Hoess. Piora de dia
para dia. Como  possvel apreciar a comida neste stio?
  O apetite de Hoess no se mostrava afectado. Bebeu a cerveja
checa e engoliu o schnitzel.
  - No se pode evitar, Eichmann. Continuamos a uma mdia
de doze mil por dia, e que  superior  de qualquer outro campo.

Ouo dizer que o de Theresienstadt tambm est marcado para
a liquidao. A Romnia e a Hungria no demoraro a entregar-nos
os judeus. Quarenta e seis fornos no sero suficientes.
  - Todos temos os nossos problemas, Hoess. Continuo as
minhas lutas com o Exrcito por causa dos comboios. Os filhas
da me insistem que precisam dos transportes para os exrcitos
na Rssia. <<O que tem prioridade?>>, perguntei-lhes, <A Rssia
ou ficarmos livres de todos os judeus?> No me deram resposta.
Conhecem as ordens do chefe.
  Enquanto Eichmann e Hoess erguiam as vozes, lembrei-me
de que o meu tio Kurt estava a ouvir aquilo tudo. No comera.
Continuava a fumar e a beber caf, com uma expresso sombria
e aguentando a conversa.
  Levantou-se subitamente, deixando alguns marcos em cima
da mesa, e passou por ns. Ao faz-lo, olhou-me com um desprezo
e um dio de que no o julgava capaz. Em seguida, saiu.
  Voltei a ler nos olhos de Kurt aquela mesma reprovao,
a mesma clera que vira no rosto do meu pai quando eu era mido.
Ser que os adultos se apercebem do mal que infligem nas crianas
com a sua desaprovao?
  Sinto necessidade de dar uma lio ao meu tio, de esmagar
a superioridade moral que demonstra em relao a mim, aquela
conscincia ambulante em que se transformou. Perguntei, pois,
a Hoess qual era a poltica quanto  utilizao de judeus em trabalhos forados. 
Respondeu-me ser a mesma de sempre, mas mais
<<urgente>>. Ou seja, no deviam apenas ser esforados at estarem
prontos para o <tratamento especial>>: sempre que possvel havia
que os substituir por polacos e russos, mesmo quando se provasse
estarem aptos para o trabalho.
  - Tenho informaes de que ainda h vrias centenas de
judeus a trabalharem nas estradas - observei. - E vi muitos
cristos com hiptese de os substiturem.
  - i Iesse caso, devem ser substitudos. No posso encarregar-me de tudo, Dorf.
  Insistiu que todos os judeus de Auschwitz e os que viessem
estavam marcados para o tratamento especial. As aptides, a fora
e os privilgios tinham deixado de contar. Anotei mentalmente
a inteno de enviar a Hoess um memorando escrito sobre os
judeus do tio Kurt.

A HISTRIA DE RUDI WEISS

  O golpe atingiu o meu pai em Agosto de 1943. No consegui
estabelecer a data com exactido.
  A meio do ms, ele e o amigo Max Lowy, bem como os que
trabalhavam na construo da estrada, foram enviados em marcha,
directamente, para as cmaras de gs.
  O meu pai, Lowy e um outro homem - um sobrevivente
que me contou tudo - estavam a trabalhar com uma mquina
de terraplanagem. O homem recebera notcias de um recm-chegado - o gueto de Varsvia 
revoltara-se. Muitos alemes
foram mortos. Tinham utilizado tanques, avies e artilharia para
dominar os combatentes judeus. Ambos lhe perguntaram se algum
dos seus velhos amigos estivera implicado; no entanto, ele sabia
muito pouco. A Resistncia fora aniquilada, mas os Alemes tinham
precisado de sete mil homens para o conseguir.
  Enquanto falavam, viram que um sargento das SS se aproximava de Kurt Dorf e lhe 
entregava uma folha com ordens.

Seguiu-se uma discusso, mas Dorf, que era civil, usufrua de uma
autoridade limitada. Ouviram o sargento dizer bastante claramente:
  - Haver substituies.
  Apareceram meia dzia de homens das SS.
  Os judeus que trabalhavam para Kurt Dorf receberam ordem
de formao em filas de dois. Informaram-nos de que seriam
levados para a despiolhagem, fumigao. Temia-se uma nova vaga
de tifo.
  Seguiu-se uma pausa. Depois, os homens reuniram-se. Alguns
comearam a chorar. Um dos homens caiu de joelhos e abraou-se
s botas do sargento das SS.
  - No o devia fazer - criticou o meu pai. - Devemos,
quanto mais no seja, conservar o orgulho.
  - Parece-me que  o fim, doutor - comentou Lowy, engolindo em seco.
  - Sim. Tu e eu fizemos uma longa viagem.
  - Mas no exactamente de frias, doutor.
  Receberam ordem de marcha para o edifcio de cimento e as
chamins distantes.
  - Tens sido um bom amigo, Lowy - disse o meu pai.
- E um bom doente, devo acrescentar. Sempre pagaste as tuas
contas a tempo e pouco te queixaste.
  Lowy tentou reter as lgrimas. Olhou para os guardas.
  -Doutor... Porque no saltamos sobre eles? Seja como for,
morreremos. Levamos alguns para o outro mundo. O que se passa
de errado connosco?
  - Fomos treinados toda a vida para no o fazermos.
  Atravessaram o traado quente e poeirento da estrada que
tinham ajudado a construir. Voltaram-se uma vez. O engenheiro
observava-os, sozinho, de braos cruzados.
  - D-me a mo, Lowv - pediu o meu pai.
  - Sinto-me como uma criana no primeiro dia de escola.
  O meu pai tentou gracejar para afastar o medo:
  - Trataste da tua vescula, Lowy? H anos que te venho
a avisar, desde que foste pela primeira vez ao meu consultrio
em Groningstrasse.
  - Talvez me resolva este Outono.
  Continuaram a marchar. Os homens andavam aos tropees.
Sabiam o que os esperava.
  - Que diabo de maneira de um homem morrer - disse Lowy.
  - Talvez seja o que eles dizem: apenas e despiolhagem - observou algum atrs 
deles.
  - Isso mesmo. Despiolhagem - repetiu Lowy, com um
aceno de cabea. - Ollzou para as mos, as mos de um tipgrafo. - Com os diabos! 
Tenho tinta nas unhas, doutor. Bom.
Talvez os panfletos tenham servido para alguma coisa.
  - Tenho a certeza que sim - garantiu o meu pai.
  Foram mortos com gs, horas mais tarde, juntamente com
mais dois mil.
  Em Setembro, o Tio Sasha soubera de um transporte de
pilotos da Fora Area alem que deveria passar na linha frrea,
a pouca distncia do campo onde nos encontrvamos desde h
pouco. Decidiu fazer explodir as linhas frreas e armar-lhes uma
emboscada.
  Nessa altura, tnhamos feito uma dzia de incurses contra
a milcia ucraniana e os Alemes e sentamos que esta seria a nossa
melhor oportunidade. Tnhamos sofrido baixas, mas o campo de
famlia continuava intacto sob a sua firme chefia. Dispnhamos
de mais armas e comida do que nunca. Era surpreendente como

os fazendeiros, ao verem-nos armados e audazes, aprenderam
a respeitar-nos.
  Helena insistia em nos acompanhar. J fora connosco em
vrias incurses - contra minha vontade -, mas desta vez sentia-me particularmente 
preocupado. Era demasiado perigoso. Os comboios vinham sempre munidos de 
metralhadoras montadas  frente
e  retaguarda.
  Sasha deu-me ordem para colocar as cargas de dinamite nas
chulipas das vias frreas. Estava um dia terrivelmente quente.
Sentia a camisa de caqui ensopada em suor. Uma dzia de guerrilheiros, incluindo 
Helena, Yuri e Nadya, esperavam, escondidos
entre rvores e arbustos, junto cia linha frrea.
  Tinha aprendido bastante sobre explosivos. Nenhuma destas
coisas  difcil de aprender. Difcil  ganhar coragem para as pr
em prtica. (Tamar afirma que, em Israel, os Judeus se transformaram em soldados de 
um dia para o outro. Armados e treinados,
fazem com que o Mundo se esquea de que foram habitantes de
gueto apavoradas.)
  Ouvimos o silvo do comboio  distncia.
  - Despacha-te,- apressou-me Sasha.
  - Mesmo a tempo - gritei-lhe. - Certifiquei-me de que os
fios estavam seguros e as cargas em posio. O passar das pesadas
rodas faria com que explodissem. Assim que se verificasse a exploso, varreramos as 
carruagens com o fogo das automticas e granadas. Seria o nosso mais importante 
empreendimento at quela
data
  Dei os ltimos ns e abriguei-me por entre a folhagem,
de metralhadora aperrada.
  Helena mantinha-se ao meu lado. Parecia pequena e desprotegida. Mas tambm 
transportava uma metralhadora e tinha granadas
presas ao pescoo.
  - Um colar - comentei.
  - Sinto orgulho nele.
  Beijei-a na face. Estava assustada. Estvamos todos. ITo entanto, tnhamos 
aprendido a no o mostrar. Nunca imploraramos
piedade. Morreramos antes de nos rendermos.
  O Tio Sasha tinha o ouvido  escuta, na direco de onde
vinha o comboio. Parecia preocupado.
  - O que se passa? - quis saber.
  - Parece-me que esto a parar.
  Todos nas pusemos  escuta. Para l de uma curva dos carris,
chegou-nos o som de uma locomotiva a abrandar. Em seguida,
o som acabou e e mquina deu a sensao de suspirar.
  Ficmos  espera. Raramente tinha visto Sasha to perturbado. Fez um aceno de 
cabea na minha direco.
  - Vai at  beira da estrada, Rudi, e v o que se passa - pediu.
  Rastejei de barriga para baixo, segurando a metralhadora
entre os braas, e cheguei perto da linha frrea. Avancei mais
alguns metros e consegui avistar a locomotiva. Tinha parado.
  No tejadilho do primeiro vago havia uma metralhadora
e o pessoal para e manejar. Estavam de p e olhavam em volta.
O comboio estava ainda a alguma distncia das cargas explosivas
que eu tinha colocado. Algo lhes despertara suspeitas. Talvez se
tratasse apenas de uma medida de segurana - sabiam que existiam
guerrilhas na zona.
  Vi, seguidamente, que meia dzia de soldados saam do
comboio, prontos a combater. Comearam  avanar lentamente
pelo trilho, enquanto o comboio continuava parado.

  Rastejei de volta at junto de Sasha e dos outros.
   - Esto e mandar homens Para fora - sussurrei.
  - Foram avisados - retorquiu Sasha, franzindo o sobrolho. - Vamos sair daqui o mais 
rapidamente que pudermos.
  - Bem podemos com eles - garanti. - Armamos-lhes uma
emboscada. Deixa-os vir.
  - No. S quando estivermos em vantagem. Vo matar-nos
com aquelas metralhadoras. Todos em movimento.
  Comemos a atravessar os bosques.
  Os alemes suspeitavam obviamente de algo, pois ouvamos
ordens gritadas e homens a correrem ao longo do cascalho.
O comboio tambm avanou, mas no chegou aos explosivas.
  Em seguida, e sem aviso, a metralhadora abriu fogo.
  Os galhos e os arbustos quebravam-se e eram pisados  nossa
volta.
  - Dispersem - gritou o Tio Sasha.
  Agarrei Helena por um brao e corremos apressadamente
pela floresta. Os ramos feriam-nos os rostos e prendiam-nos a roupa.
Desejava dar meia volta e disparar, tentar det-los, pois ouvia-os
atrs de ns - o som de botas, gritos em alemo, os estalidos
das espingardas e rajadas da metralhadora montada.
  E, subitamente, Helena foi atingida. Caiu sem uma palavra,
continuando a agarrar-me a mo.
  Parei e ajoelhei-me junto dela. O rosto estava plido e a
expresso era de tranquilidade. No denotava traos de agonia.
As balas tinham-lhe penetrado nas costas, provocando-lhe uma
morte instantnea. Estava prostrada por terra, parecendo ainda
mais magra, mais bonita. Afundei o rosto entre os seios.
  Ignoro porque no me mataram tambm. Um cano de espingarda bateu-me na cabea e 
fiquei inconsciente.

  Alguns dos do nosso grupo tinham escapado. Quatro, incluindo
Yuri e Helena, estavam mortos. Dois outros jovens e eu - igualnente por motivos que 
me escapam - fomos postos em marcha,
rumo a um ponto de reunio dos presos do Exrcito Vermelho.
  A regra usual, quanto aos guerrilheiros, era abat-los  vista.
No entanto, planeavam provavelmente torturar-nos e obter informaes sobre todo o 
movimento da guerrilha.
  No nos deram comida, apenas a gua suficiente para no
morrermos de sede, e, em seguida, mandaram-nos inesperadamente
para dentro de um vago de gado.
  Enrosquei-me a um canto e senti que me transportavam
a caminho da morte. Provavelmente, andara a enganar a morte
o tempo suficiente. Pensei em Helena, que morrera silenciosamente, sob a chuva de 
balas. Desejara acompanhar-me numa
incurso, a fim de podermos morrer juntos. Agora, desaparecera;
eu continuava v ivo. Senti-me culpado, miservel, indigno. Deveria
t-la dissuadido daquele seu desejo insensato. Chorei por muito
tempo, permanecendo acocorado no vago barulhento. A viagem
foi interminvel. Um dos homens disse que amos a caminho da
Polnia. Vira tabuletas na estrada.
  A afirmao deu-me a certeza de que nos iam matar. Talvez
nos utilizassem em trabalhos forados durante uns tempos.
  Finalmente, o comboio foi descarregado numa cidade chamada Sobibor. Obrigaram-nos a 
andar cerca de um quilmetro
e meio at um campo de concentrao - arame farpado pendente
em pilares de cimento, holofotes, uma sebe elevada, ces, sentinelas. Um local 
sombrio e temvel. A distncia, via-se o fumo

das chamins. Um campo de morte.
  Encaminharam-nos para uma caserna, onde trepei para um
beliche e mergulhei num sono prolongado e cheio de pesadelos.
Sonhei com a minha adolescncia em Berlim, os jogos em que
entrara - e tudo no meu crebro se reduzia a uma sensao de
melo e de derrota. Quando acordei, esperava ver Helena ao meu
lado, como acontecera durante todos aqueles anos.  muito possvel
que a tenha chamado pelo nome. Mas no chorei mais. Gerara-se
um vazio enorme dentro de mim e que se me apoderara do corao
e de todos os sentimentos. Helena morrera. A nossa causa estava
perdida. No voltaria a ver Sasha nem os meus companheiros
de guerrilha.
  As casernas estavam a abarrotar, eram quentes e malcheirosas.
Alguns homens falavam russo em voz baixa e consegui apanhar
uma ou outra palavra. Fingi estar a dormir, voltei-me e avistei
cinco ou seis homens de aspecto rude, vestidos com uniformes
do Exrcito usados e sentados nos beliches. Estavam a olhar para
qualquer desenho aberto em cima de um caixote.
  Um dos homens estava entre ns, sem dvida para me vigiar.
  - Campo de minas - ouvi-o dizer. - Aqui e aqui tambm.
  Aprendera bastante russo nos dias que passara com os guerrilheiros e tambm com 
Helena. Voltei a pr o ouvido  escuta.
  - Arame farpado e reforado - dizia o homem. - Talvez
precisemos de alicates.
  - E as casernas das SS? - inquiriu outro dos indivduo ,.
-- As armas da torre de vigia?
  - Teremos de as eliminar - retorquiu o companheiro.
  No demorei a aperceber-me de que o homem encarregado
de dirigir as operaes era um capito do Exrcito Vermelho.
Chamava-se Barski. O homem que lhe dirigia a palavra, o seu
lugar-tenente, chamava-se Vanya.
  - No temos uma nica arma, capito Barski - observou
Vanya subitamente.
  - Conseguiremos arranj-las.
  Ergui-me sobre um cotovelo. A cama estalou. O homem que
me observava fez qualquer comentrio aos outros.
  - Este filho da me tem estado acordado e a ouvir - retorquiu Ianya.
  Aproximou-se do beliche e puxou-me para fora. Lutei e quase
chegmos a vias de facto. Os outras separaram-nos.
  - Tire as mos de cima de mim - ordenei num mau russo.
  Vanya tentou dar-me um soco no estmago. Aparei o golpe
e atirei-me novamente a ele. Com a ajuda dos outros, puxou-me
pana um dos beliches inferiores.
  - O que ouviste exactamente? - quis saber o capito Barski.
  - No entendi. Sou um judeu alemo. O meu russo no
chega a tanto.
  Barski ,mudou para yiddish, a fim de nos podermos entender:
  -Anda. De que julgas que estvamos a falar?
  - Parece-me que tencionam escapar-se.
  -  um maldito espio, Barski - observou Vanya, sacudindo
a cabea em desaprovao. - Foram as SS que o puseram aqui.
Judeu alemo, uma fava.
  - Como te chamas, mido? - perguntou Barsli, dando-me
uma palmada no ombro.
  - Weiss. Rud Weiss.
  - E o que fazes aqui em Sobibar, com mil raios?
  - Sobibor? I\To sei. Puseram-me num comboio com um
grupo de outros presos. Era guerrilheiro na Ucrnia.

  Entreolharam-se. Barski sentou-se na minha frente:
  - Quero que me ouas bem, Weiss, se  assim realmente
que te chamas. Se fores um espio, teremos de te matar.  um
campo de morte. H cmaras de gs e fornalhas aqui. Vamos fugir.
Se os A alemes te puseram aqui a servir de espia, estrangulo-te
com as minhas prprias mos.
  Contei-lhes, pois, a minha histria: como tinha fugido de
Berlim, h anos atrs, e vagueara atravs da Europa, Checoslovquia e Ucrnia. Quando 
cheguei ao ponto em que lhes contei ter-me
juntado ao Tio Sasha, os olhos de Barski iluminaram-se.
  - O que fazia ele antes de ser guerrilheiro? - perguntou
o capito do Exrcito Vermelho.
  - Era mdico. Numa aldeia chamada Koretz.
  Fez-me mais perguntas: quem eram os outros membros do
grupo e se havia um rabi entre eles. As minhas respostas deram
a sensao de o satisfazer. Contei-lhe algumas das aces em que
tinha participado - o ataque ao quartel-general das SS e outros
assaltos.
  Quando acabei, olhou para os outros.
  - Acredito nele - declarou Barski -, embora tudo isto
me parea uma histria de loucos. Um tipo de Berlim, um judeu
alemo a lutar por estas bandas, mas j acontecera coisas mais
inacreditveis.
  - Acho que era de o matar - sugeriu Vanya.
  No entanto, Barski estava convencido e sacudiu a cabea
negativamente.
  - Escuta uma coisa, Weiss. Sabes o que acontece neste
campo? Matam dois mil, diariamente, na cmara de gs. Os homens das SS dormem em 
almofadas cheias com os cabelos das mulheres
judias que assassinam e divertem-se s estoirar os miolos das crianas.
Fizeram l fora uma vala onde enterram as cinzas dos judeus.
  - Acredito - retorquiu, com um aceno de concordncia.
- Acredito em tudo sobre eles. Arranjem-me uma arma e lutarei
com vocs.



O DIRIO DE ERIK DORF


Posen, Polnia
Outubro, 1943

  O Reichs fhrer convocou uma reunio de cerca de cem oficiais
implicados na soluo final.
  Encontrmo-nos no salo de um hotel, aqui em Posen. Estavam presentes muitos dos 
meus antigos colegas - amigos e inimigos. Entre o grupo contavam-se Blobel, 
Ohlendorf, Eichmann
e Hoess.
  Noutros tempos, teria ocupado o lugar junto de Heydrich,
com o bloco de apontamentos na mo. Infelizmente, Kaltenbrunne~
no me queria perto dele. O ogre estava sentado ao lado de
Himmler, escutando. Sentei-me ao fundo do salo. Sinto uma
necessidade cada vez maior de ingerir largas doses de conhaque,
para aguentar o correr dos dias. Tambm verifico uma menor
capacidade de concentrao do esprito em assuntos importantes.
Outrora notado pelo pormenor que punha no trabalho, tenho-me
vindo a tornar esquecido e desorganizado.

  Blobel vangloriava-se do seu trabalho em Babi Yar. Todos os
corpos (segundo declara a) tinham sido retirados e queimados.
Piras enormes de chulipas de caminho de ferro, regadas com gasolina, tinham sido 
usadas, para <<queimar provas>>, segundo a expresso de algum.
  Mas porqu?, interroguei-me. Para qu a preocupao?
  Blobel afirmou que se tinha procedido assim com cem mil
cadveres. Em seguida, chegou a vez de Eichmann se referir orgulhosamente aos seus 
comboios. Hoess falou, de uma forma modesta
e calma, sobre o funcionamento de Auschwitz.
  Himmler perguntava continuamente se todas essas coisas se
estavam a processar <secretamente>. Parecia mais preocupado do
que nunca quanto ao facto de o mundo exterior poder vir a tomar
conhecimento do que est a acontecer. E, no entanto, quando um
dos oficiais sugeriu que parssemos com o extermnio, a fim de se
poder utilizar a mo-de-obra judia, foi silenciado imediatamente
pelo prprio Reichsfhrer.
  No salo do hotel reinava uma atmosfera quente e asfixiante.
Estvamos fatigados e interrogvamo-nos sobre o que teria levado
Himmler a convocar a reunio.
  Outra pessoa - provavelmente Globocnik - reivindicou uma
dzia de Cruzes de Ferro para os seus homens, pelo trabalho herico
que tinham efectuado na libertao da Europa dos Judeus, o que
agradou a Himmler. J distribura vrias condecoraes por oficiais
implicados na aniquilao da revolta de Varsvia.
  Discutiram-se mais assuntos de carcter oficial. Blobel, sentado junto de Ohlendorf 
e a pouca distncia do stio onde me
encontrava, deu uma cotovelada nas costelas do ltimo e disse
num tom de voz que me permitisse ouvir:
  - Silncio ante o <Grande Dorf>>.
  - Talvez se tenha a c o b a r d a d o - comentou Ohlendorf,
embora me fizesse um aceno de cabea.  um indivduo muito
educado. Refere-se sem reticncias ao facto de ter assassinado
noventa mil judeus na regio de Odessa.
  De sbito - no meio da confuso -, Himmler perguntou:
  - Ser possvel pedir-vos que me dem sugestes quanto ao
eventual desmantelamento dos campos?
  - Desmantelamento? - admirou-se Blobel.
  - Exacto - anuiu o Reichs fhrer. - A nossa misso encontra-se praticamente 
cumprida. No... no estou a imaginar que
a Alemanha venha a ser derrotada, como  bvio. Contudo, as provas, os restos, 
conduziro a interpretaes erradas.
  - No me parece, senhor - interferi num tom de voz entaramelado, devido  meia 
garrafa de brande que bebera.
  -Dorf? Ah! O nosso incurvel semntico-sorriu-me
Himmler.
  - Talvez devssemos conservar os campos e as fornalhas
como um monumento adequado ao nosso importante trabalho - prossegui. - O lcool 
ajudava a soltar-me a lngua. - Talvez
devssemos dizer a todo o mundo como conseguimos...
  - Cale-se, Dorf - interrompeu Blobel, agarrando-me no
brao.
  Todos desviaram os olhares. Era estranho. Reparei que na
mesa estava a funcionar um pequeno gravador.
  Himmler ignorou a minha interrupo e continuou a falar:
  - Devo expor-vos francamente um assunto de gravidade.
Ter de ficar entre ns e no ser divulgado publicamente. Refiro-me
 evacuao dos Judeus, ao extermnio da raa judia.
  Era bvio que h muito que a ideia lhe germinava no crebro.

  - Trata-se de um dos assuntos de fcil meno - prosseguiu
Himmler, cujos olhos midos davam e sensao de desaparecer
por detrs das lunetas. - A raa judia est a ser exterminada
e no h dvida de que do nosso programa consta a eliminao
dos Judeus. E  o que estamos a fazer, a extermin-los.
  De certo modo, tornava-se refrescante. Depois de todo o jogo
de palavras, dos eufemismos, das palavras codificadas (muitas das
quais criei), tornava-se quase hilariante e saudvel ouvir o nosso
chefe chamar as coisas pelo devido nome. E a fita do gravador
continuava a rodar.
  Prosseguiu o discurso com a crtica daqueles alemes que
conheciam <<um bom judeu>> ou pediam que um judeu fosse
poupado.
  - Nenhum dos que falam assim foram testemunhas nem
passaram pelos acontecimentos - declarou. - A maioria dos presentes sabe o que 
significa cem cadveres lado a lado, ou mesmo mil.
Ter passado por tudo isso e conservar a dignidade foi o que nos
endureceu. Trata-se de uma .pgina de glria na nossa histria que
nunca foi escrita, nem nunca o ser.
  No estou certo do que aquele discurso significava para ele
pessoalmente, ou para ns. Tenho a certeza de que o processo
de aniquilao ser acelerado. Contudo, a sua insistncia no segredo
e na possibilidade de um plano para desmantelar os campos de
morte perturba-me.
  Ergui-me com esforo e pedi que me ouvissem. Fez-se um
silncio absoluto na sala por parte dos oficiais que tinham
assassinado - quatro milhes de seros?, cinco? -, o que me
permitiu assumir o comando da situao.
  -Permita-me dizer-lhe, Reichsfisbrer-comecei-, que,
se o nosso trabalho  assim to nobre, o deveramos dar a conhecer
ao mundo.
  - Bico calado, estpido - rugiu Blobel.
  - Julgo que o major no me est a interpretar devidamente - rugiu Himmler.
  - Se me permite, senhor, vou continuar - disse. - O Fhrer
frisou, muitas vezes"que estamos a levar a cabo um servio a bem
da civilizao ocidental, da Cristandade. Estamos a defender o Ocidente do 
bolchevismo. Quanto aos Judeus, at a nossa grande
figura religiosa, Lutero, os encarava como ameaas.
  - Oh! Estou bastante de acordo com a sua teoria, major - retorquiu o Reichs fhrer. 
- Contudo, outros no vero to claramente os nossos objectivos. E os Judeus 
propagaro mentiras
a nosso respeito.
  - Que propaguem - contrapus. - Que propaguem. Os que
rEsta~em. Continuo a afirmar, porm, que deveramos inundar
o Mundo de filmes, fotografias, depoimentos, listas de mortos,
testemunhos. Devamos construir modelos funcionais da Auschwitz
de Hoess e contar ao Mundo, pormenorizadamente, todos os nossos
feitos hericos. E, acima de tudo, insistir que o que fizemos aos
Judeus foi ditado por uma necessidade. moral e racial. Decerto os
aliados ocidentais apreciariam isso.
  Dava a sensao de que os tinha petrificado. Distinguia aqueles
rostos suados que no conseguiam despregar-se do meu, naquele
desconfortvel salo do hotel.
  -Sim-continuei.-Defendamos que no cometemos
qualquer crime, mas que nos limitamos a seguir os imperativos
da histria europeia. Podem ser chamados filsofos e clrigos,
como apoio  nossa causa. Como sabem, sou advogado. Estou a par
destas coisas. Nada de vergonhas, meus senhores, de iluses,

desculpas pelos judeus mortos, capas ofertadas pelos rtulos de
espies, doena ou sabotagem. Devemos frisar bem ao Mundo
que nos encontramos entre a civilizao e a conjura judia para
destruir o nosso Mundo, poluir a nossa raa e dominar-nos.
Ns, ns sozinhos, fomos suficientemente homens para aceitar
o desafio que nos impuseram. Porqu escond-lo e fazer dele um
segredo? Para qu inventar desculpas?
  Reparei nos olhares de gelo. Himmler nem se mexia.
  - Temos de convencer o Mundo (tanto amigos como inimigos) de que os Judeus nos 
obrigaram a esta guerra... que ns,
sem a ajuda de ningum... ns nos mantivemos... nos mantemos
entre a sobrevivncia de... de...
  A minha voz reduziu-se ao silncio. Todos continuavam sentados, fitando-me como se 
fosse um co condenado.
  Finalmente, Himmler rompeu o silncio:
  - Presumo que o major Dorf tem uma teoria. Os pormenores
das nassas futuras atitudes, relativamente ao nosso trabalho,
sero o tema de uma outra reunio. O importante  sentirmos
dentro de ns que desempenhamos esta misso com amor pelo
nosso povo e que, durante todo este processo, a nossa conscincia
no foi afectada.
  Levantei-me para retomar e palavra, mas desta vez Blobel
e Ohlendorf agarraram-me por um brao e levaram-me para
o corredor. Atravs das escadas daquele hotel sombrio, conduziram-me at ao meu 
quarto. Havia prostitutas polacas, algumas bastante
bonitas,  disposio de todos, mas apenas desejava a minha garrafa
de conhaque.
  - Idiota chapado - insultou Blobel.
  Continuava a ouvir e voz aguda de Himmler dirigindo-se
aos homens.
  - Continumos homens decentes e com capacidade de amar,
e por isso nos podemos orgulhar...

A HISTRIA DE RUDI WEISS

  Vanya, o preso que no tinha confiado em mim, levou pouco
tempo a tornar-se meu amigo. Conseguiu arranjar-me trabalho na
sapataria, onde se decidiu que comearia a revolta. At essa altura
  ,
no tnhamos uma nica arma.
  Nessa manh, antes de iniciarmos a marcha para o trabalho,
recordo-me de Barski nos dizer, na caserna escura:
  - Faam de maneira a que no soltem um som.
  Meia dzia de ns levava machadinhas nos cintos.
  Abrimos a oficina do sapateiro. Vanya comeou a pr saltos.
  Ajoelhei-me a um canto e comecei a engraxar as botas dos
oficiais das SS.
  Cerca de uma hora depois de ali estarmos, entrou um jovem
tenente das SS. Trazia uma Luger no coldre, pendurada no cinto.
  - As minhas botas esto prontas? - perguntou a Vanya.
  - Sim, senhor. Pode experiment-las, se quiser.
  O oficial sentou-se num desses bancos baixos que h nos sapateiros e esperou. 
Viu-me ajoelhado a engraxar.
  - Quem  aquele?
  - Um novo preso, senhor.
  Um brilho de suspeita iluminou-lhe momentaneamente a face.
Em seguida, decidiu que nada tinha a recear. Eu estava magro,
cheio de ndoas negras e vestido com os trapos da priso.

  Vanya puxou pelas botas do oficial que estava sentado na
parte mais baixa do banco. Calou-lhe a bota nova. Levantei-me
com o par que estivera a engraxar e levei-as para a prateleira atrs
do banco.
  Coloquei~as na prateleira sob o nome do proprietrio.
O tenente deve ter pressentido algo.
  Deu meia volta e, nessa altura, esmaguei-lhe o crnio com
o machado. Foi estranho. Nem tempo teve para agarrar na erma
ou soltar um som. Bati-lhe com tanta fora que os miolos ainda
atingiram Vanya, que estava a certa distncia.
  Vanya arrancou-lhe a Luger do cinto. Arrastmos o copo
para um armrio, depois de limparmos os vestgios de sangue e de
miolos.
  Cerca de dez minutos depois, entrou um capito das SS.
Tambm ele vinha  procura de um novo par de botas. Nem sequer
lhe dei oportunidade a que dissesse <<bom dia>>. Saltei sobre ele,
vindo detrs da porta, e matei-o com um nico golpe do machado.
Estremeceu, cambaleou, parecendo relutante frente  morte.
Atingi-o uma segunda vez.
  Seguidamente, tirei-lhe a pistola. Tambm o arrastmos para
o armrio.
  Em simultneo com estas aces, outros homens da unidade
de arski mataram alemes na alfaiataria, na marcenaria e na
barbearia. Tivemos muita so~te. Os tipos tinham entrado ss ou
aos pares, e foram derrubados antes de soltarem um som.
  Finalmente, Barski e um :pequeno grupo, armados com revlveres, correram a toda a 
pressa para a sala de armas, mataram meia
dzia de guardas e destrancaram o local de armazenamento. Fomos
encontr-los nesse stio, carregados de armas e de munies.
  Nessa altura, cerca de uma centena de presos reunira-se na
zona das casernas.
  Barski distribuiu armas pelos homens. As mulheres foram
dados machados, cabos de vassoura e ps. Mataramos como nos
fosse possvel.
  Tinha sido dado o alarme em qualquer lado.
  O klaxon arrancou guardas aos postos - vamos os alemes
e os auxiliares ucranianos a correrem c para fora, armados,
confusos e a gritarem ordens.
  Abrigmo-nos por detrs das casernas.
  Barski designou-me para comandar um grupo de cerca de
doze homens, alguns armados, outros dispostos a lutar e a morrer
com ps e ancinhos nas mos.
  Um grupo de homens alistados nas SS carregou pela rua principal da rea das 
casernas, e dei voz de fogo. Matmo-los a todos sete ou oito. Os outros grupos 
recuaram, pois no estavam preparados para nos deitar a mo.
  arski planeara um assalto ao arsenal do campo antes de
fugirmos, para que todo o grupo ficasse armado e nos transformssemos num pequena 
exrcito.
  Alguns avanaram, mantendo-se colados aos lados dos edifcios e tentando chegar ao 
arsenal. Contudo, quando nos aproximmos, uma metralhadora colocada no cimo da torre 
abriu fogo
e matou dzias dos nossos.
  Barski deu ordem de paragem aos chefes de grupo, por detrs da messe do campo.
  -  intil - disse. - Temos de pr de parte o arsenal. Dirijam-se para o porto.
  Nessa altura j se nos tinha juntado um grande grupo - praticamente ,seiscentos 
judeus, ansiosos por conquistar a liberdade,

dispostos a enfrentar as armas dos alemes e a correr desarmados
para os portes, de preferncia a irem. resignadamente para as
cmaras de gs de Sobibor.
  Segui na peugada de Barski. Vanya chefiava um outro grupo.
Protegidos pelas barricas de gua e casas de ferramentas, abrimos
fogo sobre os guardas no porto central e matmo-los a todos.
  Gerou-se uma confuso infernal. Os seiscentos judeus correram para e sada. Alguns 
atiraram pedras aos guardas e tentaram
ceg-los com areia.
  Ouvi que Barski lhes gritava para no fugirem para e esquerda - onde o terreno 
estava minado e teriam de passar por
uma sebe dupla de arame farpado. Foi um espectculo horrvel.
As minas comearam a explodir e dzias de fugitivos voaram, atingidos pelos 
estilhaos.
  Barski conduziu-nos atravs de uma passagem por detrs das
casernas dos oficiais, rea que sabamos no estar minada. As balas
disparadas das casernas faziam ricochete  nossa volta. No entanto,
Barski tinha razo. O campo no s estava livre de minas, corno
o arame farpado era fino e nos permitia que o ultrapassssemos.
  As balas continuavam a cair em redor de ns. Homens caam,
mulheres cambaleavam. Pensei em Helena, morta na floresta. Continuei a correr. Cem 
metros... duzentos metros...

  Ao cair da noite parmos junto a um rio.
  Do nosso grupo apenas restava um punhado. No entanto,
tnhamos esperana de que outros se tivessem posto e salvo
e fugido do campo.
  Uma jovem chamada Luba, auxiliar do Exrcito Vermelho,
veio ao nosso encontro, cambaleante, ao raiar da aurora. Estava
coberta de sangue e ferida no brao e na mo. Sentou-se e chorou
durante muito tempo antes de conseguir contar a sua histria.
  Seiscentos judeus tinham, de facto, conseguido fugir at aos
portes. Quatrocentos, na sua maioria desarmados, tinham chegado
aos bosques e prados, nas cercanias do campo. Contudo, mais de
metade destes tinham morrido devido a minas, a perseguies da
polcia, das SS e das foras da Aviao. Vrios milhares de fascistas foram enviados 
na perseguio dos fugitivos de Sobibor.
E viemos a saber, posteriormente, que grupos polacos fascistas
tinham acabado nas florestas com os que escaparam s SS. Uma
velha histria para mim.
  ramos cerca de sessenta os que estvamos com Barski. Estvamos agora mais bem 
armados, treinados e mais duros. Tentaramos alcanar uma brigada de guerrilha 
sovitica.
  Anos depois vim a saber que tnhamos morto dez homens
das SS e trinta e oito ucranianos. Mais quarenta guardas ucranianos fugiram, 
preferindo isso a ajustarem contas com os Alemes.
E, dois dias aps a nossa escapada, Himmler ordenou a destruio
de Sobibor. Tnhamos inquietado aquele filho da me, pregado um
susto ao imponente assassino.
  Barski declarou que, juntamente com os companheiros, se
dirigiria para leste, na tentativa de encontrar uma unidade do
Exrcito Vermelho. Corriam rumores de que os Russos estavam
prestes a reconquistar Kiev. Barski desejava participar nessa aco.
  Kiev. Pensei em Helena e na altura em que roub~amos po,
escondidos dos alemes; em Hans Helms, que nos atraioara e, em seguida, morrera, e 
como fugramos ao destino dos judeus condenados, assistindo, de longe,  chacina de 
Babi Yar.
  O vazio no meu ntimo comeou a devorar-me como um fogo

acre e lento. Desejei t-la novamente ao meu lado, a compartilhar
as parcas refeies e a dormir em celeiros. No entanto, nunca mais
a veria. Nesse momento duvidei poder amar de novo, entregar-me
outra vez a uma mulher.
  Barski convidou-me a ir com eles, mas respondi que queria
viajar s. Avisou-me de que correria o risco de me capturarem
e que, ao dirigir-me para ocidente, avanava no sentido das linhas
alems. Retorqui no me importar. Se morresse, pacincia, e, alm
disso, ainda no me tinham apanhado.
  - Boa sorte, mido - desejou, abraando-me.
  - Posso ficar com uma arma? - perguntei.
  - Claro. Bem a mereces.
  Afastei-me, seguindo o curso do rio e vendo o rosto de Helena em cada rvore e 
folha por onde passava.

  O meu irmo Karl no aguentou mais outro Inverno. Tinha
sido transportado para Auschwitz com um carregamento de outros
presos de Theresienstadt, destinados a morrerem nas cmaras
de gs.
  Seja como for-talvez se tivesse espalhado o boato de que
era um artista de talento e poderia ser utilizado -, foi poupado
a uma morte imediata.
  O facto de ainda ter sobrevivido aquele tempo, deveu-se provavelmente  bondade de 
um homem chamado Hirsch Weinberg
e que me ps a par dos ltimos dias de Karl. Era o mesmo Weinbe~g que desempenhara as 
funes de alfaiate com Karl em Buchenwald, cinco anos atrs, depois das prises que 
se seguiram
 KristaLlnacht.
  Um dia, Weinberg reparou neste indivduo alto e magro que
escondia as mos por baixo da tnica. Estudou o rosto e reconheceu-o.
  - Conheo-o - declarou Weinberg. - Weiss... o artista...
  Estavam no mesmo aquartelamento, e Weinberg cuidou dele,
tentou arranjar-lhe trabalho e roubava pedaos de po para
lhe dar.
  - No te recordas de nada; Weiss? - perguntou Weinberg.
- Daquele dia em que lutmos por causa do po? E nos penduraram nas rvores?
  Karl fez um aceno de concordncia. Esboou mesmo um
sorriso.
  - Claro que te recordas - prosseguiu o alfaiate. - Tinhas
uma mulher crist. Costumava escrever-te s escondidas.
  Karl fez novo aceno de concordncia.
  Weinberg p-lo a par dos acontecimentos. Uma srie de notcias tinha chegado ao 
campo. O Exrcito Vermelho penetrara na
Rssia Branca. Embora judeus de toda a Europa continuassem
a ser enviados para Auschwitz, algo :pairava no ar. Verificara-se
uma pausa nas aces de extermnio. Dizia-se que Hoess estava
a passar um mau bocado com os superiores.
  Oh! Havia todo o gnero de boas novas. A Itlia declarara
guerra aos Alemes; Smolensk encontrava-se nas mos dos Russos; a invaso dos Aliados 
estava iminente...
  Karl expressava-se num tom de voz perdido, fraco:
  - O meu pai... aqui... me...
  Foi Weinberg a dar-lhe a notcia de que os meus pais tinham
sido mortos com gs um ano antes. Fizeram parte dos dois milhes
de vtimas que haviam alimentado as fornalhas. Weinberg falara
uma vez com o meu pai; simpatizara com ele, como todos os dali.
  Karl no conseguiu chorar. Escutou, fez um aceno de cabea,
pediu gua.

  (Que estranho. Tambm tive dificuldade em chorar durante
muito tempo, desde a morte de Helena. O que nos aconteceu?
Teremos ficado contaminados pelo mal que habitava os nossos perseguidores, pela sua 
falta de humanidade?)
  Em seguida, Weinberg viu as mos de Karl:
  - Deus do cu! O que lhe fizeram!
  Estudou as mos deformados e quebradas e acariciou-as.
  - Punido - informou Karl. - Por causa de desenhas.
  - Ouve uma coisa, Karl. J que chegmos at aqui, tens de
aguentar. Ficaremos livres qualquer dia.
  - Papel - disse Karl. - Lpis... carvo. . .
  Weinberg procurou nas casernas e descobriu um pedao
enorme de carto cinzento. Foi buscar um pedao de carvo ao
fogo. Soergueu Karl na cama e entregou-lhos.
  A mo deformada de Karl s dificilmente agarrou no pedao
de carvo. Sorriu quando conseguiu e pediu a Weinberg que lhe
segurasse o pedao de carto.
  Em seguida, comeou a desenhar, em linhas esboadas.
  Vi o desenho. Est na posse de Inga. I`Jo sei muito bem
o que significa. Um cu de pntano, escuro, nuvens, e, surgindo
das guas lamacentas, uma mo erguida na direco do cu.
  Continuou a desenhar, agradeceu a Weinberg e pediu-lhe que
lhe guardasse o seu ltimo desenho.
  Karl morreu algumas semanas mais tarde - tifo, clera, ningum sabe. Talvez tivesse 
morrido de fome. Ou muito simplesmente perdesse o desejo de viver.
  O corpo foi levado e queimado, e as cinzas misturadas com
as dos nossos pais e milhes de outros.



O DIRIO DE ERIK DORF

Auschwitz
Novembro, 1944

  Transformei-me em mensageiro ambulante do III Reich fazendo relatrios infindveis 
sobre a soluo final, elaborando
estatsticas, mantendo contactos com Eichmann, Hoess e os demais
implicados nesta misso.
  Em Julho passado, os Russos invadiram o campo de concentrao de Lublin. O segredo 
divulgou-se - como se alguma vez
fosse possvel mant-lo. Os chamados desenhos de horror> foram
mostrados ao Mundo. Ns, como  evidente, negmos e proclam
mos que se tratam na realidade de atrocidades russas, aplicadas
aos Polacos.
  No entanto, o facto de, o Mundo estar gradualmente a ficar
a par dos nossos planos de <<reintegrao>> no deteve Eichmann.
Neste momento - mesmo depois de estarem a ser revelados pormenores sobre os campos de 
morte - est e preparar a deportao
em massa dos judeus da Romnia. Durante todo este Vero de
1944, Eichmann, com o meu apoio, tem mantido os transportes
em funcionamento, vindos da Holanda, Blgica, Frana. Sobreviventes do gueto de 
Cracvia foram despachados para Auschwitz.
S no ms passado, Eichmann enviou trinta e cinco mil judeus de
Budapeste para vrios campos e toda esta gente foi marcada com
o estigma.
  Em Lublin, os Russos detm o nosso pessoal no campo de
Maidanek. Contudo, Eichmann, Hoess e muitos outros, incluindo

eu, persistem.
  Himmler deu ordens para que os crematrios de Auschwitz
sejam destrudos. Em Auschwitz as mortes na cmara de gs esto
praticamente suspensas. Entretanto, estamos a deslocar os presos
desesperadamente para ocidente, mudando-os de campo para
campo, um passo  frente dos Russos.
  Acontece todo o tipo de coisas lunticas e irracionais, como
se ningum estivesse no comando, nem soubesse a actuao exacta
ante a nossa derrota iminente. Hoje, chegaram ordens para se
embarcarem apenas <<judeus hngaros>> de Bergen-Belsen para
a Sua - ordens de quem?, porqu? -, e amanh  muito provvel que receba um 
telegrama a ordenar que todos os de Auschwitz sejam enviados para ocidente, para 
locais como Gross-Rosen
ou Sachsenhausen.
  Ser que Himmler pensa, de facto, ser capaz de dissimular
a nossa tarefa?
  Ser que ele (bem como Kaltenbrunner e os meus restantes
superiores) pensa, de facto, poder alterar a natureza dos nossos
esforos, aperando aquela deslocao de vrios milhares de fantasmas esfomeados?
  Mas a verdade  que mantemos em movimento, por toda
a Polnia, Alemanha, Checoslovquia, dezenas de milhares destes
judeus, em farrapos, a morrerem na estrada, sucumbindo  fome
e  doena. No faria mais sentido arranc-los ao sofrimento pelo
simples emprego do Zyklon B No poderamos, nesse caso, afirmar que as nossas medidas 
eram humanitrias? Que, dado a resistncia humana e a vontade de viver terem acabado 
nestes judeus
- e noutros -,  mais decerte faz-los morrer o mais rapidamente
possvel e sem dor? Mas no. Os meus chefes defendem a mesma
teoria de que os campos nunca existiram, de que no ocorreram
quaisquer mortes aqui e que nunca existiram coisas como cmaras
de gs e fornos. Algumas vezes, eu prprio quase chego a acreditar.
  A minha vida pessoal foi, evidentemente, afectada. Raramente vejo Marta, e no 
conversamos muito, quanto mais partilharmos o leito. Peter j anda de uniforme e em 
treinos com os
chamados <<Esquadres de Lobos>>, que, pressupostamente, lutaro
at  morte com vista a salvar Berlim.  um jovem alto e elegante;
quando o vi, no entanto, pela ltima vez pouco havia a dizer-lhe.
Laura chora muito. Andava quase sempre com fome e, como 
caracterstico da forma de ser egosta das crianas, lanava as culpas de tudo sobre 
mim e Marta. O Bechstein continua no nosso
apartamento - danificado mas audvel. Marta pensou em dar lies
a Laura, mas foi um projecto que nunca se concretizou.
  Assim, encontro-me hoje novamente em Auschwtz, numa
tentativa de cumprir as ordens de Himmler - desmantelar, destruir, queimar, fazer 
desaparecer provas. Que farsa! Mas continuo
a acompanhar o processo.
  E, no entanto, h momentos em que me interrogo se estes
esforos sero to fteis como parecem. Durante muitos anos, apesar dos boatos e 
mesmo dos relatrios directos, o Mundo recusou-se
a acreditar naquilo que andvamos a fazer. Fomos sempre bons
em iludir. E encontrmos crentes disponveis. A nossa linguagem
espica funcionou s mil maravilhas. Evidentemente. Os judeus.
Problemas. Tm de ser reintegrados, entendem?
  E surpreendente a forma como o Mundo voltou costas, aceitou a nossa palavra, 
confiou em ns!
  J em 1942, o Governo sueco recebera informaes relativas

aos centros de morte, mediante o relatrio de um dos seus diplomatas, conseguido 
atravs de um informador oficial das SS.
No entanto, o Governo de Estocolmo no permitiu que esta informao visse a luz do 
dia. E at mesmo a BBC e outras vozes dos
nossos inimigos se mostravam prudentes em no pronunciarem
uma nica palavra quanto ao destino dos Judeus. Talvez esteja,
pois, a ser indevidamente cruel neste meu juzo dos nossos lderes
das SS. Mediante uma conduo exacta, talvez possamos convencer
uma vasta rea da opinio pblica de que nunca tocmos num
cabelo de um judeu: apenas executmos criminosos e permitimos
que os judeus vivessem tranquilamente em pequenas cidades suas.
Talvez.
  H pouco tempo, quando a artilharia russa atacava as minas
de clcio das IG Farben, situadas no exterior do campo, e os
avies soviticos nos bombardeavam, estava ao telefone com um
lacaio de Berlim que no parava de me gritar que os campos deviam
ser destrudos, todos os registos queimados, os presos avaruados,
mortos ou feitos desaparecer at ao ltimo. Tudo  uma irracionalidade que desafia a 
f.
  No entanto, h muito que venho obedecendo a ordens e continuo a gritar a Joseph 
Kramer, que substituiu Hoess, para que
faa ir pelos ares os crematrios e desmantele as cmaras de gs.
  Hoje, Kramer riu. Estava a meter papis numa pasta, a fazer
uma mala - como um caixeiro-viajante que parte apressadamente
para uma viagem.
  - Esses filhos da me esto todos doidos - afirmou Kramer. - Esconder este local? 
Merda. Est tudo escrito, preto, no
branco, tudo registado. Eichmann j comunicou a Himmler que
matmos seis milhees - quatro milhes nos campos e o resto pela
aco dos Einsatzgruppen. Est escrito em memorandos por toda
a parte. O que significa fazer ir pelos ares alguns edifcios, com
mil raios?
  .- Acabaram as mortes com gs - gritei. Existia um plano
para eliminar com os ltimos dos Sonderlommandos. - No..
  - Para que Berlim possa afirmar que ns o fizemos e que
desconheciam inteiramente o que se passava. Tal como esse cabea de burro do Hans 
Frank, Quando os Russos o capturaram, garantiu que nunca tivera nada a ver com isso, 
que nunca matara um
judeu. Tnhamos sido ns, as SS, a RSHA.
  Comecei - ignoro o motivo - a abrir as gavetas dos arquivos de Auschwitz e a 
,atirar processos para a lareira acesa. Rasguei
documentos e atirei-os para as chamas, enquanto Kramer troava
de mim.
  - Seria melhor que matasse mais judeus, Dorf.
  - No. No. Berlim ordena que se desloquem todos para
ocidente. Himmler est convencido de que os Aliados compreendero. A Gr-Bretanha e a 
Amrica mostrar-se-o compreensivas.
So os Russos o que temos de evitar. Himmler pretende entrar em
negociaes com os Americanos. Ele...
  Kurt Dorf entrou subitamente na diviso. O meu tio viu-me
a andar de um lado para o outro, a abrir gavetas, destruindo ficheiros e enchendo a 
lareira a mais no poder com documentao de
Auschwitz.
  O meu tio ficou a observar-me uns segundos:
  -  intil, Erik. Katowice foi evacuada. O Volksturm est
a desfazer-se. O Exrcito Vermelho chegar aqui dentro de um
ou dois dias.
  - E aplaudir a sua chegada?
  No respondeu e limitou-se a abanar a cabea:

  - Sei que h sete toneladas de cabelo humano, metodicamente embalado e etiquetado 
no armazm, Erik. No seria melhor
mandar algum queim-lo?
  No prestei ateno e continuei a queimar papis. Pode ser
que Himmler seja mais esperto do que qualquer de ns. Podemos
colocar os Russos contra os Aliados - explicar os nossos motivos.
O Fhrer tinha razo, estamos a salvar o Ocidente, a salvar a civilizao. No 
queramos esta guerra; foram os Judeus que no-la
impuseram e tivemos de os fazer pagar.
  Kramer estava no outro telefone. Devo dizer que, embora
planeasse uma partida rpida, se dedicava a cumprir algumas das
minhas ordens. Ordenava aos subordinados que colocassem os cinquenta e oito mil 
restantes presas em linha de marcha - naquele
tempo gelado - e os obrigassem a caminhar para ocidente.
  Kurt deteve-me e prendeu me os braos.  muito mais velho,
mas mais forte.
  - Meu querido sobrinho - disse - no me afirmaste uma
vez que deveramos tornar pblicos os nossos gloriosos actos? Que
nos deveramos vangloriar perante o Mundo de como resolvramos o problema judaico? 
Porqu esta mudana de atitude?  surpreendente como uma barragem de artilharia  
capaz de modificar
a maneira de pensar de uma pessoa.
  Tentei desprender-me, mas ele empurrou-me de encontro
a um dos ficheiros que tinha estado a tentar esvaziar:
  - Meu querido sobrinho - disse -, no me afirmaste uma
realmente, que conseguirs esconder o assassnio de seis milhes
de pessoas?
  - No receio quem quer que seja, russos, americanos ou
outros - gritava Kramer que estava ao telefone. - Cumpri uma
misso. Obedeci a ordens. Sou um soldado.
  - Eu tambm - retorqui.
  Kurt deu-me um abano.
  -  possvel que consigam enganar o carrasco com esse tipo
de lgica. Mas espero por tudo que no.
  - Mas que preleces nos est para a a fazer? - interferiu
Kramer em minha defesa. - Construiu estradas e fbricas com
a ajuda de trabalhadores forados, inclusive judeus.
  - Sim, sim. Tem razo - disse Kurt. - Limitei-me a observar e a saber, mas sem 
tomar qualquer atitude. E quando o fiz,
era tarde de mais. Prolonguei a vida de alguns, quando deveria ter
falado, fugido, deixar que as pessoas soubessem.
  Afundei-me numa cadeira. Para onde ir? O que me reservava
o futuro? Todo o meu desespero, desdm e dio se concentraram
no meu tio. <H muito que o devia ter morto>>, lamentei.
  A barragem de artilharia ouve-se agora melhor. As exploses
so mais frequentes. Ouo os bombardeiros soviticos  distncia.

Alt-Aussee, ustria
Maio, 1945

  Aqui, num vale escondido da Salzkammergut, na ustria,
h muitos de ns escondidos, e vestidos  civil.
  Tentamos evitarmo-nos. Blobel anda de um lado par a o outro
e embaraa-nos a todos com e sua conversa de bbado. Eichmann
foi visto em vrios locais, mas nos ltimos dias desapareceu misteriosamente. 
Kaltenbrunner fez de um velho castelo o seu quartel-general; est convencido de que 
nada nos acontecer. Nesse caso,
porque nos escondemos desta maneira?

  Uma palavra sobre Kalzenbrunner. Corre o boato de que tem
tentado desesperadamente entrar em contacto com a Cruz Vermelha Internacional e 
provar que tratou os judeus com humanidade
e decncia. E que, na realidade, e sua mais importante preocupao nos ltimos tempos 
foi a de libertar os judeus de Theresienstadt.
  E correm por a duas histrias ainda mais surpreendentes.
  Alega-se que, em 19 de Abril, Himmler se encontrou numa
herdade situada nos arredores de Berlim com um tal Dr. Norbert
Masur, um judeu sueco e uma entidade do Congresso Mundial
Judaico. O prprio Himmler convocou a reunio, que decorreu
em segredo. O Reichsfhrer teve de arranjar uma desculpa para
no comparecer no aniversrio de Hitler e poder manter a entrevista. (Tudo isto se 
passou onze dias antes de o Fhrer se
suicidar.)
  Presumo que Himmler se mostrou delicado, cordial e lgico
com esse Dr. Masur. Explicou que os campos eram todos como
Theresienstadt - pequenas e bonitas comunidades dirigidas pelos
judeus. Ele e o seu muito querida amigo Heydrich tinham sempre
desejado que estes campos funcionassem como organizadas comunidades judaicas, mas 
foram sabotados pelos prprios Judeus.
  Quando Masur o interrogou sobre os campos de morte, cmaras de gs, fornos, etc., o 
chefe explicou calmamente que se tratava
de <<propaganda de horror>> posta em circulao pelos ingratos
Judeus e pelos Russos. Um tanque americano incendiara-se em
Buchenwald, alguns presos morreram e a imprensa mundial comeou a distribuir 
fotografias, afirmando que os guardas queimavam
os presos. Mentiras, tudo mentiras.
  Acrescentou ainda no seu encontro com Masur que os Judeus
eram conhecidos espies, sabotadores e propagadores de doena,
particularmente na Europa Oriental, no restando assim outra alternativa seno a de 
os fechar nos campos. Masur perguntou como
era possvel que fossem espies, se todos estavam metidos em campos ou guetos 
murados? Himmler no se deu por vencido; as
Judeus eram espertos e cheios de recursos e encontravam sempre
maneira de actuar.
  Discutimos esta entrevista e tivemos dificuldade em acreditar na sua veracidade. 
Himmler, como  evidente, desapareceu.
Tambm ele, como ns, vagabundeia e se esconde, com roupas de
civil. Nunca veio nada a lume sobre a sua conversa com
o Dr. Masur.
  Tambm  surpreendente a informao de que Eichmann,
antes de ir para Alt-Aussee e de voltar a sair, convidou um tal
Sr. Dunand, da Cruz Vermelha, a deslocar-se a Praga e, durante
um jantar bastante formal, o puxou para um canto e explicou que
os judeus em Theresienstadt viviam em muita melhores condies
do que os alemes pobres de Berlim e outros locais.
  De uma coisa estou certo. No haver colaborao da minha
parte, nem pedido de piedade ou tentativa de explicao das nossos actos.
  No serei um Heydrich, implorando perdo no leito de morte;
nem um Himmler, tentando alcanar as boas graas de um judeu
importante; to-pouco Eichmann, a apresentar desculpas  Cruz
Vermelha.
  Se me prenderem, serei to corajoso como o Fhrer e direi
aos captores que sou um digno oficial alemo: cumpri ordens,
segui a minha conscincia e acreditei profundamente nos actos que me ordenaram que 
cometesse, porque nada mais tinha em que
acreditar.
  Ainda nos restam esperanas. Conseguiremos arranjar uma

explicao lgica para Auschwitz. Como advogado, sei que qualquer aco tem defesa.
  Fiquei a admirar ainda mais Himmler quando nos dirigiu
a palavra em Posen e nos afirmou que a verdadeira coragem residia
em observar centenas de milhares de mortos e no pestanejar,
mantendo-nos verdadeiros para com ns prprios. Agora, anda
para a com baboseiras sobre as <<cidades autnomas judias. De
lamentar!
  Penso, frequentemente em Marta. Foi, de certa maneira,
o motor que impulsionou o meu crebro. Quando desanimava, ela
dava-me coragem. Quando tinha dvidas, dissipava-as. Devmo-nos ter amado mais. H 
anos que no dormimos juntos.
  Estou a beber bastante mais do que seria aconselhvel para
a sade. Anseio por um dia, um dia nico, em que possa estar
com Tdarta e as crianas. Dar talvez um passeio pelo parque, visitar
o Jardim Zoolgico. Faro muitas afirmaes terrveis a nosso respeito. No 
conseguiro, porm, manchar a nossa decncia bsica,
o nosso amor pela famlia, pela ptria, pelo Fhrer.

(Termina aqui o dirio de Dorf.)



A HISTRIA DE RUDI WEISS


  Escolhi duas cartas de entre as centenas que recebi enquanto
me dedicava  misso de traar o destino da minha famlia e de
o incluir nesta narrativa.
  A primeira foi escrita por um indivduo chamado Arthur
Cassidy, antigo capito dos Servios Secretos Americanos, actualmente professor 
assistente de lnguas germnicas na Fordham University, em Nova Iorque.

  15 de Maro, 29O
  Departamento e Lnguas
  Fordham University
  Bronx, N. I.
Senhor Rudi Weiss
Kibbutz Agam
Israel


Caro Senhor Weiss:

  Deixe-me antes do mais dizer-lhe quanto admiro a sua perspiccia em me ter 
descoberto. Embora tivesse sido h apenas cinco
anos que entrevistei o falecido major Erik Dorf, o Exrcito tem
uma maneira muito sua de perder a pista destas coisas, particularmente depois de se 
regressar  vida civil.
  Fui eu, de facto, o oficial que conduziu a entrevista com ele.
Dorf foi apanhado para um interrogatrio de rotina na ciade de
Alt-Aussee, que era um esconderijo de oficiais das SS, tal como
Hot Springs, Arcansas, no nosso pas, tem fama de servir de local
de "descanso" para criminosos da Mafia.
  No tomei parte na priso, mas, segundo me parece, Dorf
no trazia identificao, estava com roupas de civil e, de incio,
negou qualquer cumplicidade nos campas de morte ou nas SS.

Foi trado pelas pginas de um dirio cosido no forro do casaco.
Confessou, posteriormente, que o grosso deste dirio, mantido ao
longo de muitos anos, se encontrava numa caixa de metal, em Berlim, no seu 
apartamento.
  Era uma ocorrncia vulgar entre estes homens. Frank, o governador da Polnia, 
possua trinta e cinco volumes de notas sobre
as suas actividades, tentou escond-los e chorou como uma criana
ao saber que tinham sido descobertos.
  Dorf era um homem no comeo dos trinta, magro, elegante,
simptico. De incio deu a sensao de confuso e nervoso; porm, mal se apercebeu de 
que eu falava alemo fluentemente, descontraiu-se, sorriu e mostrou-se encantador e 
receptivo. Com dificuldade se pensaria num indivduo implicado em assassnio em 
massa.
  Contou-se entre as dzias de criminosos de guerra que interroguei e conservei, 
evidentemente, registos dessas conversas. Existem, provavelmente, arquivados em 
qualquer ficheiro, e se Dorf
tivesse ido a julgamento disporia provavelmente da hiptese de
descobrir o rasto  minha entrevista. No entanto, darei o meu
melhor para tentar reconstruir o fio da nossa conversa.
  Tnhamos um processo sobre o major Erik Dorf e o seu nome
encontrava-se em vrias cartas e memorandos referentes aos Judeus,
particularmente quando foi assistente de Reinhard Heydrich. Sabamos, portanto, que 
no se tratava de um mero espectador.
  Dorf insistiu continuamente em que no passava de um burocrata ou mensageiro. 
Reivindicou nada saber das chamadas atrocidades nem dos assassnios em massa, mas 
que, na minha qualidade de oficial como ele, decerto compreenderia que os espies,
sabotadores e criminosos eram frequentemente condenados
 morte.
  Apresentei-lhe, seguidamente, algumas dzias de fotografias
dos campos de morte e pedi-lhe que me falasse a esse respeito.
Decerto viu essas fotografias e sabe como so - corpos empilhados, montanhas de 
cinzas, as pessoas nuas alinhadas do lado de
fora das cmaras, os enforcamentos em massa. No confessou qualquer conhecimento 
"directo" das mesmas. Continuou a insistir que
os mortos eram provavelmente guerrilheiros, bandidos, pessoas
destinadas a morrer devido s suas actividades e no  sua origem racial.
  Dorf declarou - frequentemente, recordo-me - que no
tinha razes pessoais contra os Judeus e chegara at a proteger um
mdico judeu em Berlim, a quem admirara bastante.
  Perguntei-lhe depois se tinha conscincia de que, quando os
ltimos Sonderkommandos comearam a limpar Auschwitz, descobriram que numa das piras 
abertas havia uma camada de meio
meetro de gordura humana. Sacudiu a cabea negativamente. Parecia
querer dar a entender que corriam as histrias mais absurdas.
Continuou a comportar-se de uma maneira afvel, cordial,
a de um homem educado - acentuou-me que era formado em
Direito  e insistiu no facto de que apenas transmitia ordens
e eram os "outros" que elaboravam a poltica referente aos Judeus
e outras minorias.
  Finalmente, enquanto lhe mostrava fotografias de um grupo
de crianas judias mortas, obviamente abatidas a tiro pelas Einsatzgruppen e 
empilhadas numa vala comum, informei-o de que tnhamos o testemunho de vinte e quatro 
pessoas, alemes e no alemes,
que o haviam visto no local actuando com poderes oficiais nas
cmaras de gs, nos fornos e nos fuzilamentos em massa. Uma das
testemunhas ia a ponto de declarar ter visto o prprio Dorf a matar
uma mulher judia, na Ucrnia, depois de desafiado pelo coronel

Paul Blobel. (Deveria dizer o falecido Blobel, na medida em que
o executaram h alguns anos.)
  Neste momento, Dorf pareceu ganhar calor. Iniciou uma prolongada explicao de como 
os Judeus tinham de ser destrudos
por serem os velhos inimigos da cristandade, os agentes do bolchevismo, os inimigos 
mais mortais da Europa, um vrus, etc.
  - As crianas, major - chamei-lhe a ateno. - Porque
assassinaram as crianas?
  Respondeu que, por mais lamentvel que fosse, se essas crianas no tivessem sido 
mortas, viriam a constituir o ncleo de um
novo ataque contra a Alemanha. O Fhrer fornecera todas as explicaes sobre o tema. 
(Se estiver familiarizado com alguns dos
depoimentos ele Nuremberga, recordar-se- de que Otto Ohlenclorf,
igualmente um indivduo encantador, inteligente e educado, confessou sem peias que 
tinha ordenado a aniquilao de noventa mil
judeus na Crimeia, servindo-se da mesma linha de raciocnio.)
  Informei o major Dorf de que, se fosse satisfazer os meus
desejos, lhe meteria de bom grado uma bala na cabea naquele
momento, dando-lhe as mesmas oportunidades que ele dera aos
Judeus. Empalideceu. Apressei-me, porm, a acrescentar que vivamos numa democracia e 
no procedamos dessa maneira. Contudo,
a sua confisso e informaes que nos pudesse fornecer sobre a sua
actividade nas SS e nas RSHA seriam teis e talvez o beneficiassem quando fosse 
julgado, um acontecimento na minha opinio
inevitvel.
  Dei-lhe mais uma srie de fotografias, para que as observasse,
acompanhadas de algumas cpias da correspondncia que trocara
com pessoas como Rudolf Hoess, Artur Nebe, Josef Kramer
e outros elementos da soluo final. Cometi seguidamente o erro
de me dirigir  porta e de chamar o estengrafo. (At esse mo
mento, estivera a tomar umas breves notas, mas desejava uma
transcrio completa.)
  Fosse como fosse, embora tivesse sido revistado, Dorf conseguira esconder - ou 
tinha-lhe sido passada furtivamente - uma
cpsula de cianeto. Trincou~a no instante em que cheguei  porta.
Quando o corpo atingia o cho, j estava morto. Como tantos da
sua laia, preferira esta soluo a enfrentar os monstruosos crimes
que cometera. E, no entanto, era um jovem de uma simpatia
enorme!
  Lamento sinceramente o destino da sua famlia. Escreva-me
se achar que lhe posso ser til em qualquer outro ponto da sua
investigao.
  Cordialmente,
Arthur Cassidy.


  Uma segunda carta foca o destino da minha famlia e inclua-a
nesta narrativa. Foi escrita por Kurt Dorf, o tio do major Erik
Dorf. Tive menos dificuldade em o descobrir. O seu nome consta
no Yad Vashem, como um dos <<cristos justos>> da Europa.


  <<Brema, Alemanha
  10 de Julho, 19.50
Caro Senhor Weiss:

  As suas fontes de informao no erraram. Sou tio do falecido major Dorf, de 
Berlim. Desconheo o que passo acrescentar

 pesquisa que est a fazer sobre o destino da sua falecida famlia.
Seria despropositado dizer que lamento e apresentar-lhe condolncias. Que desculpa 
existe para um crime sem precedentes?
  Conhece o testemunho que prestei em Nuremberga. Fui insultado e criticado por esse 
motivo e afectado na minha profisso
de engenheiro. Espero emigrar para os Estados Unidos nos prximos seis meses. Alguns 
judeus amigos esto a tomar providncias nesse sentido.
  Erik Dorf suicidou-se em 16 de Maio de 1945, durante um
interrogatrio pela polcia secreta do Exrcito americano. O facto
deu-se precisamente uma semana antes de o seu chefe Himmler
se suicidar de maneira idntica, depois de preso pelas autoridades
britnicas em Luneburg.
  Ao saber da morte do meu sobrinho, fui visitar a viva e os
filhos, logo na seguinte viagem que fiz a Berlim. Frau Dorf mostrou-me uma carta por 
assinar de "um camarada", onde se afirmava
que Erik Dorf morrera como um heri em defesa do Reich.
No permiti que o assunto ficasse por esclarecer e cantei-lhes
a verdade - que Erik era um criminoso, um assassnio de massas,
um participante no crime mais monstruoso da histria da Humanidade. Lamento declarar 
que nem Marta Dorf nem os filhos
aceitaram o facto e me mandaram sair. A verdade  que Peter Dorf,
o filho de quinze anos do major, me chegou a chamar "traidor".
  Quanto ao seu pai, conheci-o em Auschwitz. Ele e um homem
de nome Lowy faziam parte do meu grupo de construo de estrada.
Leu o meu depoimento e est a par de que fiz esforos repetidos
para salvar judeus das cmaras de gs, escolhendo alguns homens
e quase os escondendo das SS. Lamento no ter conseguido proteger
o seu pai durante mais tempo. Suspeito que o meu sobrinho,
com quem me desentendera, teve a ver com o seu envio para as
cmaras.
  O seu pai pareceu-me um homem muito bondoso e digno
e sinto-me cheio de vergonha e de culpabilidade por pertencer
a uma nao que destruiu tal povo. Esse o motivo por que me
decidi a falar e a ser ouvido. Embora de pouca consolao possa
servir, recordo-me de que foi para a morte com coragem e at
mesmo, segundo me recordo, um toque de humor. No meu esprito
conturbado recorta-se a sua imagem a gracejar com o tal Lowy,
enquanto seguiam em marcha, a caminho das cmaras.
  No. No conheci a sua me nem o seu irmo. Ambos parecem
ter sido pessoas maravilhosas, e mais uma vez me assalta o sentimento de vazio, 
horror e frustrao ao recordar a destruio que
infligimos sobre tantas pessoas nesses anos de pesadelo.
  Falando em defesa prpria - por fraca que seja -, ainda
tinha quatrocentos judeus a trabalhar para mim, salvos das cmaras
quando o campo de Auschwitz foi libertado.
  Peo-lhe que me volte a escrever, se achar que lhe posso
ser til. O facto de me encontrar includo entre os "cristos justos"
da Europa  uma honra que no estou certo de merecer. Contudo,
aceito-a com humildade. Talvez um dia nos encontremos em Israel.

Sinceramente,
Kurt Dorf.>


  Em 11 de Maio de 1945, desloquei-me a Theresienstadt,
acompanhado de uma brigada checa. Muitos dos soldados eram
judeus. Havia mesmo um homem que morava na rua de Helena,
em Praga. Havia-a conhecido, assim como aos pais. Contou-me que

estavam mortos h muito tempo, mas que desconhecia pormenores.
Por meu turno, contei-lhe muito pouco sobre Helena. O silncio
que guardei serviu :para fornecer algumas informaes a meu respeito - um tipo 
estranho, este berlinense, um ex-guerrilheiro.
  Continuava incapaz de chorar. Tentei no pensar nela.
Amara-a demasiado, com uma intensidade excessiva. Tnhamo-nas
apoiado em vrias situaes de perigo. Vivramos vrias vidas nos
nossos anos em comum. Tinha dificuldade em ser bom ouvinte.
As pessoas fatigavam-me com as suas histrias. Houvera demasiado
sofrimento e misria. Cheguei  concluso de que me apetecia estar
sentado, sozinho, a meditar e sem me ligar a ningum.
  De regresso  Checoslovquia, vagueei por Auschwitz e soube,
por intermdio de alguns sobreviventes, que os meus pais e o meu irmo tinham morrido 
naquele local. No restava, obviamente,
qualquer vestgio deles.
  Posteriormente, num campo chamado Gross-Rosen, encontrei
Hirsch Weinberg, o alfaiate que conhecera Karl em Buchenwald
e o tinha visto mais tarde, quando o meu irmo se encontrava
 beira da morte, em Auschwitz. Weinberg falou-me do ltimo
desenho que sara das mos de Karl. Aquela coisa estranha - a mo
erguendo-se de um pntano. Weinberg contou-me ter razes para
pensar que a minha cunhada Inga ainda se encontrava no campo.
  Cheguei a Theresienstadt numa soalheira manh de Primavera.
Um espectculo surpreendente. A cidade acabara de ser libertada.
Os judeus continuavam a morrer de fome e de doena - e os
primitivos habitantes checos, que tinham sido expulsos pelos nazis,
a fim de comearem a construir o campo, regressavam como se
nada tivesse acontecido.
  A Cruz Vermelha encontrava-se presente, a tratar os doentes
e a dar comida s pessoas.
  O mesmo se passava com uma organizao chamada Agncia
Judaica para a Palestina, que montara um gabinete e segundo parece
registava antigos presos. Desci a rua - era um local atraente,
apesar das coisas horrveis que tinham sido praticadas sobre as
pessoas - e interroguei-me se conseguiria encontrar Inga.
  Mantinha mentalmente uma lista dos mortos. Tentei apag-la,
mas os nomes e as circunstncias continuavam a vir  superfcie
e em breve comecei a sentir-me culpado por ter tido a sorte,
a resistncia e a esperteza suficientes para estar vivo, enquanto toda
a minha famlia morrera.
  Os meus avs, os Palitz, suicidas em Berlim...
  Os meus pais, mortos na cmara de gs em Auschwitz...
  A minha irm Anna, morta, s Deus sabe onde e em que
circunstncias. . .
  O meu irmo Karl, morto de fome em Auschwitz...
  O meu tio Mases, abatido a tiro no gueto de Varsvia...
  Custava-me a acreditar que tinha naquela altura vinte e sete
anos e que passara os ltimos seis anos da minha vida a vagabundar.
E interroguei-me sobre o motivo que me levara ali. E tambm
para ande iria.
  Num campo lamacento perto do edifcio assinalado com
a tabuleta da Agncia Judaica, alguns midos andavam a dar
pontaps numa bola de futebol. Olhei-os. Pensei nas centenas
de jogos em que participara, na carreira profissional para que todos
me predestinavam e no dia em que me expulsaram do grupo dos
semiprofissionais. Dava-me a sensao de ter vivido outra vida.
Noutro planeta, sculos antes.
  Um indivduo corpulento, vestido com um uniforme de caqui,

saiu do edifcio da Agncia Judaica e fitou-me por momentos.
Estava a falar com um outro homem, mais baixo e mais velho.
Olhavam-me?
  Continuei a andar. Observei as lojas falsas, o banco falso,
todas as armadilhas com que os nazis tinham imposto ao Mundo
a noo de que os Judeus estavam a viver numa comunidade
prpria. Tudo isto enquanto doze mil eram mortos diariamente
com gs s em Auschwitz, para no falar em Treblinka, Chelmno,
Sobibor.
  H, no entanto, uma altura da vida em que se deve obstruir
o crebro ou pelo menos incentiv-lo numa outra direco.
Mas como? Onde pertencia? Quem me desejava?
  Avistei Inga.
  Transportava ao colo um rapazinho, talvez com uns dez meses.
Estava vestido com um casaco para o dobro do seu tamanho.
Era um rapazinho de rosto corada e os olhas tristes de Karl.
  - Rudi! - exclamou. - Sempre esperei que viesses.
  Beijmo-nas.
  - D um beijo no teu sobrinho - convidou. -  o filho
de Karl. Dei-lhe o nome de Josef, em memria do teu pai.
As pessoas dizem que se parece com o Karl.
  Dei um beijo na face da criana. Cheirava a leite azedo,
como a maioria dos bebs.
  - Acho-o mais parecido com o Churchill! - observei.
  - Continuas o Rudi de sempre - retorquiu com um sorriso.
- Vem sentar-te e conversar um pouca comigo.
       Mas o que podamos dizer um ao outro? Sabia da morte
       de Karl, da morte dos meus pais, da morte do tio Moses no gueto
       de Varsvia. E contou-me a verdade a respeito de Anna. Tinha sido
       informada sobre Hadamar e as <<mortes piedosas>> e sentia-se
'      culpada por ter enviado Anna para l, a conselho do mdico.
       - Recordo-me do dia em que saste de Berlim - disse.
       - Tu, s, contra o mundo.
       - Tive sorte.
       O beb choramingou. Belisquei-lhe o rosto ao de leve.
       - Sorri, Churchill. Sou o teu tio.
       Contou-me a histria de Karl e dos artistas, como os alemes
       O torturaram, como se recusou a revelar-lhes o que sabia sobre
;;.    os desenhos escondidos e a denunciar outros artistas. Mantivera
       a coragem at ao final.
ii.,   - E conseguiro ir para a frente com a sua verso - comentei -, porque ningum 
ser capaz de acreditar num crime to
       monstruoso. Todos diro: << impossvel. No seriam capazes de
       ,
       matar tantos, torturar tantos, serem to crueis.>> As pessoas
      afirmaro que existem limites, que h um ponto para l do qual
       os seres humanos no avanam. Mas eles no se detiveram.
       - Podes odiar-me, se quiseres - redarguiu Inga.- Sou
       alem como eles.
       - No. No te odeio. De mim, apenas resta um vazio.
       Nem dio, nem amor, nem esperanas. Continuarei muito simples       mente a 
viver. Como as mortos-vivos dos campos.
       - No, Rudi. Tu no. Nunca.
       Falei-lhe de Helena e de quanto nos amramos. Deus sabe
       O que fizeram do seu corpo. No iria procur-lo. Provavelmente
       estaria em qualquer vala, queimado pelos alemes.
       -Mas possuram-se durante algum tempo-disse Inga
       - e amaram-se.

       - Sim,  verdade.- Suspirei e fitei-a.- Para onde vais?
       - Vou regressar  Alemanha. Mas no ficarei. No quero
       criar o filho do Karl nesse pas. Talvez me decida pela Amrica.
       E tu?
       - No sei. Andarei por a.
  - Sozinho? Sem dinheiro?
  - Tenho o suficiente para me aguentar por uns tempos.
  Pediu-me que visitasse o estdio onde Karl tinha trabalhado,
onde fizera os desenhos secretos que tanto tinham enraivecido
os Alemes e lhe tinham causado a morte.
  Levantvamo-nos. Havia grande actividade no campo: cozinhas
fora de portas, unidades de primeiros socorros, pessoas transportando os seus haveres 
em carroas, membros do Exrcito checo,
os poucos judeus que haviam sobrevivido, cristos checos que
regressavam.
  Passemos pelas ruas cobertas de cascalho. Voltei a beliscar
carinhosamente o rosto do meu sobrinho.

  No estdio, conheci Maria Kalova, que tinha trabalhado
com Karl.
  Ela e Inga espalharam dzias de desenhos e esboos em cima
das mesas. Eram produto de Karl e de outros homens. Continham
a histria verdadeira dos horrores do campo - enforcamentos,
espancamentos, fome, degradao. Eram a resposta dos artistas
aos nazis.
  - O seu irmo era um homem de talento e bom - declarou
Maria Kalova. - Todos os desenhos sero expostos num museu
de Praga, para que toda a gente os possa ver.
  - Mataram-no por isso? - perguntei.
  Inga comeou a chorar.
  - Se o tivesses vista, Rudi, com as mos deformadas,
aquelas mos maravilhosas...
  E havia ainda, evidentemente, o seu ltimo desenho. A mo
erguendo-se do pntano, numa tentativa de alcanar o cu.
  Examinei os desenhos, e vime com Karl a brincar na rua
em frente de Groningstrasse. Algumas vezes brincvamos aas
cowboys e peles-vermelhas. Karl detestava fingir que disparava
uma arma.
  Porm, no consegui chorar.
  - Pobre Karl! - foi o que comentei estupidamente. - Magro, receoso. Mas no tinha 
medo deles. Mais corajoso do que eu.
Andei quase sempre armado.
  E, em .seguida, surgiu-me subitamente a imagem do meu pai,
vestido com a bata b~anca e o estetoscpio no bolso. O rosto
bom e cansado a olhar pela janela. Batia nos vidros, chamando-nos
para jantar. Comeo de Outono em Berlim. As folhas caindo.
Eu e Karl lutando por brincadeira e correndo para os degraus
da casa. Sempre eu o vencedor.
  Olhei para o beb, interrogando-me sobre o tipo de vida
que o aguardei-a. Velhas recordaes agitaram-se no meu ntimo.
Uma me afectuosa. Um pai bom. Irmo, irm. Uma famlia que
partilhava coisas, sorria, se irritava, achava beleza na msica,
encanto no desporto, todos admirando o meu pai, aquele mdico
sempre com os pensamentos ocupados por algum doente, uma
pessoa perdida. E todos ns um tanto receosos da minha me,
to digna, bonita e inteligente.
  Todos destrudos. Queimados, as cinzas deitadas ao vento.
E quantos milhes de outras famlias tinham destrudo, sem

o mnimo indcio de piedade, sem motivo, numa exploso monstruosa de matana e dio 
que ainda no entendia. Senti a aproximao da vaga. Cedo lhes observei aquele dio 
irracional no olhar
e fugi. No entanto, continuo sem compreender o que os motivou.
  - Parece-me um rapazinho saudvel - observei, engolindo
o primeiro sinal de emoo que me assaltava de h uns meses
a essa
  parte.
  - E , Rudi.
  Inga chorava, agarrando-me na mo:
  - Deus abenoou-me ao permitir que fizesse parte da vossa
famlia. Sinto-me envergonhada e culpada por ainda estar viva.
No tenho esse direito.
  Sacudi a cabea negativamente.
  - Talvez nos amssemos demasiado. Provavelmente foi o que
nos destruiu.
  - No, Rudi. No deves acreditar

  nisso, nem to pouco
dize-lo.
  Despedi-me de Maria Kalova. Inga, sempre com o filho ao
colo, acompanhou-me at  praa.
  - Para onde vais? - perguntou.
  -No fao ideia. Sou um z-ningum. Sem famlia, sem
ptria e sem documentos.
  - Vem para Berlim comigo e com o pequeno Josef. At te
decidires.
  - Nunca mais voltarei.
  - Adeus, irmozinho - despediu-se, dando-me um beijo.
  Era o mesmo frio que me envolvia ainda e mal me fez sentir
o beijo.
  - Adeus, Inga - respondi. - Ensina-o a no ter medo - acrescentei, indicando o meu 
sobrinho.
  Afastei-me. Tinha alguns amigos na Brigada Checa, aos quais
queria ir falar. Homens que tinham conhecido a famlia de Helena;
talvez me soubessem aconselhar.
  Passei uma vez mais pelo campo, onde os midos davam
pontaps na bola de futebol. Eram rapazes com um aspecto estranho, muito morenos, de 
cabea rapada, magros, de roupas em
farrapos. Contudo, alguns sabiam jogar bem, transportar a bola,
pass-la de cabea.
  Detive-me a observ-los. Nesse momento, o indivduo corpulento que tinha visto 
antes apareceu na ombreira da porta. Estava
a fumar um charuto.
  - Alguns destes midos no so nada maus - comentei,
dirigindo-lhe a palavra. - Quem so?
  - Judeus gregos. As famlias foram exterminadas em Salonica.
Um presente de despedida dos Alemes.
  LIm olhar de raiva, o antigo desejo de matar algum como
vingana, deve ter alterado a minha expresso. Apenas conseguia
pensar: <Onde esto os sacanas que lhes mataram os pais? Porque
no os abatem? Porque  que o Mundo permite este tipo de coisas? v
  - Voc  o Rudi Weiss - disse o homem.
  - Como sabe?
  - No existem segredos num campo liberto. Pelo menos,
entre os judeus no. - Estendeu-me a mo forte. - Chamo-me
Levin. Trabalho na Agncia Judaica para a Palestina. Sou americano.
  - E ento?

  - Estou a par de algumas coisas a seu respeito.
  - Como, por exemplo?
  - Oh! Que foi guerrilheiro durante muito tempo. Dizem que
escapou de Sobibor.
  - Que mais sabe?
  - Desculpe-me, Weiss. Os seus pais e o seu irmo morreram
em Auschwitz. A sua mulher foi morta na Ucrnia.
  - Sabe muitas coisas.
  Sentia-me vagamente aborrecido com Levin. Desejava que me
deixassem em paz, construir a minha prpria vida, enterrar
o passado. Comecei a afastar-me.
  - Um momento, Weiss - deteve-me Levin.
  - Porqu?
  - Quer um emprego?
  - J que sabe tantas coisas sobre mim, tambm deve estar
a par de que no acabei o liceu - retorquiu com um sorriso.
  - Considero-o qualificado para este emprego.
  Pegou-me no brao e levou-me at junto do campo hmido,
onde as crianas gregas estavam a dar pontaps na bola.
  - Est a ver estas crianas? - perguntou Levin. - Precisam
de um pastor.
  - Um pastor?
  - Algum que as introduza furtivamente na Palestina. So
quarenta rfos. Algum tem de cuidar delas. Interessa-lhe?
  - No falo grego. Nem hebraico. No tenho a certeza de ser
suficientemente judeu.
  - Considero-o o homem indicado - sorriu Levin.
  Recordei-me de Helena, dos seus sonhos de Zion, do mar
de guas quentes, das fazendas nas montanhas e no deserto.
  - No ser to perigoso como as guerrilhas, Weiss, mas to-pouco um grupo Purim. 
Nada de armas, mas muita aco. O que
me diz?
  No pensei mais e respondi:
  - Porque no?
  Em seguida, deixei cair a mochila no cho e corri para
o campo de futebal.
  - Arranjar-lhe-emos passaporte - gritou Levin.
  Dois midos tinham chocado e um cara. Levantou-se, pronto
a lutar. Separei-os.
  - Se querem jogar futebol, deixem-se disso - exclamei.
- D-me a bola.
  Comecei a rolar a bola suavemente pelo campo, passando-a
por entre os jogadores, fintando, servindo-me da cabea, dirigindo
o ataque.
  Corriam  minha volta, rindo e gritando numa lngua que
no entendia.
  Algum tinha colocado duas latas de leo vazias na extremidade do campo, a a fim de 
marcar a baliza. Passei a bola para o lado,
fiz uma finta e marquei golo.
  Quando recuperei a bola e voltei at junto dos midos de
cabea rapada, j sabiam o meu nome. Agarraram-se-me s pernas,
apertaram-me a mo e um deles beijou-me.


FIM DO LIVRO.
